Inverno de 2010: Lyon e Genebra

A partida

Começam as ferias de inverno. O dia é 19/02/10. Uma semaninha de folga após as provas e antes das campanhas dos grêmios estudantis. Uma pausa uma providencial, digamos. Mas nem por isso as coisas começaram tranquilamente: aula prática de soldagem até as 18:00 e o trem que sairia às 19:04. A noite da véspera terminou tarde por causa da arrumação da mochila...

Mas enfim partimos, eu, minha companheira de viagem Tonya e sua amiga Pauline, que nos ajudaria na primeira parada da nossa jornada: Lyon. Já no bonde, encontramos uma dúzia de centraliens com suas malas. Uma dúzia coisa nenhuma! Quase metade da escola estava lá. Uma parte deles ia voltar para o conforto de suas casas e a companhia de suas famílias enquanto outra parte, bem significativa, aproveitaria as férias de inverno para esquiar. Já na estação descobrimos que uma boa parte dos centraliens que lá estavam, digamos a metade para continuar minha hipérbole, pegaria o mesmo trem que nós.

E foi assim que nós três e Sebastien (Seb), nos sentamos juntos no mesmo vagão para uma viagem de 4,5 horas. Para passar o tempo, jogamos cartas e como é habitual em todo jogo de carta em que eu sou debutante, salvo o pôquer, eu perdi fragorosamente as primeiras partidas. Jogo vai, jogo vem, estávamos já em Lyon. Descemos na Gare de part Dieu, no centro da cidade e o Seb continuou na trem para descer na estação seguinte.

Saindo da estação, fomos recebidos em poucos minutos por Clementine (Clem), companheira da Pauline, que nos hospedaria naquela noite. Um bom banho e uma boa noite de sono encerraram o dia.

Clem, Tonya e Pauline

Lyon - o começo do passeio

Lyon é a segunda cidade mais importante da França, rivalizando com Marseille e perdendo, evidentemente, para Paris. Seu epíteto é Cidade das Luzes, em razão de um evento chamado Festa das Luzes. Durante quatro dias em dezembro a cidade é “pintada” com novas cores mediante a utilização de efeitos de iluminação dos mais variados. Não se trata apenas de iluminar um edifício ou uma praça da maneira diferente da habitual. Algumas das instalações são verdadeiras obras de arte e o seu valor é ainda mais apreciado dado a sua efemeridade.

A idéia para esse sábado que amanheceu ensolarado, no entanto, era ir a Genebra, mas terminamos acordando tarde demais para pôr o nosso plano em ação. Acabamos fazendo um passeio turístico em Lyon. Eu, Tonya e nossas anfitriãs saímos de bicicleta, bordeando o Rhone, rio que atravessa a cidade e que dá nome à região cuja capital é Lyon. Confesso que os anos e anos sem andar de bicicleta me fizeram ter um bocado de temor, mas bordear as águas verdes e calmas do rio passando por baixo das pontes e vendo paisagens fantásticas fizeram-no dissipar rapidamente.

O Rhône

Entramos no centro da cidade e deixamos as bicicletas na Place Bellecour, a maior praça da Europa. Sabe-se lá por que razão, lá estava montada a maior roda gigante desmontável do mundo. Demos uma passada rápida no ofício de turismo para pegar um mapa da cidade e continuamos nosso passeio a pé. No centro da praça, uma estátua de Luís XVI sobre um cavalo. Vale lembrar que o único mérito histórico memorável de Luís XVI foi ter sido decapitado. Isso fez a Clem nos explicar um pouco sobre a simbologia que existe nas patas dos cavalos nesse tipo de escultura. Os cavaleiros montados em cavalos empinados sobre as patas traseiras são grandes heróis, cujos feitos foram notáveis. Aqueles cujo cavalo tem uma das patas dianteiras levantadas é alguém que tem importância histórica, mas que não é lá muito merecedor do título de herói, como era o caso da estátua que vimos. Aqueles montados em cavalos cujas patas estão todas no chão são, em tese, Zés-Ninguém.

Passamos por alguns cartões postais da cidade tais quais o Theatre Celestin, a Place de Jacobins e a Place des Terreaux. É nesta última que se localiza o Museu de Belas Artes, que visitaríamos mais tarde no fim do dia. Essa praça tem uma fonte no seu centro cuja particularidade é ter sido deslocada inúmeras vezes, tendo já ocupado várias posições na praça, lá encontramos Marine, irmã da Pauline. Atravessamos o outro rio que corta a cidade, o Saône. Do outro lado encontra-se o centro histórico da cidade, que foi tombado como patrimônio histórico pela UNESCO.

Andamos mais um pouco, por ruelas bastante simpáticas. As meninas nos contaram sobre uma particularidade bastante conhecida desse lugar. Durante a Segunda Guerra Mundial os corredores de entrada de vários prédios foram unidos, formando passagens comuns. Algumas dessas passagens eram cegas, terminando em pequenos átrios que serviam para a comunicação e a circulação entre os vários prédios. A essas entradas dá-se o nome de miraboules, sendo o “mir” referente a “miroir”, que significa espelho. Outras, porém, atravessam todo o quarteirão, ligando duas ruas paralelas através de um pequeno e sinuoso labirinto. A essas passagens dá-se o nome de traboules. O interessante é que poucas das passagens são sinalizadas, afinal a intenção é que elas fossem secretas, e elas são indistinguíveis de uma porta normal de um prédio. Procurar e descobrir traboules é um passatempo comum e que fizemos durante a tarde. As passagens ainda servem como entrada dos prédios e a sinalização dos endereços é caótica, de tal forma que na minha opinião ser carteiro em Lyon deve ser um dos empregos mais estressantes do mundo.

A entrada de um "miraboule". Indistinguível de uma porta ordinária

Continuando o passeio, chegamos a um funiculaire, um bondinho sobre trilhos que sobe uma colina onde localiza-se o coração do centro velho. Lá no alto, ao lado de uma esplanada que oferece uma vista panorâmica estonteante da cidade encontra-se a basílica da cidade, a Catedral de Fourfriève. Trata-se de uma igreja em estilo românico-barroco, cujo interior decocorado com pinturas decalcadas em ouro e vitrais magnifícos oferece um deleite aos olhos. Um nível abaixo, em uma posição subterrânea, encontra-se uma grande capela, que possui o mesmo comprimento da nave acima, mas que é muito mais singelamente decorada.

A primeira passada de olhos não me chamou atenção alguma. É uma sala simples, com colunas pouco decoradas, sem vitrais e quem em nada se aproxima da ostentação de cima. Depois de ver tantas catedrais góticas pelas minhas viagens e me tornar um admirador delas, aquela capela me pareceu bastante ordinária. Foi então que a Clem nos mostrou algo que até então tinha passado completamente despercebido: a maior parte da decoração daquele lugar estava incabada. Na verdade, a obra foi bancada com o dinheiro de fiéis, com doações pequenas ou poucas doações de gente abastada, creio eu. Ornamentos no teto e no topo das colunas estavam ainda em pedra bruta enquanto outros exibiam já o resiltado final. Pequenas estrelas incrustradas na parede ornamentava o altar enquanto no restante da capela havia somente o espaço escavado onde as demais deveriam ser incrustradas. Em alguns pontos, sequer esse espaço havia.

Ironicamente isso mudou um pouco a minha maneira de ver aquela capelinha. Ela não tinha o mesmo brilho de uma catedral, evidentemente, mas me fez refletir um bocado depois que saí dali. As catedrais são tão ornamentadas, tão saturadas de atrativos que não raro saímos de lá sem apreender um décimo deles e sem valorizá-los devidamente. Afinal tudo é tão bonito e rico que a nossa capacidade de se admirar com sua beleza fica comprometida. Essa capela me fez pensar em como os defeitos são importantes, pois são eles que nos permitem compreender o que é belo e entender que nada neste mundo é perfeito. Sem dúvida se ela estivesse terminada, não teria me encantado tanto.

Defeitos na decoração da basílica. Observe as estrelas.

Ainda no alto da colina, poucas centenas de metros descendo em direção à cidade, visitamos as ruínas romanas. São dois teatros antigos que pasaram um bom punhado de séculos soterrados. Hoje, após uma reforma, eles foram recondicionados e são utilizados para festivais de música. Eles foram construídos de forma a aproveitar o declive da coluna, dispensnado um pouco do trabalho que seria necessário para erguer as arquibancadas em terreno plano. Logo ao lado, encontra-se o Museu Galo-Romano de Lyon.

Pausa para fazer uma macacada

Iniciamos então a longa descida a pé em direção à cidade. O grupo descia da maneira como foi se estabelecendo ao longo do dia: as meninas conversando na frente e eu mudo seguindo-as. Todos sabem que as mulheres falam mais do que os homens e que são capazes de acompanhar e entender mais do que uma pessoa falando ao mesmo tempo. Para um homem, é sempre difícil acompanhar a conversação de um grupo de mulheres dada a quantidade de informações e de diálogos paralelos. Imaginem agora o que é isso em língua estrangeira. Ficou fácil imaginar a minha situação. As mulheres falam em média sete mil palavras por dia, ao passo que os homens falam algo em torno de duas mil. Após umas duzentas palavras trocadas no café da mahã e mais umas duzentas ao longo do dia, eu permaneci a maior parte do dia taciturno. Isso levantou algumas dúvidas sobre o meu humor entre as meninas, as quais eu me apressei a responder de forma a mostrar que não estava aborrecido.

Ao fim da descida fomos ao Museu de Belas Artes de Lyon, localizado na Place des Terreaux, aquela cuja fonte não sabe bem onde ficar. Dispunhamos de muito pouco tempo até o encerramento das atividades do museu naquele dia. Ainda assim, tivemos uma excelente oportunidade de apreciar algumas belas obras. Dentre estas encontravam-se alguas de autoria de Roudin, Renoir e Manet.

Pegamos as bicicletas e iniciamos nosso caminho de volta margeando um Rhône já escurecido, mas ainda plácido e refletindo o ouro e o púrpura do crepúsculo. A paisagem formada pelas colinas e pelos prédios, que outrora formava uma delicada aquarela em tons pastel, era então apenas uma silhueta difusa contra o céu. Porém, depois de um dia andando por aquela cidade, essa mesma paisagem adquiriu algo de familiar, de conhecido, muito diferente da impressão deixada pela manhã.

Voltamos para a casa da Clem após umqa passagem rápida no mercado que há pelas proximidades. Após um jantar simples e alguns minutos de descanso, saímos para uma soirée na casa de um amigo delas num bairro badalado pelo qual passáramos mais cedo, nas procimidades da Place des Terreaux. Passando na frente de alguns bares me deparei com oriental de aspecto conhecido que digitava displicentemente em seu celular. Reconheci-o, era o Décio, meu antido colega no curso de francês, ex-companheiro de banda e que eu tivera o prazer de receber em Nantes alguns meses antes. Me surpreendi de tal forma que nem percebi que tentei parar as meninas com um inútil “peraí”. Ele, no entanto, ouviu eu chamando-as e levantou os olhos do celular com estranheza até o que estava acontecendo. Me desculpei com as meninas, disse que ficaria ali mais alguns instantes e que depois as encontraria.

Ali fiquei e poucos instantes depois chegou o Raul, nosso veterano da Centrale Lyon e que me deve um CD do Sim City 2000, o qual ele pegou emprestado há treze anos e jamais me devolveu. Isso ainda nos tempos do curso preparatório pro concurso do Colégio Militar. Entramos no bar e lá estavam o Luiz Fernando, conhecido quase que em tempo integral como Farelo, e o Luiz Henrique, vulgo Luíque, ambos do INSA de Lyon. Todos eles, salvo o Raul, estudantes de Engenharia Elétrica na UFC. Havia muitos outros brasileiros, mas nenhum que eu conhecesse. Aquele encontro foi bastante insólito, sobretudo pelo fato de eu não ter avisado que iria para lá nem ter combinado coisa alguma. Depois de algumas tentativas de encontrar o Rômulo e o Nathan em Paris, sempre frustradas pela saída deles em viagens longas nos dias em que eu estava disponível, resolvi não mais esperar por ninguém para viajar. Confesso que fui negligente no caso de Lyon e que não custava nada mandar um email ou ligar. Falha minha. No final das contas deu para bater um papo legal e reencontrar bons amigos.

Meus “alguns instantes” no bar alongaram-se, viraram minutos, que por sua vez viraram horas. Duas, para ser mais preciso. E me vi forçado a ir ao encontro das meninas por questão de etiqueta. Não passei mais do que alguns minutos no tal apartamento, um pouco deslocado na conversa talvez em virtude do assunto ou do meu atraso ou ainda da diferença na quantidade entre o que eles e eu havíamos bebido. A garrafa de Martini que as meninas haviam levado jazia quase seca ao lado de outras em estado semelhante no centro daquele grupo de pouco mais que uma dúzia de pessoas. Voltamos no último metrô e dormimos novamente na casa da Clem. No dia seguinte iríamos a Genebra.


Segundo dia - Genebra

Acordamos cedo, arrumamos as mochilas para a viagem, garantindo um bom estoque de comida para o dia. O resto da bagagem, que deixamos na casa da Clem, foi bem organizado e embalado para que elas levassem para a casa da irmã da Pauline, onde dormiríaos na noite seguinte. A razão para isso é que os pais da Clem chegariam naquele dia.

Na estação e ao longo do dia, repetiu-se uma cena na qual eu já havia reparado nos dias anteriores: o trânsito constante de pessoas com equipamento de ski. A frequência dessa vez era maior, já que nós estávamos na região dos Alpes. O trem atravessou paisagens nevadas rodeadas de altas montanhas. Chegávamos na Suíça.

O plano inicial era comprar as passagens de volta tão logo chegássemos à estação de Genebra. Não prevíramos, no entranto, a diferença dos preços cobrados entre as companhias de trem francesa e suíça. Ainda que o câmbio nos fosse favorável, tivemos que pagar 7€ a mais por passagem. Infelizmente, isso só se realizou após longos minutos de hesitação. Foi quase um hora, tempo em que procurávamos uma alternativa mais barata.

Iniciada a visista, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a atitude dos pedestres. Ainda que não exista sinal de um único carro vindo, eles só atravessam a faixa quando o sinal fica verde para eles. E eles olham torto quando você se recusa a esperar para atravessar uma rua deserta. Deixando de lado essas impressões irrelevantes, passemos ao panorama da cidade. Genebra, como todas as outras cidades da Europa que visite, desenvolveu-se às margens de um grande volume de água, neste caso o Lago Léman, que é alimentado pelo rio Rhône, o mesmo de Lyon. E como nas demais cidades, tal volume d’água parece estar harmoniosamente integrado à urbe. Isso adiciona um charme especial à cidade, que é ressaltado pela moldura de montanhas de cume branco que a rodeia. Adicione-se a isso a tranquilidade que aqui ou acolá é quebada pelo ronco alto de um esportivo de luxo ou de uma moto possante. O resultado é uma atmosfera onírica de paz e prosperidade que impressiona os visitantes.

Nosso ponto de partida foi o Ofício de Turismo, onde pegamos um mapa e um punhado de orientações e sugestões preciosas. Seguimos em direção ao lago e demos de frente com um dos cartões postais da cidade, o jato d’água. Do outro lado do lago, ao sul da ponte, há uma pequena marina protegida por um quebra-mar que avança algumas centenas de metros. Quase na sua extremidade, uma bomba d’água muito potente eleva uma coluna d’água a estonteantes 140 metros de altura. O jato destoa um pouco da paisagem circundante, mas ao mesmo tempo fascina pela demonstração de força. Além disso, graças ao spray formado pelas gotículas descendentes, é possível ver um arco-íris ao longo de quase todo o dia se as condições meterológicas forem favoráveis.

O jato d'água do lago Léman

Atravessamos a ponte para nos aproximar do jato e vimos os prédios bege e creme encimados por bandeiras da Suíça que deixáramos para trás. Em seguida, rumamos em direção ao antigo centro da cidade, que encontramos deserto e fechado naquela tarde de domingo. Passamos rapidamente pela catedral da cidade, que fora não seguir a arquitetura canônica das catedrais góticas não possuia muitos mais atrativos. Voltando em direção ao norte, em direção ao rio, passamos pela Place du Molard, um pequeno boulevard que conduz até a ponte. O interessante no local era a infinidade de pedras de calçamento feitas inteiramente de vidro que se encontravam no meio das demais pedras, negras e de origem basáltica. No interior de cada pedra transparente lia-se uma mensagem que ia do “Bem vindo” ao “Até logo”, passando por cumprimentos como o “Boa tarde”. As mensagens estavam escritas em inglês, francês, italiano, espanhol, japonês, árabe e russo.

Outra pausa para macacadas

Atravessamos a ponte e margeamos o lago em direção a um parque sugerido pela guia no ofício de turismo. O parque, chamado Perle du Lac (Pérola do Lago) era bastante bonito, mas como muitas das paisagens que eu vi nos últimos tempos deve ser ainda mais bonito no verão ou na primavera. No seu interior encontra-se o Museu de Ciências, no qual não chegamos a entrar, mas cujas atrações externas apreciamos com curiosidade. A primeira atração, que distingui e reconheci de longe, era um par de conchas acústicas que permitia a conversação em sussurros através de uma distância superior a quarenta metros. Havia ainda:

  • Zootrópio: artefato que que produz a ilusão de movimento a partir de imagens estáticas em rápida sucessão
  • Canhão do meio dia: um pequenino canhão calibrado para ser disparado quando o sol do meio dia aciona seu estopim com o auxílio de uma lupa
  • Teodolito
  • Hemisférios de Magdeburgo

Seguimos adiante até o Jardim Botânico, que era muito bonito, mas que apreciamos superficialmente em virtude do tempo que tínhamos. Entramos em algumas estufas, onde pude ver algumas espécies comuns no Brasil e matar as saudades do clima quente e úmido. Em uma delas, mais seca, havia mesmo uma parte que lembrava muito uma caatinga. Próximo dali encontra-se o Palácio das Nações, sede social das Nações Unidas. Pausa para fotos. Na praça imediatamente em frente uma escultura chama a atenção. É a Broken Chair (Cadeira Quebrada, em inglês), um monumento com uma dezena de metros de altura, uma cadeira que possui uma das pernas estilhaçadas. Ela foi posta ali em 1997 como um gesto para atrair a atenção para o tratado de não-proliferação de minas terrestres, que seria assinado naquele ano.

Na frente do Palácio das Nações

Broken Chair

A hora do nosso trem se aproximava e começamos nossa caminhada em direção à estação. Passáramos o dia andando e confirmamos que Genebra é suficientemente pequena para ser atravessada a pé. Tínhamos alguns minutos antes da hora da partida, o que nos motivou a visitar uma cúpula roxa inflada na margem do rio, que víramos no começo do dia. Tratava-se de uma exposição sobre o genoma humano, sendo a tal cúpula uma representação de uma célula. A exposição, abrigada no interior do pitoresco abrigo, foi organizada no contexto dos 450 anos da Universidade de Genebra. Embora pequena, era bem lúdica e interessante. Descobrimos, um pouco atônitos, que os camarões têm 254 cromossomos, enquanto nós temos apenas 23. Sei que isso não significa nada em especial, mas não deixa de ser surpreendente.

Finda a viagem, entramos no trem de volta para Lyon. A casa da Marine, irmã da Pauline, fica a cinco minutos da estação e lá chegamos com o auxílio da Pauline. Lá encontramos a Marine, a Atena e o seu namorado. A Atena é uma paraibana amiga da Marine que mora por lá faz dois anos. É gente finíssima. O namorado dela, que é francês, idem. Batemos um papo legal ao redor da mesa de jantar e pouco depois a Clem chegou. Ficamos todos lá jogando conversa fora, contando os boatos que se escutam sobre franceses, brasileiros e russos. Aos poucos, as pessoas foram indo embora, restando apenas eu, a Marine e a Tonya. Dormimos. Pela manhã pegaríamos o trem que nos conduziria a Strasbourg.

CAF

Caisse d'Alocation Familiale

Brevemente: CAF. um resquício da França socialista de François Mitterrand que é de grande valia para todos os habitantes da França, mas particularmente para os mais necessitados. Categoria esta que inclui os estudantes estrangeiros em Duplo Diploma sem bolsas "tudo-incluso" do tipo Eiffel, ou seja, caras como eu.

A CAF é um organismo francês que providencia ajuda para custo relacionados à habitação, o que normalmente se traduz em um abatimento no aluguel. O valor do desconto é calculado com base em diversas informações tais quais número de filhos, idade, situação conjugal e ocupação.

A solicitação é simples e requer poucos documentos. O problema é que o principal documento para dar início ao processo, o Titre de Sejour, geralmente demora um pouco para sair (eu recebi o meu em dezembro), o que implica no pagamento integral dos primeiros meses de aluguel. Uma vez que se tenha o Titre de Sejour, basta ir à CAF com cópia de documento de identidade,certificado de bolsa e o formulário de solicitação de ajuda que tudo se resolve em não mais do que quarenta minutos.


Caso de alunos bolsistas

O formulário de solicitação é feito mediante a abertura de um dossier no site da CAF. O solicitante deve preencher um questionário e ao fim do processo receberá a versão para impressão do formulário, que possui cinco páginas.

Existe uma questão importante: "Você é bolsista segundo critérios sociais?". O que se faz normalmente é marcar "sim". Isso implica em uma maior ajuda para o aluguel. No entanto, a simples resposta a esse item não é suficiente. Em nenhum lugar específico do site existe a solicitação de uma cópia do atestado de bolsa e nem quando entrega-se o dossiê pessoalmente os funcionários o pedem, mas se o atestado não for apresentado, o adicional não será computado. É importante então levar o atestado de bolsa no dia da entrega dos documentos e, ainda que os funcionários digam que não é necessário, pedir gentilmente que o atestado seja recebido junto com os demais documentos. Isso poupa as semanas de espera que seriam necessárias para esperar a carta de confirmação de ajuda da CAF (no valor errad0) e entregar o atestado para corrigir o dossiê.



Caso de alunos bolsistas da Egide (bolsa Eiffel)

A Egide prevê uma ajuda de custo para os gastos de habitação dos seus bolsistas que em alguns casos pode ser mais interessante que a CAF. Eu ignoro completamente os valores desse benefício, mas fica a dica de analisar bem os dossiês para saber qual o que vale mais a pena.


Caso específico de alunos em Duplo Diploma em Nantes

Existe um campo do formulário de solicitação que deve ser preenchido pelo proprietário do imóvel. No caso dos estudantes em Duplo Diploma aqui em Nantes, que residem todos na residência da École (Residência Max Schmitt), a empresa responsável pela residência fornece um documento que cumpre esse papel. Esse documento é entregue no dia do recebimento das chaves e é de suma importância não perdê-lo.


E o meu caso...

Eu pago um aluguel cuja tarifa completa é de 220,94 euros. Após a submissão do dossiê eu obtive uma ajuda mensal de 128,15 euros, a ser paga a partir de março. Detalhe importante: o benefício é retroativo e a primeira parcela é referente a outubro, o que significa que o que eu paguei "a mais" de outubro a fevereiro foi convertido em crédito e vai ser diluído nas parcelas que restam. Isso significa que a partir de agora vou ter um abatimento superior aos 128,15 euros.

É importante adiantar serviço com a CAF e tentar fazer tudo com cuidado, para que nenhuma correção seja necessária e nenhum atraso ocorra, pois o benefício é de grande valia.



Sobre o "abandono" do blog

Grande buraco nas minhas postagens. Desculpem-me por isso. Acabamos de sair do período de provas e isso significa que durante um bom tempo comer direito, dormir direito e se divertir foram atividades racionadas.

Isso se refletiu no blog, evidentemente. Terminei agora o texto sobre a viagem a angers, feita no dia 28 de dezembro e ainda estou devendo toda a narrativa dos meus dias em Paris na virada do ano. Para completar já estou prestes a ter mais coisas para contar: minhas férias de inverno serão aproveitadas para um passeio pelo Leste (infelizmente não o Leste europeu): Lyon, Genevra, Bern, Strasbourg e Luxemburgo. Até lá espero publicar, ainda que parcialmente, a narrativa do Reveillon.

O blog continua, apesar de tudo isso, e espero que os parcos leitores não tenham abandonado a sua leitura.

Abraço a todos.

Fim de ano 03: Angers

Dia 3: O clima da nossa queridíssima Bretanha deu o ar da graça de novo. Manhã com chuva e céu cinza-chumbo enquanto pegávamos a estrada para Angers.

Por que Angers?

Como eu disse no texto sobre La Rochelle, os destinos da nossa viagem foram escolhidos em função da distância à Nantes e no nosso interesse m conhecer o lugar. Dos lugares visitados em dezembro, Angers é o mais próximo de Nantes, mas eu acredito que já estava determinado que iríamos lá muito antes de escolhermos todos os destinos.

Explico-me. Nas férias de outono, quando fui a Florença, uma turma de brasileiros alugou um carro e fez um passeio pelo vale do Loire visitando alguns dos (inúmeros) castelos que existem na região. Entre eles estavam o Thiago e o Roger. As fotos da viagem deles são muito boas e os castelos lindos. Mas houve um castelo que eles não conseguiram visitar, pois só chegaram lá na madrugada do último dia de viagem. Foi o castelo de Angers.

Lembro que olhando as fotos deles, o tal castelo me chamou a atenção. É claro que imaginamos que os castelos sejam construções fortificadas, mas Angers é um castelo, digamos, anabolizado. Os outros castelos da viagem tinham muralhas e torres, mas também tinham vitrais e ornamentos e compunham um cenário bem semelhante aos castelos de brinquedo ou desenho animado.

Não era esse o caso do Chatêau du Roi René. O que as fotos da galera mostravam era uma muralha robusta, guarnecida por torres largas e de aspecto muito sólido. Rodeando a muralha, um fosso, cuja profundidade somada com a altura das muralhas dava uma aura de impenetrabilidade ao castelo. Do exterior, impossível ver qualquer sinal do que existe no intra-muros.

Acredito, então, que o o Roger já estava pré-disposto a ir a Angers, uma vez que não tivera a oportunidade de conhecê-la. E eu, embalado pelos relatos e fotos da viagem e fascinado pelo castelo, também já havia decidido.


A visita

Angers é a segunda cidade mais populosa do Pays de la Lore, ficando atrás apenas de Nantes. Situada nas bordas do Maine, um afluente do Loire, a cidade serviu como porto fluvial e fazia a ligação entre capital e o oeste.

Ela é conhecida atualmente por sua produção de flores, o que le vale o epíteto de Cidade das Flores.

Contrariando a tendência dos dois primeiros dias, o terceiro dia amanheceu chuvoso e brumoso. Ainda assim, a chuva era rala e não nos atrapalhou muito. Chegamos ao centro da cidade e de cara tivemos uma visão imediata do castelo. O exterior do castelo é de fato tão impressionante quanto as fotos mostram. Do fundo do fosso que o circunda, ao aldo das muralhas existe um desnível que alcança facilmente 30 metros. Cada uma das dezessete torres do castelo tem 18 metros de diâmetro.



Passada a reação provocada pela visão inicial, entramos. O interior do castelo contrasta um bocado com a aridez do seu invólucro. No interior, um delicado jardim dormina o pátio, com seis esculturas vivas. Próximo do jardim vê-se a capela do castelo, que é bem maior do que a maioria das igrejas de Forteleza, embora não exista mais nada além de uma cruz no seu interior.



Havia um pequeno jardim no fosso do castelo, igualmente bonito.


A maior atração do castelo, contudo, não se vê facilmente. Ela está guardada numa sala especial, climatizada e com luminosidade controlada. Em suma, o Rei Réné era um sujeito plácido e não tinha muito interesse em degolar inimigos ou se meter em orgias. Ele preferia dar uma de mecenas, financiar artistas e enriquecer o seu reino com obras de arte, sobretudo iluminuras (ilustrações feitas em livros, principalmente obras sacras). Mas a obra magna do seu mecenato, e que requer tantos cuidados, é a Tapeçaria do Apocalipse.

Antes de explicá-la detalhadamente, vamos a alguns números. A tapeçaria é formada por seis peças, que juntas totalizavam originalmente um conjunto de 6,5 m de largura por 130 m de comprimento e é até hoje a maior peça de tapeçaria já fabricada no mundo. O guia do castelo utilizou uma expressão muito interessenta para descrevê-la: trata-se da maior história em quadrinhos do mundo.

De fato, a obra é é "lida" como uma história em quadrinhos. Observa-se uma sequência de quadros que mostram sempre à esquerda São João, o "protagonista" da história. O pano de fundo dos quadros se alterna em vermelho e azul, as cores do brasão do reino de Anjou, antigo nome da região. Confesso que fiquei bestificado e segui a explicação do guia até o fim, acabando por ouvir toda a narração do Apocalipse e várias das suas interpretações. Interessante também foi observar as inúmeras mensagens subliminares feitas pelo artista, como a inclusão de símbolos da monarquia francesa entre as hordas do céu e símbolos do reino da Inglaterra entre as hordes infernais.

Mas, como sempre, nem tudo são flores. Boa parte da tapeçaria se perdeu, inclusive todo o texto que havia embaixo dos quadros, reduzindo a largura total a não mais do que 4,5 metros. As seis peças foram recortadas em várias, algumas foram vendidas, outras foram "recicladas" e uma boa parte do patrimônio se perdeu. Além disso, os séculos de exposição e descuido fizeram a pintura desbotar. Por sorte, o tapete foi feito em "dupla face": tudo que está pintado de um lado foi pintado rigorosamente espelhado do outro. A face preservada do tecido encontra-se hoje virada para a parede e não pode ser vista pelo público, mas por fotos é possível ver que as cores se mantiveram vívidas e nítidas.

Terminada a visita à sala da Tapeçaria, eu fiz um pequeno passeio para tirar fotos do castelo e rapidamente segui para a catedral, onde os outros me esperavam. Eles saíram bem mais cedo da visita porque os esforços do Roger em traduzir as explicações do guia para a mãe dele não foram bem recebidas pelos presentes e eles tiveram que se retirar, sendo acompanhados pelos demais.

Lá chegando, deparei-me com um homem de aspecto estranho e com olhos de louco que se benzia compulsivamente com a água bentas das pias que havia no nártex. Ignorei e segui pela nave até encontrar o resto do grupo bem perto do altar. Ao encontrá-los fui logo recebido com a pergunta "Viu o louco?", ao que eu respondi com um inseguro "acho que sim". O tal sujeito os havia abordado minutos antes, dizendo que havia participado da construção da catedral (iniciada em 1032). Segundo ele, a luz filtrada pelos vitrais que entrava na catedral ficava mais forte quando ele cantava e o vermelho ficava mais vermelho quando ele pulava. Eis um cara que tem poderes...

Após visitarmos a catedral, passamos um tempo nas proximidades da Maison d'Adam, uma casa em estilo medieval muito alardeada nos guias turísticos. Descobrimos que tanto alarde era descabido, pois além de possuir uma fachada muito bonita, a casa não abrigava nada mais do que uma loja de artesanato com preços muito poucos acessíveis. Acabamos atravessando a rua e fazendo a festa numa loja cujo nome, em tradução livre, é "Tudo por 2 euros". Findas nossas compras, pegamos o carro e voltamos para Nantes um pouco mais cedo do que pretendíamos, visto que não havia muito mais atrações turísticas visitáveis numa segunda-feira chuvosa.



(texto inacabado)

Fim de ano dia 02: Saint Michel e Saint Malo

Dia 2: Carro, estrada, ação! Destino do dia: manhã no Monte Saint-Michel e tarde em Saint Malo. Esta última eu já conhecia e uma das minhas publicações já tem algo a respeito. Então aqui vou me concentrar no Monte Saint-Michel, mas não sem fazer um breve comentário sobre Saint Malo.


O segundo destino mais visitado da França


Sim, senhores, embora vocês pensem em Torre Eiffel, Louvre, gastronomia refinada, vanguarda da moda e homens de masculinidade questionável quando escutam a palavra "França", saibam que existe algo mais. Depois de Paris, Saint-Michel é o destino mais visitado do país. Por lá passam mais de 3 milhões de turistas por ano. Pudera, localizado no norte da França, o monte é um cartão postal dos mais pitorescos. Vejamos por quê.

Panorâmica do monte e da baía

O nosso grupo de viajantes: Flávio, Juliane, Bruna, Vera, Roger e eu

Monte ou ilha?
Ambos. O Mont Saint-Michel está situado na foz do Rio Couesnon, numa região onde a maré alcança inacreditáveis treze metros de amplitude. Originalmente era ligado ao continente por um pequeno istmo, que era alagado todos os dias por causa do fenômeno. A deposição natural de sedimentos aliada a obras de construção de diques e drenagens realizadas nas redondezas mudaram a paisagem local e "aproximaram" o monte à terra.

O monte era isolado da terra todos os dias e a sua dualidade ilha-montanha era bem marcada. Hoje existe um dique que o liga permanentemente à terra e sobre o qual foi construída uma estrada. Contudo, o monte é rodeado completamente por água 53 dias por ano, durante as marés de sizígia (alinhamento do Sol e da Lua), um espetáculo bastante popular.


Bretanha ou Normandia?
Questão interessante. O rio Couesnon, originalmente a leste do monte, marcava a fronteira entre Bretanha e Normandia. Com as várias obras realizadas no local o curso do rio foi desviado para o oeste. Os bretões afirmam que o monte continua bretão, apesar da mudança. E os normandos afirmam que a fronteira já os favorecia antes, pois, segundo eles, o rio nunca marcou exatamente a fronteira correta.

Hoje o monte é possessão normanda, mas é muito fácil encontrar inúmeros cartões postais com sua foto pelas ruas de Saint Malo ou outras cidades bretãs.



A viagem

Hora de acabar com a enrolação e comentar a viagem de fato. Acordamos cedo e pegamos a a estrada. Nosso GPS tinha um alerta sonoro para quando ultrapassássemos o limite de velocidade e escutamo-lo umas poucas vezes no dia anterior. Estávamos seguindo viagem, tranquilamente metade dos passageiros dormindo, Flávio ao volante e eu no banco do lado quando, surpresa, uma vaca muge dentro do carro e acorda todo mundo. O Roger tomara a liberdade de mudar o alerta de velocidade e gravou um mugido que ele mesmo fez. E toda vez que ultrapassávamos o limite a maldita da vaca (ou do Roger) mugia.

Avançamos em auto-estradas por bastante tempo até que começamos a pegar estradas cada vez mais estreitas e sinuosas cortando paisagens campestres. O tempo estava muito bom: com sol e céu limpo. Estávamos então numa dessas paragens bucólicas da campanha francesa quando eu vi o monte rapidamente e ao longe na fresta formada por duas casas. Ainda que tenha sido uma visão rápida, foi bastante marcante, pois o monte afigura-se no horizonte soberbamente e não se parece com nada facilmente descritível. O resto do pessoal achou que eu estivesse mentindo, pois ninguém mais o vira. Entretanto, nós chegamos uma região onde as casas eram mais esparsas e tivemos uma vista direta.

Imaginem um miragem, uma ilusão de ótica ou algo do gênero. Foi mais ou menos essa a sensação que eu tive. Um campo, algumas colinas e lá adiante uma depressão arenosa na qual se eleva um bloco gigante de granito. Talvez só isso já fosse uma visão suficiente para causar impressão, mas ver o tal bloco apinhado de construções, dentre as quais uma abadia cujo pináculo se eleva a uma altura equivalente a do próprio bloco é algo perturbador. Talvez como uma paisagem saída "O Senhor dos Anéis".

Atravessamos o dique que liga o morro ao continente e estacionamos nas encostas. Na entrada da cidadela uma placa alertava àqueles que quisessem se aventurar a fazer um passeio pelas redondezas que a maré subiria às 13:00 e que todos deveriam retornar antes disso.


Subindo, subindo e subindo, descendo e subindo mais um pouco

Entramos na cidadela ao lado de um grupo de três dúzias de japoneses com suas inseparáveis câmeras. Às vezes eu me pergunto se ele enxergam os lugares que visitam com seus próprios olhos ou se sempre através de uma tela de cristal líquido de uma máquna digital ou do visor de uma reflex.

Logo de cara, um grande e íngrime subida por uma viela apinhada de lojinhas de lembrancinhas, restaurantes e outros estabelecimentos comerciais de apelo marcadamente turístico e que muito pouca relação têm com o passado religioso do local. Em muitas delas, cartões postais brincando com o clima da Normandia, popularmente reputado como chuvoso e desagradável. Há vários museus no local, mas não nos detivemos visto que ainda iríamos para Saint-Malo pela tarde e também porque a prioridade era visitar a abadia.

E após vielas sinuosas e íngremes, escadas, mais escadas e ainda mais escadas chegamos à bilheteria da abadia. Aprendi a lição do dia anterior e entrei de graça com meu passaporte. Explico-me: na maior parte das atrações culturais os estudantes europeus entram de graça mediante apresentação de documento de identidade. O Flávio tem cidadania espanhola e entrou de graças nas torres de La Rochelle, mas ele disse que talvez o nosso passaporte brasileiro com o timbre do título de permanência nos desse os mesmos direitos. Indagamos os funcionários de uma das torres sobre isso e eles confirmaram a história. Então no segundo dia eu não cometi o mesmo erro: levei meu passaporte e gozei dos meus privilégios de estudante residente na Europa. Quando saímos da bilheteria nos deparamos com... escadas!

Subimos já um pouco exaustos e chegamos num pequeno terraço contíguo à nave da abadia, virado para a "frente" do morro, ou seja, o local de onde chegamos, o dique, algo em torno de sul-sudeste. Olhar para baixo por cima da amurada era simplesmente vertiginoso. Pausa para fotos. Entramos na abadia por um acesso lateral e saímos logo em seguida por uma saída pelo fundo da nave, no lugar onde comumente ficam as portas das igrejas. Chegamos em um segundo terraço. Este, porém era muito maior que o outro, virado para o poente, para o leito do rio Couesnon. Vista muito bonita e um vento fustigante que chegou até mesmo a "aprisionar" algumas aves em um vôo estático sobre as nossas cabeças. Pausa para fotos de novo.

Retornamos à abadia, onde tiramos algumas fotos e apreciamos a beleza do lugar. O interior é austero, feito sobretudo em pedras, sem muitos ornamentos ou vitrais chamativos. O sol de inverno, sempre ao sul, entrava pelas janelas do lado direito formando tênues colunas de luz que terminavam na parede do lado oposto.

O interior da abadia

Seguimos o passeio, saindo por uma porta lateral, defronte à porta pela qual entramos. A partir de então passamos por um labirinto de escadas, corredores, escadas descendentes e ascendentes, átrios repletos de colunatas, calabouços e uma miríade de outros aposentos típicos de uma construção medieval. Me detenho especialmente para descrever um deles: o claustro. Localizado imediatamente ao lado norte da abadia, foi o primeiro local que vimos após sair do templo. Trata-se de um grande átrio retangular com um gramado no centro, rodeado por uma marquise abobadada sustentada por inúmeras finas colunas, formando arcos ogivais. A parte mais perturbadora é um conjunto de três arcos virados para o oeste que se abrem para o vazio, uma grande queda. Os arcos foram abertos para servir de passagem para um novo aposento que seria construído em uma expansão da abadia. O tal aposento nunca foi feito, mas a "porta" continua lá, tampada por uma grossa placa de vidro.

O claustro


O vazio através dos arcos

Terminando a visita

Após o claustro percorremos o labirinto encravado no morro. Mesmo eu, que sou um cara razoavelmente bem orientado, perdi completamente o referencial com tantas subidas e descidas que fizemos dentro das construções.

Menino bonitinho que eu vi quando descia da abadia (foto bônus)

Descemos a pequena ruela e paramos num restaurante para comemorar o aniversário da Bruna e degustar a especialidade gastronômica do local: os omelettes "de Mère Poulard". Paguei 18 euros morrendo de pena, mas vá lá... É uma especialidade do local. Por que não? E qual não foi a minha decepção ao meter o garfo no omelete e ver ele colapsando em uma espuma amarela... Sim, só o exterior dele era sólido e foi a parte que eu, de fato, comi. O resto eu tomei feito uma sopa. Foi extrememante frustrante.

Da janela nós víamos a água avançando perto das encostas do monte, o que suscitou algumas preocupações sobre a segurança do carro. Saímos do restaurante e descemos a viela comprando nossas lembrancinhas. Eu continuei a tradição e comprei um distintivo de Saint-Michel.

Embarcamos e rumamos para Saint Malo. Um pequeno problema se fez notar assim que saímos: o GPS não funcionava mais, por mais que insistíssemos ou nos movêssemos. Navegamos com a ajuda dos iPhones do Roger e do Flávio.

Em Saint Malo praticamente repetimos a visita que fizeramos antes: a volta sobre as muralhas e um passeio pelo pitoresco intra-muros. Uma diferença, no entanto: a maré estava alta e foi bem interessante comparar as diferenças na paisagem em relação à outra vez em que estive lá. Não me detenho muito na segunda parte da viagem, pois fizemos basicamente (e até um pouco menos) o que está descrito no post sobre Saint Malo. Algo que vale a pena ser mencionado foi a ida a uma sorveteria bastante reputada que existe na cidade. O Roger recebeu uma recomendação de um dos colocs dele, mas não consiguimos ir na primeira vez. Nesta vez, porém, nos detivemos e valeu a pena. Tomei um sorvete de cassis excelente.


Terceiro dia: Angers




P.S.: Lendo um pouco sobre o Monte Saint-Michel para poder fazer um relato mais rico da viagem eu acabei descobrindo que ele foi usado como inspiração para a cidade de Minas Tirith na versão cinematográfica de "O Senhor dos Anéis".