Inverno de 2010: Strasbourg

A viagem continua

É 22/02/10. Acordamos num apartamento vazio, pois a Marine havia acordado cedo para ir ao trabalho. Arrumamos a pouca bagagem que estava ainda em desordem e caminhamos algumas centenas de metros até a estação, onde pegamos o trem.

O tal trem fazia uma linha regional, pinga-pinga, parando em praticamente toda cidade no caminho. Embora sua velocidade de cruzeiro fosse bem menor que a de um TGV (Trem de Grande Velocidade), ele se deslocava num ritmo até bom. O problema foi a quebra desse ritmo a cada estação que chegávamos. O resultado: uma viagem de cinco horas. Eu nunca consigo dormir direito em viagens, sejam de trem, avião ou carro. Nesse caso eu dormi uns dois ou três intervalos de 15 minutos, um sono instável e irrequieto, apertado contra a poltrona do trem. Finda a viagem, eu estava um bagaço, completamente enfadado. A Tonya me questionava por que eu estava cansado, já que eu havia dormido. A fadiga era mais psicológica do que física propriamente.

Saímos da estação e procuramos uma mapa na praça em frente para acharmos a localização do hotel. Quando viramos de costas vimos que a estação era uma grande bolha de vidro. Descobrimos mais tarde que o prédio onde a estação funciona tem um valor arquitetônico importante e foi tombado. Por esta razão, decidiu-se protegê-lo com uma canopla de vidro que acabou por esconder a beleza do prédio. No caminho para o hotel passamos em frente a um vitrine de uma loja de telas e molduras e qual não foi a minha surpresa ao ver um gato entre dois quadros. A Tonya disse que era um ornamento, mas eu insisti que ele era real. Ao nos aproximarmos, ele virou a cabeça e nos fitou com uma expressão do mais puro tédio.

O gato da vitrine

Fizemos o check-in num hotel simples. Ainda assim, ele tinha boas vantagens que um albergue não oferece: um quarto para dois e um banheiro privado. Além disso, havia um pequeno nicho com uma pia e um fogão para servir de cozinha e louça limpa num armário. Isso nos seria de grande utilidade durante o tempo em que lá ficaríamos. Devidamente instalados, seguimos para a Place de La Republique, onde encontraríamos a Anaëlle, uma amiga nossa que mora na cidade. Se o nome não lhe soa estranho, possivelmente é porque você já o viu por estas páginas. A Anaëlle participou do Pouce d’Or, sendo ela e o alemão Tobias a dupla com a qual empatamos. Ela nos fez a gentileza de mostrar um pouco a cidade durante a tarde. Infelizmente, ela não poderia nem nos hospedar nem nos ciceronear no dia seguinte, pois partiria para a Bélgica pela manhã. Começamos o passeio acompanhando-a ao centro da cidade.

Nós e nossa guia

Strasbourg é banhada pelo barrento rio Ill ("ih"-"ele"-"ele", caso a fonte não permite o bom entendimento do nome) , que se reparte em dois braços formando uma ilha. É nessa ilha que se encontra o centro histórico da cidade.Capital da Alsácia, região cuja possessão alternou-se várias vezes entre França e Alemanha até a anexação francesa definitiva após a Segunda Guerra Mundial, Strasbourg é um pequeno rincão de cultura germânica na França. Uma enorme parcela das placas da cidade estão escritas em francês e em alemão e a fronteira com a Alemanha não encontra-se mais distante que uma dezena de quilômetros. Suas principais especialidades culinárias são o choucrute, de origem alemã, e a tarte flambée, de origem francesa. Trata-se, portanto, de uma cidade dual, centro de uma região de transição entre dois países de cultura muito rica. E também de espíritos bem distintos: de um lado o calor latino, ainda que não mais que uma brasa apagada perto do calor brasileiro, da França e do outro a rigidez e severidade do povo alemão. Eis a Alsácia.

Como ponto de partida fomos ao ofício de turismo, que se localiza ao lado da catedral, coração da cidade. Se você me permite, caro leitor, gostaria de me deter um pouco descrevendo tal prédio. Ela é um colosso em arquitetura gótica, cuja única torre possui uma flecha de 142 metros de altura. Além dos ricos ornamentos, o seu exterior chama a atenção por sua tonalidade cor-de-tijolo. Comentei isso brevemente, pois aquele templo oscilando entre o vermelho, o rosa e o marrom destoava um pouco das demais catedrais francesas, que têm uma tonalidade mais próxima do branco e do creme. A Anaëlle me explicou então que isso se deve à composição do solo nas proximidades do rio, de onde foi extraído o material para construí-la. A partir de então passei a observar que ela não era o único prédio a apresentar aquela pigmentação. De fato, sendo esse um material de construção civil abundante na região, muitos outros prédios apresentavam a mesma coloração cor de barro.

A Catedral de Notre-Dame de Strasbourg

No interior da catedral, além de tudo o que se encontra normalmente em catedrais do gênero, duas atrações são bastante dignas de nota. Ambas se encontram no braço sul so transepto, que corresponde em quase todas as catedrais ao lado direito do altar, visto que os cânones desse tipo de construção prevêem uma orientação da nave no sentido Oeste-Leste.

A primeira atração é o pilar dos anjos, uma coluna esguia ornada com esculturas de anjos. A sua localização, no centro de uma abóbada, despertou dúvidas a respeito da acuidade dos cálculos feitos pelo arquiteto. Este afirmou, no entanto, que a coluna não tem nenhuma função estrutural, que a abóbada é capaz de sustentar seu próprio peso e que a razão do pilar estar ali era meramente ornamental. Pouco crente nessa declaração, um dos artistas responsáveis pelo interior da fachada esculpiu um pequeno busto numa parede próxima. O personagem, um homem de semblante algo preocupado, algo curioso, fita o pilar com uma mão no queixo como quem espera o momento de sua queda.

O Pilar dos Anjos

O vigia do Pilar


A segunda atração, localizada a poucos metros do pilar, é o relógio astronômico. Verdadeiro prodígio de relojoaria com mais de uma dúzia de metros de altura projetado e construído por Jean-Baptiste Schwilgué, a tal máquina mostra com precisão a posição em relação ao sol dos planetas conhecidos na época de sua construção, o dia do ano, o dia da semana, a estação do ano, a inclinação do eixo da Terra e os horários do nascer e do pôr do sol. Tal qual um grande relógio cuco, pequenos personagens indicam através de seus gestos a passagem de quartos de hora, meias-horas e horas completas. Diariamente, ao meio dia e meia, o relógio realiza um pequeno espetáculo, que eu explicarei mais tarde. Como prova do intelecto genial do seu criador, na passagem do ano 2000 um personagem nunca antes visto apareceu para marcar a passagem de tal data. Diz-se que a obra é tão genial que os soberanos da região decidiram perfurar os olhos de Schwilgué para que ele jamais criasse algo que pudesse realizar com aquilo, uma lenda que existe para outros relógios do gênero. Ainda assim, a estupidez e a crueldade humanas sempre encontram um jeito de dar provas de sua existência. Diz-se também que como vingança ele quebrou um mecanismo de sua obra de modo a impossibilitar algum modo de funcionamento de seus autômatos. Eu chuto que ele tenha quebrado algo que poria em marcha um automatismo ainda mais espetacular do que todos os outros vistos até então.

O relógio astronômico da catedral

Saímos então da catedral, onde vimos um tipo meio esquisito com jeitão de punk perambulava. Era um homem de grande estatura e aspecto truculento com cabeça raspada, piercing no lábio inferior, roupas pretas e botas de couro com um corte antiquado onde colares de guizos tintilavam a cada passo. Nós o víramos antes de entrar e o víamos agora uma vez caminhando ruidosamente na frente da catedral com os guizos em seus pés. Demos pouca atenção ao sujeito e ficamos conversando um pouco mais afastados. Foi então que um alaúde começou a soar melodicamente e uma voz feminina, uma voz poderosa de soprano, começou a cantar uma canção medieval. Nos viramos. O “punk” tocava o alaúde sentando em uma banqueta na frente da catedral. Isso era possível de ver da distância onde estávamos. No entanto, a origem daquela voz nos intrigava. Observando com mais atenção, reparamos que a boca do homem se mexia. Nos entreolhamos com um certo espanto e concordamos unanimemente que aquilo deveria ser uma gravação. Mas não era. Chegamos perto o suficiente para vermos que aquele cara grande e intimidador era a origem daquela voz inacreditável. A música se desenrolava, linda, e com os guizos nos pés ele marcava a cadência. Finda a primeira canção, ele agradeceu com voz masculina, grave e típica do que se pode esperar de um sujeito como ele e deu um sorriso como quem diz “peguei vocês”. Assistimos a mais duas canções e decidi contribuir com 50 cêntimos. O meu preconceito me pregou uma peça e tanto.


O "punk" em frente à catedral. Atenção pro cara no final do vídeo.


Continuamos nossa visita guiada. A Anaëlle nos conduziu ao bairro Petite France, antigo reduto dos artesãos curtidores de couro. Outrora o bairro mais pobre da cidade, marcado pelo ofício sujo e mal-remunerado dos tratadores de peles de animais, o Petite France é o hoje o bairro mais nobre de Strasbourg, onde localizam-se os restaurantes mais caros. Nessa região o rio passa por um desnível em torno de 1,80 m, o que demandou a construção de duas eclusas para permitir a navegação ao redor de toda a ilha. O curso d’água foi dividido em quatro canais paralelos. O primeiro canal, destinado à navegação, abriga uma das eclusas. Os três demais destinavam-se ao aproveitamento do desnível para mover moinhos. É ao redor desses quatro canais que se desenvolveu o bairro, formando uma pequenina Veneza. O lugar é cheio de casas de arquitetura alemã, aquelas com telhados agudos e estrutura de madeira exposta. O que eu não sabia, e que nossa guia explicou, foi a razão desse método de construção. Cada viga de madeira era numerada, assumindo uma posição bem definida na disposição da casa. Em seguida os vãos formados pela estrutura de madeira eram preenchidos com barro para formar as paredes. Isso permitia uma mudança relativamente fácil da casa, caso fosse necessário. Para tanto bastava destruir as paredes e transportar as vigas para a nova localização. Novas paredes seriam feitas com o barro abundante na região.

Petite France

A noite caía e a Anaëlle teve que nos deixar. Agradecemos e continuamos perambulando pela cidade. Jantamos num restaurante, onde pedimos uma tarte flambée. Ficamos surpresos com a quantidade que constituía uma porção individual e terminamos nossa refeição à força, pois não havia mais espaço para nada em nossos estômagos. Finalmente decidimos voltar para o hotel e continuar a visita no dia seguinte. Começamos então na manhã com um passeio de barco pelo rio. A maior parte dos tripulantes era um grupo de turistas italianos. Havia também uma boa quantidade de turistas alemães. A cada vez que passávamos por um prédio de interesse, uma reprodução automática descrevia-o em nossos fones de ouvido. Passamos pelos prédios vistos no dia anterior, ainda no centro histórico. Em seguida, seguimos à montante do rio, para uma parte mais recente da cidade. Lá, na extremidade do nosso percurso, passamos pela Parlamento Europeu, do qual Strasbourg é sede desde 1949. Um prédio moderno em aço e vidro, localizado na beira do rio.

Atracamos e logo em seguida fomos à catedral para a visita ao relógio. Todos os dias, ao meio-dia, um vídeo sobre a história e os detalhes do funcionamento do relógio é exibido e em seguida os visitantes assistem ao seu automatismo mais célebre. Na parte mais baixa do relógio, dois pequenos anjos rechonchudos testemunham a passagem dos minutos. A cada quinze minutos, um deles soa um sino e o outro vira uma ampulheta. São eles que iniciam o automatismo de meio-dia e meia. Mais ao alto a morte nos fita, uma caveira com uma foice numa mão e um fêmur na outra. Finda a participação dos anjinhos, a morte repercute um sino com um fêmur, enquanto uma criança, um jovem, um adulto e um ancião, representando o nascimento e morte de um novo dia, passam em sua frente. Esse automatismo serve para lembrar a efemeridade da vida e a necessidade de fazermos o bem a cada dia. Em um nível superior ao boneco da morte encontra-se uma imagem de Jesus Cristo. É ao redor dele que se desenrola a etapa seguinte do automatismo. Um a um os apóstolos passam na frente do messias. Em atitude reverente, eles se viram na direção do mestre quando estão em sua frente e ele os abençoa com um movimento de sua mão. Um galo, o autômato que se encontra na parte mais alta do relógio, bate as asas três vezes e canta ao fim da passagem do quarto, do oitavo e do décimo segundo apostólo, numa referência clara aos três cantos do galo que marcaram a negação de Pedro. Ao fim da procissão dos apóstolos, Cristo nos fita do alto e nos benze fazendo o sinal da cruz. Formidável.

Fomos jantar em um bar ali próximo e que produzia sua própria cerveja. Pedimos choucrute, mas ainda não recuperados do fasto jantar da noite seguinte optamos por pedir uma única porção. Não nos enganamos, aquilo nos saciou satisfatoriamente. Esses alsacianos comem que não é brincadeira...

Pela tarde fomos ao museu histórico da cidade. A tarifa era bastante baixa e nos dava direito a um áudio-guia para a visita. O interessante é que o aparelho funcionava automaticamente se orientando com a ajuda de sensores de posição a cada vez que passávamos na frente de uma atração específica. E era sempre uma gravação interessante, dinâmica e explicativa. O museu prezava pela interatividade também. Numa seção que falava sobre o reputação das fundições e dos ferreiros de Strasbourg, quatro elmos estavam à disposição dos visitantes para que eles experimentassem e conhecessem a sensação de usar aquela peça de armadura. Numa outra seção sobre as porcelanas da região, peças reais colocadas em caixas de acrílico com um buraco no centro convidavam os visitantes a tocá-las para sentir as texturas dos diferentes tipos de cerâmicas. Além disso, uma boa parte do museu se concentrava sobre a invenção da imprensa, que ocorreu em Strasbourg na época em que Guttenberg lá viveu.

Eu experimentando a réplica de um elmo antigo

Saímos do museu já com a noite caindo. Pausa rápida para voltar ao hotel, tomar banho e comer. Saímos então para uma seção de fotos noturnas, com abertura prolongada do obturador. A cidade estava muito pacata, assim como na noite anterior, denunciando uma vida noturna pouquíssimo movimentada. Retornamos então aohotel para nos preparar para a viagem do dia seguinte.

Acordamos, fizemos o check-out e seguimos para estação. Quando passamos pela loja de telas, lá estava o gato de novo entre os quadros. A única diferença é que agora ele estava virado para o outro lado, o lado para o qual seguíamos, como que indicando a boa direção. A cidade, tal como o gato, não mexeu muito enquanto estávamos lá. Ainda assim, a cidade, tal como o gato, me agradou bastante.

Inverno de 2010: Lyon e Genebra

A partida

Começam as ferias de inverno. O dia é 19/02/10. Uma semaninha de folga após as provas e antes das campanhas dos grêmios estudantis. Uma pausa uma providencial, digamos. Mas nem por isso as coisas começaram tranquilamente: aula prática de soldagem até as 18:00 e o trem que sairia às 19:04. A noite da véspera terminou tarde por causa da arrumação da mochila...

Mas enfim partimos, eu, minha companheira de viagem Tonya e sua amiga Pauline, que nos ajudaria na primeira parada da nossa jornada: Lyon. Já no bonde, encontramos uma dúzia de centraliens com suas malas. Uma dúzia coisa nenhuma! Quase metade da escola estava lá. Uma parte deles ia voltar para o conforto de suas casas e a companhia de suas famílias enquanto outra parte, bem significativa, aproveitaria as férias de inverno para esquiar. Já na estação descobrimos que uma boa parte dos centraliens que lá estavam, digamos a metade para continuar minha hipérbole, pegaria o mesmo trem que nós.

E foi assim que nós três e Sebastien (Seb), nos sentamos juntos no mesmo vagão para uma viagem de 4,5 horas. Para passar o tempo, jogamos cartas e como é habitual em todo jogo de carta em que eu sou debutante, salvo o pôquer, eu perdi fragorosamente as primeiras partidas. Jogo vai, jogo vem, estávamos já em Lyon. Descemos na Gare de part Dieu, no centro da cidade e o Seb continuou na trem para descer na estação seguinte.

Saindo da estação, fomos recebidos em poucos minutos por Clementine (Clem), companheira da Pauline, que nos hospedaria naquela noite. Um bom banho e uma boa noite de sono encerraram o dia.

Clem, Tonya e Pauline

Lyon - o começo do passeio

Lyon é a segunda cidade mais importante da França, rivalizando com Marseille e perdendo, evidentemente, para Paris. Seu epíteto é Cidade das Luzes, em razão de um evento chamado Festa das Luzes. Durante quatro dias em dezembro a cidade é “pintada” com novas cores mediante a utilização de efeitos de iluminação dos mais variados. Não se trata apenas de iluminar um edifício ou uma praça da maneira diferente da habitual. Algumas das instalações são verdadeiras obras de arte e o seu valor é ainda mais apreciado dado a sua efemeridade.

A idéia para esse sábado que amanheceu ensolarado, no entanto, era ir a Genebra, mas terminamos acordando tarde demais para pôr o nosso plano em ação. Acabamos fazendo um passeio turístico em Lyon. Eu, Tonya e nossas anfitriãs saímos de bicicleta, bordeando o Rhone, rio que atravessa a cidade e que dá nome à região cuja capital é Lyon. Confesso que os anos e anos sem andar de bicicleta me fizeram ter um bocado de temor, mas bordear as águas verdes e calmas do rio passando por baixo das pontes e vendo paisagens fantásticas fizeram-no dissipar rapidamente.

O Rhône

Entramos no centro da cidade e deixamos as bicicletas na Place Bellecour, a maior praça da Europa. Sabe-se lá por que razão, lá estava montada a maior roda gigante desmontável do mundo. Demos uma passada rápida no ofício de turismo para pegar um mapa da cidade e continuamos nosso passeio a pé. No centro da praça, uma estátua de Luís XVI sobre um cavalo. Vale lembrar que o único mérito histórico memorável de Luís XVI foi ter sido decapitado. Isso fez a Clem nos explicar um pouco sobre a simbologia que existe nas patas dos cavalos nesse tipo de escultura. Os cavaleiros montados em cavalos empinados sobre as patas traseiras são grandes heróis, cujos feitos foram notáveis. Aqueles cujo cavalo tem uma das patas dianteiras levantadas é alguém que tem importância histórica, mas que não é lá muito merecedor do título de herói, como era o caso da estátua que vimos. Aqueles montados em cavalos cujas patas estão todas no chão são, em tese, Zés-Ninguém.

Passamos por alguns cartões postais da cidade tais quais o Theatre Celestin, a Place de Jacobins e a Place des Terreaux. É nesta última que se localiza o Museu de Belas Artes, que visitaríamos mais tarde no fim do dia. Essa praça tem uma fonte no seu centro cuja particularidade é ter sido deslocada inúmeras vezes, tendo já ocupado várias posições na praça, lá encontramos Marine, irmã da Pauline. Atravessamos o outro rio que corta a cidade, o Saône. Do outro lado encontra-se o centro histórico da cidade, que foi tombado como patrimônio histórico pela UNESCO.

Andamos mais um pouco, por ruelas bastante simpáticas. As meninas nos contaram sobre uma particularidade bastante conhecida desse lugar. Durante a Segunda Guerra Mundial os corredores de entrada de vários prédios foram unidos, formando passagens comuns. Algumas dessas passagens eram cegas, terminando em pequenos átrios que serviam para a comunicação e a circulação entre os vários prédios. A essas entradas dá-se o nome de miraboules, sendo o “mir” referente a “miroir”, que significa espelho. Outras, porém, atravessam todo o quarteirão, ligando duas ruas paralelas através de um pequeno e sinuoso labirinto. A essas passagens dá-se o nome de traboules. O interessante é que poucas das passagens são sinalizadas, afinal a intenção é que elas fossem secretas, e elas são indistinguíveis de uma porta normal de um prédio. Procurar e descobrir traboules é um passatempo comum e que fizemos durante a tarde. As passagens ainda servem como entrada dos prédios e a sinalização dos endereços é caótica, de tal forma que na minha opinião ser carteiro em Lyon deve ser um dos empregos mais estressantes do mundo.

A entrada de um "miraboule". Indistinguível de uma porta ordinária

Continuando o passeio, chegamos a um funiculaire, um bondinho sobre trilhos que sobe uma colina onde localiza-se o coração do centro velho. Lá no alto, ao lado de uma esplanada que oferece uma vista panorâmica estonteante da cidade encontra-se a basílica da cidade, a Catedral de Fourfriève. Trata-se de uma igreja em estilo românico-barroco, cujo interior decocorado com pinturas decalcadas em ouro e vitrais magnifícos oferece um deleite aos olhos. Um nível abaixo, em uma posição subterrânea, encontra-se uma grande capela, que possui o mesmo comprimento da nave acima, mas que é muito mais singelamente decorada.

A primeira passada de olhos não me chamou atenção alguma. É uma sala simples, com colunas pouco decoradas, sem vitrais e quem em nada se aproxima da ostentação de cima. Depois de ver tantas catedrais góticas pelas minhas viagens e me tornar um admirador delas, aquela capela me pareceu bastante ordinária. Foi então que a Clem nos mostrou algo que até então tinha passado completamente despercebido: a maior parte da decoração daquele lugar estava incabada. Na verdade, a obra foi bancada com o dinheiro de fiéis, com doações pequenas ou poucas doações de gente abastada, creio eu. Ornamentos no teto e no topo das colunas estavam ainda em pedra bruta enquanto outros exibiam já o resiltado final. Pequenas estrelas incrustradas na parede ornamentava o altar enquanto no restante da capela havia somente o espaço escavado onde as demais deveriam ser incrustradas. Em alguns pontos, sequer esse espaço havia.

Ironicamente isso mudou um pouco a minha maneira de ver aquela capelinha. Ela não tinha o mesmo brilho de uma catedral, evidentemente, mas me fez refletir um bocado depois que saí dali. As catedrais são tão ornamentadas, tão saturadas de atrativos que não raro saímos de lá sem apreender um décimo deles e sem valorizá-los devidamente. Afinal tudo é tão bonito e rico que a nossa capacidade de se admirar com sua beleza fica comprometida. Essa capela me fez pensar em como os defeitos são importantes, pois são eles que nos permitem compreender o que é belo e entender que nada neste mundo é perfeito. Sem dúvida se ela estivesse terminada, não teria me encantado tanto.

Defeitos na decoração da basílica. Observe as estrelas.

Ainda no alto da colina, poucas centenas de metros descendo em direção à cidade, visitamos as ruínas romanas. São dois teatros antigos que pasaram um bom punhado de séculos soterrados. Hoje, após uma reforma, eles foram recondicionados e são utilizados para festivais de música. Eles foram construídos de forma a aproveitar o declive da coluna, dispensnado um pouco do trabalho que seria necessário para erguer as arquibancadas em terreno plano. Logo ao lado, encontra-se o Museu Galo-Romano de Lyon.

Pausa para fazer uma macacada

Iniciamos então a longa descida a pé em direção à cidade. O grupo descia da maneira como foi se estabelecendo ao longo do dia: as meninas conversando na frente e eu mudo seguindo-as. Todos sabem que as mulheres falam mais do que os homens e que são capazes de acompanhar e entender mais do que uma pessoa falando ao mesmo tempo. Para um homem, é sempre difícil acompanhar a conversação de um grupo de mulheres dada a quantidade de informações e de diálogos paralelos. Imaginem agora o que é isso em língua estrangeira. Ficou fácil imaginar a minha situação. As mulheres falam em média sete mil palavras por dia, ao passo que os homens falam algo em torno de duas mil. Após umas duzentas palavras trocadas no café da mahã e mais umas duzentas ao longo do dia, eu permaneci a maior parte do dia taciturno. Isso levantou algumas dúvidas sobre o meu humor entre as meninas, as quais eu me apressei a responder de forma a mostrar que não estava aborrecido.

Ao fim da descida fomos ao Museu de Belas Artes de Lyon, localizado na Place des Terreaux, aquela cuja fonte não sabe bem onde ficar. Dispunhamos de muito pouco tempo até o encerramento das atividades do museu naquele dia. Ainda assim, tivemos uma excelente oportunidade de apreciar algumas belas obras. Dentre estas encontravam-se alguas de autoria de Roudin, Renoir e Manet.

Pegamos as bicicletas e iniciamos nosso caminho de volta margeando um Rhône já escurecido, mas ainda plácido e refletindo o ouro e o púrpura do crepúsculo. A paisagem formada pelas colinas e pelos prédios, que outrora formava uma delicada aquarela em tons pastel, era então apenas uma silhueta difusa contra o céu. Porém, depois de um dia andando por aquela cidade, essa mesma paisagem adquiriu algo de familiar, de conhecido, muito diferente da impressão deixada pela manhã.

Voltamos para a casa da Clem após umqa passagem rápida no mercado que há pelas proximidades. Após um jantar simples e alguns minutos de descanso, saímos para uma soirée na casa de um amigo delas num bairro badalado pelo qual passáramos mais cedo, nas procimidades da Place des Terreaux. Passando na frente de alguns bares me deparei com oriental de aspecto conhecido que digitava displicentemente em seu celular. Reconheci-o, era o Décio, meu antido colega no curso de francês, ex-companheiro de banda e que eu tivera o prazer de receber em Nantes alguns meses antes. Me surpreendi de tal forma que nem percebi que tentei parar as meninas com um inútil “peraí”. Ele, no entanto, ouviu eu chamando-as e levantou os olhos do celular com estranheza até o que estava acontecendo. Me desculpei com as meninas, disse que ficaria ali mais alguns instantes e que depois as encontraria.

Ali fiquei e poucos instantes depois chegou o Raul, nosso veterano da Centrale Lyon e que me deve um CD do Sim City 2000, o qual ele pegou emprestado há treze anos e jamais me devolveu. Isso ainda nos tempos do curso preparatório pro concurso do Colégio Militar. Entramos no bar e lá estavam o Luiz Fernando, conhecido quase que em tempo integral como Farelo, e o Luiz Henrique, vulgo Luíque, ambos do INSA de Lyon. Todos eles, salvo o Raul, estudantes de Engenharia Elétrica na UFC. Havia muitos outros brasileiros, mas nenhum que eu conhecesse. Aquele encontro foi bastante insólito, sobretudo pelo fato de eu não ter avisado que iria para lá nem ter combinado coisa alguma. Depois de algumas tentativas de encontrar o Rômulo e o Nathan em Paris, sempre frustradas pela saída deles em viagens longas nos dias em que eu estava disponível, resolvi não mais esperar por ninguém para viajar. Confesso que fui negligente no caso de Lyon e que não custava nada mandar um email ou ligar. Falha minha. No final das contas deu para bater um papo legal e reencontrar bons amigos.

Meus “alguns instantes” no bar alongaram-se, viraram minutos, que por sua vez viraram horas. Duas, para ser mais preciso. E me vi forçado a ir ao encontro das meninas por questão de etiqueta. Não passei mais do que alguns minutos no tal apartamento, um pouco deslocado na conversa talvez em virtude do assunto ou do meu atraso ou ainda da diferença na quantidade entre o que eles e eu havíamos bebido. A garrafa de Martini que as meninas haviam levado jazia quase seca ao lado de outras em estado semelhante no centro daquele grupo de pouco mais que uma dúzia de pessoas. Voltamos no último metrô e dormimos novamente na casa da Clem. No dia seguinte iríamos a Genebra.


Segundo dia - Genebra

Acordamos cedo, arrumamos as mochilas para a viagem, garantindo um bom estoque de comida para o dia. O resto da bagagem, que deixamos na casa da Clem, foi bem organizado e embalado para que elas levassem para a casa da irmã da Pauline, onde dormiríaos na noite seguinte. A razão para isso é que os pais da Clem chegariam naquele dia.

Na estação e ao longo do dia, repetiu-se uma cena na qual eu já havia reparado nos dias anteriores: o trânsito constante de pessoas com equipamento de ski. A frequência dessa vez era maior, já que nós estávamos na região dos Alpes. O trem atravessou paisagens nevadas rodeadas de altas montanhas. Chegávamos na Suíça.

O plano inicial era comprar as passagens de volta tão logo chegássemos à estação de Genebra. Não prevíramos, no entranto, a diferença dos preços cobrados entre as companhias de trem francesa e suíça. Ainda que o câmbio nos fosse favorável, tivemos que pagar 7€ a mais por passagem. Infelizmente, isso só se realizou após longos minutos de hesitação. Foi quase um hora, tempo em que procurávamos uma alternativa mais barata.

Iniciada a visista, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a atitude dos pedestres. Ainda que não exista sinal de um único carro vindo, eles só atravessam a faixa quando o sinal fica verde para eles. E eles olham torto quando você se recusa a esperar para atravessar uma rua deserta. Deixando de lado essas impressões irrelevantes, passemos ao panorama da cidade. Genebra, como todas as outras cidades da Europa que visite, desenvolveu-se às margens de um grande volume de água, neste caso o Lago Léman, que é alimentado pelo rio Rhône, o mesmo de Lyon. E como nas demais cidades, tal volume d’água parece estar harmoniosamente integrado à urbe. Isso adiciona um charme especial à cidade, que é ressaltado pela moldura de montanhas de cume branco que a rodeia. Adicione-se a isso a tranquilidade que aqui ou acolá é quebada pelo ronco alto de um esportivo de luxo ou de uma moto possante. O resultado é uma atmosfera onírica de paz e prosperidade que impressiona os visitantes.

Nosso ponto de partida foi o Ofício de Turismo, onde pegamos um mapa e um punhado de orientações e sugestões preciosas. Seguimos em direção ao lago e demos de frente com um dos cartões postais da cidade, o jato d’água. Do outro lado do lago, ao sul da ponte, há uma pequena marina protegida por um quebra-mar que avança algumas centenas de metros. Quase na sua extremidade, uma bomba d’água muito potente eleva uma coluna d’água a estonteantes 140 metros de altura. O jato destoa um pouco da paisagem circundante, mas ao mesmo tempo fascina pela demonstração de força. Além disso, graças ao spray formado pelas gotículas descendentes, é possível ver um arco-íris ao longo de quase todo o dia se as condições meterológicas forem favoráveis.

O jato d'água do lago Léman

Atravessamos a ponte para nos aproximar do jato e vimos os prédios bege e creme encimados por bandeiras da Suíça que deixáramos para trás. Em seguida, rumamos em direção ao antigo centro da cidade, que encontramos deserto e fechado naquela tarde de domingo. Passamos rapidamente pela catedral da cidade, que fora não seguir a arquitetura canônica das catedrais góticas não possuia muitos mais atrativos. Voltando em direção ao norte, em direção ao rio, passamos pela Place du Molard, um pequeno boulevard que conduz até a ponte. O interessante no local era a infinidade de pedras de calçamento feitas inteiramente de vidro que se encontravam no meio das demais pedras, negras e de origem basáltica. No interior de cada pedra transparente lia-se uma mensagem que ia do “Bem vindo” ao “Até logo”, passando por cumprimentos como o “Boa tarde”. As mensagens estavam escritas em inglês, francês, italiano, espanhol, japonês, árabe e russo.

Outra pausa para macacadas

Atravessamos a ponte e margeamos o lago em direção a um parque sugerido pela guia no ofício de turismo. O parque, chamado Perle du Lac (Pérola do Lago) era bastante bonito, mas como muitas das paisagens que eu vi nos últimos tempos deve ser ainda mais bonito no verão ou na primavera. No seu interior encontra-se o Museu de Ciências, no qual não chegamos a entrar, mas cujas atrações externas apreciamos com curiosidade. A primeira atração, que distingui e reconheci de longe, era um par de conchas acústicas que permitia a conversação em sussurros através de uma distância superior a quarenta metros. Havia ainda:

  • Zootrópio: artefato que que produz a ilusão de movimento a partir de imagens estáticas em rápida sucessão
  • Canhão do meio dia: um pequenino canhão calibrado para ser disparado quando o sol do meio dia aciona seu estopim com o auxílio de uma lupa
  • Teodolito
  • Hemisférios de Magdeburgo

Seguimos adiante até o Jardim Botânico, que era muito bonito, mas que apreciamos superficialmente em virtude do tempo que tínhamos. Entramos em algumas estufas, onde pude ver algumas espécies comuns no Brasil e matar as saudades do clima quente e úmido. Em uma delas, mais seca, havia mesmo uma parte que lembrava muito uma caatinga. Próximo dali encontra-se o Palácio das Nações, sede social das Nações Unidas. Pausa para fotos. Na praça imediatamente em frente uma escultura chama a atenção. É a Broken Chair (Cadeira Quebrada, em inglês), um monumento com uma dezena de metros de altura, uma cadeira que possui uma das pernas estilhaçadas. Ela foi posta ali em 1997 como um gesto para atrair a atenção para o tratado de não-proliferação de minas terrestres, que seria assinado naquele ano.

Na frente do Palácio das Nações

Broken Chair

A hora do nosso trem se aproximava e começamos nossa caminhada em direção à estação. Passáramos o dia andando e confirmamos que Genebra é suficientemente pequena para ser atravessada a pé. Tínhamos alguns minutos antes da hora da partida, o que nos motivou a visitar uma cúpula roxa inflada na margem do rio, que víramos no começo do dia. Tratava-se de uma exposição sobre o genoma humano, sendo a tal cúpula uma representação de uma célula. A exposição, abrigada no interior do pitoresco abrigo, foi organizada no contexto dos 450 anos da Universidade de Genebra. Embora pequena, era bem lúdica e interessante. Descobrimos, um pouco atônitos, que os camarões têm 254 cromossomos, enquanto nós temos apenas 23. Sei que isso não significa nada em especial, mas não deixa de ser surpreendente.

Finda a viagem, entramos no trem de volta para Lyon. A casa da Marine, irmã da Pauline, fica a cinco minutos da estação e lá chegamos com o auxílio da Pauline. Lá encontramos a Marine, a Atena e o seu namorado. A Atena é uma paraibana amiga da Marine que mora por lá faz dois anos. É gente finíssima. O namorado dela, que é francês, idem. Batemos um papo legal ao redor da mesa de jantar e pouco depois a Clem chegou. Ficamos todos lá jogando conversa fora, contando os boatos que se escutam sobre franceses, brasileiros e russos. Aos poucos, as pessoas foram indo embora, restando apenas eu, a Marine e a Tonya. Dormimos. Pela manhã pegaríamos o trem que nos conduziria a Strasbourg.

CAF

Caisse d'Alocation Familiale

Brevemente: CAF. um resquício da França socialista de François Mitterrand que é de grande valia para todos os habitantes da França, mas particularmente para os mais necessitados. Categoria esta que inclui os estudantes estrangeiros em Duplo Diploma sem bolsas "tudo-incluso" do tipo Eiffel, ou seja, caras como eu.

A CAF é um organismo francês que providencia ajuda para custo relacionados à habitação, o que normalmente se traduz em um abatimento no aluguel. O valor do desconto é calculado com base em diversas informações tais quais número de filhos, idade, situação conjugal e ocupação.

A solicitação é simples e requer poucos documentos. O problema é que o principal documento para dar início ao processo, o Titre de Sejour, geralmente demora um pouco para sair (eu recebi o meu em dezembro), o que implica no pagamento integral dos primeiros meses de aluguel. Uma vez que se tenha o Titre de Sejour, basta ir à CAF com cópia de documento de identidade,certificado de bolsa e o formulário de solicitação de ajuda que tudo se resolve em não mais do que quarenta minutos.


Caso de alunos bolsistas

O formulário de solicitação é feito mediante a abertura de um dossier no site da CAF. O solicitante deve preencher um questionário e ao fim do processo receberá a versão para impressão do formulário, que possui cinco páginas.

Existe uma questão importante: "Você é bolsista segundo critérios sociais?". O que se faz normalmente é marcar "sim". Isso implica em uma maior ajuda para o aluguel. No entanto, a simples resposta a esse item não é suficiente. Em nenhum lugar específico do site existe a solicitação de uma cópia do atestado de bolsa e nem quando entrega-se o dossiê pessoalmente os funcionários o pedem, mas se o atestado não for apresentado, o adicional não será computado. É importante então levar o atestado de bolsa no dia da entrega dos documentos e, ainda que os funcionários digam que não é necessário, pedir gentilmente que o atestado seja recebido junto com os demais documentos. Isso poupa as semanas de espera que seriam necessárias para esperar a carta de confirmação de ajuda da CAF (no valor errad0) e entregar o atestado para corrigir o dossiê.



Caso de alunos bolsistas da Egide (bolsa Eiffel)

A Egide prevê uma ajuda de custo para os gastos de habitação dos seus bolsistas que em alguns casos pode ser mais interessante que a CAF. Eu ignoro completamente os valores desse benefício, mas fica a dica de analisar bem os dossiês para saber qual o que vale mais a pena.


Caso específico de alunos em Duplo Diploma em Nantes

Existe um campo do formulário de solicitação que deve ser preenchido pelo proprietário do imóvel. No caso dos estudantes em Duplo Diploma aqui em Nantes, que residem todos na residência da École (Residência Max Schmitt), a empresa responsável pela residência fornece um documento que cumpre esse papel. Esse documento é entregue no dia do recebimento das chaves e é de suma importância não perdê-lo.


E o meu caso...

Eu pago um aluguel cuja tarifa completa é de 220,94 euros. Após a submissão do dossiê eu obtive uma ajuda mensal de 128,15 euros, a ser paga a partir de março. Detalhe importante: o benefício é retroativo e a primeira parcela é referente a outubro, o que significa que o que eu paguei "a mais" de outubro a fevereiro foi convertido em crédito e vai ser diluído nas parcelas que restam. Isso significa que a partir de agora vou ter um abatimento superior aos 128,15 euros.

É importante adiantar serviço com a CAF e tentar fazer tudo com cuidado, para que nenhuma correção seja necessária e nenhum atraso ocorra, pois o benefício é de grande valia.



Sobre o "abandono" do blog

Grande buraco nas minhas postagens. Desculpem-me por isso. Acabamos de sair do período de provas e isso significa que durante um bom tempo comer direito, dormir direito e se divertir foram atividades racionadas.

Isso se refletiu no blog, evidentemente. Terminei agora o texto sobre a viagem a angers, feita no dia 28 de dezembro e ainda estou devendo toda a narrativa dos meus dias em Paris na virada do ano. Para completar já estou prestes a ter mais coisas para contar: minhas férias de inverno serão aproveitadas para um passeio pelo Leste (infelizmente não o Leste europeu): Lyon, Genevra, Bern, Strasbourg e Luxemburgo. Até lá espero publicar, ainda que parcialmente, a narrativa do Reveillon.

O blog continua, apesar de tudo isso, e espero que os parcos leitores não tenham abandonado a sua leitura.

Abraço a todos.

Fim de ano 03: Angers

Dia 3: O clima da nossa queridíssima Bretanha deu o ar da graça de novo. Manhã com chuva e céu cinza-chumbo enquanto pegávamos a estrada para Angers.

Por que Angers?

Como eu disse no texto sobre La Rochelle, os destinos da nossa viagem foram escolhidos em função da distância à Nantes e no nosso interesse m conhecer o lugar. Dos lugares visitados em dezembro, Angers é o mais próximo de Nantes, mas eu acredito que já estava determinado que iríamos lá muito antes de escolhermos todos os destinos.

Explico-me. Nas férias de outono, quando fui a Florença, uma turma de brasileiros alugou um carro e fez um passeio pelo vale do Loire visitando alguns dos (inúmeros) castelos que existem na região. Entre eles estavam o Thiago e o Roger. As fotos da viagem deles são muito boas e os castelos lindos. Mas houve um castelo que eles não conseguiram visitar, pois só chegaram lá na madrugada do último dia de viagem. Foi o castelo de Angers.

Lembro que olhando as fotos deles, o tal castelo me chamou a atenção. É claro que imaginamos que os castelos sejam construções fortificadas, mas Angers é um castelo, digamos, anabolizado. Os outros castelos da viagem tinham muralhas e torres, mas também tinham vitrais e ornamentos e compunham um cenário bem semelhante aos castelos de brinquedo ou desenho animado.

Não era esse o caso do Chatêau du Roi René. O que as fotos da galera mostravam era uma muralha robusta, guarnecida por torres largas e de aspecto muito sólido. Rodeando a muralha, um fosso, cuja profundidade somada com a altura das muralhas dava uma aura de impenetrabilidade ao castelo. Do exterior, impossível ver qualquer sinal do que existe no intra-muros.

Acredito, então, que o o Roger já estava pré-disposto a ir a Angers, uma vez que não tivera a oportunidade de conhecê-la. E eu, embalado pelos relatos e fotos da viagem e fascinado pelo castelo, também já havia decidido.


A visita

Angers é a segunda cidade mais populosa do Pays de la Lore, ficando atrás apenas de Nantes. Situada nas bordas do Maine, um afluente do Loire, a cidade serviu como porto fluvial e fazia a ligação entre capital e o oeste.

Ela é conhecida atualmente por sua produção de flores, o que le vale o epíteto de Cidade das Flores.

Contrariando a tendência dos dois primeiros dias, o terceiro dia amanheceu chuvoso e brumoso. Ainda assim, a chuva era rala e não nos atrapalhou muito. Chegamos ao centro da cidade e de cara tivemos uma visão imediata do castelo. O exterior do castelo é de fato tão impressionante quanto as fotos mostram. Do fundo do fosso que o circunda, ao aldo das muralhas existe um desnível que alcança facilmente 30 metros. Cada uma das dezessete torres do castelo tem 18 metros de diâmetro.



Passada a reação provocada pela visão inicial, entramos. O interior do castelo contrasta um bocado com a aridez do seu invólucro. No interior, um delicado jardim dormina o pátio, com seis esculturas vivas. Próximo do jardim vê-se a capela do castelo, que é bem maior do que a maioria das igrejas de Forteleza, embora não exista mais nada além de uma cruz no seu interior.



Havia um pequeno jardim no fosso do castelo, igualmente bonito.


A maior atração do castelo, contudo, não se vê facilmente. Ela está guardada numa sala especial, climatizada e com luminosidade controlada. Em suma, o Rei Réné era um sujeito plácido e não tinha muito interesse em degolar inimigos ou se meter em orgias. Ele preferia dar uma de mecenas, financiar artistas e enriquecer o seu reino com obras de arte, sobretudo iluminuras (ilustrações feitas em livros, principalmente obras sacras). Mas a obra magna do seu mecenato, e que requer tantos cuidados, é a Tapeçaria do Apocalipse.

Antes de explicá-la detalhadamente, vamos a alguns números. A tapeçaria é formada por seis peças, que juntas totalizavam originalmente um conjunto de 6,5 m de largura por 130 m de comprimento e é até hoje a maior peça de tapeçaria já fabricada no mundo. O guia do castelo utilizou uma expressão muito interessenta para descrevê-la: trata-se da maior história em quadrinhos do mundo.

De fato, a obra é é "lida" como uma história em quadrinhos. Observa-se uma sequência de quadros que mostram sempre à esquerda São João, o "protagonista" da história. O pano de fundo dos quadros se alterna em vermelho e azul, as cores do brasão do reino de Anjou, antigo nome da região. Confesso que fiquei bestificado e segui a explicação do guia até o fim, acabando por ouvir toda a narração do Apocalipse e várias das suas interpretações. Interessante também foi observar as inúmeras mensagens subliminares feitas pelo artista, como a inclusão de símbolos da monarquia francesa entre as hordas do céu e símbolos do reino da Inglaterra entre as hordes infernais.

Mas, como sempre, nem tudo são flores. Boa parte da tapeçaria se perdeu, inclusive todo o texto que havia embaixo dos quadros, reduzindo a largura total a não mais do que 4,5 metros. As seis peças foram recortadas em várias, algumas foram vendidas, outras foram "recicladas" e uma boa parte do patrimônio se perdeu. Além disso, os séculos de exposição e descuido fizeram a pintura desbotar. Por sorte, o tapete foi feito em "dupla face": tudo que está pintado de um lado foi pintado rigorosamente espelhado do outro. A face preservada do tecido encontra-se hoje virada para a parede e não pode ser vista pelo público, mas por fotos é possível ver que as cores se mantiveram vívidas e nítidas.

Terminada a visita à sala da Tapeçaria, eu fiz um pequeno passeio para tirar fotos do castelo e rapidamente segui para a catedral, onde os outros me esperavam. Eles saíram bem mais cedo da visita porque os esforços do Roger em traduzir as explicações do guia para a mãe dele não foram bem recebidas pelos presentes e eles tiveram que se retirar, sendo acompanhados pelos demais.

Lá chegando, deparei-me com um homem de aspecto estranho e com olhos de louco que se benzia compulsivamente com a água bentas das pias que havia no nártex. Ignorei e segui pela nave até encontrar o resto do grupo bem perto do altar. Ao encontrá-los fui logo recebido com a pergunta "Viu o louco?", ao que eu respondi com um inseguro "acho que sim". O tal sujeito os havia abordado minutos antes, dizendo que havia participado da construção da catedral (iniciada em 1032). Segundo ele, a luz filtrada pelos vitrais que entrava na catedral ficava mais forte quando ele cantava e o vermelho ficava mais vermelho quando ele pulava. Eis um cara que tem poderes...

Após visitarmos a catedral, passamos um tempo nas proximidades da Maison d'Adam, uma casa em estilo medieval muito alardeada nos guias turísticos. Descobrimos que tanto alarde era descabido, pois além de possuir uma fachada muito bonita, a casa não abrigava nada mais do que uma loja de artesanato com preços muito poucos acessíveis. Acabamos atravessando a rua e fazendo a festa numa loja cujo nome, em tradução livre, é "Tudo por 2 euros". Findas nossas compras, pegamos o carro e voltamos para Nantes um pouco mais cedo do que pretendíamos, visto que não havia muito mais atrações turísticas visitáveis numa segunda-feira chuvosa.



(texto inacabado)