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Pentecostes en Vic-Fezensac

Acredito que podemos dizer que no ano passado eu não era um verdadeiro fanfarrão. Ainda pouco habituado aos (maus) costumes da Fanfrale eu sentia prazer em tocar, mas não em ficar com os outros fanfarrões. Fosse pelos hábitos nojentos deles ou pela grosseria e violência gratuitas, eu evitava passar muito tempo com eles e inclusive deixei de viajar para tocar com a Fanfarra em alguns contratos e eventos. O principal evento que eu perdi ano passado foi o feriado de Pentecostes no vilarejo de Vic-Fezensac.

O tempo foi passando e eu fui deixando de lado um pouco dessa seriedade exagerada que eu tenho. As coisas nojentas eram ao mesmo tempo uma maneira de afugentar os menos motivados e selecionar apenas os membros dedicados. Também era uma forma de manter uma aura de insanidade ao grupo, algo que mesmo tempo assusta e diverte. Os insultos nada mais são do que um ritual de passagem, àqueles que abstraem e levam a coisa na brincadeira é garantida a simpatia. Demorei um ano pra compreender que eu não precisava fazer tudo como eles faziam, que eu podia ser eu mesmo e que eu poderia aceitar as tradições do grupo e ser aceito ao mesmo tempo. Foi então que eu me decidi a aproveitar ao máximo as oportunidades de tocar e viajar com a Fanfrale no segundo ano.


A Fanfrale depois do fim das aulas

Como vocês sabem eu estou em Paris. Na École ficaram apenas os alunos do primeiro ano enquanto os do segundo e terceiro ano estão em estágio ou intercâmbio. Uma semana antes do feriado de Pentecostes os fanfarrões EI1 alugaram uma caminhonete e vieram a Paris, foi a oportunidade de reunir os fanfarrões estagiando na cidade e tocar na cidade. Tocamos na frente da Ópera e nos divertimos bastante, apesar da avareza dos parisienses nos dar uma gratificação minguada.

Todos estavam muito agitados com a proximidade da Feria (festividade típica do norte da Espanha e sul da França) de Vic. Ou, como nós chamávamos simplesmente, Vic. Vic é um dos eventos-mor pra Fanfrale, rivalizando com o fim de semana do antigos, que chega a reunir mais de 50 fanfarrões de 10 gerações diferentes. No Pentecostes os fanfarrões de todas as gerações e de todas as partes da França, e até da Europa, se reúnem nesse vilarejo de quase 4000 habitantes, na região do Gers, de onde veio o célebre mosqueteiro D'Artagnan.


Fanfarrões, uni-vos!

O que há de tão especial em Vic para que 120000 pessoas, quantidade 30 vezes superior à população normal, ocupem suas ruas durante quatro dias? A Feria de Vic é um das mais célebres ferias da França, com suas tradicionais touradas e festividades. Mas Vic é também o palco da competição nacional de fanfarras, que se se digladiam nas ruas da cidade diante de um público extasiado.

A cada ano dezenas de fanfarras, estudantis ou não, vêm de toda a França para competir. Neste ano contamos inclusive com a participação de uma fanfarra belga. A competição sempre tem um tema e os grupos devem adaptar as fantasias e, se possível, as músicas ao tema. Neste ano o tema foi Gers, o nome da região. O tema pode ser usado livremente. Alguns exemplos:
  • A Bande à Joe, fanfarra da École Centrale de Paris, se fantasiou de mosqueteiros. Era uma fantasia previsível, mas felizmente eles foram os únicos a usarem.
  • A fanfarra ganhadora, da qual não me lembro nem nome nem e origem, se fantasiou com perucas black power e roupas dos anos 70. A razão? Eles incarnaram os GERSons Five, uma alusão aos Jackson Five. O repertório deles seguiu os hits dance e funk da década de 70.
  • Nós aproveitamos a proximidade sonora de Gers com GRS (Ginástica Rítmica Desportiva) em francês e nos fantasiamos de ginastas. Blusinhas de alça, curtas e apertas, e collants de cores berrantes deram o ar da graça juntamente com fitas coloridas.
O concurso leva em conta a qualidade musical do grupo, a criatividade da fantasia e a empatia com o público. Embora toquemos durante todos os dias, da hora em que acordamos à hora em que dormimos (ou entramos em coma alcóolico, o que vier primeiro), a avaliação é feita durante uma tarde, em que as fanfarra se revezam para se apresentar nos bares da cidade. Desta etapa são selecionados alguns grupos finalistas que tocarão durante a noite nos palcos montados na praça e receberão os prêmios no dia seguinte.

Todas a fanfarras são alojadas no ginásio da cidade, a poucos passos do centro da cidade. A prefeitura fornece colchões e se ocupa igualmente de alimentar esse batalhão todo durante dois dias.

Parti de Paris com mais três colegas de Nantes na tarde da sexta 10 de junho. Oito horas de estrada até Vic.


A magia do sul


Se existe uma festa no Brasil que se compare à febrilidade de Vic eu não tenho nenhuma dúvida de afirmar que é o Carnaval. Tudo está lá: o mesmo clima, a mesma bagunça, a mesma quantidade de álcool... O que muda é que não há axé nem samba animando a massa, mas as fanfarras. Quase todos os participantes da festa se vestem à moda do sul, do País Basco: roupa branca e lenço vermelho amarrado no pescoço.

Acredito que seja muito mais divertido participar de uma feria assim como fanfarrão. Por onde você passa sempre tem alguém que vem brincar com você e dizer "fais pam-pam-pam dans ta trompette", que significa "faz pam-pam-pam no teu trompete". Por sinal isso é algo muito divertido: qualquer instrumento de sopro pro povo é trompete e qualquer instrumento de percussão é bumbo. Invariavelmente nós tocamos um pequeno tema de tourada e somos recompensados com bebida, às vezes um litro inteiro de cerveja. E se você recusa a bebida não é raro que os foliões a versem diretamente e à força pela sua garganta abaixo. Vestido como eu estava, com um collant super apertado e com uma tatuagem extremamente chamativa no braço e visível a quem quisesse, eu terminei sendo interpelado dessa maneira diversas vezes. Isso me obrigou a medir a quantidade diária de álcool consumida não mais em litros, mas em galões.

Impossível narrar todo o fim de semana. Minhas histórias e sobretudo as histórias dos outros fanfarrões da escola tornariam este texto ainda mais fastidioso. Me limitarei então às mais engraçadas ou mais marcantes.


A noite de sexta

Chegamos por volta de 00:30 e éramos os últimos da nossa fanfarra a chegar. Nossos colegas tocavam no centro da cidade há algumas horas. Nos fantasiamos e partimos pra lá. Tocávamos numa espécie de marquise de uma casa antiga. Tinha muita gente por lá. Como chegamos muito tarde não aconteceu muita coisa. Digno de nota foi o fato de uma menina chegar em mim, falar "tatuagem bonita" e escrever o nome e o telefone dela no meu braço com pincel permanente.

Quando voltávamos pro ginásio, por volta das 3h da manhã, eu passei através de uma nuvem de spray de pimenta lançado não muito tempo antes para controlar uma briga. Posso garantir que não é uma sensação agradável.


O sábado

Pela manhã acordei muito bem, visto que para mim a noite anterior fora bem curta. Dormir num ginásio de fanfarrões não é fácil, contudo. Cada um que chegava de madrugada inventava de tocar dentro do ginásio e das 3:00 às 10:00 da manhã eu posso garantir que sempre havia um grupo tocando no centro do prédio, embora os integrantes mudassem constantemente.

Primeira constatação da manhã: o número de telefone e o nome marcados na pele não eram exclusividade minha. Eles estavam mais ou menos espalhados pela pele e roupas de uns cinco fanfarrões.

Durante a tarde participamos do desfile e das apresentações nos bares. O percurso terminou na frente de uma banquinha que estava oferecendo cerveja grátis para todo mundo. Parada obrigatória para a Fanfrale, evidentemente.

As lembranças da noite são mais fluidas e difusas, pois à cerveja ingerida ao longo de todo o dia somou-se o vinho servido no refeitório. Algumas das coisas eu só soube através de colegas no dia seguinte e vou adiantando agora. Lembro-me que tocamos num bar, o Maison Bleue. Tocávamos sobre um palco e havia uma multidão por lá. Eu estava no centro do palco e na primeira fila e até onde eu me lembro tudo correu bem por lá, mas no dia seguitne eu ouvi os comentários dos meus colegas sobre uma confusão no bar. Como eu lembrava apenas do Maison Bleue eu perguntei em qual bar tinha sido a confusão e fiquei surpreso de saber que fora lá que aconteceu. Um cara tentou subir no palco e um dos fanfarrões; um sujeito tímido, franzino e nem um pouco afeito à violência; o impediu. Na segunda tentativa o nosso colega deu um chute no peito do sujeito. Os amigos do cara tentaram subir no palco e aí a confusão começou. Boa parte dos integrantes da nossa fanfarra são ex-jogadores de rugby da equipe da escola e eu lembro-vos que o rugby não é nem um pouco delicado. Ninguém saiu ferido.

Eu fiquei realmente surpreso de não me lembrar disso, mas súbito me lembrei que durante uma parte significativa da apresentação eu estava ocupado***. Dever ter sido engraçado pros expectadores verem um terço da fanfarra caída de bêbada fora do palco, um terço tocando, um terço caindo na porrada e eu no centro feliz da vida e aproveitando a apresentação.


O domingo

"P*** que pariu! Cadê meu saxofone? Tá aqui... Ufa!"

"P*** que pariu! Cadê meu celular? Merda. Perdi."

Assim começou meu domingo. Com dor na cabeça e um buraco negro mnemônico. Não conseguia achar meu celular, mas estava admirado de ter trazido o saxofone são e salvo. Tirei ele do estojo pra montar e partir pro café da manhã e mais impropérios me saltaram da boca:

"Droga! Tem um cigarro preso nas teclas"

"P*** que pariu!!!! Por que é que tem uma camisinha cobrindo o bico do meu saxofone???"

Parti depois de tomar as medidas higiênicas cabíveis, não sem antes procurar uma nota de cem euros no interior do instrumento, sabe-se lá...

Não fôramos selecionados pra fase final da competição, o que nos dispensava de qualquer obrigação no domingo. Dessa forma, nosso grupo custou um pouco a se concentrar e se organizar em algo digno de ser chamado de fanfarra. Tocamos pela tarde. Assistimos um pouco da apresentação das demais fanfarras e levamos o dia preguiçosamente.

O tempo não ajudou muito e uma chuva se abateu sobre a cidade. Corremos para o ginásio para guardar os instrumentos e na correria me perdi do pessoal. Fui para o centro sozinho e sem sax. Não bebia, pois seria eu quem dirigiria na primeira parte da manhã no dia seguinte. Saindo do ginásio encontrei um cara e três mulheres e fiz amizade com eles. Eles vinham basicamente todos de Toulouse e arredores e uma das mulheres se casaria dentro de um mês. Eles me levaram com eles até o bar onde estava o noivo e eu terminei ficando um bom tempo por lá, conversando e passando uma noite tranquila. Assim terminou meu domingo e meu batismo de fogo em Vic.



Ferias e mais ferias

Arrumei minhas coisas para ir embora e, surpresa, encontrei meu celular num bolso aleatório da mochila. Como eu disse antes, eu tinha que levar o carro de volta durante metade do caminho na segunda feira. Eu conduzi o carro e três cadáveres sob a chuva durante três horas e meia, algo em torno de 350 km, não sem antes passar por um controle de alcoolemia numa blitz na saída da cidade: zero. O cadáver dono do carro assumiu o resto do caminho quando ele estava devidamente ressuscitado.

Cheguei em casa e larguei as coisas. Estava pronto pra dormir. O telefone deu os dois bips característicos de mensagem. A maluca que escrevera o telefone em mim me respondeu a mensagem que eu enviara no sábado de manhã. Batemos papo por um tempo e através dela eu descobri que existem inúmeras ferias do tipo durante todo o verão, uma mais promissora que a outra e quase todo fim de semana.

Cheguei no trabalho e súbito me lembrei que um dos meus colegas mais jovens vinha de Toulouse. Perguntei a ele se ele conhecia Vic e pelo sorriso que ele deu eu antecipei a resposta: não só ele conhecia como acabara de voltar de lá. Nós discutimos e espontaneamente ele me convidou pra Feria de Bayonne no fim de julho.

Que venha a próxima feria.
Que venha o próximo fim de semana febril.
E salve Vic.


Paris

Eu andei olhando uns posts antigos e me deparei com o primeiro que eu publiquei aqui no blog. Nele eu dizia que ao chegar em Paris para fazer correspondência de trem achei tudo muito bonito, mas nao senti que aquela seria minha casa.

Praticamente um ano depois, vejo que Nantes nunca foi minha casa, como eu disse num dos posts sobre o novo apartamento. E so agora sinto ter um lar em Nantes. Depois de quase 11 meses por la eu decidi fazer meu estagio em alguma outra cidade, pois sabia que se eu ficasse eu sufocaria e nao aguentaria começar um segundo ano na mesma cidade sem mudar de ares. E ca estou eu em Paris. A capital evidentemente é muito maior e tem muito mais coisa para fazer, mas o principal motivo para eu ter vindo foi rever meus amigos e isso eu ja havia dito antes.

E amanha eu deixo a cidade luz para voltar pra Nantes. As ultimas seis semanas foram especiais, embora eu tenha escrito muito pouco aqui no blog e nao tenha tirado uma unica fotografia sequer, a despeito de trer trazido a câmera.

Durante um mês e meio eu me submeti a um enduro fisico. Descobri que meu corpo é capaz de carburar alcool e fast-food em proporçoes pantagruelicas. Dividi um quarto de 9m2, onde eu dormia numa cama de armar, com metade do corpo enfiado debaixo de uma mesa, pois nao havia outro lugar para colocar a cama. Raras foram as vezes que eu dormi num colchao. Passei por noites deliberadamente insones. Senti na pele os prazeres e dores de uma vida boêmia e desregrada.

Durante um mês e meio eu senti os espinhos de ser um iniciante face às dificuldades do meu estagio. Foi bastante duro trabalhar com programaçao de iPhones, algo completamente novo para mim, ainda que eu gozasse de bastante flexibilidade de horarios e prazos. Algumas vezes cheguei até a ter pesadelos onde um iPhone e um monitor cheio de linhas de codigo incompreensivel apareciam. Saboreei o sucesso de fazer um aplicativo que funcionasse apos um mês de trabalho, para logo em seguida embarcar no desafio do aplicativo seguinte.

Durante um mês e meio dei um mergulho no Brasil. Comi churrasco e feijoada, com direito até a farofa. Conheci muita gente. Cantei pagode. Tomei caipirinha (com cachaça 51). Digo mais, isso foi uma imersao ans minhas raizes nordestinas. Integrei um grupo de menos de meia duzia de nordestinos que sozinhos eram responsaveis por mais da metade de todas as palhaçadas e brincadeiras da roda. Saudade desse nosso jeito moleque de cearense sintetizavel numa unica interjeiçao ("yeiiiiiiiiiiiii"). Saudade também de poder falar as girias da minha terra com o meu sotaque e no meu ritmo sem passar pela estranheza de ser o unico a fazer isso.

Durante um mês e meio procurei viver minhas aventuras. Em uma aposta numa mesa de bar, fiz um camarada correr nu ao redor do gramado da Cité Universitaire apos ter virado (quase!) um litro de cerveja branca. Ele aceitou pagar a aposta ainda que eu nao tenha virado toda a caneca e eu resolvi acompanha-lo no pagamento por solidariedade. Duas criaturas branquelas numa corrida louca e esbaforida, cuecas nas maos e sebo nas canelas, arrancando aplausos de conhecidos e estranhos entre uma passagem e outra dos seguranças.

Durante um mês e meio as aventuras me procuraram, mesmo quando eu nao as procurei. Andei de carro de policia pela primeira vez e também fui pela primeira vez a um tribunal. Isso depois de ter sido agredido por dois desses tipos marginais oriundos do processo desastroso de descolonizaçao e da politica de imigraçao mal conduzida da França. No final eu sai ganhando: tenho historia pra contar e talvez tenha 1000 euros no bolso no fim do mês que vem como indenizaçao por danos morais e fisicos. Antes que alguém pergunte, eu estou bem e nao aconteceu nada.... =)

Durante um mês e meio acompanhei o drama dos meus amigos, que tiveram seus estagios abruptamente interrompidos por uma decisao autoritaria e pouco clara da UFC, ainda que toda a legislaçao estivesse em favor deles. Momentos nos quais muitos partilharam prantos e reminiscências, enquanto aqueles que ficam sentiam precocemente a ausencia dos que partirao. E Paris parece ficar mais cinza sem um nordestino para alegrar a Maison des Arts et Métiers.

Durante um mês e meio historias pequenas e grandes. Um desfile militar sob a chuva. Uma multa injusta da concessionaria de transporte publico. As caminhadas voltando pela madrugada. As cançoes (afinadas ou nao) acompanhadas pelo violao, que passou praticamente esse tempo todo com uma corda faltando. As "cagadas de pau". Os jogos da copa. Os vinhos de 2 euros. Os vinhos de 4 euros acompanhados pelos queijos de 2 euros. Os desolés nas portas dos bares. As caminhadas pelas ruas mais estreitas e desconhecidas que podiamos encontrar.

Obrigado a todos que tornaram esse periodo tao especial. Esta lista certamente exclui alguns, pois minha memoria ainda nao é digital, e com alguns eu tive muito mais contato do que com outros. Alguns dos citados sequer falam português e nunca verao o blog (dois deles porque eu acho que nao tem internet na prisao), mas agradeço ainda assim. A lista nao obedece a nenhuma ordem especifica.


Residentes da Maison des Arts et Métiers e agregados:
Alexis
Alice
Ana Luisa
Arielly
Bruno
Carlos Breno "CB"
Edson
Ewerton
Fernando
Francisco "Cet Homme" Jonas
Guillaume
Isabella
Jean Patrick
Johann
Ju
Luique
Luiz "Doro"
Marcel
Nathan
Pedro "Master"
Rafael
Regina
Romulo
Sofia
Tamires
Thaisa

Pessoal de Nantes e agregados:
Adrian
Flavio
Ielena
Igor
Natalya
Ricardo
Vladimir

Maison des Industries Adro-Alimentaires (MIAA) e agregados:
Ana
Barbara
Erika
Iuri
Lais
Larissa
Pedro

Outras escolas:
Carlos
Dani
Estevao
Eugénie
Luiz Fernando
Monise
Odile
Raul
Rodrigo

Penitenciaria de Paris:
Wilfried BRANDENBERGER, pela cabeçada no nariz
William GEHRINGER, pela canetada no cou
E pela indenizaçao que vocês vao pagar
=)

Inverno de 2010: Lyon e Genebra

A partida

Começam as ferias de inverno. O dia é 19/02/10. Uma semaninha de folga após as provas e antes das campanhas dos grêmios estudantis. Uma pausa uma providencial, digamos. Mas nem por isso as coisas começaram tranquilamente: aula prática de soldagem até as 18:00 e o trem que sairia às 19:04. A noite da véspera terminou tarde por causa da arrumação da mochila...

Mas enfim partimos, eu, minha companheira de viagem Tonya e sua amiga Pauline, que nos ajudaria na primeira parada da nossa jornada: Lyon. Já no bonde, encontramos uma dúzia de centraliens com suas malas. Uma dúzia coisa nenhuma! Quase metade da escola estava lá. Uma parte deles ia voltar para o conforto de suas casas e a companhia de suas famílias enquanto outra parte, bem significativa, aproveitaria as férias de inverno para esquiar. Já na estação descobrimos que uma boa parte dos centraliens que lá estavam, digamos a metade para continuar minha hipérbole, pegaria o mesmo trem que nós.

E foi assim que nós três e Sebastien (Seb), nos sentamos juntos no mesmo vagão para uma viagem de 4,5 horas. Para passar o tempo, jogamos cartas e como é habitual em todo jogo de carta em que eu sou debutante, salvo o pôquer, eu perdi fragorosamente as primeiras partidas. Jogo vai, jogo vem, estávamos já em Lyon. Descemos na Gare de part Dieu, no centro da cidade e o Seb continuou na trem para descer na estação seguinte.

Saindo da estação, fomos recebidos em poucos minutos por Clementine (Clem), companheira da Pauline, que nos hospedaria naquela noite. Um bom banho e uma boa noite de sono encerraram o dia.

Clem, Tonya e Pauline

Lyon - o começo do passeio

Lyon é a segunda cidade mais importante da França, rivalizando com Marseille e perdendo, evidentemente, para Paris. Seu epíteto é Cidade das Luzes, em razão de um evento chamado Festa das Luzes. Durante quatro dias em dezembro a cidade é “pintada” com novas cores mediante a utilização de efeitos de iluminação dos mais variados. Não se trata apenas de iluminar um edifício ou uma praça da maneira diferente da habitual. Algumas das instalações são verdadeiras obras de arte e o seu valor é ainda mais apreciado dado a sua efemeridade.

A idéia para esse sábado que amanheceu ensolarado, no entanto, era ir a Genebra, mas terminamos acordando tarde demais para pôr o nosso plano em ação. Acabamos fazendo um passeio turístico em Lyon. Eu, Tonya e nossas anfitriãs saímos de bicicleta, bordeando o Rhone, rio que atravessa a cidade e que dá nome à região cuja capital é Lyon. Confesso que os anos e anos sem andar de bicicleta me fizeram ter um bocado de temor, mas bordear as águas verdes e calmas do rio passando por baixo das pontes e vendo paisagens fantásticas fizeram-no dissipar rapidamente.

O Rhône

Entramos no centro da cidade e deixamos as bicicletas na Place Bellecour, a maior praça da Europa. Sabe-se lá por que razão, lá estava montada a maior roda gigante desmontável do mundo. Demos uma passada rápida no ofício de turismo para pegar um mapa da cidade e continuamos nosso passeio a pé. No centro da praça, uma estátua de Luís XVI sobre um cavalo. Vale lembrar que o único mérito histórico memorável de Luís XVI foi ter sido decapitado. Isso fez a Clem nos explicar um pouco sobre a simbologia que existe nas patas dos cavalos nesse tipo de escultura. Os cavaleiros montados em cavalos empinados sobre as patas traseiras são grandes heróis, cujos feitos foram notáveis. Aqueles cujo cavalo tem uma das patas dianteiras levantadas é alguém que tem importância histórica, mas que não é lá muito merecedor do título de herói, como era o caso da estátua que vimos. Aqueles montados em cavalos cujas patas estão todas no chão são, em tese, Zés-Ninguém.

Passamos por alguns cartões postais da cidade tais quais o Theatre Celestin, a Place de Jacobins e a Place des Terreaux. É nesta última que se localiza o Museu de Belas Artes, que visitaríamos mais tarde no fim do dia. Essa praça tem uma fonte no seu centro cuja particularidade é ter sido deslocada inúmeras vezes, tendo já ocupado várias posições na praça, lá encontramos Marine, irmã da Pauline. Atravessamos o outro rio que corta a cidade, o Saône. Do outro lado encontra-se o centro histórico da cidade, que foi tombado como patrimônio histórico pela UNESCO.

Andamos mais um pouco, por ruelas bastante simpáticas. As meninas nos contaram sobre uma particularidade bastante conhecida desse lugar. Durante a Segunda Guerra Mundial os corredores de entrada de vários prédios foram unidos, formando passagens comuns. Algumas dessas passagens eram cegas, terminando em pequenos átrios que serviam para a comunicação e a circulação entre os vários prédios. A essas entradas dá-se o nome de miraboules, sendo o “mir” referente a “miroir”, que significa espelho. Outras, porém, atravessam todo o quarteirão, ligando duas ruas paralelas através de um pequeno e sinuoso labirinto. A essas passagens dá-se o nome de traboules. O interessante é que poucas das passagens são sinalizadas, afinal a intenção é que elas fossem secretas, e elas são indistinguíveis de uma porta normal de um prédio. Procurar e descobrir traboules é um passatempo comum e que fizemos durante a tarde. As passagens ainda servem como entrada dos prédios e a sinalização dos endereços é caótica, de tal forma que na minha opinião ser carteiro em Lyon deve ser um dos empregos mais estressantes do mundo.

A entrada de um "miraboule". Indistinguível de uma porta ordinária

Continuando o passeio, chegamos a um funiculaire, um bondinho sobre trilhos que sobe uma colina onde localiza-se o coração do centro velho. Lá no alto, ao lado de uma esplanada que oferece uma vista panorâmica estonteante da cidade encontra-se a basílica da cidade, a Catedral de Fourfriève. Trata-se de uma igreja em estilo românico-barroco, cujo interior decocorado com pinturas decalcadas em ouro e vitrais magnifícos oferece um deleite aos olhos. Um nível abaixo, em uma posição subterrânea, encontra-se uma grande capela, que possui o mesmo comprimento da nave acima, mas que é muito mais singelamente decorada.

A primeira passada de olhos não me chamou atenção alguma. É uma sala simples, com colunas pouco decoradas, sem vitrais e quem em nada se aproxima da ostentação de cima. Depois de ver tantas catedrais góticas pelas minhas viagens e me tornar um admirador delas, aquela capela me pareceu bastante ordinária. Foi então que a Clem nos mostrou algo que até então tinha passado completamente despercebido: a maior parte da decoração daquele lugar estava incabada. Na verdade, a obra foi bancada com o dinheiro de fiéis, com doações pequenas ou poucas doações de gente abastada, creio eu. Ornamentos no teto e no topo das colunas estavam ainda em pedra bruta enquanto outros exibiam já o resiltado final. Pequenas estrelas incrustradas na parede ornamentava o altar enquanto no restante da capela havia somente o espaço escavado onde as demais deveriam ser incrustradas. Em alguns pontos, sequer esse espaço havia.

Ironicamente isso mudou um pouco a minha maneira de ver aquela capelinha. Ela não tinha o mesmo brilho de uma catedral, evidentemente, mas me fez refletir um bocado depois que saí dali. As catedrais são tão ornamentadas, tão saturadas de atrativos que não raro saímos de lá sem apreender um décimo deles e sem valorizá-los devidamente. Afinal tudo é tão bonito e rico que a nossa capacidade de se admirar com sua beleza fica comprometida. Essa capela me fez pensar em como os defeitos são importantes, pois são eles que nos permitem compreender o que é belo e entender que nada neste mundo é perfeito. Sem dúvida se ela estivesse terminada, não teria me encantado tanto.

Defeitos na decoração da basílica. Observe as estrelas.

Ainda no alto da colina, poucas centenas de metros descendo em direção à cidade, visitamos as ruínas romanas. São dois teatros antigos que pasaram um bom punhado de séculos soterrados. Hoje, após uma reforma, eles foram recondicionados e são utilizados para festivais de música. Eles foram construídos de forma a aproveitar o declive da coluna, dispensnado um pouco do trabalho que seria necessário para erguer as arquibancadas em terreno plano. Logo ao lado, encontra-se o Museu Galo-Romano de Lyon.

Pausa para fazer uma macacada

Iniciamos então a longa descida a pé em direção à cidade. O grupo descia da maneira como foi se estabelecendo ao longo do dia: as meninas conversando na frente e eu mudo seguindo-as. Todos sabem que as mulheres falam mais do que os homens e que são capazes de acompanhar e entender mais do que uma pessoa falando ao mesmo tempo. Para um homem, é sempre difícil acompanhar a conversação de um grupo de mulheres dada a quantidade de informações e de diálogos paralelos. Imaginem agora o que é isso em língua estrangeira. Ficou fácil imaginar a minha situação. As mulheres falam em média sete mil palavras por dia, ao passo que os homens falam algo em torno de duas mil. Após umas duzentas palavras trocadas no café da mahã e mais umas duzentas ao longo do dia, eu permaneci a maior parte do dia taciturno. Isso levantou algumas dúvidas sobre o meu humor entre as meninas, as quais eu me apressei a responder de forma a mostrar que não estava aborrecido.

Ao fim da descida fomos ao Museu de Belas Artes de Lyon, localizado na Place des Terreaux, aquela cuja fonte não sabe bem onde ficar. Dispunhamos de muito pouco tempo até o encerramento das atividades do museu naquele dia. Ainda assim, tivemos uma excelente oportunidade de apreciar algumas belas obras. Dentre estas encontravam-se alguas de autoria de Roudin, Renoir e Manet.

Pegamos as bicicletas e iniciamos nosso caminho de volta margeando um Rhône já escurecido, mas ainda plácido e refletindo o ouro e o púrpura do crepúsculo. A paisagem formada pelas colinas e pelos prédios, que outrora formava uma delicada aquarela em tons pastel, era então apenas uma silhueta difusa contra o céu. Porém, depois de um dia andando por aquela cidade, essa mesma paisagem adquiriu algo de familiar, de conhecido, muito diferente da impressão deixada pela manhã.

Voltamos para a casa da Clem após umqa passagem rápida no mercado que há pelas proximidades. Após um jantar simples e alguns minutos de descanso, saímos para uma soirée na casa de um amigo delas num bairro badalado pelo qual passáramos mais cedo, nas procimidades da Place des Terreaux. Passando na frente de alguns bares me deparei com oriental de aspecto conhecido que digitava displicentemente em seu celular. Reconheci-o, era o Décio, meu antido colega no curso de francês, ex-companheiro de banda e que eu tivera o prazer de receber em Nantes alguns meses antes. Me surpreendi de tal forma que nem percebi que tentei parar as meninas com um inútil “peraí”. Ele, no entanto, ouviu eu chamando-as e levantou os olhos do celular com estranheza até o que estava acontecendo. Me desculpei com as meninas, disse que ficaria ali mais alguns instantes e que depois as encontraria.

Ali fiquei e poucos instantes depois chegou o Raul, nosso veterano da Centrale Lyon e que me deve um CD do Sim City 2000, o qual ele pegou emprestado há treze anos e jamais me devolveu. Isso ainda nos tempos do curso preparatório pro concurso do Colégio Militar. Entramos no bar e lá estavam o Luiz Fernando, conhecido quase que em tempo integral como Farelo, e o Luiz Henrique, vulgo Luíque, ambos do INSA de Lyon. Todos eles, salvo o Raul, estudantes de Engenharia Elétrica na UFC. Havia muitos outros brasileiros, mas nenhum que eu conhecesse. Aquele encontro foi bastante insólito, sobretudo pelo fato de eu não ter avisado que iria para lá nem ter combinado coisa alguma. Depois de algumas tentativas de encontrar o Rômulo e o Nathan em Paris, sempre frustradas pela saída deles em viagens longas nos dias em que eu estava disponível, resolvi não mais esperar por ninguém para viajar. Confesso que fui negligente no caso de Lyon e que não custava nada mandar um email ou ligar. Falha minha. No final das contas deu para bater um papo legal e reencontrar bons amigos.

Meus “alguns instantes” no bar alongaram-se, viraram minutos, que por sua vez viraram horas. Duas, para ser mais preciso. E me vi forçado a ir ao encontro das meninas por questão de etiqueta. Não passei mais do que alguns minutos no tal apartamento, um pouco deslocado na conversa talvez em virtude do assunto ou do meu atraso ou ainda da diferença na quantidade entre o que eles e eu havíamos bebido. A garrafa de Martini que as meninas haviam levado jazia quase seca ao lado de outras em estado semelhante no centro daquele grupo de pouco mais que uma dúzia de pessoas. Voltamos no último metrô e dormimos novamente na casa da Clem. No dia seguinte iríamos a Genebra.


Segundo dia - Genebra

Acordamos cedo, arrumamos as mochilas para a viagem, garantindo um bom estoque de comida para o dia. O resto da bagagem, que deixamos na casa da Clem, foi bem organizado e embalado para que elas levassem para a casa da irmã da Pauline, onde dormiríaos na noite seguinte. A razão para isso é que os pais da Clem chegariam naquele dia.

Na estação e ao longo do dia, repetiu-se uma cena na qual eu já havia reparado nos dias anteriores: o trânsito constante de pessoas com equipamento de ski. A frequência dessa vez era maior, já que nós estávamos na região dos Alpes. O trem atravessou paisagens nevadas rodeadas de altas montanhas. Chegávamos na Suíça.

O plano inicial era comprar as passagens de volta tão logo chegássemos à estação de Genebra. Não prevíramos, no entranto, a diferença dos preços cobrados entre as companhias de trem francesa e suíça. Ainda que o câmbio nos fosse favorável, tivemos que pagar 7€ a mais por passagem. Infelizmente, isso só se realizou após longos minutos de hesitação. Foi quase um hora, tempo em que procurávamos uma alternativa mais barata.

Iniciada a visista, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a atitude dos pedestres. Ainda que não exista sinal de um único carro vindo, eles só atravessam a faixa quando o sinal fica verde para eles. E eles olham torto quando você se recusa a esperar para atravessar uma rua deserta. Deixando de lado essas impressões irrelevantes, passemos ao panorama da cidade. Genebra, como todas as outras cidades da Europa que visite, desenvolveu-se às margens de um grande volume de água, neste caso o Lago Léman, que é alimentado pelo rio Rhône, o mesmo de Lyon. E como nas demais cidades, tal volume d’água parece estar harmoniosamente integrado à urbe. Isso adiciona um charme especial à cidade, que é ressaltado pela moldura de montanhas de cume branco que a rodeia. Adicione-se a isso a tranquilidade que aqui ou acolá é quebada pelo ronco alto de um esportivo de luxo ou de uma moto possante. O resultado é uma atmosfera onírica de paz e prosperidade que impressiona os visitantes.

Nosso ponto de partida foi o Ofício de Turismo, onde pegamos um mapa e um punhado de orientações e sugestões preciosas. Seguimos em direção ao lago e demos de frente com um dos cartões postais da cidade, o jato d’água. Do outro lado do lago, ao sul da ponte, há uma pequena marina protegida por um quebra-mar que avança algumas centenas de metros. Quase na sua extremidade, uma bomba d’água muito potente eleva uma coluna d’água a estonteantes 140 metros de altura. O jato destoa um pouco da paisagem circundante, mas ao mesmo tempo fascina pela demonstração de força. Além disso, graças ao spray formado pelas gotículas descendentes, é possível ver um arco-íris ao longo de quase todo o dia se as condições meterológicas forem favoráveis.

O jato d'água do lago Léman

Atravessamos a ponte para nos aproximar do jato e vimos os prédios bege e creme encimados por bandeiras da Suíça que deixáramos para trás. Em seguida, rumamos em direção ao antigo centro da cidade, que encontramos deserto e fechado naquela tarde de domingo. Passamos rapidamente pela catedral da cidade, que fora não seguir a arquitetura canônica das catedrais góticas não possuia muitos mais atrativos. Voltando em direção ao norte, em direção ao rio, passamos pela Place du Molard, um pequeno boulevard que conduz até a ponte. O interessante no local era a infinidade de pedras de calçamento feitas inteiramente de vidro que se encontravam no meio das demais pedras, negras e de origem basáltica. No interior de cada pedra transparente lia-se uma mensagem que ia do “Bem vindo” ao “Até logo”, passando por cumprimentos como o “Boa tarde”. As mensagens estavam escritas em inglês, francês, italiano, espanhol, japonês, árabe e russo.

Outra pausa para macacadas

Atravessamos a ponte e margeamos o lago em direção a um parque sugerido pela guia no ofício de turismo. O parque, chamado Perle du Lac (Pérola do Lago) era bastante bonito, mas como muitas das paisagens que eu vi nos últimos tempos deve ser ainda mais bonito no verão ou na primavera. No seu interior encontra-se o Museu de Ciências, no qual não chegamos a entrar, mas cujas atrações externas apreciamos com curiosidade. A primeira atração, que distingui e reconheci de longe, era um par de conchas acústicas que permitia a conversação em sussurros através de uma distância superior a quarenta metros. Havia ainda:

  • Zootrópio: artefato que que produz a ilusão de movimento a partir de imagens estáticas em rápida sucessão
  • Canhão do meio dia: um pequenino canhão calibrado para ser disparado quando o sol do meio dia aciona seu estopim com o auxílio de uma lupa
  • Teodolito
  • Hemisférios de Magdeburgo

Seguimos adiante até o Jardim Botânico, que era muito bonito, mas que apreciamos superficialmente em virtude do tempo que tínhamos. Entramos em algumas estufas, onde pude ver algumas espécies comuns no Brasil e matar as saudades do clima quente e úmido. Em uma delas, mais seca, havia mesmo uma parte que lembrava muito uma caatinga. Próximo dali encontra-se o Palácio das Nações, sede social das Nações Unidas. Pausa para fotos. Na praça imediatamente em frente uma escultura chama a atenção. É a Broken Chair (Cadeira Quebrada, em inglês), um monumento com uma dezena de metros de altura, uma cadeira que possui uma das pernas estilhaçadas. Ela foi posta ali em 1997 como um gesto para atrair a atenção para o tratado de não-proliferação de minas terrestres, que seria assinado naquele ano.

Na frente do Palácio das Nações

Broken Chair

A hora do nosso trem se aproximava e começamos nossa caminhada em direção à estação. Passáramos o dia andando e confirmamos que Genebra é suficientemente pequena para ser atravessada a pé. Tínhamos alguns minutos antes da hora da partida, o que nos motivou a visitar uma cúpula roxa inflada na margem do rio, que víramos no começo do dia. Tratava-se de uma exposição sobre o genoma humano, sendo a tal cúpula uma representação de uma célula. A exposição, abrigada no interior do pitoresco abrigo, foi organizada no contexto dos 450 anos da Universidade de Genebra. Embora pequena, era bem lúdica e interessante. Descobrimos, um pouco atônitos, que os camarões têm 254 cromossomos, enquanto nós temos apenas 23. Sei que isso não significa nada em especial, mas não deixa de ser surpreendente.

Finda a viagem, entramos no trem de volta para Lyon. A casa da Marine, irmã da Pauline, fica a cinco minutos da estação e lá chegamos com o auxílio da Pauline. Lá encontramos a Marine, a Atena e o seu namorado. A Atena é uma paraibana amiga da Marine que mora por lá faz dois anos. É gente finíssima. O namorado dela, que é francês, idem. Batemos um papo legal ao redor da mesa de jantar e pouco depois a Clem chegou. Ficamos todos lá jogando conversa fora, contando os boatos que se escutam sobre franceses, brasileiros e russos. Aos poucos, as pessoas foram indo embora, restando apenas eu, a Marine e a Tonya. Dormimos. Pela manhã pegaríamos o trem que nos conduziria a Strasbourg.

Fim de ano 03: Angers

Dia 3: O clima da nossa queridíssima Bretanha deu o ar da graça de novo. Manhã com chuva e céu cinza-chumbo enquanto pegávamos a estrada para Angers.

Por que Angers?

Como eu disse no texto sobre La Rochelle, os destinos da nossa viagem foram escolhidos em função da distância à Nantes e no nosso interesse m conhecer o lugar. Dos lugares visitados em dezembro, Angers é o mais próximo de Nantes, mas eu acredito que já estava determinado que iríamos lá muito antes de escolhermos todos os destinos.

Explico-me. Nas férias de outono, quando fui a Florença, uma turma de brasileiros alugou um carro e fez um passeio pelo vale do Loire visitando alguns dos (inúmeros) castelos que existem na região. Entre eles estavam o Thiago e o Roger. As fotos da viagem deles são muito boas e os castelos lindos. Mas houve um castelo que eles não conseguiram visitar, pois só chegaram lá na madrugada do último dia de viagem. Foi o castelo de Angers.

Lembro que olhando as fotos deles, o tal castelo me chamou a atenção. É claro que imaginamos que os castelos sejam construções fortificadas, mas Angers é um castelo, digamos, anabolizado. Os outros castelos da viagem tinham muralhas e torres, mas também tinham vitrais e ornamentos e compunham um cenário bem semelhante aos castelos de brinquedo ou desenho animado.

Não era esse o caso do Chatêau du Roi René. O que as fotos da galera mostravam era uma muralha robusta, guarnecida por torres largas e de aspecto muito sólido. Rodeando a muralha, um fosso, cuja profundidade somada com a altura das muralhas dava uma aura de impenetrabilidade ao castelo. Do exterior, impossível ver qualquer sinal do que existe no intra-muros.

Acredito, então, que o o Roger já estava pré-disposto a ir a Angers, uma vez que não tivera a oportunidade de conhecê-la. E eu, embalado pelos relatos e fotos da viagem e fascinado pelo castelo, também já havia decidido.


A visita

Angers é a segunda cidade mais populosa do Pays de la Lore, ficando atrás apenas de Nantes. Situada nas bordas do Maine, um afluente do Loire, a cidade serviu como porto fluvial e fazia a ligação entre capital e o oeste.

Ela é conhecida atualmente por sua produção de flores, o que le vale o epíteto de Cidade das Flores.

Contrariando a tendência dos dois primeiros dias, o terceiro dia amanheceu chuvoso e brumoso. Ainda assim, a chuva era rala e não nos atrapalhou muito. Chegamos ao centro da cidade e de cara tivemos uma visão imediata do castelo. O exterior do castelo é de fato tão impressionante quanto as fotos mostram. Do fundo do fosso que o circunda, ao aldo das muralhas existe um desnível que alcança facilmente 30 metros. Cada uma das dezessete torres do castelo tem 18 metros de diâmetro.



Passada a reação provocada pela visão inicial, entramos. O interior do castelo contrasta um bocado com a aridez do seu invólucro. No interior, um delicado jardim dormina o pátio, com seis esculturas vivas. Próximo do jardim vê-se a capela do castelo, que é bem maior do que a maioria das igrejas de Forteleza, embora não exista mais nada além de uma cruz no seu interior.



Havia um pequeno jardim no fosso do castelo, igualmente bonito.


A maior atração do castelo, contudo, não se vê facilmente. Ela está guardada numa sala especial, climatizada e com luminosidade controlada. Em suma, o Rei Réné era um sujeito plácido e não tinha muito interesse em degolar inimigos ou se meter em orgias. Ele preferia dar uma de mecenas, financiar artistas e enriquecer o seu reino com obras de arte, sobretudo iluminuras (ilustrações feitas em livros, principalmente obras sacras). Mas a obra magna do seu mecenato, e que requer tantos cuidados, é a Tapeçaria do Apocalipse.

Antes de explicá-la detalhadamente, vamos a alguns números. A tapeçaria é formada por seis peças, que juntas totalizavam originalmente um conjunto de 6,5 m de largura por 130 m de comprimento e é até hoje a maior peça de tapeçaria já fabricada no mundo. O guia do castelo utilizou uma expressão muito interessenta para descrevê-la: trata-se da maior história em quadrinhos do mundo.

De fato, a obra é é "lida" como uma história em quadrinhos. Observa-se uma sequência de quadros que mostram sempre à esquerda São João, o "protagonista" da história. O pano de fundo dos quadros se alterna em vermelho e azul, as cores do brasão do reino de Anjou, antigo nome da região. Confesso que fiquei bestificado e segui a explicação do guia até o fim, acabando por ouvir toda a narração do Apocalipse e várias das suas interpretações. Interessante também foi observar as inúmeras mensagens subliminares feitas pelo artista, como a inclusão de símbolos da monarquia francesa entre as hordas do céu e símbolos do reino da Inglaterra entre as hordes infernais.

Mas, como sempre, nem tudo são flores. Boa parte da tapeçaria se perdeu, inclusive todo o texto que havia embaixo dos quadros, reduzindo a largura total a não mais do que 4,5 metros. As seis peças foram recortadas em várias, algumas foram vendidas, outras foram "recicladas" e uma boa parte do patrimônio se perdeu. Além disso, os séculos de exposição e descuido fizeram a pintura desbotar. Por sorte, o tapete foi feito em "dupla face": tudo que está pintado de um lado foi pintado rigorosamente espelhado do outro. A face preservada do tecido encontra-se hoje virada para a parede e não pode ser vista pelo público, mas por fotos é possível ver que as cores se mantiveram vívidas e nítidas.

Terminada a visita à sala da Tapeçaria, eu fiz um pequeno passeio para tirar fotos do castelo e rapidamente segui para a catedral, onde os outros me esperavam. Eles saíram bem mais cedo da visita porque os esforços do Roger em traduzir as explicações do guia para a mãe dele não foram bem recebidas pelos presentes e eles tiveram que se retirar, sendo acompanhados pelos demais.

Lá chegando, deparei-me com um homem de aspecto estranho e com olhos de louco que se benzia compulsivamente com a água bentas das pias que havia no nártex. Ignorei e segui pela nave até encontrar o resto do grupo bem perto do altar. Ao encontrá-los fui logo recebido com a pergunta "Viu o louco?", ao que eu respondi com um inseguro "acho que sim". O tal sujeito os havia abordado minutos antes, dizendo que havia participado da construção da catedral (iniciada em 1032). Segundo ele, a luz filtrada pelos vitrais que entrava na catedral ficava mais forte quando ele cantava e o vermelho ficava mais vermelho quando ele pulava. Eis um cara que tem poderes...

Após visitarmos a catedral, passamos um tempo nas proximidades da Maison d'Adam, uma casa em estilo medieval muito alardeada nos guias turísticos. Descobrimos que tanto alarde era descabido, pois além de possuir uma fachada muito bonita, a casa não abrigava nada mais do que uma loja de artesanato com preços muito poucos acessíveis. Acabamos atravessando a rua e fazendo a festa numa loja cujo nome, em tradução livre, é "Tudo por 2 euros". Findas nossas compras, pegamos o carro e voltamos para Nantes um pouco mais cedo do que pretendíamos, visto que não havia muito mais atrações turísticas visitáveis numa segunda-feira chuvosa.



(texto inacabado)

Fim de ano dia 02: Saint Michel e Saint Malo

Dia 2: Carro, estrada, ação! Destino do dia: manhã no Monte Saint-Michel e tarde em Saint Malo. Esta última eu já conhecia e uma das minhas publicações já tem algo a respeito. Então aqui vou me concentrar no Monte Saint-Michel, mas não sem fazer um breve comentário sobre Saint Malo.


O segundo destino mais visitado da França


Sim, senhores, embora vocês pensem em Torre Eiffel, Louvre, gastronomia refinada, vanguarda da moda e homens de masculinidade questionável quando escutam a palavra "França", saibam que existe algo mais. Depois de Paris, Saint-Michel é o destino mais visitado do país. Por lá passam mais de 3 milhões de turistas por ano. Pudera, localizado no norte da França, o monte é um cartão postal dos mais pitorescos. Vejamos por quê.

Panorâmica do monte e da baía

O nosso grupo de viajantes: Flávio, Juliane, Bruna, Vera, Roger e eu

Monte ou ilha?
Ambos. O Mont Saint-Michel está situado na foz do Rio Couesnon, numa região onde a maré alcança inacreditáveis treze metros de amplitude. Originalmente era ligado ao continente por um pequeno istmo, que era alagado todos os dias por causa do fenômeno. A deposição natural de sedimentos aliada a obras de construção de diques e drenagens realizadas nas redondezas mudaram a paisagem local e "aproximaram" o monte à terra.

O monte era isolado da terra todos os dias e a sua dualidade ilha-montanha era bem marcada. Hoje existe um dique que o liga permanentemente à terra e sobre o qual foi construída uma estrada. Contudo, o monte é rodeado completamente por água 53 dias por ano, durante as marés de sizígia (alinhamento do Sol e da Lua), um espetáculo bastante popular.


Bretanha ou Normandia?
Questão interessante. O rio Couesnon, originalmente a leste do monte, marcava a fronteira entre Bretanha e Normandia. Com as várias obras realizadas no local o curso do rio foi desviado para o oeste. Os bretões afirmam que o monte continua bretão, apesar da mudança. E os normandos afirmam que a fronteira já os favorecia antes, pois, segundo eles, o rio nunca marcou exatamente a fronteira correta.

Hoje o monte é possessão normanda, mas é muito fácil encontrar inúmeros cartões postais com sua foto pelas ruas de Saint Malo ou outras cidades bretãs.



A viagem

Hora de acabar com a enrolação e comentar a viagem de fato. Acordamos cedo e pegamos a a estrada. Nosso GPS tinha um alerta sonoro para quando ultrapassássemos o limite de velocidade e escutamo-lo umas poucas vezes no dia anterior. Estávamos seguindo viagem, tranquilamente metade dos passageiros dormindo, Flávio ao volante e eu no banco do lado quando, surpresa, uma vaca muge dentro do carro e acorda todo mundo. O Roger tomara a liberdade de mudar o alerta de velocidade e gravou um mugido que ele mesmo fez. E toda vez que ultrapassávamos o limite a maldita da vaca (ou do Roger) mugia.

Avançamos em auto-estradas por bastante tempo até que começamos a pegar estradas cada vez mais estreitas e sinuosas cortando paisagens campestres. O tempo estava muito bom: com sol e céu limpo. Estávamos então numa dessas paragens bucólicas da campanha francesa quando eu vi o monte rapidamente e ao longe na fresta formada por duas casas. Ainda que tenha sido uma visão rápida, foi bastante marcante, pois o monte afigura-se no horizonte soberbamente e não se parece com nada facilmente descritível. O resto do pessoal achou que eu estivesse mentindo, pois ninguém mais o vira. Entretanto, nós chegamos uma região onde as casas eram mais esparsas e tivemos uma vista direta.

Imaginem um miragem, uma ilusão de ótica ou algo do gênero. Foi mais ou menos essa a sensação que eu tive. Um campo, algumas colinas e lá adiante uma depressão arenosa na qual se eleva um bloco gigante de granito. Talvez só isso já fosse uma visão suficiente para causar impressão, mas ver o tal bloco apinhado de construções, dentre as quais uma abadia cujo pináculo se eleva a uma altura equivalente a do próprio bloco é algo perturbador. Talvez como uma paisagem saída "O Senhor dos Anéis".

Atravessamos o dique que liga o morro ao continente e estacionamos nas encostas. Na entrada da cidadela uma placa alertava àqueles que quisessem se aventurar a fazer um passeio pelas redondezas que a maré subiria às 13:00 e que todos deveriam retornar antes disso.


Subindo, subindo e subindo, descendo e subindo mais um pouco

Entramos na cidadela ao lado de um grupo de três dúzias de japoneses com suas inseparáveis câmeras. Às vezes eu me pergunto se ele enxergam os lugares que visitam com seus próprios olhos ou se sempre através de uma tela de cristal líquido de uma máquna digital ou do visor de uma reflex.

Logo de cara, um grande e íngrime subida por uma viela apinhada de lojinhas de lembrancinhas, restaurantes e outros estabelecimentos comerciais de apelo marcadamente turístico e que muito pouca relação têm com o passado religioso do local. Em muitas delas, cartões postais brincando com o clima da Normandia, popularmente reputado como chuvoso e desagradável. Há vários museus no local, mas não nos detivemos visto que ainda iríamos para Saint-Malo pela tarde e também porque a prioridade era visitar a abadia.

E após vielas sinuosas e íngremes, escadas, mais escadas e ainda mais escadas chegamos à bilheteria da abadia. Aprendi a lição do dia anterior e entrei de graça com meu passaporte. Explico-me: na maior parte das atrações culturais os estudantes europeus entram de graça mediante apresentação de documento de identidade. O Flávio tem cidadania espanhola e entrou de graças nas torres de La Rochelle, mas ele disse que talvez o nosso passaporte brasileiro com o timbre do título de permanência nos desse os mesmos direitos. Indagamos os funcionários de uma das torres sobre isso e eles confirmaram a história. Então no segundo dia eu não cometi o mesmo erro: levei meu passaporte e gozei dos meus privilégios de estudante residente na Europa. Quando saímos da bilheteria nos deparamos com... escadas!

Subimos já um pouco exaustos e chegamos num pequeno terraço contíguo à nave da abadia, virado para a "frente" do morro, ou seja, o local de onde chegamos, o dique, algo em torno de sul-sudeste. Olhar para baixo por cima da amurada era simplesmente vertiginoso. Pausa para fotos. Entramos na abadia por um acesso lateral e saímos logo em seguida por uma saída pelo fundo da nave, no lugar onde comumente ficam as portas das igrejas. Chegamos em um segundo terraço. Este, porém era muito maior que o outro, virado para o poente, para o leito do rio Couesnon. Vista muito bonita e um vento fustigante que chegou até mesmo a "aprisionar" algumas aves em um vôo estático sobre as nossas cabeças. Pausa para fotos de novo.

Retornamos à abadia, onde tiramos algumas fotos e apreciamos a beleza do lugar. O interior é austero, feito sobretudo em pedras, sem muitos ornamentos ou vitrais chamativos. O sol de inverno, sempre ao sul, entrava pelas janelas do lado direito formando tênues colunas de luz que terminavam na parede do lado oposto.

O interior da abadia

Seguimos o passeio, saindo por uma porta lateral, defronte à porta pela qual entramos. A partir de então passamos por um labirinto de escadas, corredores, escadas descendentes e ascendentes, átrios repletos de colunatas, calabouços e uma miríade de outros aposentos típicos de uma construção medieval. Me detenho especialmente para descrever um deles: o claustro. Localizado imediatamente ao lado norte da abadia, foi o primeiro local que vimos após sair do templo. Trata-se de um grande átrio retangular com um gramado no centro, rodeado por uma marquise abobadada sustentada por inúmeras finas colunas, formando arcos ogivais. A parte mais perturbadora é um conjunto de três arcos virados para o oeste que se abrem para o vazio, uma grande queda. Os arcos foram abertos para servir de passagem para um novo aposento que seria construído em uma expansão da abadia. O tal aposento nunca foi feito, mas a "porta" continua lá, tampada por uma grossa placa de vidro.

O claustro


O vazio através dos arcos

Terminando a visita

Após o claustro percorremos o labirinto encravado no morro. Mesmo eu, que sou um cara razoavelmente bem orientado, perdi completamente o referencial com tantas subidas e descidas que fizemos dentro das construções.

Menino bonitinho que eu vi quando descia da abadia (foto bônus)

Descemos a pequena ruela e paramos num restaurante para comemorar o aniversário da Bruna e degustar a especialidade gastronômica do local: os omelettes "de Mère Poulard". Paguei 18 euros morrendo de pena, mas vá lá... É uma especialidade do local. Por que não? E qual não foi a minha decepção ao meter o garfo no omelete e ver ele colapsando em uma espuma amarela... Sim, só o exterior dele era sólido e foi a parte que eu, de fato, comi. O resto eu tomei feito uma sopa. Foi extrememante frustrante.

Da janela nós víamos a água avançando perto das encostas do monte, o que suscitou algumas preocupações sobre a segurança do carro. Saímos do restaurante e descemos a viela comprando nossas lembrancinhas. Eu continuei a tradição e comprei um distintivo de Saint-Michel.

Embarcamos e rumamos para Saint Malo. Um pequeno problema se fez notar assim que saímos: o GPS não funcionava mais, por mais que insistíssemos ou nos movêssemos. Navegamos com a ajuda dos iPhones do Roger e do Flávio.

Em Saint Malo praticamente repetimos a visita que fizeramos antes: a volta sobre as muralhas e um passeio pelo pitoresco intra-muros. Uma diferença, no entanto: a maré estava alta e foi bem interessante comparar as diferenças na paisagem em relação à outra vez em que estive lá. Não me detenho muito na segunda parte da viagem, pois fizemos basicamente (e até um pouco menos) o que está descrito no post sobre Saint Malo. Algo que vale a pena ser mencionado foi a ida a uma sorveteria bastante reputada que existe na cidade. O Roger recebeu uma recomendação de um dos colocs dele, mas não consiguimos ir na primeira vez. Nesta vez, porém, nos detivemos e valeu a pena. Tomei um sorvete de cassis excelente.


Terceiro dia: Angers




P.S.: Lendo um pouco sobre o Monte Saint-Michel para poder fazer um relato mais rico da viagem eu acabei descobrindo que ele foi usado como inspiração para a cidade de Minas Tirith na versão cinematográfica de "O Senhor dos Anéis".

Fim de ano dia 01: La Rochelle

Primeira semana de férias melancólica. Minha comida apodrecendo no apartamento de um amigo, que o trancou distraidamente antes de voltar ao Brasil. Uma residência praticamente vazia. Os colegas brasileiros seja no Brasil, seja viajando pela Europa, seja sendo visitados pela mãe ou namorada (ou ambas) aqui em Nantes. Difícil abrir um sorriso. Ainda assim, uma ceia de Natal muito boa e entre pessoas muito boas também.

Depois desse pequeno resumo sobre como começaram minhas férias, segue a descrição dos eventos que marcaram as férias da forma como eu quero que elas terminem. Passado o Natal, iniciamos uma sequência de pequenos passeios de um dia. Os participantes: eu, Roger, Bruna (namorada do Roger), Vera (mãe do Roger), Flávio e Juliane (namorada do Flávio). Alugamos um carro (Opel Zafira) para conhecer algumas cidades da região. O itinerário foi escolhido em função da distância e da previsão metereológica. Primeira parada: La Rochelle.


La Rochelle: um pouco de história

Informação número um: La Rochelle é uma cidade portuária. Dito isso e visto que tal informação não surpreende mais ninguém no tocante às minhas preferências turísticas, sigamos com o histórico da cidade.

Fundada no século X, a cidade desenvolveu uma vocação portuária bastante cedo e a partir do século XII já era um porto importante. O apogeu comercial veio no século XIII, por causa das transações de vinho e sal (um produto importante e caro na Idade Média, vale ressaltar), o que levou a cidade a alcançar o status de porto mais importante da costa atlântica francesa no século XV. Durante o período colonial, a atividade portuária se desenvolveu em função do comércio triangular.

Como entreposto comercial importante, La Rochelle era uma cidade cobiçada e sua possessão oscilou várias vezes entre a França e a Inglaterra. Tavez por conta dessa influência cultural inglesa, os rochelenses aderiram à Reforma Protestante. Infelizmente, isso ia de encontro à política de unificação do rei Louis XIII e do cardeal Richelieu. As tropas reais sitiaram a cidade em 1627. O cerco só terminaria treze meses depois, após a morte por inanição de um quinto da população.

Uma última curiosidade: La Rochelle foi a última cidade francesa a ser desocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. E, contrariando o histórico trágico, sem grandes danos.


O passeio

Comecei acordando cedo, o que quebrou o meu ciclo agradável, mas pouco saudável, de dormir de madrugada e acordar às duas da tarde. Fomos buscar o carro na locadora e todo o processo de averiguar o carro e retirar o gelo do parabrisa nos tomou um tempo razoável. Saímos finalmente por volta de 9:00 da manhã.

A primeira parada na cidade foi no Escritório de Turismo, que por razões obscuras eu insisto em chamar de "Office d'Imigration". Banheiro, informações e um mapa, era do que precisávamos (nessa ordem). O escritório é bem próximo do centro turístico da cidade e não foi preciso andar muito para conhecer as principais atrações.

O lugar é uma pequena enseada, ladeada por um cais em toda a sua extensão. No fundo da enseada, um esbelto farol de aterragem. Ainda no fundo, mas uns setecentos metros mais distante fica La Grosse Horloge (O Grande Relógio), uma porta encimada pelo relógio que lhe batiza e que separa o porto do centro da cidade. Aproximadamente entre os dois, a catedral.

Na entrada da baía vê-se as construções que são a marca registrada da cidade: as torres. Elas são três: Tour Saint Nicolas, Tour de la Chaîne e Tour de la Lanterne. As duas primeiras guarnecem a estreita entrada da baía e tinham função majoritariamente de defesa e vigilância. A terceira, afastada do canal de uns quinhentos metros, era usada anteriormente como um farol, fato responsável pelo seu nome.

Panorâmica do porto


Nosso passeio começou pela Tour Saint Nicolas. Nela vivia o capitão do porto e sua família, de onde era possível ter uma vista privilegiada e estratégica da região. Nela era fixa uma grossa corrente que protegia a entrada do porto durante a noite, evitando a invasão de navios de calados mais consideráveis. Escadarias longas, íngremes e perigosamente desgastadas pelo tempo foram nossa companhia constante. Já no topo, aproveitei para tirar N fotos panorâmicas com a minha máquina, recurso que passei a usar recentemente e pelo qual estou viciado. Tivemos que sair da torre em virtude da pausa para o almoço.

Tour Saint Nicolas


Uma baguete acompanhada de uma boa garrafa de vinho bom e barato, mas não vagabundo do tipo "sangue de boi" e partimos para a segunda torre. Eu e o Flávio partimos um bocadinho altos para a segunda visita: Tour de la Chaîne.

Chaîne em francês significa corrente. Isso se deve ao fato de que todas as noites a ponta livre da corrente que guarnercia o porto era presa nesta torre. Desde 2008 uma exposição permanente sobre a colonização francesa na América do Norte é mantida na torre. Mais escadarias intermináveis com degraus gastos e chegamos ao topo, onde eu e o Flávio corremos circulando o núcleo da torre e cantando "un tour, chocho". Muitas fotos e muitos degraus depois fomos visitar a terceira torre.
Tour de la Chaîne


Tour de la Lanterne, a mais alta das três. Nada de realmente memorável no seu interior, apenas os rabiscos que os prisioneiros fizeram na época em que ela era usada como cárcere. As escadarias não pareciam ter fim, mas a subida compensou. Chegamos no topo, numa pequena plataforma que circunda o telhado pontiagudo da torre e que é capaz de deixar qualquer um acrofóbico por causa de sua largura diminuta.

Tour de la Lanterne



A volta (é, já...)

Essa maratona em degraus nos custou bastante tempo e ao fim da visita da terceira torre, nós praticamente só fizemos parar para comprar postais, comer e voltar para o carro. Dei continuidade a uma hábito que já virou tradição: comprar um distintivo de cada cidade por onde passo para costurar na minha mochila, que já estou começando a chamar de "minha testemunha".

Na caminhada até o estacionamento, uma pausa para um pôr-do-sol estonteante. Nem sei se era tão estonteante assim. Então analisemos friamente a situação. Primeiramente, a paisagem era muito bonita e o sol se punha entre as duas torres formando um alinhamento para lá de interessante. Por fim, e mais importante, faz meses que eu não vejo o sol direito, então o simples fato de ele dar as caras e eu sair do clima deterministicamente nublado da Bretanha já é bastante coisa. Conclusão: estonteante sim e fim de papo.

Voltei dirigindo, pena que as luzes dos faróis vindo na direção oposta me deixaram com dor de cabeça depois de um tempo.

Dia seguinte: Mont Saint-Michel e Saint-Malo.


P.S.: Um dia desses, depois de publicar este texto eu descobri que a competição Red Bull Cliff Diving (salto ornamental de grandes alturas) de 2009 teve como etapa inicial La Rochelle. Os atletas saltaram da Tour Saint Nicolas, de uma altura de 26 m. Vale a pena ver o vídeo.



Pouce d'Or Parte 4

12) Contra todas as probabilidades
Chegamos numa estação de serviço a oeste de Paris e nada surpreendentemente fizemos isso entrando por uma contramão. Estacionamos na loja de conveniência e descemos. Um carro acabava de chegar. Eu preciso contar o resto? O título dessa seção não lhe sugere algo? Você não acredita? Pois é, eu até agora não acredito também. O Tobias e a Anaëlle desceram do carro. Espanto, surpresa, um abraço apertado e todos expressaram a intenção de transformar nosso grupo no único quarteto do Pouce d'Or. Nos despedimos dos dois malucos de Paris após eles nos mostraram orgulhosos o motor V6 responsável pela nossa aventura nas periferias da cidade.

No posto não paravam de chegar carros do oeste. Eu e o Loïc conseguimos sem muita dificuldade uma carona num motor-home que iria para Nantes em meia-hora, mas não havia espaço pros outros dois. Voltamos e explicamos a situação. Decidimos ajudá-los a procurar uma carona. Terminamos por encontrar um motorista que poderia levá-los. Mas algo estava errado, tínhamos nos encontrado pela terceira vez ao acaso e essa então tinha sido a mais surpreendente: a última vez que nos víramos foi ainda na Alemanha. Explicamos a situação para o homem. Ele pareceu se divertir muito com toda a história e aceitou nos levar todos para Nantes. Partimos às 21:45

Ele era o diretor financeiro de uma divisão de um grande grupo industrial francês. A sua história era de um legítimo self-made man. Chegou ao seu emprego atual sem diploma universitário, apenas galgando as posições dentro da empresa, que ele definiu como uma empresa que procura competência e não está nem aí para diploma. Perguntamos, como de praxe, se não o incomodávamos. Ele afirmou alegremente que ele gostava que estivéssemos com ele, pois, do contrário, ele sentiria sono, pararia para dormir e chegaria ainda mais tarde. Nossas histórias o mantinham acordado e o fato de chegar mais cedo em casa o agradava.

Terminamos por chegar em casa muito mais cedo do que esperávamos, às 00:20. Tempo suficiente para colocar um pouco do sono em dia. Tiramos a derradeira foto da nossa viagem, já com a residência ao fundo e à esquerda.




13) A Escola desperta ao fim da aventura
Acordei mais cedo pela manhã, para chegar no Bureau de Estudantes antes das oito e comprovar nossa presença. O assuntos das conversas pela manhã era a competição. A histórias, os destinos, todos os assuntos relacionados ferfilhavam nas conversas nos corredores. Acontecimentos inusitados e situações inacreditáveis eram contadas e passavam de boca a boca durante todo dia. Àqueles que conseguiram uma boa distância, aos que ultrapassaram os 1000 km, tapinhas nas costas e felicitações. Havia também as histórias de fracasso, que nem por isso eram menos interessantes que as histórias de sucesso. Alguns eram vistos como heróis, outros como malucos, outros como fracassados, outros como desocupados. Ao longo do dia recebíamos informações das equipes que ainda não tinham voltado. Os loucos da Polônia estavam ainda na Alemanha ao meio-dia e um deles perdera sua carteira.

O resultado saiu pela tarde. Os campeões da sétima edição eram uma dupla de alunos do segundo ano que conseguiram chegar a Lisboa. Em segundo lugar, um empate entre duas duplas: 1211 km até Munique. Nós, o quarteto oficioso que percorreu mais de 1000 Km juntos. Sensação maravilhosa de conseguir um resultado bom, ainda que não tenhamos sidos os vencedores. Conseguimos uma honrosa sexta colocação no Top 25 da história da competição.

Atualizações do front: a história de Lisboa era uma mentira. O presunto (4,62 kg na verdade) é nosso e já tá na geladeira!

Eis o link (em francês) com os resultados.


14) Anedotas de outras equipes
Como você pode ver, meu caro e exausto leitor, eu passei por uma aventura e tanto. Provavelmente a maior da minha vida. Não é ousado demais afirmar que outras equipes passaram por muitas situações tão engraçadas quanto e eu me furto a citar algumas delas.


O método Tanguy
Tanguy (pronuncia-se Tanguí) é o cara que foi eleito Mister Bus no meu ônibus. Ele bolou um método muito interessante para tentar conseguir caronas. Como eu disse antes, muitas pessoas têm medo de dar carona, pois temem que os caroneiros sejam mal intencionados. Foi por isso que o Tanguy fez o seguinte artifício:
Uma carinha sorridente e um cartaz que diz "nós somos gentis". Apesar disso, nós sabemos que existem muitos motoristas que não dão caronas porque são uns tremendos de uns babacas. O método Tanguy também prevê esses casos:
Ele me confessou que em um determinado momento um carro buzinou ao longe e reduziu a velocidade ao se aproximar. Ele jurava que ia receber uma carona. No entanto, o motorista continou em marcha lenta e passou por eles com o dedo médio em riste (o jeito bonito de dizer que o cara tava dando cotoco). Acredito que a plaquinha tenha sido muito bem usada.


Caronas com romenos
Foram motoristas romenos que possibilitaram o recorde do ano passado, e que continua invicto depois desta edição. Não é de surpreender que muitas pessoas quisessem pegar carona com romenos, embora isso seja o tipo de coisa que o acaso escolhe, não nós.

E de fato algumas equipes conseguiram, mas a coisa não funcionou tão bem como no ano passado. Uma equipe entrou num carro onde havia uma pistola no banco de trás. É o tipo de carro onde alguém prudente não entraria.

Outra equipe conseguiu carona com um comboio de romenos, com cinco carros de luxo que iam de Cadillac a Mercedez-Benz. O motorista deles, um rapaz de apenas dezenove anos, disse que elas haviam acabado de comprar os carros. Durante toda a viagem ele se comunicou com os outros motoristas com o celular e com sinais de luz. Um pouco suspeito, não acha?


O troféu échec
Échec significa fracasso. Esse prêmio é quase tão valioso quanto o prêmio ao vencedor. Uma bela história de fracasso é difícil de conseguir. Aquele fracasso retumbante, pungente, que não deixa dúvidas de quem foram os maiores perdedores. E se os caras tiverem espírito esportivo, eles vão saber se divertir com o fato.

Uma equipe em particular estava bastante cotada para o troféu. Eles conseguiram a primeira carona às 13:30 e eu gostaria de lembrar que a partida foi dada às 09:00. Descrentes da sua viagem, eles decidiram apenas dar a volta em Nantes, passando por todos os entroncamentos do anel viário da cidade. Voltaram no fim do dia. Échec total.

No entanto, uma outra equipe entrou no páreo com sérias chances de ganhar. Lembra-se dos caras da Polônia? Pois é. Após pegar carona com um gay que os assediou, andarem a 220 km/h (em média) em outra ocasião, andar num caminhão de vacas e chegar com 24 horas de atraso eles se tornaram os mais fortes concorrentes ao troféu.

Infelizmente, um dos integrantes não tem muito espírito esportivo e mandou esta imagem para todos os que cogitam votar neles para o prêmio. O fato suscitou alguns celeumas na lista de emails do grupo e os ânimos se exaltaram um pouco. Mas o fato é que eles foram imprudentes, não previram que a volta era mais difícil e sofreram com as conseguências disso. Que culpa os outros têm? O melhor é relaxar e gozar, aproveitar as boas histórias que eles devem ter para contar também e se divertir junto com os outros. Esse é o espírito do Pouce d'Or, e do qual eu compartilho integralmente: o lugar para onde se vai não importa, o importante é o que se traz de lá.