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O processo de readaptação

Este texto abre um novo marcador do blog, o guia de veterano. Ele provavelmente conterá poucos textos (talvez apenas este), mas deve ser útil para aqueles que voltaram de programas de intercâmbio. Não que eu vá dar a solução dos seus problemas - seu eu desse, eu cobraria por isso, ora! - mas talvez ajude o leitor com dor de cotovelo dos seus tempos dourados na Zoropa a entender o que está passando na sua cabecinha ainda atordoada pela diferença de fuso horário.


A depressão pós-intercâmbio existe...

... mas não é nenhum bicho papão e uma hora, cedo ou tarde, acaba. Talvez por isso eu tenha demorado tanto para escrever este texto, que eu já planejava desde antes de partir da França, pois eu queria publicar minhas impressões apenas depois que eu tivesse mais segurança de que eu já havia superado esse processo. Acho que é chegado o momento.

É verdade que a volta pro Brasil é desconcertante e pode ter N razões diferentes, então vou tratar aqui apenas do que valeu pra mim. Eu acreditava que chegaria aqui desacostumado com os hábitos, com a rotina, com as pessoas, que eu seria um estranho no ninho e viveria uma constante sensação de não mais pertencer a essa realidade, além de soltar expressões em francês a torto e a direito. Equivoquei-me. A impressão geral é de que eu nunca saí daqui. Tudo me parece banal, do ônibus ao supermercado.

O desconforto então não foi causado por uma readaptação aos costumes brasileiros, mas à perda de algumas coisas que me eram muito caras. A principal foi o conceito de casa. Eu já reparara antes, quando voltei ao Brasil durante as férias, que eu chamava meu apartamento em Nantes de casa com muito mais facilidade do que este apartamento onde eu vivi durante vinte anos. Eu senti de imediato o incômodo de não poder organizar a casa da forma como eu gosto, não pode trazer visitas ou fazer refeições para os amigos, cosias que tinham se tornado tão naturais para mim em Nantes. Acho que esse foi o aspecto mais perturbador e o que me levou a cogitar durante um bom tempo a arrumar um emprego para me mudar para outro lugar sozinho ou com um amigo. A ideia continua, mas não com a urgência que havia antes e sim com a intenção de resgatar o que houve de bom da experiência de morar sozinho e com amigos.

Outro fator de tensão muito grande foi o fato de eu ter voltado cedo - fui o primeiro brasileiro da minha turma a voltar por conta de decisões e imposições desatinadas do coordenador do programa na minha universidade. Meus amigos estão todos na França ainda, fazendo um estágio mais longo, aproveitando esse último semestre na Europa enquanto eu fui obrigado a voltar pro Brasil e recuperar cinco semanas de aula. A primeira atividade que eu fiz na universidade foi uma prova da disciplina mais difícil do semestre. A terceira foi outra prova. Não bastasse todo o alvoroço típico da vida maso-acadêmica de um estudante de engenharia -  potencializada por cinco semanas de aulas perdidas -  eu ainda estou às voltas com toda a burocracia para a validação das disciplinas que eu fiz na França e que me permitirá diplomar-me antes de completar uma década de universidade.


A influência do clima

Eu me queixava muito do clima na Europa. Da escuridão invernal, do céu sempiternamente cinza, do frio... Costumava dizer que isso era um dos principais motivos para a minha depressão e desmotivação, que - vejam só - eram sempre mais intensas no outono e no inverno.

Eu não estava errado. Nos primeiros dias eu vivi um período de disposição intensa, acordava-me naturalmente às 6h00 e ia com toda a disposição do mundo para a universidade. Tentei ver isso com imparcialidade, julgando talvez ser um jet lag positivo. Agora posso afirmar sem dúvida alguma que o clima do Ceará - ensolarado e mais quente que o inferno em dia de pane de ar-condicionado - é fundamental para o meu corpo. Mesmo, apesar da volta da preguiça e dos três toques seguidos no botão Soneca do despertador, eu vejo que meu rendimento médio é muito superior ao que eu apresentava na França.


A aceitação da tatuagem


Vamos falar de um assunto polêmico, a tatuagem. Isso agora é assunto de readaptação dos outros a mim. Eu achava que meus pais iam ficar horrorizados, mas aparentemente tudo se passou bem. Meu pai, que eu acharia que estaria me esperando no aeroporto com um facão pra arrancar-me o braço, ficou olhando o desenho, fez um comentário aqui e ali e só. Minha mãe soltou um "é linda, mas grande demais". Ok, better than expected.

Na universidade tudo se passou bem. Via de regra aceitação positiva e entusiasmada dos meus colegas. Os dois professores que eu mais respeito no meu curso, meu orientador e a antiga orientadora dele, não ligaram e minha imagem para eles não foi prejudicada. Um outro professor fez alguns comentários jocosos mas num clima amistoso. Um quarto professor não fala nada, mas não consegue esconder os olhares enviesados de choque.


Mudanças são inevitáveis

A despeito do que eu disse antes, que a sensação é de que eu nunca deixei o Ceará, é evidente que mudanças acontecem. Lógico que tais mudanças são menos perceptíveis para os que voltaram, mas elas são visíveis ao menor olhar daqueles que ficaram. A maior parte é anedota pura: elas não têm importância, mas vale a pena falar delas.

A primeira diz respeito ao consumo de água. Na França quando você quer água basta colocar um copo debaixo da torneira e mandar ver. Eu tinha o hábito de tomar água após escovar os dentes, lavar as mãos ou durante o banho, de tal forma que beber um copo com água virou um hábito obsoleto. Como a água era da torneira eu só poderia tomar quente ou natural. Eu surpreendi minha mãe nos primeiros dias ao pegar o copo e beber água saída direto do filtro, sem refrigeração alguma.

A segunda também surpreendeu um pouco meus pais na cozinha. O meu paladar se tornou menos tolerante a açúcar e eu tenho uma vaga ideia da razão. Quando eu acordava atrasado para o estágio eu costumava tomar café da manhã no caminho, num McDonald's na estação de La Defense. Manobrar dois croissants, um copo de café e ainda colocar e dissolver açúcar era uma tarefa complicada, de tal modo que eu aboli o ato de adoçar o café para ganhar tempo e diminuir o risco de queimaduras enquanto corria com meu café da manhã nas mãos. Ao fim de duas semanas eu simplesmente não conseguia mais suportar café com açúcar e essa mudança no paladar se propagou para outros alimentos e bebidas.

Ainda sobre paladar... Meu pai costumava me recriminar por eu não gostar de vinho. Esse sermão era praxe todo fim de ano, quando ele me obrigava a tomar pelo menos um gole de vinho e/ou espumante durante as celebrações. Lembro-me que tive a impressão de que para ele o fato de eu ir para a França, onde provavelmente eu aprenderia a apreciar vinhos, era mais importante do que o diploma ou todo o resto. Existe uma discussão célebre que tive com meu pai há muitos anos atrás quando ele me ofereceu um cálice de vinho madeira seco (R$22,90 o litro) que tinha sido presenteado por uma amiga portuguesa e eu disse que preferia vinho Padre Cícero (R$9,00 por cinco litros). Eu de fato voltei com o paladar mais apurado para vinhos e já tive o prazer de tomar um tinto chileno excelente. E tive o "prazer" de tomar um vinho sangue-de-boi novamente e me perguntar como é que eu conseguia gostar daquele troço! Não me julguem pedante por este parágrafo, por favor.

Minha família diz que eu voltei mais cuca-fresca, menos estressado, mais maduro. Isso é bom, talvez seja verdade. Talvez eu realmente tenha alcançado um estado de maior serenidade, de levar a vida com um pouco mais de humor e isso me faz um bem danado. Meus colegas não perdem a oportunidade de que eu voltei gay, segundo uns, ou mais gay, segundo outros. Essa é a desvantagem de ir para a França, a associação é imediata, portanto prefiram intercâmbios na Alemanha e vocês serão considerados mais machos ao voltar. 


Os post-its de La Défense

Antes de começar a ler o texto, eu lhe convido a assistir esses vídeos.

http://www.youtube.com/watch?v=qybUFnY7Y8w
http://www.youtube.com/watch?v=vjqIJW_Qr3c&feature=related

O que eles têm em comum? É fácil descobrir ao primeiro olhar: são reações em cadeia. Esse tipo de fenômeno nos fascina e isso é inegável. Quantas vezes nós não ficamos boquiabertos ao ver a queda de uma única peça de dominó desencadear um espetáculo de proporções gigantescas? Ou mesmo a beleza e a espontaneidade de uma ahola num estádio de futebol. Não esqueçamos também que a fissão nuclear é uma reaçao em cadeia também. Todas elas começam de uma maneira simples: uma peça de domino que cai, um torcedor que se levanta, um neutron que se ejeta de um núcleo.


A França passa por um verão modorrento. O mês de julho foi marcado por temperaturas e chuvas outonais e o céu esteve permanentemente ocultado por um manto cinza. Os dois primeiros dias de agosto forma promissores, quentes e claros, mas o clima logo degringolou e cá estamos mais uma vez amargando um outono prematuro. Apesar de tudo, ainda é o verão e as pessoas saem de férias. As escolas estao fechadas e os escritórios estão com ar de cidade fantasma.

De certa forma esse clima triste combina com La Défense: segundo maior distrito empresarial da Europa, um bloco de concreto em formato de pêra, atravessado por um sem-fim de túneis e vias expressas e onde espigões de vidro e aço sobem vertiginosamente a alturas impossíveis. Poucos lugares no mundo representam com tamanha perfeição as contradições da vida moderna. Um local onde o destino de bilhões e bilhões de euros oriundos da iniciativa pública e privada são decididos... Um local onde todos os dias meio milhão de pessoas se cruzam como em um formigueiro ... A maior parte delas chega confinadas como sardinhas em trens subterrâneos, isoladas do mundo graças aos fones de ouvido ou com a cara enfiada em um livro. Tantas pessoas, tantos encontros possíveis, tantos dáalogos em potencial e no entanto a quantidade de sorrisos e bons-dias trocados em tal ambiente beira o desprezivel. O exemplo típico de um local inóspito, inumano e frio.

E há pouco mais de duas semanas, em uma das inúmeras torres do bairro, alguém fez algo diferente. Provavelmente um funcionario entediado, num escritório meio abandonado, liberado da pressão cotidiana graças às férias do seu patrão. Ele foi até sua janela e usando post-its, os bilhetes adesivos tão comuns no meio corporativo, ele criou um desenho no vidro. Do outro lado da rua, alguém na mesma situação e que provavelmente nunca viu o autor do desenho (ou cruzou com ele anonimamente num metrô) respondeu com outro desenho. Nas outras baias de escrióorio dos dois prédios outras pessoas viram essas manifestações e se lançaram elas mesmas no que agora esta sendo chamada de "A batalha dos Post-its de La Défense". E em tão pouco tempo os desenhos se multiplicaram, se complexificaram e ja ocupam toda a fachada dos dois prédios iniciais. A maior parte deles representa personagens de video-game ou desenhos animados, uma consequência nada surpreendente de um universo predominantemente masculino. Outros são mensagens amistosas para os vizinhos. Um outro expôs sua surpresa diante o absurdo da situação através de um imenso ponto de interrogação.


Não gosto do termo "batalha", pois lembra algo bélico. Existe beleza e poesia nisso. No meio de um ambiente taoáarido e frio, as pessoas começam a se comunicar assim, de uma forma tao singela, com pedaços de papel, averbalmente. Ignoram o rosto dos seus correspondentes, mas sao cúmplices ao compartilharem algo que provavelmente representa as boas lembranças de suas infâncias. Não, definitivamente isso não é uma batalha. É um diálogo. Uma conversa que a cada dia que passa vai ganhando cada vez mais interlocutores. Um burburinho que ja deixou os dois pequenos prédios nos limites do bairro e onde tudo começou para subir uma centena de metros, tal um passarinho, e contaminar as janelas de um arranha-céu de um gigante do setor energético francês. Um murmurio que percorreu os corredores da mesma torre e que atingiu as janelas do outro lado, janelas que estão voltadas diretamentes para a Esplanada de La Défense, o coração do bairro. Quem sabe em duas semanas esse vírus benéfico atravessará a esplanada e contaminará o resto do bairro. E um pedestre que perambula com o passo ligeiro se deterá para olhar esses lampejos de humor decalcados em vidro. E ficará um tempo nessa posição, estático e com um sorriso apontado pro céu, um verdadeiro obstáculo à circulaãao apressada e distraída dos demais. E estes se perguntarao o que pode existir de tao interessante la em cima e seguirao o seu olhar. Um encontro, um comentário, um sorriso, uma pequena descarga elétrica no sistema nervoso desta cidade. Um momento efêmero que desperta o olhar e nos faz ver que ainda existe vida e sentimento que podem brotar na urbe.

Chove em La Defense, os casacos denunciam temperaturas outonais e o céu continua cinza como outrora, mas uma infinidade de fragmentos quentes e radiantes do verão se espalham por todas as partes de Paris nos sorrisos e nos corações daqueles que se deixaram contaminar. E eles entrarão nos trens apertados inconscientemente procurarao nos rostos dos demais passageiros alguém que compartilhe um desses fragmentos estivais.

Chove em Paris.




P.S.:Se você está curioso para ver as fotos, acesse a notícia no Blog de Courbevoie, a cidade onde tudo começou.

Saindo de Nantes... e chegando em Paris

Texto feito nas pressas e com o pouco de energia que me sobra a cada noite após voltar do estágio.

Ando numa situação provisória bastante precária, dividindo um sótão até o fim do mês com o Thiago e a Patrícia, colegas meus de Nantes. O espaço é éxiguo, os choques da minha cabeça com o teto baixo são frequentes e a internet é pouco estável. Além disso, ando às voltas com os problemas gerados pela entrega das chaves do apartamento antigo: venda dos móveis e eletrodomésticos, limpeza da casa, etc. Infelizmente tenho que voltar praticamente a cada fim de semana, assim como o Thiago e o Vladimir, para colocar um pouco de ordem nas coisas, visto que a Katinka, que foi a única a ter ficado em Nantes, tem se mostrado de uma inaptidão completa para resolver um problema por menor que ele seja.

Finalmente deixei Nantes, a cidade que foi meu lar durante mais de um ano e meio. Minhas opiniões a respeito são bem divididas. Se por um lado Nantes é uma cidade agradabilíssima para morar, com um sistema de transporte impecável, uma limpeza irreprimível e uma qualidade e custo de vida de fazer inveja ao resto da França, foi uma cidade que me ofereceu poucos momentos intensos de alegria. Talvez o clima nublado que predomina em quase metade do ano tenha sido uma das fontes mais importantes de desânimo, considerando os dois péssimos invernos que eu oasse...

A população de Nantes é bem jovem pros padrões europeus, a cidade é cheia de escolas e universidades. A população universitária é muito ativa. Mas é predominantemente francesa. Isso sempre me deu a impressão de que a integração era mais difícil. Não a integração na escola, isso nunca foi problema para mim, mas a aproximação de desconhecidos, a criação de laços com pessoas fora do seu círculo habitual de convivências.

Essa dificuldade é sem dúvida o maior contraste que eu vivi quando vim a Paris fazer meu primeiro estágio. Acredito que o fato de morar na Cité Universitaire, um campus imenso, cheio de residências universitárias, contando com mais de 2000 residentes predominantemente estrangeiros, tenha sido fundamental para criar a impressão de cidade cosmopolita que eu carrego até hoje. Em Paris, em pouco menos de dois meses, eu criei um círculo de amizades extra-cotidianas que eu nunca consegui superar em Nantes.

Isso só se reforçou agora que eu estou de volta a Paris. Neste domingo eu fui encontrar dois amigos que faziam um piquenique aos pés da Torre Eiffel. Eles estavam num grupo de umas vinte pessoas, das quais eu não conhecia mais do que cinco. Me integrei brevemente com alguns poucos que estavma por lá. Outras pessoas chegaram. Meus amigos foram embora. Me integrei com os amigos das pessoas que eu conheci ao chegar. Em pouco menos de duas horas eu estava num restaurante comendo, bebendo e batendo um papo super legal e descontraído com pessoas que eu nunca vira antes. Saí dali com a promessa de reencontros futuros. Essa naturalidade em se aproximar das pessoas sempre foi o que mais me fez falta em Nantes.

Entretanto, por mais que eu tenha me queixado tanto disso eu sinto falta da minha cidade. Dos poucos, e bons, amigos que eu fiz e que agora terei dificuldade em reencontrar. Das histórias que eu vivi, boas e más. Da minha bicicleta mágica que me trazia de volta ao fim de cada noite de boemia a despeito do meu equilíbrio e da minha memória. Do nosso apartamento que conseguimos com tanto esforço e cujos cômodos vazios preenchemos de móveis e memórias, vivendo de uma forma sem luxo, mas confortável e autônoma.

Há pouco mais de um mês atrás eu recebi dois excelentes amigos meus de Paris: a Juliana e o Rodrigo. Eles passaram um fim de semana comigo em Nantes.Eles foram a quinta e última visita que eu recebi em Nantes em 20 meses. Eu lhes mostrei a cidade. Cada pedacinho que eu conhecia, cada fato histórico que eu tinha lido com tanto esmero na Wikipedia, cada curiosidade. Dava vida a toda a descrição, aos lugares por onde eu passara e que tinham deixado algum tipo de recordação. Talvez tenha sido o clima belo da primavera ou a proximidade da partida, mas muito provavelmente o que eu dizia não era mais do que a verdade pura e simples: Nantes é bela e sedutora ao seu modo. Não a sedução lânguida e cinematograficamente arrebatadora de Paris, mas uma atração sóbria e sólida, que se instala sem que percebamos, um amor que nasce da convivência e não da paixão. Meus comentários surpreenderam a Ju, tão acostumada com as minhas queixas sobre a capital do Oeste, mas eu posso garantir que o mais surpreendido de todos foi eu mesmo.

Família adotiva

Isso aconteceu em algum dia em meados de novembro, mas minha memória falha e eu não posso dizer ao certo. A escola enviou um email a todos os seus alunos estrangeiros retransmitindo o convite da prefeitura para uma soirée de recepção dos estudantes estrangeiros de Nantes. Nenhum detalhe sobre o programa, a não ser uma indicação de que o prefeito de Nantes estaria presente. Por uma feliz coincidência, o evento aconteceria a 200 metros da minha casa, o que me privou da desculpa da preguiça e da distância e resolvi ir.

Na entrada recebíamos um adesivo com a nossa nacionalidade. O ambiente era organizado como em uma feira, com vários stands representando várias instituições. Algumas delas eram de associações de estudantes, outras eram de escolas de idiomas. Acabei encontrando um stand de uma associação chamada AFA, Association des Familles d'Accueil (algo como Associação de Famílias Adotivas). A proposta deles era interessante: o estudante devia preencher uma ficha com a idade e a nacionalidade, vem como tirar uma foto. Em seguida a ficha seria transmitida para as famílias interessadas. Algumas têm interesse em uma naconalidade específica, outros em estudantes de algum curso específico. A adoção é simbólica, não se traduz em alojamento nem nada do tipo, é a oportunidade de fazer amizade e compartilhar experiências.


Os Carfantan

Em torno de um mês depois eu recebi uma ligação, pois a associação tinha achado uma família interessada em me adotar. Pouco tempo depois eu recebi um email deles. Um casal, Christine e Christian. O email era assinado por ela e falava brevemente da composição família: quatro filhos e seis netos, dos quais um em gestação. Eles moram na zona rural de Carquefou, cidade na região metropolitana de Nantes. Eles me chamaram para um almoço na casa deles e eu topei. Primeiro problema: só é possível chegar em Carquefou de ônibus e para chegar na casa deles não há transporte público. Decidimos entãos que eu iria de ônibus até o centro de Carquefou e a Christine me buscaria de carro.

Ela me encontrou em uma parada de ônibus e seguimos para o serviço do Christian, que é dono de uma pequena empresa de aluguel de boxes para mudanças ou reformas. Ele nos encontraria na casa quando começasse a pausa para o almoço. Seguimos para a casa deles, atravessando um bocado de campos e pastos. Algo captou minha atenção logo que eu entrei: a casa era decorada em estilo náutico com várias fotos de faróis e de paisagens bretãs. Destaque para a foto do farol de La Jument feita por Jean Guichard e que desde pequeno me assombra e me impressiona. Não contive a curiosidade e perguntei se eles eram bretões. São sim. Eu não falei nada da minha paixão pela Bretanha na ficha de inscrição, então isso foi um imenso golpe de sorte.

Nesse dia eu conheci o filho caçula deles, o Yann (João em bretão). Ele tem 18 anos está fazendo classes preparatoires, ou prepa, os estudos que antecedem a escola de engenharia. Para completar a família aidna faltam as três irmãs mais velhas: Annabelle, Solène e Gwénaëlle. A Annabelle, de 20 anos, estava então nos Estados Unidos fazendo um intercâmbio, mas normalmente ela estuda em Angers e volta nos fins de semana. As duas mais velhas já são casadas e têm filhos. Detalhe importante: a Solène é casada com um português e fala um pouquinho do idioma. Eu soube pela Christine que eu era o primeiro estrangeiro que eles adotavam e os dois principais motivos para me adotar foram a minha nacionalidade e a minha formação. Eles acreditavam que, caso eu falasse mal o francês, a Solène e o marido dela poderiam me ajudar com o português. Além disso, sendo estudante de uma escola de engenharia, eu poderia dar dicas e explicações pro Yann.

A visita foi muito simpática, mas durou apenas uma tarde. Almocei e fui embora depois de algum tempo. Eles me convidaram para aparecer por lá outra vez e mesmo dormir uma noite se quisesse.

A segunda visita

A primeira visita deve ter acontecido no início de dezembro. No dia 15 eu voltei para o Brasil, para passar o Natal com a minha família verdadeira. Aproveitei a ocasião para comprar um presente para a minha família adotiva.

Fui visitá-los uma ou duas semanas depois de voltar, no começo de janeiro. Desta vez fui preparado para passar uma noite lá. Fizemos o mesmo acordo da visita anterior: fui de ônibus até Carquefou e esperei que eles fossem me buscar. Numa grande coincidência eu encontrei o Yann na parada, onde ele chegou poucos minutos depois de mim. Não tardou para que a Christine e a Annabelle, recém-chegada dos Estados Unidos, aparecessem de carro para nos buscar.

Ligação surpresa: a Solène diz que vem almoçar também e traz com ela duas filhas e uma sobrinha. Uma das filhas dela, de 8 anos de idade, falava português e era muito engraçadinho conversar com ela. Foi um almoço bem bacana, num clima legal, regado a bom vinho e comendo frutos do mar.

Depois do almoço a Annabelle me convidou para ir a Carquefou, onde estava acontecendo um encontro de cartunistas. Fomos de bicicleta através de um caminho feito onde um dia passara uma estrada de ferro. A entrada era gratuita e havia cartunistas do mundo inteiro. O bacana é que era possível pegar uma folha de papel e pedir para um dos cartunistas fazer um desenho para você. Alguns deles topavam fazer caricaturas, outros não, mas todos desenhavam para o público. Pedi uma caricatura para um cartunista australiano e discutindo com o sujeito descobri que havia um cartunista brasileiro no evento.

Num canto do salão achei o cartunista. Ninguém menos do que Paulo Caruso. Me apresentei em português e pedi uma caricatura. Passei um bom tempo falando com ele. Sujeito tranquilo, cheio de histórias para contar, ele sacou um caderno de viagens que ele havia escrito/desenhado quando veio pela primeira vez na França e onde ele tinha registrado as memórias de viagem dele. Ele fez uma caricatura bem legal e pôs uma dedicatória bem interessante: "Para Angelo, perdido em Carquefou, encontrado por um cartunista".


Voltamos para a casa dos Carfantan e jantamos. De noite cada um se recolheu para o seu quarto. No corredor do primeiro andar havia uma estante cheia de livros, sendo uma parte considerável deles relatos de viagem de velejadores célebres franceses. Não resisti e pedi um emprestado. Victoire en Solitaire de Éric Tabarly, oficial da Marinha de Guerra Francesa. O livro contava a vitória dele em uma regata de travessia do Atlântico em solitário. Eu, fã incondicional de Amyr Klynk, não resisti a um livro assim. Comecei a ler pela noite e entrei pela madrugada lendo. Minha família adotiva fez a gentileza de me emprestar o livro para que eu terminasse em casa.


A terceira visita

Há uma semana eu recebi um email da Christine perguntando o que tinha acontecido comigo, pois fazia muito tempo que não dava notícias. Apesar de me sentir super à vontade com eles e de eles terem dito que eu posso aparecer quando quiser, eu nunca tive coragem de mandar um email dizendo "tô chegando aí tal dia". Mas, aparentemente, é o que eles esperam. Colocamos a conversa em dia e marcamos uma nova visita para o próximo fim de semana. Daqui a cinco dias, no fim do mês, será o aniversário da Annabelle e é bem possível que eles façam alguma comemoração no fim de semana em que eu estarei por lá.


Por que uma famille d'accueil?

Para mim as razões de se inscrever num esquema de adoção desses são bem evidentes, mas às vezes pode ser difícil vencer a barreira da timidez e aceitar ser adotado. Entretanto, a adoção não é apenas uma oportunidade de comer bem e de graça, obviamente. É uma chance única de sair do ambiente da escola, conhecer pessoas diferentes daquelas com quem convivemos todos os dias. É a chance de imergir na cultura francesa de um modo diferente. É, igualmente, a chance de fazer uma amizade legítima e que, quem sabe, pode durar muito além do período de intercâmbio. Por que não?

O termo "família" é algo bem forte também. A dezenas de milhares de quilômetros de casa é reconfortante dizer que temos uma família, ainda que nessas circunstâncias. Não é a frequência das visitas que nos faz sentir em família, mas o calor da acolhida. Eu tenho muito a agradecer aos Carfantan, por terem me recebido tão bem e terem demonstrado um carinho tão genuíno.




Paris

Eu andei olhando uns posts antigos e me deparei com o primeiro que eu publiquei aqui no blog. Nele eu dizia que ao chegar em Paris para fazer correspondência de trem achei tudo muito bonito, mas nao senti que aquela seria minha casa.

Praticamente um ano depois, vejo que Nantes nunca foi minha casa, como eu disse num dos posts sobre o novo apartamento. E so agora sinto ter um lar em Nantes. Depois de quase 11 meses por la eu decidi fazer meu estagio em alguma outra cidade, pois sabia que se eu ficasse eu sufocaria e nao aguentaria começar um segundo ano na mesma cidade sem mudar de ares. E ca estou eu em Paris. A capital evidentemente é muito maior e tem muito mais coisa para fazer, mas o principal motivo para eu ter vindo foi rever meus amigos e isso eu ja havia dito antes.

E amanha eu deixo a cidade luz para voltar pra Nantes. As ultimas seis semanas foram especiais, embora eu tenha escrito muito pouco aqui no blog e nao tenha tirado uma unica fotografia sequer, a despeito de trer trazido a câmera.

Durante um mês e meio eu me submeti a um enduro fisico. Descobri que meu corpo é capaz de carburar alcool e fast-food em proporçoes pantagruelicas. Dividi um quarto de 9m2, onde eu dormia numa cama de armar, com metade do corpo enfiado debaixo de uma mesa, pois nao havia outro lugar para colocar a cama. Raras foram as vezes que eu dormi num colchao. Passei por noites deliberadamente insones. Senti na pele os prazeres e dores de uma vida boêmia e desregrada.

Durante um mês e meio eu senti os espinhos de ser um iniciante face às dificuldades do meu estagio. Foi bastante duro trabalhar com programaçao de iPhones, algo completamente novo para mim, ainda que eu gozasse de bastante flexibilidade de horarios e prazos. Algumas vezes cheguei até a ter pesadelos onde um iPhone e um monitor cheio de linhas de codigo incompreensivel apareciam. Saboreei o sucesso de fazer um aplicativo que funcionasse apos um mês de trabalho, para logo em seguida embarcar no desafio do aplicativo seguinte.

Durante um mês e meio dei um mergulho no Brasil. Comi churrasco e feijoada, com direito até a farofa. Conheci muita gente. Cantei pagode. Tomei caipirinha (com cachaça 51). Digo mais, isso foi uma imersao ans minhas raizes nordestinas. Integrei um grupo de menos de meia duzia de nordestinos que sozinhos eram responsaveis por mais da metade de todas as palhaçadas e brincadeiras da roda. Saudade desse nosso jeito moleque de cearense sintetizavel numa unica interjeiçao ("yeiiiiiiiiiiiii"). Saudade também de poder falar as girias da minha terra com o meu sotaque e no meu ritmo sem passar pela estranheza de ser o unico a fazer isso.

Durante um mês e meio procurei viver minhas aventuras. Em uma aposta numa mesa de bar, fiz um camarada correr nu ao redor do gramado da Cité Universitaire apos ter virado (quase!) um litro de cerveja branca. Ele aceitou pagar a aposta ainda que eu nao tenha virado toda a caneca e eu resolvi acompanha-lo no pagamento por solidariedade. Duas criaturas branquelas numa corrida louca e esbaforida, cuecas nas maos e sebo nas canelas, arrancando aplausos de conhecidos e estranhos entre uma passagem e outra dos seguranças.

Durante um mês e meio as aventuras me procuraram, mesmo quando eu nao as procurei. Andei de carro de policia pela primeira vez e também fui pela primeira vez a um tribunal. Isso depois de ter sido agredido por dois desses tipos marginais oriundos do processo desastroso de descolonizaçao e da politica de imigraçao mal conduzida da França. No final eu sai ganhando: tenho historia pra contar e talvez tenha 1000 euros no bolso no fim do mês que vem como indenizaçao por danos morais e fisicos. Antes que alguém pergunte, eu estou bem e nao aconteceu nada.... =)

Durante um mês e meio acompanhei o drama dos meus amigos, que tiveram seus estagios abruptamente interrompidos por uma decisao autoritaria e pouco clara da UFC, ainda que toda a legislaçao estivesse em favor deles. Momentos nos quais muitos partilharam prantos e reminiscências, enquanto aqueles que ficam sentiam precocemente a ausencia dos que partirao. E Paris parece ficar mais cinza sem um nordestino para alegrar a Maison des Arts et Métiers.

Durante um mês e meio historias pequenas e grandes. Um desfile militar sob a chuva. Uma multa injusta da concessionaria de transporte publico. As caminhadas voltando pela madrugada. As cançoes (afinadas ou nao) acompanhadas pelo violao, que passou praticamente esse tempo todo com uma corda faltando. As "cagadas de pau". Os jogos da copa. Os vinhos de 2 euros. Os vinhos de 4 euros acompanhados pelos queijos de 2 euros. Os desolés nas portas dos bares. As caminhadas pelas ruas mais estreitas e desconhecidas que podiamos encontrar.

Obrigado a todos que tornaram esse periodo tao especial. Esta lista certamente exclui alguns, pois minha memoria ainda nao é digital, e com alguns eu tive muito mais contato do que com outros. Alguns dos citados sequer falam português e nunca verao o blog (dois deles porque eu acho que nao tem internet na prisao), mas agradeço ainda assim. A lista nao obedece a nenhuma ordem especifica.


Residentes da Maison des Arts et Métiers e agregados:
Alexis
Alice
Ana Luisa
Arielly
Bruno
Carlos Breno "CB"
Edson
Ewerton
Fernando
Francisco "Cet Homme" Jonas
Guillaume
Isabella
Jean Patrick
Johann
Ju
Luique
Luiz "Doro"
Marcel
Nathan
Pedro "Master"
Rafael
Regina
Romulo
Sofia
Tamires
Thaisa

Pessoal de Nantes e agregados:
Adrian
Flavio
Ielena
Igor
Natalya
Ricardo
Vladimir

Maison des Industries Adro-Alimentaires (MIAA) e agregados:
Ana
Barbara
Erika
Iuri
Lais
Larissa
Pedro

Outras escolas:
Carlos
Dani
Estevao
Eugénie
Luiz Fernando
Monise
Odile
Raul
Rodrigo

Penitenciaria de Paris:
Wilfried BRANDENBERGER, pela cabeçada no nariz
William GEHRINGER, pela canetada no cou
E pela indenizaçao que vocês vao pagar
=)

14 de julho

Em 1789 os revolucionarios tomaram a Prisao da Bastilha e o dia da empreitada, o 14 de julho, tornou-se a data da festa nacional francesa.

E aqui estava eu em Paris , curtindo meu feriado, encontrando os amigos... Resolvi assistir ao desfile militar na Avenida Champs Elysées. Nada de especial em assistir a um defile militar, na verdade. Mas essa experiência toda tem sido uma fonte inesgotavel de frases do tipo "aqui foi a primeira vez que eu fiz..." e eu resolvi adicionar à lista:

"Foi na França a primeira vez que eu participei de um desfile militar como expectador"


Apos oito anos desfilando e mais metade desse periodo abominando quase qualquer coisa de origem militar, eu resolvi quebrar o jejum. Fui para avenida com meus amigos da Escola, alguns deles de passagem e outros estagiando como eu. Vi tudo o que eu ja conhecia, mas dessa vez pelo outro lado da cerca.

Alguns fatos merecem ser observados:
  • O calor é o mesmo do lado de fora e, embora nao estivesse trajando um uniforme de gala, a proximidade da multidao potencializava o efeito...
  • Falando em multidoes: estar no meio de uma multidao na França durante o verao pode ser uma experiencia traumatica para o seu sistema olfativo.
  • Para conseguir um bom lugar no publico é necessario sofre quase o mesmo tanto que o pessoal que desfila, mas sem o glamour de ser aplaudido.
Conclusao: tirando as semanas de preparaçao para o desfile e todo o sofrimento da vida militar, é muito mais confortavel desfilar que assistir ao desfile.

Intrigante mesmo foi o quanto o desfile me agradou. Apos uma longa espera sob o sol, o desfile começou ao mesmo tempo em que o céu começou a desabar em toneladas de chuva. Melhor pra mim, pois enquanto as pessoas se abrigavam eu ia conseguindo um local cada vez melhor para assistir (e roupas que rapidamente foram de molhadas a encharcadas).

Primeiramente aconteceu o desfile da Aeronautica, mas sob nossas cabeças. Pelo menos 50 aeronaves passaram sob a avenida, sendo o primeiro grupo formado por nove caças que pintaram as cores da França com fumaça sobre os Champs Elysées. Foi realmente deslumbrante, ao menos para um apaixonado por aviaçao como eu, ver a silhueta de um Rafale passar sobre mim e escutar o ronco das suas turbinas.

Em seguida, um regimento de cavalaria com ao menos 100 cavaleiros e uma banda montada inclusa abriram o desfile de terra. Eles foram seguidos de grupamentos de exércitos de naçoes africanas convidadas para o desfile. Todas elas ex-colonias francesas comemorando 50 anos de independencia.

Os grupamentos se seguiram, um a um, sem obedecer a uma ordem precisa de Marinha-Exército-Aeronautica-Policia-Bombeiros como no Brasil. Escolas de cadetes, grupamentos de montanha, alunos de escola de engenharia... O que se percebia logo de cara é que dentre todas as forças os bombeiros sao os mais admirados por aqui e foram os unicos que foram consistentemente aplaudidos.

O desfile a pé se encerrou com a Legiao Estrangeira, a tropa que eu mais queria ver. A Legiao marcha na cadencia de uma cançao deles, bem lenta, bastante particular... Eles marcham numa velocidade muito inferior à de todos os demais grupamentos e, por essa razao, eles fazem um percurso menor para nao atrapalhar o desfile. Eu dei o azar de me posicionar antes do local de entrada da Legiao e a unica coisa que eu vi deles foi as nucas.

O regimento de cavalaria passou mais uma vez, desta vez anunciando o desfile motorizado. Foi muito interessante ver os carros, os blindados e os tanques, mas confesso que nao me empolgou tanto quanto o desfile a pé.

Findo o desfile em terra, novo desfile no céu. Diversos esquadroes de helicopteros passaram sobre a avenida e sob uma chuva assustadoramente grossa. Apos a passagem do ultimo grupo de helicopteros, o sol deu as caras (obrigado, Murphy) e um derradeiro helicoptero passou la no alto projetando para-quedistas. cada um deles trazia uma bandeira de um dos paises africanos convidados.

Na entrada do metro, no meio da multidao que tentava deixar o lugar eu vi que meu celular tinha entrado em coma... Fui com o pessoal do até um McDonald's e pegamos (muita chuva) saindo do metro. Ressucitei o meu aparelho com a ajuda do secador elétrico do banheiro. para completar o programa de indio, voltamos de onibus porque o metro inundou com tanta agua.

Retornei à Maison des Arts et Métiers, onde estou hospedado, e descansei praticamente a tarde inteira e o começo da noite. Meus colegas planejaram de ir à Torre Eiffel para ver a tradicional queima de fogos, marcada para as 23:00. Horario previso de chegada: 20:30. Eu ja estava farto de muvuca por aquele dia e decidi ir com o pessoal da ENSAM para um local mais afastado, mais calmo e onde poderiamos chegar mais tarde. Confesso que eu fiquei com inveja da galera da Centrale que foi para perto, pois foi espetacular. De onde estavamos vimos que foi fantastico, mas tenho certeza que para aqueles que estavam aos pés da torre a experiência deve ter sido no minimo arrebatadora...

penso que agora entendo porque eu desaconselho o Reveillon em Paris. Acho que porque eu esperava ver na virada do ano um espetaculo comparavel ao que eu vi ontem...

Residência no segundo ano: post emocional

Foi difícil, mas conseguimos um apartamento. Foi um processo longo e cheio de percalços, incluindo a dissolução do grupo inicial de locatários, um acordo verbal descumprido por proprietários de um apartamento que nos interessava (desconfiamos seriamente de xenofobia) e uns bons momentos de desespero. Finalmente, no início deste mês conseguimos o apartamento.


Verdade seja dita, ele não corresponde à nossa idéia inicial para a moradia do segundo ano. Esperávamos morar em algum lugar entre o centro e a escola e de preferência com um jardim. Terminamos encontrando um apartamento a três paradas do centro, mas na direção oposta à escola. Somos entre os estrangeiros aqueles que morarão mais longe. Falando em estrangeiros, esqueci de falar logo de cara que a nossa colocação é formada exclusivamente de estrangeiros. Um cearense, um carioca (Thiago), um russo (Vladimir) e uma húngara (Katinka).

Achar o apartamento, pagar um seguro, dar um cheque caução, mobilhar, conseguir um fiador, instalar internet, religar a energia elétrica... É tanta coisa que em pouco tempo nos estressamos e temos a impressão de que vamos enlouquecer. E logo em seguida somos arrebatados por outro sentimento, uma alegria imensa: fomos nós que encontramos o apartamento, somos nós que o estamos mobilhando, nós que resolvemos os problemas. Uma sensação de responsabilidade, mas de independência também.

Isto é outro indício, entre tantos outros que essa jornada vem mostrando, da chegada da idade adulta. E ao mesmo tempo a valorização de tudo isso, não é o apartamento que nós queríamos, inicialmente mas é o NOSSO apartamento e cada parede, cada canto passa a ser valorizado. Aos poucos o cheiro do carpete se torna familiar, a fachada virada para o sul, a vizinhança. Vamos nos acostumando a chamar o lugar de "chez nous" (nossa casa), algo que causava estranheza no início mas que agora vai se tornando cada vez mais palpável à medida que os móveis vão sendo comprados e montados. O lugar começa a realmente ficar com a nossa cara e pensar nele passa a ser algo alentador.



Não sei por que, mas meu quarto na residência nunca me fez sentir como se estivesse em casa. Ele sempre me pareceu um quarto alheio. Meu quarto no apartamento novo é diferente. Eu sou capaz de passar uma boa meia hora sentado no carpete de um quarto vazio imaginando onde vou pôr a cama, a escrivaninha, as luminárias e é impossível reprimir um sorriso.

Começo a ficar chato com meu lenga-lenga e meu caso de amor com esse apartamento. Terminemos este texto com fatos. O apartamento se localiza na Ile de Nantes, ilha onde fica boa parte do centro empresarial de Nantes, ao lado do centro da cidade e bem próximo da fronteira sul com as cidades da região metropolitana (ver mapa). Temos 85 m² de área habitável no nível superior, distribuídos em três quartos, uma sala de estar (transformada em quarto), uma pequena sala de jantar, uma cozinha, um WC e uma sala de banho. No térreo uma garagem para dois carros que será aproveitada para os mais diversos fins: garagem de bicicletas, depósito, área de serviço e o lugar onde eu vou colocar minha máquina de remar para que eu e o Vladimir nos exercitemos.

Desculpem-me por este texto meloso e obrigado por me deixarem (ou não) compartilhar isso com vocês.

Aos novatos de Nantes e de outras cidades também, saibam que vocês são muito bem-vindos e que poderão nos visitar quando quiserem.

É isso aí!






Neve. Neve? Neve!

Sim. Neve. Esta é uma postagem diferente: não dá para fazer aquela minha sinopsezinha sedutora no início do texto porque já se espera o que vem por aí. "Ah, ele vai falar que nevou em Nantes". Bingo, parceiro! Mas nem por isso eu vou deixar de reservar uma ou duas surpresinhas para você. Melhorou, hein?

Como deu pra ver na série de textos "Picolé de Rapadura" a chapa aqui estava esfriando. No fim de semana de 12 e 13 de dezembro os termômetros em Nantes marcaram abaixo de zero pela primeira vez. O balde com água sanitária que eu e o Thiago usamos para limpar a bagunça que a Fanfrale fez na casa dele semana retrasada (longa e traumática história que eu ainda não tive coragem de compartilhar convosco neste humilde blog) foi esquecido na varanda e congelou, fazendo do cabo da vassoura o palito de picolé mais comprido que eu já vi. Achei que a queda seria razoável, saímos dos 3 ou 4ºC e chegaríamos a 0 e -1ºC. Bom, ledo engano. Os termômetros não pararam de descer e chegamos a enregelantes -8ºC de mínima durante a semana.

Já fazia bastante tempo que a meterologia previa neve para dali a uma semana. E todos os dias ela era atualizada, a neve adiada por mais um dia e a ''semana" nunca terminava. Confesso que estava incrédulo, pois várias vezes ouvi falar que em Nantes é muito raro nevar em virtude da proximidade do oceano. Mas uma hora a metereologia marcou a neve em um dia e não mudou mais: sexta-feira 18 de dezembro, último dia de aula. Então era pagar para ver.

Fui dormir tarde na quinta-feira não me lembro por qual razão e a doce expectativa de uma manhã de sexta-feira sem aulas embalou meu sono. Até as 8:00. Foi quando um colega brasileiro me ligou com o maior entusiasmo do mundo:

- Angelo, tá nevando, cara!
- Poxa, legal. Mas tô com sono. Vou voltar a dormir, a neve vai estar lá quando eu acordar.
-Tá nevando, cara!
- Valeu, Rodrigo. Vejo depois.


Constatação 1: minha capacidade de se surpreender e se deslumbrar fica altamente comprometida quando estou com sono. Mais uma para entrar para a lista, junto com a capacidade de julgamento, a capacidade de dirigir e o bom senso. Olhei pela janela, vi calçadas brancas da neve, constatei que estava nevando. E voltei a dormir...

Até as 9:00, quando a Juliana manda uma mensagem singela, mas bastante expressiva, para todos os brasileiros. Meu celular apitou com a mensagem "Neve!". Quatro letras, uma exclamação, mil emoções contidas em cinco caracteres. Muito lindo. Mas não lindo o suficiente para me tirar a turvação que o sono provocava. Me levantei resmungando algo do tipo "essa m... dessa neve que não me deixa dormir", peguei a câmera tirei uma foto da rua para provar para a galera no Brasil que tinha visto neve e voltei a deitar... Eis a foto:


E dormi até as 10:00. Foi então que a campanhia tocou. Cara amassada, despenteado, me levantei para atender a porta, pois o meu colocatário não estava em casa, com a certeza de que era um brasileiro me chamando para ver neve. E não estava errado, era o Rodrigo (o mesmo do telefonema duas horas antes). E ele foi super eficiente, trouxe até uma bola de neve para mim, que ele jogou na minha cara antes de me perguntar se eu estava dormindo quando ele tocou a companhia. Evidentemente fui muito compreensivo com a brincadeira. Foi por isso que eu o expulsei da minha casa e voltei para a cama. Constatação 2: meu bom humor também é comprometido pelo sono.

Mas a qualidade do sono já não era a mesma e decidi que era hora de dar cabo na rabugem, me levantar e fazer como todo bom brasileiro que jamais vira a neve. Me vesti, liguei pro Rodrigo pedindo desculpas pela minha recepção rabugenta e dizendo que se ele quisesse se desculpar da bolada de neve na minha cara, que descesse para tirar umas fotos comigo. Desci antes dele, recrutei um pequeno pelotão de colegas que estavam conversando no exterior para lançar bolas de neve nele e me senti vingado. Agora sim eu podia apreciar a neve. Depois de levar inúmeros petardos gelados, ele tirou essa foto minha:


Decidi ir ao centro da cidade com o Roger e o Thiago para tirar algumas fotos. Como é habitual, o Thiago se atrasou e segui na frente com o Roger fotografando as imediações da Île de Versailles. Aqui vão algumas delas:

O Rio Erdre nas imediações da Île de Versailles. Pouca neve na foto.


E uma parte do rio congelou.

E uns pássaros aproveitaram para dar uma de Jesus Cristo.

Não sem antes deixar as marcas na neve.



Deu até para tirar umas fotos no estilo "Frio? Mas que frio? Não tinha nem percebido".


Quando já estávamos longe chegou o Thiago com os dois mexicanos e uma bola de neve pouco menor do que uma bola de basquete. Uma pequena pausa para fazer um vídeo hilário (que espero postar aqui em breve com os outros vídeos que estou devendo) e mais algumas fotos:






Voltamos para a escola e após almoçarmos fizemos uma breve guerra de neve nas quadras de tênis, que por conta da distância ainda estavam imaculadamente cobertas com um tapete branco. Então fui para as minhas últimas quatro horas de aula do semestre: trabalhos práticos de termodinâmica com um coletor solar e um trocador de calor (sol e calor, que ironia, estão em falta por aqui). O acúmulo de neve aqui é um acontecimento fortuito, pois é preciso que o chão esteja seco para a neve se acumular. Do contrário, ela derrete assim que chega ao solo. O acontecimento de sexta-feira foi um golpe de sorte, pois ele sucedeu uma semana de muito sol e nada de chuva, coisa rara por aqui. Desde então nevou mais duas ou três vezes, algumas delas acompanhadas de chuva, e em nenhuma dessas ocasiões a neve voltou a se acumular como no dia 18. Uma pena.

Pela noite, um último trabalho. A Fanfrale tinha um contrato e lá fui eu com eles. Descobri que tocaríamos ao ar livre (temperatura : -1ºC). Resolvi que seria melhor tocar sem luvas para manter a sensibilidade e conseguir tocar as teclas certas. Em dois minutos meus dedos estavam congelados e eu não tocava mais nada. Não que eu tocasse muita coisa antes também... Todos os instrumentos soavam desafinados por causa do frio. Em cinco minutos gotículas da minha saliva congelaram nas articulações, espumas e cortiças das chaves do saxofone e algumas notas simplesmente pararam de funcionar porque as válvulas ficaram bloqueadas.

Tocamos para o que eu acredito ser a associação do bairro. Era um bairro de periferia, com prédios altos e notadamente mulçumano. Nosso trabalho era tocar no meio da rua, se detendo pouco tempo na frente de cada prédio para chamar a atenção dos moradores. O objetivo era que eles descessem (naquele frio) para participar de uma festinha que estava acontecendo na praça. A praça tinha uma pequena fogueira, ao redor da qual as crianças brincavam. Mais ao longe uma segunda fogueira, enorme. Ao nos aproximarmos comecei a achar a fogueira esquisita. Foi então que eu vi que se tratava de um carro...

E agora (merecidas) férias! A expectativa de uma viagem rápida de dois ou três dias pela Bretanha e o Reveillon em Paris.



Florença: Preâmbulos

Semana atípica, acontecimento atípicos e um começo extremamente atípico para este post, mas que se faz necessário para que vocês entendam como eu fui parar na Itália nas férias em que eu intencionava passar aqui e fazer (quase) nada.

O começo

Tudo começou de fato quando eu cheguei aqui. Isso pode parecer meio determinístico, mas o meu comportamento durante o começo do ano letivo aqui foi decisivo para essa viagem. Por quê? Veremos. Que comportamento? Tentar conhecer o máximo de pessoas possível, guardar o nome delas, ser simpático, exercer a política da boa vizinhança e sobretudo não me limitar a um grupo restrito de amigos. Graças a isso eu conheço muita gente. Tenho na cabeça o nome de cerca de cem pessoas da turma, que tem 347 pessoas. Falo com boa parte delas e ainda com outros cujo nome eu não sei.


A semana

Como eu disse, foi uma semana atípica. Foi a também semana cultural (Semaine Q) da escola, organizada pelo Bureau des Arts (BDA) e participei como voluntário na equipe de apoio. Também foi uma semana pesada pois eu deveria entregar um trabalho de automatismos (não, aqui a vida não é só festa) na sexta feira e eu mal tinha começado, pois não compreendia metade da matéria. O meu tempo estava milimetricamente repartido de forma que eu pudesse assistir a alguns eventos da semana cultural, ajudar na organização e fazer meu trabalho para na sexta feira começar o meu dolce far niente devido ao fracasso dos meus planos de ir a Paris durante as férias.

Foi então que eu soube (de véspera, como é padrão) que o professor da UFC responsável pelo programa nos visitaria em Nantes e os meus planos foram pelos ares. Eu não tinha nenhum tempo vago e a visita tomou o tempo da organização da semana e da participação em alguns eventos, o que provocou a ira do responsável pela equipe de apoio. Uma parte do tempo dedicado a fazer o trabalho também ficou comprometida. A fadiga começou a bater um pouco e um colega meu perguntou o que estava acontecendo.

- Tô com dificuldade em fazer o meu trabalho de AUTOM. Não entendo bem a matéria e tô meio sem tempo.
- Se você quiser eu posso emprestar meu trabalho para você conferir as repostas.

Sei não. Na minha terra "conferir as respostas" não está muito longe de "copiar o trabalho". O mais surpreendente é que mais dois episódios de solidariedade espontânea aconteceram na semana. Segue o próximo.

- Vai passar as férias onde, cara?
- Eu ia para Paris, mas não deu certo. Os meus amigos lá iam viajar e eu terminei sem ter onde ficar.
- Poxa, cara. Eu sou de Paris. Se quiser ir lá pra casa pode vir que é tranquilo.

Alguém pode zoar, dizer que ele tinha segundas intenções, mas ele não parece fazer o tipo. O terceiro episódio foi mais surpreendente...

- Angelo, você tá interessado em integrar uma chapa para concorrer ao BDE?
- Não, cara... Tenho mais interesse no BDA e acho que não tenho o perfil para ser do BDE.
- Por que tu acha que não tem o perfil?
- Sei lá... Acho que pra ser do BDE tem que ser um tipo meio popular e eu não sou assim.
- Mas você é um dos estrangeiros mais populares.
- Mesmo assim acho que não tenho perfil.
- Eu acho que você tem o perfil. E por isso eu te coloquei na minha chapa.
- O QUÊ?!?
Não sei até onde esses episódios são pena, popularidade ou interesse por ter um bichinho estrangeiro exótico numa chapa para chamar atenção. A questão é que tudo isso adveio da minha política de relacionamentos.


O desfecho

Na quinta feira pela manhã aconteceu um concurso de ditado, um evento da semana cultural. Um dos prêmios era uma viagem para Florença. A viagem era organizada pelo BDE e já estava sendo propagandeada havia um bom tempo, mas não me interessava por causa do preço (139€). Não participei do concurso por falta de interesse e também por acreditar que não seria um estrangeiro que ganharia um concurso de ditado.

Durante a tarde de quinta eu me engagei na montagem do palco e na decoração do hall onde aconteceria a soirée da semana cultural. Foi então que aconteceu o último episódio, dessa vez por parte da minha vizinha.

- Angelo, eu fui a primeira colocada no concurso de ditado e ganhei uma viagem para Florença, mas eu já havia comprado uma pra mim. Estou procurando alguém que ia ficar na residência durante as férias para comprar pela metade do preço. Lembrei que você vai ficar em Nantes. Te interessa?
- Deixa eu pensar um pouco...

Três dias na Itália por 70€... Não foi preciso pensar muito. Aceitei. Depois da soirée eu terminei meu trabalho de automatismos (sem copiar) e arrumei minha mochila na madrugada alta para partir no dia seguinte. Os detalhes da viagem estão no post acima.

Meu Sax!

Postagem mega-atrasada. Mil desculpas (outra vez). No domingo, dia 18 de outubro, a Fanfrale fez hyenage em Pornic. Dessa vez eu participei ativamente, ou seja, eu fingi que tocava sax! A grande diferença é que dessa vez era o MEU sax.

Ok. O "meu" sax. Explico-me: partimos de trem pela manhã num espaço do vagão reservado para a Fanfrale. Cada integrante levava o que podia na mão. Na ocasião eu levava o sax emprestado do meu veterano e mais outro cacareco qualquer. Estava bastante ansioso, pois o presidente da Fanfrale disse que havia comprado um sax novo. Evidentemente ele não me pertence, mas está sob minha custódia já que todos os outros saxofonistas já têm seus instrumentos. Novinho, novinho, tem até um par de luvas para evitar a degradação do acabamento pelo suor das mãos. =P

A apresentação ocorreu tranquilamente, salvo pelo fato de haver pouca gente assistindo. No final das contas conseguimos pouco dinheiro, que pagou apenas as passagens e a bebida que levamos.

Enfim, a Bretanha...

Começo de conversa (ou de postagem): o que é a Bretanha? É uma região no noroeste da França que é conhecida pelo mal-tempo, as mulheres feias, os homens beberrões e a tendência separatista. Isso é que você vai ouvir dos franceses e, evidentemente, é uma grande mentira, ou talvez apenas uma meia verdade...

Alguns fatos sobre a Bretanha que explicam um pouco essa fama: o povo bretão tem origem comum com os irlandeses e uma parte dos ingleses, povos do oeste da Grã-Bretanha. A origem é o povo celta, que tem uma cultura riquíssima e cujos símbolos são bem conhecidos até hoje, embora poucos procurem conhecer seus significados. Quando agrega-se um povo como esse a um país cujos outros habitantes partilham de uma cultura completamente diferente o que acontece? Movimentos separatistas e, voilà, a maior razão para a imensa quantidade de piadas sobre os bretões. A Bretanha está para a França como o Rio Grande do Sul está para o Brasil, mas sem a fama de ser terra de homossexuais.

Acontece que desde antes de chegar na França eu queria conhecer a Bretanha. A razão é que eu sou louco por faróis e marinharia e os faróis mais bonitos da França estão lá. Na verdade há muitos faróis por lá, pois a costa é toda recortada em rochedos e penhascos, sem falar das malditas pedras semi-submersas mar adentro. Além disso o povo bretão é tradicionalmente muito ligado ao mar. Bingo! Agora vocês entendem minhas motivações.

Para completar, eu estou na capital não-oficial da Bretanha: a inclusão do departamento Loire-Atlantique na região do Pays de la Loire é contestada por 62% dos habitantes. Não é raro ver por aqui pessoas com adesivos com o triskelion colados nos carros. Boa parte dos meus colegas são bretões e há cinco bretões no meu grupo de trabalho (de 28 pessoas). Já vi alguns cartazes do tipo "Aprenda a falar bretão!" espalhados pela cidade e existem instituições que ensinam a língua por aqui. E vem aí mais um fato interessante: o bretão é o último idioma céltico em uso. Ele tem mais de 3.000 anos de idade e uma quantidade inacreditável de defensores para uma língua "morta" e que não tem mais nenhuma utilidade prática.

E depois dessa introdução descomunal feita para que vocês pudessem entender todo o contexto e todo o significado da minha empreteitada, eu digo: fui à Bretanha! Pela segunda vez, na verdade. A primeira foi pra visitar uma indústria de fundição na semana passada, numa cidade bem próxima daqui e eu de fato nem me senti na Bretanha. Minto, chovia bastante quando eu fui e isso sim tinha cara de Bretanha. Uma colega minha de Rennes, capital administrativa, me chamou juntamente com outros amigos pra passar um fim de semana na casa dela. Éramos nove pessoas, seis franceses e mais eu, o Roger e o Rodrigo de brasileiros. Topei na hora, é claro. Programa 0800 pra região francesa que eu mais queria conhecer e ainda mais sabendo que eu não vou viajar nas férias de Tous Saints porque a grana tá curta...

Fomos! Partida na noite de sexta feira 09/10 em dois carros após um pequeno acidente (o motorista fechou a porta na minha mão, mas nada de grave). Chegamos, comemos, dormimos. Não é muito interessante, mas fazer o quê? Estávamos cansados. No dia seguinte o passeio começou de fato: fomos a Saint Malo, uma cidade turística no litoral da Bretanha. E fazia um tempo maravilhoso.

A cidade é estonteante. É um aglomerado portuário, cujo porto é integrado à cidade. Eu acredito que isso reduza bastante a degradação urbana desse tipo de região e ainda deixa o aspecto do lugar muito simpático. A cidade é toda rodeada por muros (e altos!) e é possível contornar toda a antiga cidadela no alto deles. O centro da cidade é povoada de lojinhas de lembranças. Cartões postais, miniaturas de faróis, barômetros e termômetros náuticos, quadros de nós, facas e espadas, pistolas "antigas", bandeiras da Bretanha e bandeiras piratas, tigelas com quase todos os prenomes utilizados na França, livros e mais livros. Impossível não querer comprar tudo.



Após chegar, comemos e começamos nosso passeio. Uma caminhada sobre os muros para ter uma vista panorâmica do mar. Havia rochedos próximos dar orla e um farol mais ao longe. Num dos rochedos há um espécie de fortaleza erigida Deus sabe como. Interessante observar que o acesso aos rochedos depende da maré, pois existe um caminho que fica encoberto durante a maré alta. Quando chegamos o caminho para o primeiro rochedo estava semi-submerso, mas após alguns minutos ele ficou acessível. O lugar é cheio de placas com alertas e ordens expressas de ficar nos rochedos até que a maré baixe novamente, caso o visitante fique ilhado. No rochedo mais próximo, chamado de Grand Bé, encontra-se a tumba do escritor francês Chateaubriand. Sua obra mais famosa é um livro de memórias e no seu epitáfio (escrito por ele mesmo) consta "Aqui repousa um dos maiores escritores franceses". Tá bom que o cara se garantia, mas humildade definitivamente não era o forte dele. Infelizmente não visitamos o segundo rochedo (Petit Bé), pois a maré não ajudou.



Na volta pela cidade, outra vez sobre os muros, conversávamos e ríamos alto quando fomos interpelados por uma mulher com sotaque:


Senhores, façam silêncio. Eu estou trabalhando, estou aqui com 48 americanos e vocês estão atrapalhando a excurssão.



Quanta felicidade! Quando eu começo a achar francês um bicho pedante, vem uma americana para me lembrar que o depósito de lixo sociológico é do outro lado do Atlântico.

De volta ao centro da cidade. Comprei meus cacarecos. Dois cartões-postais, duas insígnias (um triskelion e um brasão da cidade) para costurar na mochila, um pôster do farol de Ar-men (de uma foto tirada por Jean Guichard) e um livro sobre os faróis do oeste da Europa. O Roger comprou um livro sobre a história da Bretanha e o Rodrigo um livro de iniciação ao bretão.

De volta a Rennes, fizemos uma pequena festinha na casa da nossa anfitriã. Outros amigos dela, residentes na cidade, compareceram. Isso deu origem a alguns atritos e algumas coisas que não me agradaram muito. Eu estava lavando a louça para ajudar um pouco e diminuir a bagunça quando um dos amigos dela começa:


- Por que você está lavando a louça?
- Para ajudar e também para fazer uma cortesia pra Solaine, afinal ela está cedendo a casa para a gente.
- Ah, tá. E vocês costumam lavar muito a louça no Brasil?

(pequena pausa e um olhar enregelante)

- Só quando não está limpa. Eu não faço isso por hobby.



O cara se sujeitou a ouvir uma resposta atravessada no estilo dos Bezerra, não foi culpa minha. Respondi com meu sarcasmo habitual. Apesar de tudo, foi melhor do que a resposta que ficou entalada na garganta do Roger e que ele não soltou por educação ("Com a mesma frequência com que vocês tomam banho"). Um pequeno aparte no texto: durante o fim de semana somente os brasileiros e a anfitriã tomaram banho, os demais centraliens que foram não tomaram.

Festinha vai, festinha vem, o povo dançando e eu na minha, pois eu sou nulo na dança. Converso com um, converso com outro e me vejo num grupo conversando com mais duas meninas. Não lembro qual foi o comentário que eu fiz, acho que alguma coisa sobre o tempo, sobre estar sentindo um pouco de frio e o fato de no Ceará a temperatura ser sempre maior que 25º. Resposta de uma delas: "Que bizarro". Tá certo, guria, o que é teu te espera. Esperava o quê de uma região do lado da linha do Equador? Não sei se é porque eu já estava puto com a resposta do outro cara ou se pelo fato dos amigos da Solaine já terem quebrado três copos e ela expulsar os brasileiros da cozinha ou por eu estar me sentindo deslocado na festa, mas a questão é que a minha paciência estava num nível perigosamente baixo. E a conversa prosseguiu até que a garota falou:


- Ouvi falar que no Brasil vocês trocam de capital a cada cinco anos. É verdade?
- ISSO sim é bizarro.

(Risinho sem graça. Dela)

- Não é algo muito inteligente deslocar todo o aparato burocrático de um país a cada cinco anos, não acha?

(Risinho mais sem graça ainda. Fim da conversa)



Fui dormi ainda com os amigos dela fazendo bagunça lá embaixo. O fato gerou uma pequena discussão no dia seguinte entre alguns dos centraliens que ela convidou sobre o que era a verdadeira amizade. Nós a conhecemos há pouco mais de um mês, mas fomos super voluntariosos na hora de ajudar com a bagunça. Os amigos do peito não fizeram nada. Não entrei na discussão, preferi observar o que os outros falavam.

Voltei para Nantes relativamente cedo, pois ainda tinha que lavar roupa. Saldo da viagem positivo (para minha conta bancária nem tanto, foram 50 euros a menos, mas muito menos do que seria se eu fosse de trem). Voltei feliz de finalmente ter conhecido a Bretanha e com mil idéias na cabeça para o passeio de bicicleta que eu quero fazer na região nas férias de verão do ano que vem. A foto do farol já está pregada na parede adjacente à minha cama e as insígneas estão costuradas na minha mochila, junto com uma insígnia do Eurofighter italiano que eu comprei em Lisboa.

A Fanfrale

Muito bem, o blog andou meio largado às moscas. Peço perdão por isso e aproveito para escrever um post sobre uma das (boas) razões da minha ausência. Aqui na escola existe uma banda de instrumentos de sopro (uma fanfarra) chamada Fanfrale, "La fanfarre de l'École Centrale". Uma das minhas ambições mesmo antes de entrar aqui era participar da Fanfrale.

Pois é, entrei. Fácil assim? Não exatamente, é melhor contar por partes. A Fanfrale é um grupo heterodoxo, não se trata de apenas de tocar determinadas músicas e pronto. Os músicos do grupo se vestem de maneira esdrúxula, com roupas esfarrapadas, bregas e berrantes. Isso faz parte do "espírito fanfarrão", algo que espera-se que todo os integrantes tenham. É algo como estar a um passo do teatro, a outro do circo e a outro da desmoralização pública e sentir-se à vontade com isso.

E como se entra na Fanfrale? Em tese é só chegar e entrar. Não existe um exame de aptidão nem nada do tipo. Quer dizer, oficialmente... Os veteranos nos diziam continuamente que a Fanfrale é um estilo de vida associativa que exige dedicação e também identificação com a identidade do grupo. Trocando em miúdos: para ser aceito é preciso comparecer a todas as soirées que eles organizam durante o período de integração, e não foram poucas. E os caras são hardcore, bebem bastante e se você estiver sem um copo de bebida na mão sem dúvida eles vão colocar algo para você beber. Olha que eu sou chegado em uma cervejinha, mas várias vezes eu usei a desculpa de ir no banheiro pra jogar o excesso de bebida na privada.

O ápice da integração foi o Appartathlon da Fanfrale. Tratava-se de uma soirée análoga ao Appartathlon da escola, salvo que foi feita nos apartamentos dos membros veteranos da Fanfrale. Em cada apartamento havia uma bebida diferente e o consumo era obrigatório. Cerveja, vinho, vodka e tequila (pra terminar). Fora as várias brincadeiras idiotas que os veteranos faziam e cuja maior parte eu me recusei a fazer.

Terminado o período de integração, as coisas se acalmam. Os fanfarrões são as pessoas mais sérias que se pode imaginar quando o assunto é trabalho. Temos ensaios duas vezes por semana nas noites de quarta e sexta e o clima de brincadeira é frequentemente trocado pela disciplina marcial. É nesse momento que entra o outro aspecto da seleção natural, pois temos que nos virar para aprender as músicas seja de ouvido ou com as partituras. Temos prazos para aprendê-las e vale lembrar que a Fanfrale assina contratos de apresentação e é extremamente necessário estar bem treinado. Só fica então quem é dedicado e aguenta o rojão.

Alguns de vocês devem estar se perguntando o que eu toco, já que o único instrumento de sopro que eu tocava (ou fingia que tocava) no Brasil era a gaita e ela não faz parte dos instrumentos da Fanfrale. Pedi para tocar saxofone, embora não soubesse tocar, não houvesse um sax para mim e houvesse já bastantes saxofonistas no grupo. Dependo de empréstimos para poder treinar e além de aprender as múcas eu ainda me deparo com o desafio de aprender um novo (e difícil) instrumento. Todos os novatos que entraram no grupo agora tocam e possuem seus instrumentos há algum tempo, salvo eu e o Thiago. Ele está passando pelo mesmo processo, mas com uma tuba.

E apesar de todos os obstáculos o que eu estou achando? Fantástico. Não foram poucas as vezes que eu pensei em desistir, fosse pelo aprendizado do instrumento e das músicas, fosse pelas atitudes dos veteranos, confesso que toda vez que eu via a Fanfrale tocar eu renovava meu entusiasmo. Sobretudo quando eu fui para a primeira hyénage do ano. Uma hyénage é uma apresentação no centro da cidade com o objetivo de conseguir dinheiro. Resumindo: a gente toca em troca de esmolas, vende cds e deixa os cartões de visitas e os adesivos disponíveis. Todos foram vestidos como fanfarrões, mesmo os novatos. Não tocamos, apenas dançávamos e arrecadávamos a grana. E foi muito foda. Os veteranos disseram que foi uma dia magro, pois arrecadamos "apenas" 293,00 €. Dinheiro que, entre outras coisas, vai servir para comprar novos instrumentos para a Fanfrale, o que significa que vou ter um sax para treinar.



No sábado passado me apresentei com o grupo pela primeira vez. Toquei apenas duas músicas com o sax, as duas únicas que eu sabia. Nas demais eu apenas fiz um teatrinho com uma tuba quebrada, fingia que tocava alguma coisa. Para que melhor?

Visita de Nantes: estilo BDA

Tarde de sábado, período naturalmente consagrado para fazer compras para a casa e outros e dar conta de alguns afazeres domésticos. Havia uma visita de Nantes organizada pelo BDA agendada que não me interessava muito, pois já havia batido bastante perna pela cidade.

Cá estava eu, na minha humilde e desconfortável caminha, tentando recuperar as horas de sono perdido quando uma sirene começa a tocar no corredor. Gritos, alertas e um louco (do BDA, é claro) chamando pelo megafone todos os residentes para a visita de Nantes. Vá lá, depois dessa eu não dormiria mesmo, resolvi dar o braço a torcer.

A visita era na verdade uma gincana. Os EI1 deveriam formar equipes e cada equipe deveria seguir um itinerário, revelado aos poucos à medida em que íamos resolvendo charadas e encontrando pistas pela cidade. Além disso, cada equipe devia levar consigo uma máquina fotográfica para tirar fotos dos lugares e provar que de fato esteve lá e também para tirar fotos originais e divertidas, que seriam objeto de uma competição. Outra parte da gincana era procurar e trazer os objetos mais engraçados e interessantes encontrados no caminho, infelizmente minha equipe desconhecia essa parte da brincadeira e não trouxemos nada. Cada equipe deveria também ter uma deficiência, algo para atrapalhar o deslocamento. A nossa era carregar doze garrafas de água mineral de 1,5l cada sem que pudéssemos beber. Outra equipes deveriam usar saias ou rabos de rato.

Heis uma foto da nossa equipe. Havia cinco nacionalidades distintas: francesa, brasileira, russa, japonesa e húngara.



Cada equipe recebeu dois envelopes e o primeiro deveria ser aberto imediatamente. Nele havia o primeiro destino da aventura. A carta era assinada por Phileas Fogg, o próprio, e ele rogava insistentemente que cumpríssemos o percurso em menos de cinco horas, uma vez que ele havia apostado uma quantia considerável em nossa vitória. Cada equipe tinha destinos iniciais diferentes e o nosso foi a Catedral. Situada no centro da cidade e destacada por sua altura e arquitetura, a Cathédrale Saint-Pierre-et-Saint-Paul é um dos pontos turísticos mais conhecidos de Nantes.

Lá chegando, abrimos o segundo envelope, também "enviado" por Phileas Fogg. O segundo destino era o atelié do grupo Machines de l'Île, um grupo de teatro de rua que utiliza marionetes gigantes em suas atrações e é extremamente reconhecido por aqui. O seu ateliê é um dos pontos turísticos mais visitados de Nantes, se não o mais visitado, e lá é possível pagar para dar uma volta no mais conhecido dos seus marionetes, o elefante. Lá encontramos alguns membros do BDA, que nos fizeram dançar uma coreografia ridícula antes de nos dar o terceiro envelope, sempre assinado pelo astuto Fogg, e que deveria ser aberto apenas no terceiro ponto. E o tal ponto onde nós deveríamos ir era lugar redondo e com uma fonte...





Redondo e com uma fonte? "Place royale!" eu gritei de imediato. A praça é o coração da cidade e é um dos lugares que eu visitei pelas minhas andanças na primeira semana. A praça é circundada de prédios e no seu centro há uma fonte com estátuas, algo bem clássico. Chegamos lá e nos deparamos com outras equipes tomando banho na fonte e tirando fotos. Era uma parada dura de vencer e eu e outro brasileiro resolvemos fazer algo um pouco mais louco para render uma foto melhor. Tiramos uma foto "bebendo" a água que saia de uma das estátuas. De fato a água só entrava na nossa boca, mas não engulíamos.

Com metade das calças molhadas e boa parte da camisa também eu acompanhei o meu grupo até o ponto seguinte. Tivemos que perguntar para outros grupos, pois nossa chefe perdera a terceira carta enquanto íamos para a praça. A pista agora era difícil: devíamos achar um pub irlandês no centro da cidade. Existem centenas de lugares para beber por aqui e um pub irlandês é apenas mais um deles, mas encontramos. Lá, a atendente nos deu um pacotinho de biscoitos LU. Isso quer dizer Lieu Unique (Lugar Único), uma tradicional fábrica de biscoitos de Nantes.

E lá fomos. A antiga fábrica não funciona mais, virou algo entre museu e casa de espetáculos. A sua arquitetura se destaca, sobretudo pela torre na fachada. Havia membros do BDA por lá organizando uma competição. O objetivo era dar três biscoitos LU para cada representante de equipe e ver quem conseguia comer mais rápido. Fui o representante da minha equipe e venci o duelo com outra equipe. Foi muito fácil para quem é acostumado a comer quatro Creams Crackers de uma só vez (valeu, Franklin e nossas partidas de Burro!). Próxima parada: Chatêu des Ducs de Bretagne.







As coisas no castelo foram bem rápidas, logo sabíamos para onde deveríamos ir. Apesar de o castelo ser um dos pontos que eu visitei na minha primeira semana em Nantes, é sempre muito surpreendente ver uma construção do tipo bem no centro de uma cidade. Pegamos a carta na livraria/loja de bugingangas do castelo e Phileas Fogg avisava que iríamos para a última etapa da nossa jornada: o Museu de Belas Artes.

A essa altura já estávamos bem cansados e não havia muita disposição para visitar o museu. Tiramos a foto comprobatória e seguimos para a Escola, com uma parada rápida para tirar fotos toscas e se molhar mais um pouquinho.



Entregamos nossas fotos pros caras do BDA para que eles pudessem julgar e decidir quem era a melhor equipe. Houve prêmios em várias categorias: imbecil, melhor foto, trash, petit LU, prêmio geral e outras que eu não entendi. Nossa equipe ganhou o terceiro lugar na categoria trash pela foto em que bebíamos água na fonte e o primeiro lugar na categoria petit LU, concedida para a equipe cujo representante comesse mais rápido os biscoitos (valeu, Franklin!!!).

Para resumir, o nosso itinerário foi:



B) Catedral
C) Elefante
D) Place Royale
E) O pub irlandês
F) Lieu Unique (LU)
G) Chatêu des Ducs de Bretagne
H) Musée de Beaux Arts

Répas fillot-parrain

Em português : refeição entre afilhado e padrinho. Outra tradição muito legal. Trata-se de uma troca de gentilezas: primeiramente o padrinho convida seu(s) afilhado(s) para um jantar no seu apartamento e os afilhados retribuem oferecendo um jantar em suas casas em outro dia. A primeira parte do evento foi hoje e novamente fui para a casa do meu padrinho.

Lembrem-se que os alunos do segundo ano raramente alugam apartamentos sozinhos, então o jantar inclui afilhados de várias pessoas e, voilá, outra oportunidade de fazer amigos e se integrar. E de fato foi o que ocorreu. Eu já conhecia alguns dos afilhados dos colocs do meu padrinho, mas os outros EI1 presentes eu não conhecia. Infelizmente meu co-fillot, o outro afilhado do meu padrinho, não estava presente porque foi para Bordeaux encontrar a namorada. Segue a foto do grupo:



O menu foi bem interessante. Para beber: cerveja, limonada, curaçao blue, pastis e suco de laranja. O jantar foi mexicano: nachos com guacamole como entrada e tacos como prato principal. O jantar foi ótimo, muita gente legal, música (na caixa e ao vivo) e conversa animada. De estrangeiros havia um EI2 alemão e eu e um chinês de EI1. Dois dos veteranos faziam parte da equipe que montou as duplas de padrinhos e afilhados e eles nos contaram que um programa de computador foi usado para formar as duplas baseando-se nos dados que constavam nas fichas. Além disso, a namorada do meu padrinho fez um estágio na Bahia como voluntária em obras de saneamento rural e fala português razoavelmente bem e deu pra bater um papo bem legal.

Para finalizar uma foto minha com meu parrain Jean-Baptiste e o famoso rato vesgo.