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Ski 2011

Todos os anos a École organiza uma semana de ski no início da primavera. Ano passado eu cheguei a pagar o passeio, escolhi o ski entre as duas opções possíveis (a outra era o snowboard) e a poucos meses do evento eu cancelei para poder voltar pro Brasil pela primeira vez e recolocar meu eixo emocional no lugar. Não me arrependo de ter feito isso, pois eu realmente precisava, mas os comentários dos meus amigos sobre a semana me deixaram com uma pontinha de inveja. Quase todos tinham feito snowboard ("ski é coisa de viado", diziam eles) e eu me decidi a não perder a edição 2011.


Ski 2011

Pois bem, cá estamos nós em 2011. Paguei um bom meio milhar de euros pela semana de ski. Tudo pago: alojamento, aluguel do material, hospedagem e alimentação. Diferença fundamental: desta vez eu escolhi snowboard. Algo me dizia que eu ia me ferrar mais do que se tivesse escolhido ski, mas por que não tentar?

O local escolhido foi a estação de Val Thorens, próxima de Chambéry nos Alpes franceses, a estação de ski mais alta da Europa, situada a 2300 metros de altitude. Val Thorens se situa no Vale de Belleville, que comporta mais duas estações. Dois vales adjacentes com suas respectivias estações compartilham suas pistas com as estações do Vale de Belleville, o que faz do complexo o maior domínio esquiável da Europa.

Em Nantes as temperaturas já passavam dos 20ºC na época da saída e o frio e a neve já pareciam coisas de outro mundo. Difícil imaginar que poderia haver neve para esquiarmos e isso era uma preocupação real. Depois de quinze horas dentro do ônibus, com direito a todas as idiotices que as pessoas fazem para manter todos acordados, chegamos em Val Thorens. As estações mais baixas já não apresentavam nenhum traço de neve, mas Val Thorens ainda parecia uma casa de bonecas no meio de um véu branco. Bendita idéia de escolherem a estação mais alta da Europa ou do contrário não teríamos neve.

Preenchemos três ônibus, um total de 150 centraliens. Desse tanto, éramos onze brasileiros: seis EI2 e cinco EI1. Fiquei num quarto de cinco pessoas, com mais dois colegas brasileiros e dois franceses do primeiro ano que não conhecíamos até então. Chegamos lá no sábado dia 23/04 e nos instalamos. Em seguida recebemos as pranchas e as botas, que poderíamos usar a partir do dia seguinte.

O hotel não era ruim, mas algo não me cheirava muito bem. A quantidade de cartazes agressivos era assombrosa:

"É proibido andar com sapatos de ski nas dependências do hotel. Caso você faça isso será penalizado com uma multa de 20 euros"

"Qualquer atraso no check-out resultará em uma multa de 25 euros"

"O barulho depois de 22h00 é proibido. A primeira ocorrência será penalizada com uma multa de 50 euros. A segunda resultará em expulsão"

"Se você desejar fazer o check-ou entre 12h00 e 13h00 deverá pagar uma taxa adicional de 20 euros"

Confessemos que não são mensagens lá muito calorosas. A impressão que eu tive é que o pessoal do hotel só queria ganhar dinheiro à toda custa. Isso também provocou uma impressão de antipatia intensa e a sensação de que algo não sairia bem. Eu não me enganei, mas deixo isso mais pro fim da história.

Quem tem cóccix tem medo

Dos brasileiros que estavam por lá alguns já tinham experiência do ski do ano passado. O Thiago, o Roger e a Patrícia, todos do segundo anos, haviam feito snowboard. O Leo, do primeiro ano, já tinha feito snowboard no Canadá por dez dias e mais três dias de ski no começo deste ano. Os demais eram marinheiros de primeira viagem. Eu, o Fernando, o Fábio e a Ju no snowboard e a Fabrízia, o Diego e o Igor no ski.



Fomos para uma área de treinamento, basicamente a desembocadura das pistas mais próximas à estação.Era uma descida suave, reta e larga. Dezenas de pessoas passavam ali a cada segundo, inclusive criancinhas. Pensei que talvez não fosse tãããããão difícil assim fazer snowboard e que o equilíbrio que eu adquiri fazendo slackline me ajudaria e então me arrisquei a descer sozinho sem nenhuma assistência prévia dos meus amigos mais experientes. Não é que funcionou?

Mentira, foi um desastre. Eu não possuía domínio nem sobre a minha velocidade nem sobre a minha direção, ou seja, uma deriva total, um perigo ambulante. Para evitar uma trombada com alguém eu me atirava no chão e deixava o atrito se encarregar da frenagem. Fiz duas passagens como essa até baixar a cabeça e aceitar que eu tinha que pedir ajuda a alguém.

O Roger então me explicou o princípio. Antes de andar eu tinha que aprender a freiar, ou melhor, a descer a rampa com a prancha perpendicular ao sentido da descida, cravando a lâmina metálica da parte de trás da prancha na neve. Acreditem, isso é muito mais difícil do que parece. Uma distribuição equivocada do peso corporal e você toma para trás. Um deslize qualquer que faça a lâmina na frente da prancha cravar na neve e você capota desastrosamente para a frente.

Próximo passo: a folha. Imaginem a trajetória de uma folha caindo de uma árvore: ela oscila de um lado ao outro, mantendo a mesma superfície voltada para baixo. Pois bem, essa é uma das maneiras de conduzir o snowboard. A pessoa desce um tantinho para a esquerda, com o corpo voltado para a descida e depois desce para o outro lado sem jamais dar as costas para a direção que está descendo. Ora o pé esquerdo está na frente, ora o pé direito e o corpo sempre virado para a frente. Isso é extremamente amador, mas não há alternativa para os iniciantes.

A maneira "correta" de descer é o S. Como o próprio nome sugere, ela consiste em traçar uma trajetória em forma de S. Assim como na folha descemos um pouco um lado por vez, mas a diferença é que a pessoa mantém o seu pé forte sempre na frente. Isso significa que em alguns momentos freiamos com a parte de trás da prancha com o corpo voltado para a descida e em outras com a parte da frente com as costas voltadas para a descida. O principal problema durante o aprendizado dessa técnica é o momento da transição de um lado para o outro, é muito fácil cravar as costas do snow na neve e atterisar feito uma jaca com as costas e a nuca no chão. Caro leitor, cara leitora, a neve é bonitinha, é branquinha e parece fofinha, mas trombar com ela numa queda não tem nada de fofo.

As pistas de ski são graduadas por cor. As pistas verdes são as mais fáceis, seguidas pelas pistas azuis. Em seguida vêm as pistas vermelhas, que apresentam alguma dificuldade por causa de uma inclinação elevada ou uma quantidade grande de obstáculos (desníveis, buracos, etc...). Por fim, no topo da escala de dificuldade vêm as pistas pretas.

Basicamente eu começava o dia numa pista verde chamada Espace Juniors em cuja entrada estava uma placa com os dizeres "pista reservada para crianças menores de 12 anos e seus acompanhantes". É triste, eu sei, mas é o que meu nível permitia naquele momento. É extremamente desconcertante ver uma criança de chupeta na boca (estou falando sério!) descendo uma pista azul de ski enquanto você está no chão cheio de neve na cara depois de uma queda...

Depois de aquecer nas pistas verdes eu era capaz de descer as azuis. Lentamente e em folha, claro. Com alguma dose de coragem e boa vontade eu conseguia fazer o S em alguns trechos mais planos e menos velozes. Consegui até descer uma pista vermelha no quarto dia. No quinto e penúltimo dia, infelizmente, ao tentar fazer o S numa pisa azul eu caí com o cóccix diretamente no chão.

O cóccix, meus amigos, juntamente com as amígdalas e o apêndice faz parte daquela categoria de órgãos que deixaram de ter função e são apenas vestígios do que foram um dia. Eles têm, entretanto, uma particularidade: posto que eles não servem pra nada de útil, eles ainda são partes do nosso corpo e como tal estão sujeitas ao dano e a dor. O cóccix, esse nosso rabo vestigial, não mais do que 10 cm de osso composto por vértebras fundidas num único elemento é um caso exemplar disso. Situado no fim da coluna vertebral, na região sacra (alguém pode me explicar porque raios o alto da bunda é sagrado?!), ele é provavelmente a parte que vai sentir mais fortemente o impacto de um tombo de bunda no chão. E comigo não foi diferente.

A dor, meus amigos, é inimiga da confiança. E a falta de confiança leva a uma técnica imperfeita, limitada pelo medo. Eu caí numa pista extremamente longe da estação e não era capaz sequer de fazer a folha tamanho era o medo de sentar mais uma vez a bunda no chão e sentir uma dor escruciante. Resultado: desci a maldita pista freiando e levei três horas para voltar ao hotel.

Entretanto, no último dia de ski lá estava eu de novo. A despeito da dor na bunda eu recuperei a confiança e já conseguia me virar bem. Foi a primeira vez que eu consegui descer uma pista azul integralmente fazendo o S e foi a oportunidade perfeita para me filmar fazendo isso e passar a ilusão de que eu não era uma negação completa no snowboard. Uma queda de bunda no meio da tarde me fez dar-me por satisfeito e encerrar o dia antes que eu quebrasse o rabo.


Dando adeus aos mercenários do hotel

A noite do último dia foi regada a cerveja numa pequena soirée entre brasileiros. Nós terminávamos todos os dais tão esgotados que nem passava pelas nossas cabeças participar dos eventos organizados pelo staff. A fadiga era tão intensa que nada além das nossas camas passava pelas nossas cabeças. Como não esquiaríamos no dia seguinte finalmente pudemos nos regalar um pouquinho. Entretanto, ainda faltava arrumar os quartos para o check-out.

Nós arrumamos as coisas por cima antes de dormir e deixamos para o dia seguinte apenas a limpeza do chão. Nosso check-out estava marcado para as 9:30. Nosso quarto era um dos únicos que não tinha carpete. O materail de limpeza disponível se limitava a um aspirador de baixa potência, uma vassourinha de mão e um balde com um esfregão. Limpamos o melhor que podíamos, mas visto que não tínhamos um produto adequado para lavarmos o chão nos limitamos a aspirar.

A recepcionista chegou no nosso quarto às 9:25, entrou rapidamente, olhou e foi embora sem dizer uma palavra. Às 9:37 ela voltou para a vistoria e a primeira coisa que disse foi que o chão estava nojento e que teríamos que limpar. Por que não disse isso quando passou lá cinco minutos antes? Retrucamos dizendo que não tínhamos o produto adequado para isso e ela respondeu cinicamente que o produto estava à venda por 6 euros na recepção. Ela disse também que já tínhamos 7 minutos de atraso e que se ainda fôssemos limpar o chão levaria mais 10 minutos no mínimo e que, portanto, ela ia nos multar em 25 euros pelo atraso. A discussão começou...

Igor: Isso é abusivo!
Recepcionista(mulher): Vocês conheciam o regulamento e deveriam ter respeitado.
Igor: Vocês fazem isso para ganhar dinheiro!
Recepcionista (homem): É assim que nós somos.


Éramos o último apartamento do andar a ser vistoriado. Os outros já haviam deixado o andar e muitos foram deixando os sacos de lixo no corredor. O recepcionista viu aquilo e reclamou. Minha vez de responder.

Angelo: Esse lixo não é nosso. Você não pode nos culpar por ele.
Recepcionista: Vocês são um grupo, eu não me importo se foram vocês ou os colegas de vocês. Esse lixo tem que sair daí.
Angelo: É absurdo nos mandar retirar esse lixo.
Recepcionista: Você tá vendo mais alguém no andar? Só sobrou vocês. Vocês vão ter que tirar.


Terminamos tendo que limpar o chão, o que fizemos apenas com água e evacuar todos os sacos de lixo do andar, sabendo que nenhum deles era nossa responsabilidade.

Felizmente, ou não, não fomos o único grupo prejudicado. Outros passaram por situações ainda piores. O staff ski então puxou a responsabilidade para si e pagou as multas de todos os grupos penalizados por atraso.

Por curiosidade procuramos o tal hotel no Trip Advisor quando voltamos para Nantes para saber as opiniões a respeito. O conceito era péssimo, desaconselhado por 77% dos treze usuários que haviam comentado.

Acredito que tenha sido esse o único ponto negativo de toda a semana de ski, pois o cóccix se recupera mas o azedume causado pela equipe do hotel fica um bom tempo....


Considerações finais

Eu entreguei o snowboard com um lado sensivelmente mais desgastado que o outro (o lado de trás) por causa do uso intensivo em folha e de algumas passagens não voluntárias sobre pedra ou gelo.

As luvas que eu usei foram diretamente para o lixo no fim da semana. No fim do primeiro dia cada uma delas tinham um furo de aproximadamente 1 cm de diâmetro na camada mais externa no centro da palma, frutos de várias quedas e tentativas desesperadas de freiar com as mãos. Os furos foram crescendo em superfície (mais ou menos um centímetro por dia) e profundidade (no fim da semana os furos atravessaram todas as camadas).

Aparentemente eu voltei mais magro do ski. Pelo menos eu não me senti tão desconfortável com o meu corpo ao me olhar no espelho, não tanto quanto antes da semana na montanha.

O cóccix vai bem, obrigado. No dia da lesão eu não conseguia me sentar. Pegar os teleféricos era um suplício, visto que os assentos eram duros e o balançado provocava um impacto bem desagradável. Pela noite tive que dormir de bruços. No dia seguinte já estava consideravelmente melhor, até que caí de novo. Apesar da queda ter sido suave, foi o suficiente para resgatar a memória da dor e me fazer parar. Maldito seja o cóccix.

O nome do hotel é Odalys Siveralp. Xinguem muito no twitter. Para maiores informações e declarações apaixonadas de ex-hóspedes clique aqui.



Parrainage: o outro lado da moeda

Na integração do ano passado eu falei sobre a parranaige em um dos meus posts. Neste ano eu participei de novo dessa tradição, mas conheci o outro lado, o lado de ser padrinho (parrain). Vou fazer um pouco de suspense barato e falar dos afilhados(fillots) dos meus colocs antes de falar do meu (ou minha) afilhado(a).


Charles, o fillot do Vladimir

O Vladimir é uma figura, um cara cheio de particularidades. Uma delas é o fato de ele ser meio homofóbico. Não pense no cara que sai de noite num carro jogando pedras em travestis, não é nada disso. Ele simplesmente não consegue aceitar que isso pode ser uma escolha racional de alguém e vê mais como uma doença ou algo do tipo. Numa ironia do destino, o Vladimir virou parrain do Charles, um cara que segundo os indícios mais superficiais e visíveis nos leva a crer que não é hétero.

Isso chateou o Vladimir no início. Não sei que tipo de gente ele esperava como fillot, quais informações ele colocou na ficha de parrainage dele, mas certamente não era alguém como ele. Eu e o Thiago andamos conversando com ele, tentando convencê-lo de que não era justo que ele se chateasse por causa disso. Em nenhum momento ele tratou-o mal, mas era visível que ele mantinha uma certa distância.

Falemos do Charles. Ele é uma exceção em relação à média dos centraliens, pois ele vem de Nantes e ainda mora na casa da família dele. A maior parte dos alunos vem de outras partes da França e mora na residência do lado da Escola ou em algum apartamento na cidade. Ele é um sujeito tranquilo, de fala mansa e sorridente, apesar de tímido. No primeiro jantar que fizemos com nossos fillots aqui em casa descobrimos que ele tocava piano desde os 6 anos. Ele infelizmente não pôde mostrar o talento dele, pois não temos sequer um teclado aqui.

A segunda refeição, desta vez organizada por eles, foi feita na casa dele, um sobrado simpático no Noroeste de Nantes. Fatos dignos de nota: uma quantidade imensa de LPs e CDs cobria a parede da sala. Eu e o Thiago garimpamos até alguns discos de intérpretes e compositores brasileiros como Chico Buarque e quarteto em Cy. Debaixo da escada um piano. Depois de muita insistência ele aceitou tocar pra gente, apesar dizer que estava enferrujado e coisas do tipo.

Eu não posso dizer que ele tocou bem, não é suficiente. Ele tocava com uma naturalidade e uma leveza embasbacantes. Quando aplaudíamos e elogiávamos ele dizia que era uma música simples, que não era nada demais, mas esse gesto não era de forma alguma revestido de falsa modéstia. Quando ele tocava o semblante do Vladimir se iluminava. Quando voltamos pra casa um dos assuntos mais falados foi o concerto particular que o Charles nos deu e os comentários do Vladimir eram de orgulho genuíno de ter um fillot tão talentoso.


Shengnan e Jing, os fillots da Katinka

A Katinka, como membro do BDE (grêmio de estudantes), se encarregou de uma parte da organização e criação das duplas de parrain-fillot. Ela terminou adotando ela mesma dois chineses que estavam órfãos até dez minutos antes da soirée de parrainage, contrariando a recomendação de que estrangeiros não devem apadrinhar estrangeiros. Era isso ou deixar os dois órfãos, então eu acho que não há problema.

A Shengnan é uma chinesinha bochechuda e sorridente, com uma franjinha caindo sobre a testa e quase chegando nos olhos. Não lembro de ter cruzado com ela em algum momento em que ela não estivesse sorrindo. Diferente da maioria dos chineses, ela tinha um bom nível de francês já na integração, o suficiente para conversar durante bastante tempo sem nenhum bloqueio.

Pelo que eu ouço, ela é super integrada e se dá muito bem com os brasileiros. Ela é autora de alguns comentários célebres feitos durante a reunião dos novatos estrangeiros e administração da escola. A reunião, marcada para 12:30, coincidiu com o horário de almoço. No fim da reunião, uma das professoras perguntou se alguém havia alguma dúvida ou sugestão. Aparentemente, num acesso de ironia, a Shengnan sugeriu que eles "trouxessem biscoitos e suco na próxima reunião feita em tal horário". Haduken!

O Jing é o chinês pop da turma dele. Conheci-o quando eu estava em Paris fazendo meu estágio e ele estava fazendo curso de francês. Ele morava a duas portas do apartamento de uma amiga minha. Naquela época eu me comunicava com extrema dificuldade com ele, visto que o nível de francês dele não era bom. Isso melhorou bastante após algumas semanas de integração. O Jing usa uns óculos de armação redonda bem grandes e eu sempre tive a impressão de que o cabelo dele tem uma cor ligeiramente acaju, mas se é pintado ou natural eu não sei. Ele também está sempre sorrindo, o que faz os olhos dele desaparecerem.

Ele me parece ser o sucessor do Bin, o chinês da minha turma que dança brake. O Jing participou das campanhas para o BDS (grêmio de esportes) e no vídeo da chapa dele havia uma cena em que ele dançava hip hop no hall da Escola e muito bem, por sinal. A chapa dele foi eleita e ele e um brasileiro, o Lucas namorado da Katinka, farão parte do BDS no ano que vem.


Diane, a fillote do Thiago

Desconfio do que o Thiago possa ter colocado na ficha de parrainage dele. Ele é apaixonado por música e sem dúvida ele deixou isso claro. E a fillote que acharam pra ele foi a Diane. Comecemos por uma descrição física. A Diane é atraente e isso ficou claro na integração: nas festas havia um sem fim de caras que chegavam nela e no WEI foi a mesma coisa. Eu a via andando quase sempre sozinha nas primeiras semanas, até algum cara vir falar com ela. E sempre acontecia a mesma coisa: eles conversavam, ela sorria, o cara sorria e acabava por aí. Ela nunca me pareceu interessada nas investidas dos centraliens.

O Thiago descobriu conversando com ela na soirée de parrainage que ela toca violino e os vínculos que ligaram os dois no apadrinhamento foram ficando claros, embora ele seja metaleiro e ela seja violinista clássica. Houve uma empatia muito bacana entre os dois logo de cara, foi muito legal. Ela tocou violino aqui em casa no primeiro jantar que fizemos, e tirou de ouvido a música do mamute ("Um mamute pequenino queria voar...") enquanto cantávamos. Deixo imaginar a cara de surpresa dela quando chegamos no refrão ("Merda! O mamute virou merda!"). Ela toca extremamente bem e isso estimulouo Thiago a retomar os estudos de violino dele e trazer o instrumento que ele tinha no Brasil para cá. Durante a Central'Ac, espécie de concurso de calouros da escola, ela tocou violino enquanto um colega dela tocava violão e cantava. Eles não ganharam, mas estavam no páreo, pode apostar.

Para terminar, a Diane participou das campanhas integrando uma chapa pro BDA (grêmio de artes). A chapa dela foi eleita e ela estará no BDA ano que vem.


Ariane, a minha fillote

O meu parrain Jean-Baptiste (JB, pronuncia-se "Ji Bê") foi extremamente simpático comigo. Ele me ajudou com a mudança, transportando minha cama e a cama da Katinka no carro dele. Ele sempre procurou saber se eu estava gostando da escola, se eu estava integrado. Eu não tenho nenhuma crítica a fazer dele e, pelo contrário, sou todo elogios. Confesso que ele foi um modelo pra mim e que eu quis ser tão elgla quanto ele pro meu fillot, não importasse quem fosse.

Lembro rapidamente que a soirée de parrainage consiste em deixar o fillot descobrir quem é o seu parrain através de um objeto que este último deixou para ele, perguntando aos veteranos quem poderia ser o dono objeto. O JB deixou um rato de pelúcia, referência ao mascote da chapa dele do BDA e que foi eleita. Diferente da maioria dos outros veteranos, ele me deu o objeto. Eu decidi que faria o mesmo, que compraria um objeto e daria de presete para o meu fillot. Eu comprei com a ajuda dos meus pais no Brasil uma garrafinha de areia, uma peça de artesanato típica do Ceará. Para permitir que meu fillot me encontrasse eu passei a soirée usando um chapéu de couro. Minha idéia era que ele acharia alguém que identificasse aquilo como sendo brasileiro e o primeiro brasileiro que ele achasse diria que era cearense. Sendo eu o único cearense da turma meu fillot não tardaria a me encontrar.

Mas tardou. Eu comecei a zanzar pelo hall até que eu vi uma menina com a bendita garrafa. Magrinha, olhos escuros, rabo de cavalo em um cabelo preto, liso e longo. Ela estava vestida de um jeito bem simples, quase sem graça. A primeira impressão que ela passava era justamente essa: sem graça. Ela olhava perdida pra multidão tentando achar o parrain dela. Soube mais tarde que alguém tinha me identificado como parrain dela e havia me descrito como um brasileiro de óculos. O diabo é que eu tava usando lente naquele dia. No fim das contas ela me achou e creio que o chapéu não ajudou em nada.

Ela se apresentou como Ariane e eu fiz um dos comentários mais nerds da minha vida: "Ariane que nem o foguete?". Isso pareceu surpreender ela de tão inusitado que foi o comentário. Mas sim, Ariane que nem o foguete. Tentei descobrir os vínculos que me legavam a ela. Eu coloquei na minha ficha que eu gostava de música, admitindo que o barulho que eu faço com meu saxofone e os acordes que eu arranho no violão sejam música. Mas coloquei também que era malabarista e procurava alguém interessado nisso. Perguntei se ela fazia malabarismo e ela disse que não. Depois ela me disse que estudava violão clássico e o vínculo ficou claro. Em pouco tempo estávamos junto com meus colocs e os fillots deles marcando uma data para o primeiro jantar.

Lembram a impressão de ser sem graça? Esqueçam isso. A Ariane é tudo, menos sem graça, e eu não demorei para descobri isso. Embora ela tenha uma aparência ordinária em uma primeira olhada, ela tem uma postura, uma leveza no andar, uma maneira de se portar que faz ela parece maior do que realmente é. Dona de um humor refinado, irônico, ela é autora de vários comentários e trocadilhos que me deixaram desconcertados de tão perspicazes. Ela tocou violão aqui em casa e me botou no chinelo. No repertório, várias canções populares francesas que eu ignorava até então.

Tantos atributos não passaram incógnitos e agradaram muita gente por aí. Cito sobretudo um russo que eu conheço, que dorme no quarto do outro lado do corredor e que ficou doidinho por ela. Apesar da minha torcida, os dois não deram certo. Ele inventou de fazer o Pouce d'Or com ela, a despeito de eu e o Thiago aconselharmos a não fazer isso. O Pouce d'Or é fantástico, mas é também fonte de tensão e não raramente provoca atritos entre a dupla. Logo, não é a ocasião ideal para um encontro romântico.

Me dou super bem com a minha fillote e sou muito satisfeito de ser o parrain dela. Já fizemos no mínimo uns quatro jantares parrain-fillot juntos e todos eles sempre foram muito bacanas. Para terminar, ela foi a selecionada para representar a Escola no programa Questions pour un champion, uma espécie de versão local do Show do Milhão para universitários. Neste momento ela está em Paris respondendo às mais variadas perguntas de cultura geral e eu estou aqui torcendo por ela. Minha fillote me mata de orgulho!


Fapinho, meu afilhado brasileiro

Como já é tradição, os brasileiros fazem sua própria cerimônia de apadrinhamento. Diferente dos franceses, os pares de afilhado e padrinho não são feitos através de um objeto, mas através de descrições. Nós lemos as descrições dos veteranos sem identificar os nomes e os novatos elegem o bixo que mais corresponde àquela descrição.

Eu tenho a fama de ser o cara mais sem noção dos brasileiros da minha turma. Os motivos são variados, embora eu seja um cara tranquilo:
  • Minha participação na Fanfrale
  • Minha aventura no Pouce d'Or
  • O fato de eu fazer malabarismo com fogo
  • O mergulho que eu dei no rio no outono a 15ºC quando fizemos nosso churrasco com os bixos
  • Minhas histórias de bebedeira
  • Os mergulhos que eu dei dos precipícios da Côte d'Azur
Tudo isso contribuiu para criar a imagem de um cara sem noção, inconsequente. Não digo que é verdade, mas também não digo que não é.

Nessa história escolheram o Fábio, conhecido como Fapinho (o diminutivo é uma ironia), para ser meu fillot brasileiro. Da mesma maneira que o meu parrain brasileiro, o Gabriel, o Fapinho é carioca. Ele faz controle e automação na UFRJ e foi escolhido para ser o meu fillot adivinhem por quê? Porque ele é considerado o cara mais se noção dos brasileiros deste ano. Dono de um humor ácido, de comentários curtos e hilários na lista de email, o Fapinho é querido por todo mundo. Rei de Amsterdam e chegado numa bebidinha, a companhia do cara é impagável. Sempre disposto a receber a galera na casa dele pra tomar uma cervejinha antes das festas da École.

Pouce d'Or Parte 4

12) Contra todas as probabilidades
Chegamos numa estação de serviço a oeste de Paris e nada surpreendentemente fizemos isso entrando por uma contramão. Estacionamos na loja de conveniência e descemos. Um carro acabava de chegar. Eu preciso contar o resto? O título dessa seção não lhe sugere algo? Você não acredita? Pois é, eu até agora não acredito também. O Tobias e a Anaëlle desceram do carro. Espanto, surpresa, um abraço apertado e todos expressaram a intenção de transformar nosso grupo no único quarteto do Pouce d'Or. Nos despedimos dos dois malucos de Paris após eles nos mostraram orgulhosos o motor V6 responsável pela nossa aventura nas periferias da cidade.

No posto não paravam de chegar carros do oeste. Eu e o Loïc conseguimos sem muita dificuldade uma carona num motor-home que iria para Nantes em meia-hora, mas não havia espaço pros outros dois. Voltamos e explicamos a situação. Decidimos ajudá-los a procurar uma carona. Terminamos por encontrar um motorista que poderia levá-los. Mas algo estava errado, tínhamos nos encontrado pela terceira vez ao acaso e essa então tinha sido a mais surpreendente: a última vez que nos víramos foi ainda na Alemanha. Explicamos a situação para o homem. Ele pareceu se divertir muito com toda a história e aceitou nos levar todos para Nantes. Partimos às 21:45

Ele era o diretor financeiro de uma divisão de um grande grupo industrial francês. A sua história era de um legítimo self-made man. Chegou ao seu emprego atual sem diploma universitário, apenas galgando as posições dentro da empresa, que ele definiu como uma empresa que procura competência e não está nem aí para diploma. Perguntamos, como de praxe, se não o incomodávamos. Ele afirmou alegremente que ele gostava que estivéssemos com ele, pois, do contrário, ele sentiria sono, pararia para dormir e chegaria ainda mais tarde. Nossas histórias o mantinham acordado e o fato de chegar mais cedo em casa o agradava.

Terminamos por chegar em casa muito mais cedo do que esperávamos, às 00:20. Tempo suficiente para colocar um pouco do sono em dia. Tiramos a derradeira foto da nossa viagem, já com a residência ao fundo e à esquerda.




13) A Escola desperta ao fim da aventura
Acordei mais cedo pela manhã, para chegar no Bureau de Estudantes antes das oito e comprovar nossa presença. O assuntos das conversas pela manhã era a competição. A histórias, os destinos, todos os assuntos relacionados ferfilhavam nas conversas nos corredores. Acontecimentos inusitados e situações inacreditáveis eram contadas e passavam de boca a boca durante todo dia. Àqueles que conseguiram uma boa distância, aos que ultrapassaram os 1000 km, tapinhas nas costas e felicitações. Havia também as histórias de fracasso, que nem por isso eram menos interessantes que as histórias de sucesso. Alguns eram vistos como heróis, outros como malucos, outros como fracassados, outros como desocupados. Ao longo do dia recebíamos informações das equipes que ainda não tinham voltado. Os loucos da Polônia estavam ainda na Alemanha ao meio-dia e um deles perdera sua carteira.

O resultado saiu pela tarde. Os campeões da sétima edição eram uma dupla de alunos do segundo ano que conseguiram chegar a Lisboa. Em segundo lugar, um empate entre duas duplas: 1211 km até Munique. Nós, o quarteto oficioso que percorreu mais de 1000 Km juntos. Sensação maravilhosa de conseguir um resultado bom, ainda que não tenhamos sidos os vencedores. Conseguimos uma honrosa sexta colocação no Top 25 da história da competição.

Atualizações do front: a história de Lisboa era uma mentira. O presunto (4,62 kg na verdade) é nosso e já tá na geladeira!

Eis o link (em francês) com os resultados.


14) Anedotas de outras equipes
Como você pode ver, meu caro e exausto leitor, eu passei por uma aventura e tanto. Provavelmente a maior da minha vida. Não é ousado demais afirmar que outras equipes passaram por muitas situações tão engraçadas quanto e eu me furto a citar algumas delas.


O método Tanguy
Tanguy (pronuncia-se Tanguí) é o cara que foi eleito Mister Bus no meu ônibus. Ele bolou um método muito interessante para tentar conseguir caronas. Como eu disse antes, muitas pessoas têm medo de dar carona, pois temem que os caroneiros sejam mal intencionados. Foi por isso que o Tanguy fez o seguinte artifício:
Uma carinha sorridente e um cartaz que diz "nós somos gentis". Apesar disso, nós sabemos que existem muitos motoristas que não dão caronas porque são uns tremendos de uns babacas. O método Tanguy também prevê esses casos:
Ele me confessou que em um determinado momento um carro buzinou ao longe e reduziu a velocidade ao se aproximar. Ele jurava que ia receber uma carona. No entanto, o motorista continou em marcha lenta e passou por eles com o dedo médio em riste (o jeito bonito de dizer que o cara tava dando cotoco). Acredito que a plaquinha tenha sido muito bem usada.


Caronas com romenos
Foram motoristas romenos que possibilitaram o recorde do ano passado, e que continua invicto depois desta edição. Não é de surpreender que muitas pessoas quisessem pegar carona com romenos, embora isso seja o tipo de coisa que o acaso escolhe, não nós.

E de fato algumas equipes conseguiram, mas a coisa não funcionou tão bem como no ano passado. Uma equipe entrou num carro onde havia uma pistola no banco de trás. É o tipo de carro onde alguém prudente não entraria.

Outra equipe conseguiu carona com um comboio de romenos, com cinco carros de luxo que iam de Cadillac a Mercedez-Benz. O motorista deles, um rapaz de apenas dezenove anos, disse que elas haviam acabado de comprar os carros. Durante toda a viagem ele se comunicou com os outros motoristas com o celular e com sinais de luz. Um pouco suspeito, não acha?


O troféu échec
Échec significa fracasso. Esse prêmio é quase tão valioso quanto o prêmio ao vencedor. Uma bela história de fracasso é difícil de conseguir. Aquele fracasso retumbante, pungente, que não deixa dúvidas de quem foram os maiores perdedores. E se os caras tiverem espírito esportivo, eles vão saber se divertir com o fato.

Uma equipe em particular estava bastante cotada para o troféu. Eles conseguiram a primeira carona às 13:30 e eu gostaria de lembrar que a partida foi dada às 09:00. Descrentes da sua viagem, eles decidiram apenas dar a volta em Nantes, passando por todos os entroncamentos do anel viário da cidade. Voltaram no fim do dia. Échec total.

No entanto, uma outra equipe entrou no páreo com sérias chances de ganhar. Lembra-se dos caras da Polônia? Pois é. Após pegar carona com um gay que os assediou, andarem a 220 km/h (em média) em outra ocasião, andar num caminhão de vacas e chegar com 24 horas de atraso eles se tornaram os mais fortes concorrentes ao troféu.

Infelizmente, um dos integrantes não tem muito espírito esportivo e mandou esta imagem para todos os que cogitam votar neles para o prêmio. O fato suscitou alguns celeumas na lista de emails do grupo e os ânimos se exaltaram um pouco. Mas o fato é que eles foram imprudentes, não previram que a volta era mais difícil e sofreram com as conseguências disso. Que culpa os outros têm? O melhor é relaxar e gozar, aproveitar as boas histórias que eles devem ter para contar também e se divertir junto com os outros. Esse é o espírito do Pouce d'Or, e do qual eu compartilho integralmente: o lugar para onde se vai não importa, o importante é o que se traz de lá.

Pouce d'Or Parte 3

9) Um gostinho de derrota
Quando chegamos, como já havia virado costume, renovamos nosso acordo de independência de caronas. Em meia hora eles conseguiram uma carona. Havia espaço apenas para três pessoas, então sobramos.

Zanzamos pelo posto por mais meia ou mais. Ouvimos muitas negativas e houve até pessoas que se apressassem para entrar no carro com medo de nós. Isso nos abateu. Para completar, o cansaço dificultava os sorrisos e mesuras que fazíamos no começo da viagem. Na mão, debilmente segurado, o cartaz "Frankreich". Por fim uma senhora aproximou-se e tentou dizer algo. Ela só falava alemão, mas conseguimos entender que ela estava indo para uma cidade bem próxima da fronteira com a França. Olhamos no mapa e vimos que não era um bom negócio, pois a estrada que seguia de lá até o outro lado da fronteira era pequena e provavelmente seria difícil conseguir uma carona.

Resolvemos aceitar uma carona até a próxima estação de serviço. No volante, um rapaz vietnamita que eu não consegui identificar se era filho de criação ou marido da mulher. Também não estávamos com muito saco de fazer os malabarismos linguísticos no papelão e passamos quase toda a viagem em silêncio.

Chegamos na estação seguinte e demos de cara com um carro de placa francesa. Agradecemos efusivamente pela carona, mas a pressa para abordar o motorista francês antes que ele partisse nos fez esquecer de tirar a foto com nossos benfeitores. Uma pena, pois o francês nos negou a carona. Estávamos próximos de Sttutgart. Víamos muitos carros de placas da Bélgica e de Luxemburgo, o que poderia ser interessante para nós, mas ninguém parecia disposto a dar carona.

Não sei quanto tempo ficamos lá, mas estavámos muito cansados da noite mal-dormida e o tempo parecia se arrastar. Concluímos que uma placa pedindo carona para a França talvez assustasse um pouco os motoristas e decidimos escrever o nome da cidade mais próxima em que podíamos conseguir boas caronas: Mayheim. No momento em que escrevemos isso, um rapaz que já nos olhava há algum tempo com certa pena pareceu subitamente ter a atenção atraída. Ele se aproximou do seu carro, cochichou com a moça que estava no banco da frente e veio em direção a nós. Ele ia para Mayheim e nos oferecia uma carona.

Entramos no carro com um ânimo renovado e com um semblante que nada lembrava o abatimento de outrora. Conversávamos em inglês com os dois. Ele, um estudante de engenharia. Ela, uma estudante de direito. Contamos nossas peripécias. Não éramos mais só uma dupla de malucos pegando carona. Éramos uma dupla de malucos que tinha conseguido atravessar a França e metade da Alemanha em um único dia. Já tínhamos um currículo e isso começava a interessar as pessoas, a divertir, a ser um chamariz para uma boa prosa.

A conversa orbitou em torno das nossas histórias da viagem. Enquanto a prosa rolava eu prestava atenção nas estradas alemãs: largas, bem cuidadas, velozes. Súbito, passa uma Ferrari rasgando o asfalto do nosso lado e três carros de passeio que hilariamente tentavam persegui-la.

O jovem casal fez a gentileza de passar da saída que eles pegariam para nos deixar em uma estação de serviço mais movimentada. Nos deixaram o email e pediram notícias da viagem. Segue uma foto deles, tirada a 150 km/h:


Sim, ela estava com medo.


10) Quando o desespero começa a bater...
Chegamos na estação de serviço em Mayheim. Percebemos de imediato que o lugar era bastante grande e havia muitos carros estacionados. Utilizando a estratégia que utilizamos na vez anterior, fizemos uma placa para a próxima cidade: Saarbrücken. O casal nos ensinou a reconhecer placas de carro dessa cidade e de outras que pudessem ser interessantes.

A primeira coisa que fizemos foi identificar os carros estacionados que poderiam seguir viagem na direção da França. Encontramos dois carros com placas de Paris. Decidimos que cada um vigiaria um e abordaria seus ocupantes. Em quinze minutos os ocupantes do carro que eu vigiava apareceram. Era um casal de meia idade. Eu os abordei, contei um pouco a nossa história e eles me disseram que não estavam voltando para a França, mas saindo dela. Na verdade, eles estavam indo para Praga. Nesse momento deu aquele sentimento horroroso, que acredito que nem nome tenha, o sentimento do "e se". E se eles tivessem viajado no dia anterior? E se nós os tivéssemos encontrado? E se tivéssemos ido para Praga com eles? Um excelente atalho para sentir-se frustrado.

Os integrantes do outro carro não apareciam e enquanto isso fazíamos algumas outras abordagens, todas mal-sucedidadas. Embora houvessem algumas pessoas que visivelmente iam para Saarbrücken ou proximidades, nenhuma se propunha a nos levar.

A espera já passava de duas horas. Não conseguíamos acreditar que os integrantes do outro carro pudessem passar tanto tempo no restaurante. O Loïc perambulava entre os carros, procurando uma boa oportunidade. Eu já havia me largado sobre um banco, a mochila de um lado, e do outro o cartaz Saarbrücken e um mini-cartaz com um rosto sorridente desenhado. A cena deveria ser de uma ironia cômica, pois o meu semblante não tinha nenhuma semelhança com o cartãozinho que eu portava. Já não pensávamos em vitória, a nossa preocupação agora era chegar a tempo. Nossos cálculos pessimistas apontavam que não haveria tempo de margem caso acontecesse alguma eventualidade. Considerávamos para tanto que chegaríamos em Paris em três ou quatro pernadas e somávamos o tempo necessário para conseguir uma carona em cada parada.

Finalmente três pessoas falando francês saíram do estabelecimento. Ao vê-los eu tive a nítida impressão de que seria um novo fracasso, pois todos tinha um aspecto bastante esnobe, com roupas muito elegantes e um porte muito peculiar que é possível perceber nesse tipo de gente. Ainda assim os abordei e pedi uma carona para Saarbrücken. Eles hesitaram um pouco, perguntaram para onde íamos. Disse que nosso destino era Nantes via Paris. Eles consentiram em nos levar até Metz.

Não eram todos franceses. Havia uma italiana e um holandês. Eram habitués do meio artístico e voltavam de Praga, onde a mulher havia acabado de publicar um livro. A conversa deles orbitava sempre em torno de artes plásticas e arquitetura. A música que tocava dentro do carro: ópera. Nós nos sentíamos pouco à vontade nesse ambiente, ainda que eles fossem muito simpáticos. Aos poucos nós nos abrimos e eles também. Eles revelaram algumas das suas histórias de caroneiros, afinal todo mundo já foi jovem um dia e tem algo do tipo para contar. Um deles havia até participado de uma corrida maluca, cujo objetivo era chegar o mais longe possível de carro sem dormir. Ele foi o vencedor, tendo ido até a Síria.

Sinto que eles foram ganhando mais confiança na gente e eles nos ofereceram uma carona para Reims. Poucos minutos depois eles disseram que nos levariam até Paris, que era o destino deles. O fato de eles não nos terem oferecido a carona diretamente para Paris deve-se, eu creio, à necessidade que eles sentiram de nos sondar, de saber nossas intenções e se éramos pessoas confiáveis.

Eles nos deixaram num posto de gasolina num dos anéis viários de Paris, a leste da cidade, por volta das 19:30. Nossa viagem se aproximava do final. Faltava mais uma ou duas pernadas em direção ao Oeste, rumo a Nantes. Se não conseguíssimos uma carona direto, talvez uma passando por Le Mans ou Angers.


11) Nunca cante vitória antes do tempo
Tudo muito bom, tudo muito legal, salvo que restava ainda atravessar Paris. Nós sabíamos que era difícil pegar uma carona diretamente para o oeste, mas alguém que atravessasse a cidade não deveria ser tão difícil assim.

Ledo engano, quase todos os carros que chegavam no posto tinham placa parisiense e entrariam na cidade. Não eram raros os casos em que eram dirigidos por moradores das redondezas que utilizavam o posto regularmente. Os poucos carros de regiões que podiam nos interessar estavam cheios ou seus motoristas negavam caronas.

Era extremamente frustrante saber que estávamos tão perto do seu objetivo e não conseguíamos sair do canto. Passamos por uma situação muito desagradável também. Uma moça estacionou um Porsche e poucos minutos depois um homem estacionou um furgão ao lado. Decidimos pedir carona ao cara do furgão. Ele franziu o cenho, virou pra moça e gritou "Ei, senhorita! Esses dois aqui querem pegar uma carona no seu Porsche". Em seguida ele entrou no seu carro com um sorriso de sarcasmo. Muita sacanagem, ficamos numa situação extremamente constrangedora. Não custava nada recusar feito gente.

A saliva estava começando a ficar rala para explicar tantas vezes a nossa história. Ela era interessante e isso facilitava a conversa com os motoristas, mas mesmo assim não conseguíamos nada. Desenhamos três grandes pontos num pedaço de papelão: Nantes, e Munique nas extremidades e Paris ao centro. Uma grande seta ligava Nantes e Munique e escrito sobre ela estava "ontem". Uma seta de Munique a Paris estava assinalada com "hoje". Uma pequena seta pontilhada e ladeada por um ponto de interrogação ligava Paris a Nantes. Sobre todo o conjunto a frase "Amanhã: aula às 08:00". Isso de fato melhorou a comunicação, pois a compreensão da nossa história era quase imediata ao mostrarmos a placa, mas não obtivemos nenhum sucesso.

Esperávamos havia uma hora e meia. Um Volkswagen de um modelo ultrapassado e que não existe no Brasil parou numa das vagas e podia-se ouvir a música que saía de dentro ao longe. Dois rapazes de cabelos raspados saíram. Um deles entrou na loja de conveniência, enquanto o outro nos olhou com um interesse algo sarcástico e começou a nos interrogar, aproveitando para fazer algumas brincadeirinhas sobre nosso infortúnio. Como ele não pareceu ser o tipo que dava caronas e ficou lá rindo da nossa situação, nem tentamos pedir.

Foi então que ele finalmente perguntou de onde vínhamos e eu mostrei nosso cartaz. Ele ficou atônito e o cigarro escorregou para o canto da boca. Ele ficou interessado e admirado. Quando o companheiro dele saiu, ele foi logo contando nossa história. O outro perguntou então se nós tínhamos limitação de tempo e explicamos que tínhamos que chegar até as 08:00 do dia seguinte. Ele disse: "entrem logo no carro que a gente leva vocês pro oeste de Paris". E virando-se para o primeiro: "seu imbecil, você fez eles perderem dois minutos com conversa fiada. Anda logo, acelera". E fomos. O motor roncou alto e o cara passou a segunda marcha um pouco abaixo dos 90 km/h.

Eles costuravam velozmente entre os carros que estavam nas vias periféricas de Paris e não aceitavam que alguém os ultrapassasse. Caso isso acontecesse, eles tomavam a dianteira de novo e ainda fechavam o sujeito. Em boa parte do tempo o ponteiro do velocímetro orbitou em torno de 150, numa via cujo limite era 90. Em uma manobra mais perigosa, o Loïc ficou tão assustado que apertou o meu joelho. Em um determinado momento perguntamos o emprego deles e a resposta foi "desmontamos carros". Isso me pareceu um pouco ilegal e não segui adiante nas perguntas, mas eles continuaram falando. Eles modificavam motores de carro para aumentar a potência e o carro em que estávamos não passava de uma carcaça uma semana antes. Eles nos contaram que o levaram para a Alemanha para testar a melhoria e estavam a 250 km/h quando uma Ferrari encostou e deu sinal de luz pedindo passagem. Pé embaixo, 270 e os sinais de luz continuaram. Por fim eles desistiram e a Ferrari passou voando baixo ao lado.

Perguntamos se não estavamos atrapalhando, mudando o caminho deles. Eles explicaram que não, que tinham apenas saído para comprar cigarros. Às duas da tarde. Perguntamos o que tinha acontecido nessas quase oito horas até o momento em que nos cruzamos. "Minha namorada chamou pra gente ir pro cinema, depois uns amigos nos chamaram pra tomar pastis, depois fomos dar uma volta e resolvemos comprar os cigarros agora". Eles disseram que estavam gostando de levar dois malucos no carro e que a nossa história os divertia muito. Já próximo de chegarmos eles no deram email e telefone e pediram que quando fôssemos para Paris os contactássemos.


Já tenho bastante história para contar para os meus netos, não acha? Mas eles vão demorar muito para nascer ainda. E ainda falta a parte final para contar para você. Você não vai querer perder o desfecho da história, vai? Olha só:

  • Os resultados
  • Anedotas de outras equipes
- Métodos inusitados
- Viagens com romenos
- Fracassos colossais


Você já chegou até aqui, para chegar no fim só falta um fôlego!

Pouce d'Or Parte 2

4) Um enorme coincidência
Última estação de serviço antes Metz. Frio. Chuva. Primeiros sinais de cansaço. Alguns fracassos retumbantes em conseguir carona. Quarenta minutos depois de chegarmos, a surpresa: de um carro recém-chegado descem dois centraliens que também faziam o Pouce d'Or. Eram o Tobias e a Anaëlle, ambos do primeiro ano. Um detalhe muito importante: o Tobias é alemão, estudava em Munique antes de vir para França e era para lá que ele ia na competição.


Fizemos um acordo de que a prioridade das caronas era minha e do Loïc, pois havíamos chegado primeiro. E vieram mais 80 minutos de fracassos retumbantes até que abordamos um cara num grande furgão da Ford com placa alemã. Ele era alemão e falava quase nada de francês, então desistimos e deixamos a vez para o Tobias negociar. E ele conseguiu a carona diretamente para Munique, passando por Strasbourg. O único problema é que só havia lugar para três.

Conversa vai, conversa vem, o alemão decidiu levar os quatro: o Tobias na frente, eu e a Anaëlle sentados atrás e o Loïc jogado no meio das bagagens do homem. Seguimos viagem com ele e não tenho muita coisa para falar a seu respeito, pois eu não entendia nada do que ele falava. E, a propósito, ele falava muito, fosse com o Tobias ou ao celular. A viagem foi cheia de momentos assustadores, pois ele tinha o hábito de gesticular enquanto falava com o Tobias e para isso ele usava as duas mãos. O cúmulo foi quando ele ligou o notebook, colocou-o sobre o painel do carro e acessou a internet. Em todos esses casos a velocidade média era de 115 km/h. Taí a figura:

Enquanto estávamos no carro recebemos uma mensagem da organização dizendo que uma das duplas participantes tinha pego carona com um açougueiro e que após contar a história da competição, o cara decidiu doar como prêmio ao vencedor um presunto de 7 kg.

5) Ponto de retorno: Munique
Chegamos a Munique por volta de 00:45. E então descobri que se Metz estava fria, Munique estava um gelo. A nossa primeira constatação foi que quase todos os bares e boates estavam fechados. Encontramos com os amigos do Tobias num ponto central da cidade e rumamos para a estação de metrô enquanto batíamos algumas fotos. A comunicação foi muito tranquila, pois um deles falava francês muito bem e o outro falava inglês.

Chegamos finalmente na casa deles por volta de 02:00. Além dos dois amigos do Tobias, no seu antigo apartamento agora mora também uma estudante polonesa do programa Erasmus Mundus. Ela não ficou nem um pouco feliz por ter sido surpreendida no meio da noite com a chegada de tanta gente. Sobretudo porque ela usava seus trajes de dormir com os dizeres "I love boys" na frente. Largamos nossas bagagens e fizemos uma pequena pausa para comer, escovar os dentes e tomar uma bela cerveja branca da Bavaria!


6) Quem não se comunica se trumpica.
Havíamos decidido parar em Munique e retornar pela manhã. Embora fosse cedo e pudéssemos avançar ainda mais, achamos prudente reservar mais tempo para a volta do que para a ida, uma vez que não existe lugar para a flexibilidade na volta. É preciso voltar para Nantes e aceitar carona para outro lugar que não esteja na rota não é nada bom. Acordamos às 6:00 moídos de cansaço. Como eu já havia constatado diversas vezes antes, eu fico mais burro quando estou com sono. Eu deixei minhas luvas sobre a cômoda e na hora da saída o Loïc me perguntou se aquelas luvas não eram minhas. Eu respondi categoricamente que não, pois na minha cabeça eu só pensava "eu não tenho luvas, pois o Ceará é quente pra caramba". Minha sanidade só voltou quando estávamos longe, na estação do metrô e quando minhas mão já começavam a apresentar alguns sinais de queimadura por frio.

Pela manhã recebemos uma mensagem da organização, contando que havia uma equipe que chegara à Polônia, a 1678 km de Nantes. Inacreditável. Se eles voltassem a tempo teriam a vitória e o recorde da competição, com mais de 200 km de vantagem em relação ao recorde anterior.

Atravessamos mais uma vez a cidade de metrô e nos posicionamos num semáforo perto de uma das saídas da cidade por volta das 07:15. Na mão, dois cartazes: Ulm, uma cidade próxima, e Frankreich, França em alemão. Fizemos um acordo de cada dupla deveria conseguir sua própria carona, uma vez que a carona a quatro é muito mais difícil. Mantivemos distância para que cada dupla tivesse espaço. Em torno de 08:00 um carro parou quando acenamos. Era um cara entrocado, de aspecto um pouco rude e com um palito de dente na boca. Havia um obstáculo imenso: ele só falava alemão. Através de gestos e uma boa dose de boa vontade eu perguntei se não era possível levar a outra dupla e ele disse que só podia levar dois. Isso me fez desconfiar ainda mais, pensei mil besteiras, pensei como era mais fácil roubar ou matar dois do que quatro. Mais tarde refleti e pensei no lado dele: "é mais fácil ser roubado ou morto por quatro do que por dois".

O problema é que essa reflexão foi bem tardia, já no fim da viagem, e enquanto fizemos o trajeto a cada vez que ele procurava algo na bolsa ou debaixo do banco eu tinha a impressão de que no momento seguinte eu teria uma pistola apontada para a minha cara. Ele havia nos mandado tirar os coletes fluorescentes e quando eu perguntei a razão ele respondeu que tinha algo a ver com a polícia. Saquei um grande pedaço de papelão e desenhei o símbolo de paz e amor para mostrar que éramos pacíficos. Eu só não sabia que aqui na Europa esse símbolo é quase sinônimo de maconheiro. Ele nos perguntou se trazíamos drogas e passamos por alguns momentos tensos até que tudo se apaziguasse.

O expediente do papelão mostrou-se uma forma eficiente de comunicação. "Conversamos" com ele desse modo durante todo o trajeto. Tentávamos explicar que queríamos descer na última estação de serviço antes de Ulm, que não queríamos entrar na cidade. Mas ele não entendia nem "estação de serviço" nem "última". Usei toda minha veia artística para me fazer entender. Os desenhos eram bastante toscos, mas eram o suficiente para mostrar o que queríamos, o que estávamos fazendo e até para conversar amenidades. Complicado foi explicar o que diabo estávamos fazendo na Alemanha e por que tínhamos pressa para chegar. O fluxo de palavras, desenhos e idéias que eu usei para explicar foi o seguinte: "Schummacher, Rosberg, Heidfeld", "Fórmula 1", "corrida", "carona" e "corrida de caronas".


Chegamos no último posto antes de Ulm, tiramos a tradicional foto e entramos na loja de conveniência. Descobri por fim que nosso motorista era um cara legal: ele pagou um café pra gente e continou conversando. Enquanto estávamos na mesa um carro chega e duas pessoas com imensas mochilas descem. Tobias e Anaëlle. De novo. Inacreditável como nos encontrávamos ao acaso pela segunda vez. O Tobias conversou com nosso motorista e esclareceu qualquer mal-entendido que possa ter acontecido.


7) Um pequeno momento de disgressão
Se você não parou de ler até agora, você deve estar cansado. Levante, ande um pouco. Suas pernas vão agradecer e você pode até mesmo evitar uma trombose. Se o seu problema é tédio, por que não jogar sudoku ou palavras cruzadas?

Agora que você está disposto de novo, voltemos à aventura!


8) Um motorista interessante
Percebemos de imediato que as estações de serviço na Alemanha são dispostas de maneira diferente. Na entrada fica o posto de combustível e a loja de conveniência. Na saída fica o restaurante/lanchonete. Essa configuração torna o lugar bastante longo, diferente das estações de serviço francesas, que aglutinam tudo numa coisa só. Renovamos o acordo de independência das duplas. Deixamos os nosso camaradas no posto de gasolina e rumamos para o bistrô. O lugar era muito simpático, ficava na beira de um lago e passava uma impressão bucólica. Nas margens do lago, próximo de algumas mesas e bancos rústicos, um senhor fumava e tomava vagarosamente seu café. Decidimos abordá-lo, mas apenas depois que ele terminasse seu momento de relaxamento.

Esperamos uma dezena de minutos e vez por outra o observávamos para saber se ele já tinha acabado. Quando ele finalmente sorveu o último gole, jogou a bituca fora e abriu a porta do carro eu o abordei em inglês:

- Bom dia, senhor. Com licença...
- Vocês podem vir comigo.

E ele falou essa última frase já afastando as coisas no banco de trás para liberar espaço para nós. Aproveitei-me da boa vontade do homem e perguntei se ele podia levar uma outra dupla. Ele consentiu desde que não nos importássemos com o aperto. Chamamos os nossos colegas e entramos no carro.

Algumas informações: ele era grego, mas morava havia vinte anos na Alemanha, onde trabalhava como fisioterapeuta e osteopata. Tinha um semblante tranquilo e um certo ar de quem já fora hippie na juventude. Acredito que ele se identificou conosco, pois ele contou algumas de suas anedotas de quando viajou através de caronas. A mais interessante foi uma ocasião em que ele ficou preso um dia e meio numa estação de serviço sem conseguir caronas, quando finalmente a polícia foi lá e, pasme, lhe ofereceu a carona.


O carro dele era cheio de cacarecos: estatuetas, amuletos, bandeiras e até uma vaquinha de pelúcia pendurada no teto. Simpatizei logo com o cara. Em um determinado momento eu vi uma placa na estrada com os dizeres "Legoland #### ### ###". O resto era alemão e eu não entendi. Perguntei para o Tobias se havia uma Legolândia na Alemanha e quem respondeu foi o nosso motorista, adicionando à sua resposta uma detalhada explicação do que era a Legolândia. Eu retruquei:

- Ah, eu sei o que é a Legolandia. Desde pequeno eu quero visitar. Se hoje eu estudo engenharia é porque eu brinquei muito com Lego na minha infância.
- Pois eu trabalhei numa fábrica da Lego quando tinha dezenove anos. Fabricava as pecinhas. Era um trabalho de verão. Em que ano você nasceu?
- Em 1987.
- Pode ser que algumas das suas peças de lego tenham sido fabricados por mim.

Chegamos finalmente na última estação de serviço antes da cidade onde ele ficaria, e de cujo nome agora não me lembro. Tiramos a foto ao lado do seu carro azul e de forma que o adesivo "Smile" aparecesse. No meu colete ele escreveu em grego:

Boa Sorte

Stathis


Gostou do que leu? Conseguiu ler as duas primeiras partes de uma vez só? Que tal ler a terceira também? Nela você verá:
  • Um gostinho de derrota
  • Acima de tudo e mais uma vez a comunicação
  • Algumas impressões sobre as auto-estradas alemãs
  • Um novo gosto de derrota e um grupo inusitado
  • "Nunca cante vitória antes do tempo"
  • Desmanche de carros e 150 km/h na periferia de Paris
Mas não vá cansar sua vista. Levante, beba água. Ficar sentado tanto tempo não faz bem para a sua saúde. Mas não deixe de ver a outra metade da aventura!


Pouce d'Or Parte 1

Essa postagem é tão grande, mas tão grande, que merece um índice. Ok, exagerei. Mas aqui vão algumas expressões chave para dar uma idéia do que vem por aí.

* Uma tradição aventureira anual em sua sétima edição.
* Quase cinquenta duplas de aventureiros/malucos/perdedores
* Um saco de jujubas e um radical alimentar
* Uma banda de eletrofunk e o porte de substâncias psicotrópicas


Esse é o post mais longo da história do meu blog. Eu o havia publicado em uma lapada só. Resultado: ninguém leu. Uma pena, pois ele é muito interessante. Foi por isso que eu o fracionei em quatro. Espero que isso ajude!


1) Introdução

Pouce d'Or
significa literalmente polegar de ouro e é uma referência ao clássico gesto que as pessoas fazem para pegar carona. Trata-se de uma tradição da escola, uma competição que acontece anualmente desde 2003. O objetivo é viajar em dupla o mais longe possível em um fim de semana apenas através de caronas. Duplas de garotas são proibidas, pois fica muito mais fácil conseguir caronas e, além disso, pode ser perigoso. A pontuação é o número de quilômetros rodados tomando como referência o caminho mais curto possível, mais bônus, menos penalidades. Os bônus podem ser obtidos através de várias formas e eu me furto a escrever apenas as que eu me lembro e que são as mais engraçadas: ficar com o(a) motorista, pegar carona com um cego, pegar carona em um carro de luxo/esporte, pegar carona com um travesti. A penalidade é a perda de 100 km de percurso a cada hora de atraso, a contar das 08:00 da segunda feira, horário de início das aulas. A dupla é desclassificada se utilizar-se de transportes pagos (trem, avião, ônibus) para se deslocar entre as cidades ou caso se separe. O uso de coletes fluorescentes é obrigatório para as duplas que estiverem na estrada à noite e a permanência nas proximidades da barreira de segurança é fortemente desestimulada. Um estudo comprovou que a expectativa de vida de alguém que tenta pegar carona atrás da barreira é de vinte minutos. Para aqueles que tentarem pegar carona do outro lado da barreirra, má notícia: sete minutos de expectativa de vida.

A competição de 2009 bateu alguns recordes: foram 47 duplas inscritas, contra 30 no ano passado. Não consigo imaginar um bom motivo para tanta gente. Talvez tenha sido a vontade de bater o recorde estabelecido no ano passado pela dupla da namorada do meu padrinho: Lenz na Áustria. Eles tiveram a sorte de encontrar um carro com romenos voltando para casa. Eles atravessaram quase toda a Europa Ocidental em apenas um carro e a uma velocidade média de 150 km/h em cada percurso. Conseguiram voltar na noite de domingo e gozaram de uma boa noite de sono.

Eu resolvi participar do evento assim que soube de sua existência e de suas particularidades, na primeira semana de aula. Escolhi minha dupla já naquela época. Ele se chama Loïc, é francês, mora com um brasileiro e um outro francês e certamente tem um parafuso a menos. Acho que foi por este motivo que eu o convidei para ser minha dupla. Compramos o material para a viagem: uma lanterna, um mapa, coletes fluorescentes, frutas secas, compota, biscoitos, isotônicos, energéticos e bombons para oferecer para os motoristas. Nosso objetivo inicial era cruzar a fronteira da Polônia e voltar.


2) A Largada

A largada foi dada às 09:00 do sábado. O nosso plano era tentar pegar uma carona na periferia de Nantes com destino a Paris. Infelizmente muitas outras duplas tiveram a idéia de pegar carona no mesmo lugar e formamos uma longa fila de malucos com coletes fluorescentes ao longo da rua. Nós mostrávamos um cartaz com os dizeres "Paris" de um lado e "Angers/Le Mans" no outro. Além disso, exibíamos um saco de uma espécie de jujuba para oferecer aos motoristas.

De maneira geral, as duplas mistas conseguiam carona primeiro. Nós começamos a ficar cansados e o saco de jujuba rapidamente ficou pela metade. Apesar disso, ainda conseguíamos interagir com os motoristas e a maioria deles, ainda que não nos dessem carona, se divertiam com a cena, sorriam e acenavam. Próximo das 10:30 um carro finalmente parou para nós. Era um senhor por volta dos cinquenta anos que ia para Paris. Assim que entramos oferecemos as jujubas e recebemos um gélido "Eu não como isso. Tem açúcar demais".

Conversamos, explicamos o motivo de estarmos ali e a louca jornada que fazíamos. Ele perguntava muitas coisas sobre o Brasil e a conversa desenrolava-se de uma maneira bastante previsível, eu diria. Ele nos contou que era técnico em eletrônica e que trabalhava em uma fábrica de equipamentos de radioterapia. Quando o assunto câncer foi citado a conversa saiu completamente das veredas da previsibilidade.

Ele nos perguntou "Vocês conhecem o cloreto de magnésio?". Bem, de certa forma nós conhecíamos, sabíamos que era um sal, conhecíamos os elementos químicos componentes, mas não tínhamos muitas noções do seu uso. Ele nos disse que o magnésio é fundamental para a manutenção celular e que uma dieta fraca em cloreto de magnésio pode ser uma das causas para o câncer.

Até aí tudo bem, mas o que veio em seguida já começou a ficar mais interessante. Ele nos disse também que alguém que tenha uma dieta rica em cloreto de magnésio é menos propenso a sofrer os efeitos de uma gripe e que a gripe A, a gripe suína e a gripe aviária são produtos da dieta deficiente da maioria da população. Segundo ele, o cloreto de magnésio cura a poliomielite, a meningite, previne cãimbras e, como não poderia deixar de ser, combate a impotência sexual.

Durante as quase quatro horas em que estivemos com ele ouvimos um discurso proselitista sobre o cloreto de magnésio. Ele diz que os seus benefícios são pouco conhecidos por causa do lobby da indústria farmacêutica, que faliria caso as pessoas os conhecessem. Ele também falou de algumas de suas práticas alimentares, como jejuns de uma semana e abstinência de leites e derivados, bem como outras práticas menos comuns como medir regularmente o ph da urina para saber o estado do organismo. Ele afirmava que era preciso encontrar um equilíbrio, que se alimentar bem não bastava, era preciso ser feliz. E se o fato de restringir a dieta fosse uma fonte de estresse, então era preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre a boa alimentação e o prazer de viver. No fim das contas ele nos deu um envelope do bendito sal para experimentar.

Já próximo da periferia de Paris ele nos mostrou uma outra faceta radical, desta vez política. Ele acreditava que a descolonização francesa havia sido um erro e que a Argélia deveria continuar como colônia francesa. Seus argumentos eram calcados unicamente numa visão utilitarista metropolitana e os interesses das colônias não pareciam ter nenhuma importância.

Nós havíamos pedido para que eles nos deixasse numa estação de serviço antes de entrarmos em Paris, se possível no anel viário intermediário. Isso se deve ao fato de ser muito mais difícil pegar caronas dentro das cidades. O homem fez a gentileza de nos deixar no lado oeste da cidade, quando seu destino era o leste, e tornou muito mais fácil pegarmos uma carona conveniente, pois achar alguém nas proximidades de Paris que siga direto é muito difícil, a maioria dos motoristas entram na cidade. Segue uma foto com o cara e o envelope de cloreto de magnésio. Eu me toquei na hora em que a câmera disparou que o meu cartaz estava de cabeça pra baixo. A propósito: está escrito "loin", que significa longe.



3) O trecho Paris-Metz
Como eu disse antes, nosso destino inicialmente era a Polônia. O melhor caminho era, portanto, seguir de Paris rumo a fronteira nordeste, com a Bélgica, e então Alemanha e Polônia. No entanto, dez minutos depois de chegarmos na estação de serviço encontramos uma van e um grupo de quatro jovens. Nós os abordamos e perguntamos para onde iam. Eles responderam que iam para Metz, uma cidade a leste de Paris e quase na fronteira com a Alemanha. Como quem é flexível não quebra, resolvemos mudar de planos e aceitar uma carona. Novo objetivo: Praga, capital da República Tcheca.

Antes mesmo de embarcar descobrimos que eles eram uma banda de eletrofunk e música experimental chamada Gable e que estava em tournée pela França. A banda era composta por três músicos e um engenheiro de som e ouvimos um pouco da música deles enquanto estavámos no carro. Era algo meio vanguardista, meio experimental e muito legal.

Um incoveniente é que um dos integrantes resolveu fumar dentro do carro e com as janelas fechadas, o que foi bastante desagradável. Nós conversamos razoavelmente com eles, mas também passamos um bom tempo conversando entre nós, enquanto eles discutiam entre eles. Na saída de um pedágio em Reims fomo parados pela polícia. Segue o diálogo:

- Bom dia. Para onde vocês vão?
- Bom dia. Para Metz.
- E o que vocês vão fazer lá.
- Somos uma banda, vamos fazer um show.
- E vocês têm algum material ilegal com vocês.
- Não, mas temos dois caroneiros ali atrás.
(Uma pausa para o guarda nos observar)
- Ok. Vocês podem seguir.

Achei na hora que o fato de nos "dedurar" foi meio que para dizer "nós não temos nada de ilegal, mas eu não sei quanto a eles". Ledo engano, quinze minutos mais tarde a única mulher do grupo acendeu o cachimbo da paz.

Chegamos em Metz às 17:00 sem maiores problemas. Pedi um autógrafo da banda no meu colete e brinquei dizendo que isso ia valer muito quando eles fossem famosos. Eles nos deram seus emais e pediram notícias da nossa aventura. "Boa viagem." "Bom show". "Boa estrada". Esperávamos que tudo corresse bem e acredito que estávamos certos. Aqui vai uma foto com deles:




E aí, começamos bem? O texto tá interessante? Pois ainda não acabou. Você acabou de ler a narrativa do primeiro quarto da viagem. Que tal dar uma espiada no que rola na sequência?
  • Uma enorme coincidência
  • Duas duplas, um furgão e um alemão que dirige sem as mãos na direção
  • Três horas no nosso destino final
  • Comunicação via desenhos rupestres
  • A mesma enorme coincidência. De novo
  • Um grego, a Legolândia e uma pequena pitada de nostalgia

Interessado? Por que não continuar lendo?

A Fanfrale

Muito bem, o blog andou meio largado às moscas. Peço perdão por isso e aproveito para escrever um post sobre uma das (boas) razões da minha ausência. Aqui na escola existe uma banda de instrumentos de sopro (uma fanfarra) chamada Fanfrale, "La fanfarre de l'École Centrale". Uma das minhas ambições mesmo antes de entrar aqui era participar da Fanfrale.

Pois é, entrei. Fácil assim? Não exatamente, é melhor contar por partes. A Fanfrale é um grupo heterodoxo, não se trata de apenas de tocar determinadas músicas e pronto. Os músicos do grupo se vestem de maneira esdrúxula, com roupas esfarrapadas, bregas e berrantes. Isso faz parte do "espírito fanfarrão", algo que espera-se que todo os integrantes tenham. É algo como estar a um passo do teatro, a outro do circo e a outro da desmoralização pública e sentir-se à vontade com isso.

E como se entra na Fanfrale? Em tese é só chegar e entrar. Não existe um exame de aptidão nem nada do tipo. Quer dizer, oficialmente... Os veteranos nos diziam continuamente que a Fanfrale é um estilo de vida associativa que exige dedicação e também identificação com a identidade do grupo. Trocando em miúdos: para ser aceito é preciso comparecer a todas as soirées que eles organizam durante o período de integração, e não foram poucas. E os caras são hardcore, bebem bastante e se você estiver sem um copo de bebida na mão sem dúvida eles vão colocar algo para você beber. Olha que eu sou chegado em uma cervejinha, mas várias vezes eu usei a desculpa de ir no banheiro pra jogar o excesso de bebida na privada.

O ápice da integração foi o Appartathlon da Fanfrale. Tratava-se de uma soirée análoga ao Appartathlon da escola, salvo que foi feita nos apartamentos dos membros veteranos da Fanfrale. Em cada apartamento havia uma bebida diferente e o consumo era obrigatório. Cerveja, vinho, vodka e tequila (pra terminar). Fora as várias brincadeiras idiotas que os veteranos faziam e cuja maior parte eu me recusei a fazer.

Terminado o período de integração, as coisas se acalmam. Os fanfarrões são as pessoas mais sérias que se pode imaginar quando o assunto é trabalho. Temos ensaios duas vezes por semana nas noites de quarta e sexta e o clima de brincadeira é frequentemente trocado pela disciplina marcial. É nesse momento que entra o outro aspecto da seleção natural, pois temos que nos virar para aprender as músicas seja de ouvido ou com as partituras. Temos prazos para aprendê-las e vale lembrar que a Fanfrale assina contratos de apresentação e é extremamente necessário estar bem treinado. Só fica então quem é dedicado e aguenta o rojão.

Alguns de vocês devem estar se perguntando o que eu toco, já que o único instrumento de sopro que eu tocava (ou fingia que tocava) no Brasil era a gaita e ela não faz parte dos instrumentos da Fanfrale. Pedi para tocar saxofone, embora não soubesse tocar, não houvesse um sax para mim e houvesse já bastantes saxofonistas no grupo. Dependo de empréstimos para poder treinar e além de aprender as múcas eu ainda me deparo com o desafio de aprender um novo (e difícil) instrumento. Todos os novatos que entraram no grupo agora tocam e possuem seus instrumentos há algum tempo, salvo eu e o Thiago. Ele está passando pelo mesmo processo, mas com uma tuba.

E apesar de todos os obstáculos o que eu estou achando? Fantástico. Não foram poucas as vezes que eu pensei em desistir, fosse pelo aprendizado do instrumento e das músicas, fosse pelas atitudes dos veteranos, confesso que toda vez que eu via a Fanfrale tocar eu renovava meu entusiasmo. Sobretudo quando eu fui para a primeira hyénage do ano. Uma hyénage é uma apresentação no centro da cidade com o objetivo de conseguir dinheiro. Resumindo: a gente toca em troca de esmolas, vende cds e deixa os cartões de visitas e os adesivos disponíveis. Todos foram vestidos como fanfarrões, mesmo os novatos. Não tocamos, apenas dançávamos e arrecadávamos a grana. E foi muito foda. Os veteranos disseram que foi uma dia magro, pois arrecadamos "apenas" 293,00 €. Dinheiro que, entre outras coisas, vai servir para comprar novos instrumentos para a Fanfrale, o que significa que vou ter um sax para treinar.



No sábado passado me apresentei com o grupo pela primeira vez. Toquei apenas duas músicas com o sax, as duas únicas que eu sabia. Nas demais eu apenas fiz um teatrinho com uma tuba quebrada, fingia que tocava alguma coisa. Para que melhor?

Visita de Nantes: estilo BDA

Tarde de sábado, período naturalmente consagrado para fazer compras para a casa e outros e dar conta de alguns afazeres domésticos. Havia uma visita de Nantes organizada pelo BDA agendada que não me interessava muito, pois já havia batido bastante perna pela cidade.

Cá estava eu, na minha humilde e desconfortável caminha, tentando recuperar as horas de sono perdido quando uma sirene começa a tocar no corredor. Gritos, alertas e um louco (do BDA, é claro) chamando pelo megafone todos os residentes para a visita de Nantes. Vá lá, depois dessa eu não dormiria mesmo, resolvi dar o braço a torcer.

A visita era na verdade uma gincana. Os EI1 deveriam formar equipes e cada equipe deveria seguir um itinerário, revelado aos poucos à medida em que íamos resolvendo charadas e encontrando pistas pela cidade. Além disso, cada equipe devia levar consigo uma máquina fotográfica para tirar fotos dos lugares e provar que de fato esteve lá e também para tirar fotos originais e divertidas, que seriam objeto de uma competição. Outra parte da gincana era procurar e trazer os objetos mais engraçados e interessantes encontrados no caminho, infelizmente minha equipe desconhecia essa parte da brincadeira e não trouxemos nada. Cada equipe deveria também ter uma deficiência, algo para atrapalhar o deslocamento. A nossa era carregar doze garrafas de água mineral de 1,5l cada sem que pudéssemos beber. Outra equipes deveriam usar saias ou rabos de rato.

Heis uma foto da nossa equipe. Havia cinco nacionalidades distintas: francesa, brasileira, russa, japonesa e húngara.



Cada equipe recebeu dois envelopes e o primeiro deveria ser aberto imediatamente. Nele havia o primeiro destino da aventura. A carta era assinada por Phileas Fogg, o próprio, e ele rogava insistentemente que cumpríssemos o percurso em menos de cinco horas, uma vez que ele havia apostado uma quantia considerável em nossa vitória. Cada equipe tinha destinos iniciais diferentes e o nosso foi a Catedral. Situada no centro da cidade e destacada por sua altura e arquitetura, a Cathédrale Saint-Pierre-et-Saint-Paul é um dos pontos turísticos mais conhecidos de Nantes.

Lá chegando, abrimos o segundo envelope, também "enviado" por Phileas Fogg. O segundo destino era o atelié do grupo Machines de l'Île, um grupo de teatro de rua que utiliza marionetes gigantes em suas atrações e é extremamente reconhecido por aqui. O seu ateliê é um dos pontos turísticos mais visitados de Nantes, se não o mais visitado, e lá é possível pagar para dar uma volta no mais conhecido dos seus marionetes, o elefante. Lá encontramos alguns membros do BDA, que nos fizeram dançar uma coreografia ridícula antes de nos dar o terceiro envelope, sempre assinado pelo astuto Fogg, e que deveria ser aberto apenas no terceiro ponto. E o tal ponto onde nós deveríamos ir era lugar redondo e com uma fonte...





Redondo e com uma fonte? "Place royale!" eu gritei de imediato. A praça é o coração da cidade e é um dos lugares que eu visitei pelas minhas andanças na primeira semana. A praça é circundada de prédios e no seu centro há uma fonte com estátuas, algo bem clássico. Chegamos lá e nos deparamos com outras equipes tomando banho na fonte e tirando fotos. Era uma parada dura de vencer e eu e outro brasileiro resolvemos fazer algo um pouco mais louco para render uma foto melhor. Tiramos uma foto "bebendo" a água que saia de uma das estátuas. De fato a água só entrava na nossa boca, mas não engulíamos.

Com metade das calças molhadas e boa parte da camisa também eu acompanhei o meu grupo até o ponto seguinte. Tivemos que perguntar para outros grupos, pois nossa chefe perdera a terceira carta enquanto íamos para a praça. A pista agora era difícil: devíamos achar um pub irlandês no centro da cidade. Existem centenas de lugares para beber por aqui e um pub irlandês é apenas mais um deles, mas encontramos. Lá, a atendente nos deu um pacotinho de biscoitos LU. Isso quer dizer Lieu Unique (Lugar Único), uma tradicional fábrica de biscoitos de Nantes.

E lá fomos. A antiga fábrica não funciona mais, virou algo entre museu e casa de espetáculos. A sua arquitetura se destaca, sobretudo pela torre na fachada. Havia membros do BDA por lá organizando uma competição. O objetivo era dar três biscoitos LU para cada representante de equipe e ver quem conseguia comer mais rápido. Fui o representante da minha equipe e venci o duelo com outra equipe. Foi muito fácil para quem é acostumado a comer quatro Creams Crackers de uma só vez (valeu, Franklin e nossas partidas de Burro!). Próxima parada: Chatêu des Ducs de Bretagne.







As coisas no castelo foram bem rápidas, logo sabíamos para onde deveríamos ir. Apesar de o castelo ser um dos pontos que eu visitei na minha primeira semana em Nantes, é sempre muito surpreendente ver uma construção do tipo bem no centro de uma cidade. Pegamos a carta na livraria/loja de bugingangas do castelo e Phileas Fogg avisava que iríamos para a última etapa da nossa jornada: o Museu de Belas Artes.

A essa altura já estávamos bem cansados e não havia muita disposição para visitar o museu. Tiramos a foto comprobatória e seguimos para a Escola, com uma parada rápida para tirar fotos toscas e se molhar mais um pouquinho.



Entregamos nossas fotos pros caras do BDA para que eles pudessem julgar e decidir quem era a melhor equipe. Houve prêmios em várias categorias: imbecil, melhor foto, trash, petit LU, prêmio geral e outras que eu não entendi. Nossa equipe ganhou o terceiro lugar na categoria trash pela foto em que bebíamos água na fonte e o primeiro lugar na categoria petit LU, concedida para a equipe cujo representante comesse mais rápido os biscoitos (valeu, Franklin!!!).

Para resumir, o nosso itinerário foi:



B) Catedral
C) Elefante
D) Place Royale
E) O pub irlandês
F) Lieu Unique (LU)
G) Chatêu des Ducs de Bretagne
H) Musée de Beaux Arts