Fim de ano 03: Angers

Dia 3: O clima da nossa queridíssima Bretanha deu o ar da graça de novo. Manhã com chuva e céu cinza-chumbo enquanto pegávamos a estrada para Angers.

Por que Angers?

Como eu disse no texto sobre La Rochelle, os destinos da nossa viagem foram escolhidos em função da distância à Nantes e no nosso interesse m conhecer o lugar. Dos lugares visitados em dezembro, Angers é o mais próximo de Nantes, mas eu acredito que já estava determinado que iríamos lá muito antes de escolhermos todos os destinos.

Explico-me. Nas férias de outono, quando fui a Florença, uma turma de brasileiros alugou um carro e fez um passeio pelo vale do Loire visitando alguns dos (inúmeros) castelos que existem na região. Entre eles estavam o Thiago e o Roger. As fotos da viagem deles são muito boas e os castelos lindos. Mas houve um castelo que eles não conseguiram visitar, pois só chegaram lá na madrugada do último dia de viagem. Foi o castelo de Angers.

Lembro que olhando as fotos deles, o tal castelo me chamou a atenção. É claro que imaginamos que os castelos sejam construções fortificadas, mas Angers é um castelo, digamos, anabolizado. Os outros castelos da viagem tinham muralhas e torres, mas também tinham vitrais e ornamentos e compunham um cenário bem semelhante aos castelos de brinquedo ou desenho animado.

Não era esse o caso do Chatêau du Roi René. O que as fotos da galera mostravam era uma muralha robusta, guarnecida por torres largas e de aspecto muito sólido. Rodeando a muralha, um fosso, cuja profundidade somada com a altura das muralhas dava uma aura de impenetrabilidade ao castelo. Do exterior, impossível ver qualquer sinal do que existe no intra-muros.

Acredito, então, que o o Roger já estava pré-disposto a ir a Angers, uma vez que não tivera a oportunidade de conhecê-la. E eu, embalado pelos relatos e fotos da viagem e fascinado pelo castelo, também já havia decidido.


A visita

Angers é a segunda cidade mais populosa do Pays de la Lore, ficando atrás apenas de Nantes. Situada nas bordas do Maine, um afluente do Loire, a cidade serviu como porto fluvial e fazia a ligação entre capital e o oeste.

Ela é conhecida atualmente por sua produção de flores, o que le vale o epíteto de Cidade das Flores.

Contrariando a tendência dos dois primeiros dias, o terceiro dia amanheceu chuvoso e brumoso. Ainda assim, a chuva era rala e não nos atrapalhou muito. Chegamos ao centro da cidade e de cara tivemos uma visão imediata do castelo. O exterior do castelo é de fato tão impressionante quanto as fotos mostram. Do fundo do fosso que o circunda, ao aldo das muralhas existe um desnível que alcança facilmente 30 metros. Cada uma das dezessete torres do castelo tem 18 metros de diâmetro.



Passada a reação provocada pela visão inicial, entramos. O interior do castelo contrasta um bocado com a aridez do seu invólucro. No interior, um delicado jardim dormina o pátio, com seis esculturas vivas. Próximo do jardim vê-se a capela do castelo, que é bem maior do que a maioria das igrejas de Forteleza, embora não exista mais nada além de uma cruz no seu interior.



Havia um pequeno jardim no fosso do castelo, igualmente bonito.


A maior atração do castelo, contudo, não se vê facilmente. Ela está guardada numa sala especial, climatizada e com luminosidade controlada. Em suma, o Rei Réné era um sujeito plácido e não tinha muito interesse em degolar inimigos ou se meter em orgias. Ele preferia dar uma de mecenas, financiar artistas e enriquecer o seu reino com obras de arte, sobretudo iluminuras (ilustrações feitas em livros, principalmente obras sacras). Mas a obra magna do seu mecenato, e que requer tantos cuidados, é a Tapeçaria do Apocalipse.

Antes de explicá-la detalhadamente, vamos a alguns números. A tapeçaria é formada por seis peças, que juntas totalizavam originalmente um conjunto de 6,5 m de largura por 130 m de comprimento e é até hoje a maior peça de tapeçaria já fabricada no mundo. O guia do castelo utilizou uma expressão muito interessenta para descrevê-la: trata-se da maior história em quadrinhos do mundo.

De fato, a obra é é "lida" como uma história em quadrinhos. Observa-se uma sequência de quadros que mostram sempre à esquerda São João, o "protagonista" da história. O pano de fundo dos quadros se alterna em vermelho e azul, as cores do brasão do reino de Anjou, antigo nome da região. Confesso que fiquei bestificado e segui a explicação do guia até o fim, acabando por ouvir toda a narração do Apocalipse e várias das suas interpretações. Interessante também foi observar as inúmeras mensagens subliminares feitas pelo artista, como a inclusão de símbolos da monarquia francesa entre as hordas do céu e símbolos do reino da Inglaterra entre as hordes infernais.

Mas, como sempre, nem tudo são flores. Boa parte da tapeçaria se perdeu, inclusive todo o texto que havia embaixo dos quadros, reduzindo a largura total a não mais do que 4,5 metros. As seis peças foram recortadas em várias, algumas foram vendidas, outras foram "recicladas" e uma boa parte do patrimônio se perdeu. Além disso, os séculos de exposição e descuido fizeram a pintura desbotar. Por sorte, o tapete foi feito em "dupla face": tudo que está pintado de um lado foi pintado rigorosamente espelhado do outro. A face preservada do tecido encontra-se hoje virada para a parede e não pode ser vista pelo público, mas por fotos é possível ver que as cores se mantiveram vívidas e nítidas.

Terminada a visita à sala da Tapeçaria, eu fiz um pequeno passeio para tirar fotos do castelo e rapidamente segui para a catedral, onde os outros me esperavam. Eles saíram bem mais cedo da visita porque os esforços do Roger em traduzir as explicações do guia para a mãe dele não foram bem recebidas pelos presentes e eles tiveram que se retirar, sendo acompanhados pelos demais.

Lá chegando, deparei-me com um homem de aspecto estranho e com olhos de louco que se benzia compulsivamente com a água bentas das pias que havia no nártex. Ignorei e segui pela nave até encontrar o resto do grupo bem perto do altar. Ao encontrá-los fui logo recebido com a pergunta "Viu o louco?", ao que eu respondi com um inseguro "acho que sim". O tal sujeito os havia abordado minutos antes, dizendo que havia participado da construção da catedral (iniciada em 1032). Segundo ele, a luz filtrada pelos vitrais que entrava na catedral ficava mais forte quando ele cantava e o vermelho ficava mais vermelho quando ele pulava. Eis um cara que tem poderes...

Após visitarmos a catedral, passamos um tempo nas proximidades da Maison d'Adam, uma casa em estilo medieval muito alardeada nos guias turísticos. Descobrimos que tanto alarde era descabido, pois além de possuir uma fachada muito bonita, a casa não abrigava nada mais do que uma loja de artesanato com preços muito poucos acessíveis. Acabamos atravessando a rua e fazendo a festa numa loja cujo nome, em tradução livre, é "Tudo por 2 euros". Findas nossas compras, pegamos o carro e voltamos para Nantes um pouco mais cedo do que pretendíamos, visto que não havia muito mais atrações turísticas visitáveis numa segunda-feira chuvosa.



(texto inacabado)

Fim de ano dia 02: Saint Michel e Saint Malo

Dia 2: Carro, estrada, ação! Destino do dia: manhã no Monte Saint-Michel e tarde em Saint Malo. Esta última eu já conhecia e uma das minhas publicações já tem algo a respeito. Então aqui vou me concentrar no Monte Saint-Michel, mas não sem fazer um breve comentário sobre Saint Malo.


O segundo destino mais visitado da França


Sim, senhores, embora vocês pensem em Torre Eiffel, Louvre, gastronomia refinada, vanguarda da moda e homens de masculinidade questionável quando escutam a palavra "França", saibam que existe algo mais. Depois de Paris, Saint-Michel é o destino mais visitado do país. Por lá passam mais de 3 milhões de turistas por ano. Pudera, localizado no norte da França, o monte é um cartão postal dos mais pitorescos. Vejamos por quê.

Panorâmica do monte e da baía

O nosso grupo de viajantes: Flávio, Juliane, Bruna, Vera, Roger e eu

Monte ou ilha?
Ambos. O Mont Saint-Michel está situado na foz do Rio Couesnon, numa região onde a maré alcança inacreditáveis treze metros de amplitude. Originalmente era ligado ao continente por um pequeno istmo, que era alagado todos os dias por causa do fenômeno. A deposição natural de sedimentos aliada a obras de construção de diques e drenagens realizadas nas redondezas mudaram a paisagem local e "aproximaram" o monte à terra.

O monte era isolado da terra todos os dias e a sua dualidade ilha-montanha era bem marcada. Hoje existe um dique que o liga permanentemente à terra e sobre o qual foi construída uma estrada. Contudo, o monte é rodeado completamente por água 53 dias por ano, durante as marés de sizígia (alinhamento do Sol e da Lua), um espetáculo bastante popular.


Bretanha ou Normandia?
Questão interessante. O rio Couesnon, originalmente a leste do monte, marcava a fronteira entre Bretanha e Normandia. Com as várias obras realizadas no local o curso do rio foi desviado para o oeste. Os bretões afirmam que o monte continua bretão, apesar da mudança. E os normandos afirmam que a fronteira já os favorecia antes, pois, segundo eles, o rio nunca marcou exatamente a fronteira correta.

Hoje o monte é possessão normanda, mas é muito fácil encontrar inúmeros cartões postais com sua foto pelas ruas de Saint Malo ou outras cidades bretãs.



A viagem

Hora de acabar com a enrolação e comentar a viagem de fato. Acordamos cedo e pegamos a a estrada. Nosso GPS tinha um alerta sonoro para quando ultrapassássemos o limite de velocidade e escutamo-lo umas poucas vezes no dia anterior. Estávamos seguindo viagem, tranquilamente metade dos passageiros dormindo, Flávio ao volante e eu no banco do lado quando, surpresa, uma vaca muge dentro do carro e acorda todo mundo. O Roger tomara a liberdade de mudar o alerta de velocidade e gravou um mugido que ele mesmo fez. E toda vez que ultrapassávamos o limite a maldita da vaca (ou do Roger) mugia.

Avançamos em auto-estradas por bastante tempo até que começamos a pegar estradas cada vez mais estreitas e sinuosas cortando paisagens campestres. O tempo estava muito bom: com sol e céu limpo. Estávamos então numa dessas paragens bucólicas da campanha francesa quando eu vi o monte rapidamente e ao longe na fresta formada por duas casas. Ainda que tenha sido uma visão rápida, foi bastante marcante, pois o monte afigura-se no horizonte soberbamente e não se parece com nada facilmente descritível. O resto do pessoal achou que eu estivesse mentindo, pois ninguém mais o vira. Entretanto, nós chegamos uma região onde as casas eram mais esparsas e tivemos uma vista direta.

Imaginem um miragem, uma ilusão de ótica ou algo do gênero. Foi mais ou menos essa a sensação que eu tive. Um campo, algumas colinas e lá adiante uma depressão arenosa na qual se eleva um bloco gigante de granito. Talvez só isso já fosse uma visão suficiente para causar impressão, mas ver o tal bloco apinhado de construções, dentre as quais uma abadia cujo pináculo se eleva a uma altura equivalente a do próprio bloco é algo perturbador. Talvez como uma paisagem saída "O Senhor dos Anéis".

Atravessamos o dique que liga o morro ao continente e estacionamos nas encostas. Na entrada da cidadela uma placa alertava àqueles que quisessem se aventurar a fazer um passeio pelas redondezas que a maré subiria às 13:00 e que todos deveriam retornar antes disso.


Subindo, subindo e subindo, descendo e subindo mais um pouco

Entramos na cidadela ao lado de um grupo de três dúzias de japoneses com suas inseparáveis câmeras. Às vezes eu me pergunto se ele enxergam os lugares que visitam com seus próprios olhos ou se sempre através de uma tela de cristal líquido de uma máquna digital ou do visor de uma reflex.

Logo de cara, um grande e íngrime subida por uma viela apinhada de lojinhas de lembrancinhas, restaurantes e outros estabelecimentos comerciais de apelo marcadamente turístico e que muito pouca relação têm com o passado religioso do local. Em muitas delas, cartões postais brincando com o clima da Normandia, popularmente reputado como chuvoso e desagradável. Há vários museus no local, mas não nos detivemos visto que ainda iríamos para Saint-Malo pela tarde e também porque a prioridade era visitar a abadia.

E após vielas sinuosas e íngremes, escadas, mais escadas e ainda mais escadas chegamos à bilheteria da abadia. Aprendi a lição do dia anterior e entrei de graça com meu passaporte. Explico-me: na maior parte das atrações culturais os estudantes europeus entram de graça mediante apresentação de documento de identidade. O Flávio tem cidadania espanhola e entrou de graças nas torres de La Rochelle, mas ele disse que talvez o nosso passaporte brasileiro com o timbre do título de permanência nos desse os mesmos direitos. Indagamos os funcionários de uma das torres sobre isso e eles confirmaram a história. Então no segundo dia eu não cometi o mesmo erro: levei meu passaporte e gozei dos meus privilégios de estudante residente na Europa. Quando saímos da bilheteria nos deparamos com... escadas!

Subimos já um pouco exaustos e chegamos num pequeno terraço contíguo à nave da abadia, virado para a "frente" do morro, ou seja, o local de onde chegamos, o dique, algo em torno de sul-sudeste. Olhar para baixo por cima da amurada era simplesmente vertiginoso. Pausa para fotos. Entramos na abadia por um acesso lateral e saímos logo em seguida por uma saída pelo fundo da nave, no lugar onde comumente ficam as portas das igrejas. Chegamos em um segundo terraço. Este, porém era muito maior que o outro, virado para o poente, para o leito do rio Couesnon. Vista muito bonita e um vento fustigante que chegou até mesmo a "aprisionar" algumas aves em um vôo estático sobre as nossas cabeças. Pausa para fotos de novo.

Retornamos à abadia, onde tiramos algumas fotos e apreciamos a beleza do lugar. O interior é austero, feito sobretudo em pedras, sem muitos ornamentos ou vitrais chamativos. O sol de inverno, sempre ao sul, entrava pelas janelas do lado direito formando tênues colunas de luz que terminavam na parede do lado oposto.

O interior da abadia

Seguimos o passeio, saindo por uma porta lateral, defronte à porta pela qual entramos. A partir de então passamos por um labirinto de escadas, corredores, escadas descendentes e ascendentes, átrios repletos de colunatas, calabouços e uma miríade de outros aposentos típicos de uma construção medieval. Me detenho especialmente para descrever um deles: o claustro. Localizado imediatamente ao lado norte da abadia, foi o primeiro local que vimos após sair do templo. Trata-se de um grande átrio retangular com um gramado no centro, rodeado por uma marquise abobadada sustentada por inúmeras finas colunas, formando arcos ogivais. A parte mais perturbadora é um conjunto de três arcos virados para o oeste que se abrem para o vazio, uma grande queda. Os arcos foram abertos para servir de passagem para um novo aposento que seria construído em uma expansão da abadia. O tal aposento nunca foi feito, mas a "porta" continua lá, tampada por uma grossa placa de vidro.

O claustro


O vazio através dos arcos

Terminando a visita

Após o claustro percorremos o labirinto encravado no morro. Mesmo eu, que sou um cara razoavelmente bem orientado, perdi completamente o referencial com tantas subidas e descidas que fizemos dentro das construções.

Menino bonitinho que eu vi quando descia da abadia (foto bônus)

Descemos a pequena ruela e paramos num restaurante para comemorar o aniversário da Bruna e degustar a especialidade gastronômica do local: os omelettes "de Mère Poulard". Paguei 18 euros morrendo de pena, mas vá lá... É uma especialidade do local. Por que não? E qual não foi a minha decepção ao meter o garfo no omelete e ver ele colapsando em uma espuma amarela... Sim, só o exterior dele era sólido e foi a parte que eu, de fato, comi. O resto eu tomei feito uma sopa. Foi extrememante frustrante.

Da janela nós víamos a água avançando perto das encostas do monte, o que suscitou algumas preocupações sobre a segurança do carro. Saímos do restaurante e descemos a viela comprando nossas lembrancinhas. Eu continuei a tradição e comprei um distintivo de Saint-Michel.

Embarcamos e rumamos para Saint Malo. Um pequeno problema se fez notar assim que saímos: o GPS não funcionava mais, por mais que insistíssemos ou nos movêssemos. Navegamos com a ajuda dos iPhones do Roger e do Flávio.

Em Saint Malo praticamente repetimos a visita que fizeramos antes: a volta sobre as muralhas e um passeio pelo pitoresco intra-muros. Uma diferença, no entanto: a maré estava alta e foi bem interessante comparar as diferenças na paisagem em relação à outra vez em que estive lá. Não me detenho muito na segunda parte da viagem, pois fizemos basicamente (e até um pouco menos) o que está descrito no post sobre Saint Malo. Algo que vale a pena ser mencionado foi a ida a uma sorveteria bastante reputada que existe na cidade. O Roger recebeu uma recomendação de um dos colocs dele, mas não consiguimos ir na primeira vez. Nesta vez, porém, nos detivemos e valeu a pena. Tomei um sorvete de cassis excelente.


Terceiro dia: Angers




P.S.: Lendo um pouco sobre o Monte Saint-Michel para poder fazer um relato mais rico da viagem eu acabei descobrindo que ele foi usado como inspiração para a cidade de Minas Tirith na versão cinematográfica de "O Senhor dos Anéis".

Fim de ano dia 01: La Rochelle

Primeira semana de férias melancólica. Minha comida apodrecendo no apartamento de um amigo, que o trancou distraidamente antes de voltar ao Brasil. Uma residência praticamente vazia. Os colegas brasileiros seja no Brasil, seja viajando pela Europa, seja sendo visitados pela mãe ou namorada (ou ambas) aqui em Nantes. Difícil abrir um sorriso. Ainda assim, uma ceia de Natal muito boa e entre pessoas muito boas também.

Depois desse pequeno resumo sobre como começaram minhas férias, segue a descrição dos eventos que marcaram as férias da forma como eu quero que elas terminem. Passado o Natal, iniciamos uma sequência de pequenos passeios de um dia. Os participantes: eu, Roger, Bruna (namorada do Roger), Vera (mãe do Roger), Flávio e Juliane (namorada do Flávio). Alugamos um carro (Opel Zafira) para conhecer algumas cidades da região. O itinerário foi escolhido em função da distância e da previsão metereológica. Primeira parada: La Rochelle.


La Rochelle: um pouco de história

Informação número um: La Rochelle é uma cidade portuária. Dito isso e visto que tal informação não surpreende mais ninguém no tocante às minhas preferências turísticas, sigamos com o histórico da cidade.

Fundada no século X, a cidade desenvolveu uma vocação portuária bastante cedo e a partir do século XII já era um porto importante. O apogeu comercial veio no século XIII, por causa das transações de vinho e sal (um produto importante e caro na Idade Média, vale ressaltar), o que levou a cidade a alcançar o status de porto mais importante da costa atlântica francesa no século XV. Durante o período colonial, a atividade portuária se desenvolveu em função do comércio triangular.

Como entreposto comercial importante, La Rochelle era uma cidade cobiçada e sua possessão oscilou várias vezes entre a França e a Inglaterra. Tavez por conta dessa influência cultural inglesa, os rochelenses aderiram à Reforma Protestante. Infelizmente, isso ia de encontro à política de unificação do rei Louis XIII e do cardeal Richelieu. As tropas reais sitiaram a cidade em 1627. O cerco só terminaria treze meses depois, após a morte por inanição de um quinto da população.

Uma última curiosidade: La Rochelle foi a última cidade francesa a ser desocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. E, contrariando o histórico trágico, sem grandes danos.


O passeio

Comecei acordando cedo, o que quebrou o meu ciclo agradável, mas pouco saudável, de dormir de madrugada e acordar às duas da tarde. Fomos buscar o carro na locadora e todo o processo de averiguar o carro e retirar o gelo do parabrisa nos tomou um tempo razoável. Saímos finalmente por volta de 9:00 da manhã.

A primeira parada na cidade foi no Escritório de Turismo, que por razões obscuras eu insisto em chamar de "Office d'Imigration". Banheiro, informações e um mapa, era do que precisávamos (nessa ordem). O escritório é bem próximo do centro turístico da cidade e não foi preciso andar muito para conhecer as principais atrações.

O lugar é uma pequena enseada, ladeada por um cais em toda a sua extensão. No fundo da enseada, um esbelto farol de aterragem. Ainda no fundo, mas uns setecentos metros mais distante fica La Grosse Horloge (O Grande Relógio), uma porta encimada pelo relógio que lhe batiza e que separa o porto do centro da cidade. Aproximadamente entre os dois, a catedral.

Na entrada da baía vê-se as construções que são a marca registrada da cidade: as torres. Elas são três: Tour Saint Nicolas, Tour de la Chaîne e Tour de la Lanterne. As duas primeiras guarnecem a estreita entrada da baía e tinham função majoritariamente de defesa e vigilância. A terceira, afastada do canal de uns quinhentos metros, era usada anteriormente como um farol, fato responsável pelo seu nome.

Panorâmica do porto


Nosso passeio começou pela Tour Saint Nicolas. Nela vivia o capitão do porto e sua família, de onde era possível ter uma vista privilegiada e estratégica da região. Nela era fixa uma grossa corrente que protegia a entrada do porto durante a noite, evitando a invasão de navios de calados mais consideráveis. Escadarias longas, íngremes e perigosamente desgastadas pelo tempo foram nossa companhia constante. Já no topo, aproveitei para tirar N fotos panorâmicas com a minha máquina, recurso que passei a usar recentemente e pelo qual estou viciado. Tivemos que sair da torre em virtude da pausa para o almoço.

Tour Saint Nicolas


Uma baguete acompanhada de uma boa garrafa de vinho bom e barato, mas não vagabundo do tipo "sangue de boi" e partimos para a segunda torre. Eu e o Flávio partimos um bocadinho altos para a segunda visita: Tour de la Chaîne.

Chaîne em francês significa corrente. Isso se deve ao fato de que todas as noites a ponta livre da corrente que guarnercia o porto era presa nesta torre. Desde 2008 uma exposição permanente sobre a colonização francesa na América do Norte é mantida na torre. Mais escadarias intermináveis com degraus gastos e chegamos ao topo, onde eu e o Flávio corremos circulando o núcleo da torre e cantando "un tour, chocho". Muitas fotos e muitos degraus depois fomos visitar a terceira torre.
Tour de la Chaîne


Tour de la Lanterne, a mais alta das três. Nada de realmente memorável no seu interior, apenas os rabiscos que os prisioneiros fizeram na época em que ela era usada como cárcere. As escadarias não pareciam ter fim, mas a subida compensou. Chegamos no topo, numa pequena plataforma que circunda o telhado pontiagudo da torre e que é capaz de deixar qualquer um acrofóbico por causa de sua largura diminuta.

Tour de la Lanterne



A volta (é, já...)

Essa maratona em degraus nos custou bastante tempo e ao fim da visita da terceira torre, nós praticamente só fizemos parar para comprar postais, comer e voltar para o carro. Dei continuidade a uma hábito que já virou tradição: comprar um distintivo de cada cidade por onde passo para costurar na minha mochila, que já estou começando a chamar de "minha testemunha".

Na caminhada até o estacionamento, uma pausa para um pôr-do-sol estonteante. Nem sei se era tão estonteante assim. Então analisemos friamente a situação. Primeiramente, a paisagem era muito bonita e o sol se punha entre as duas torres formando um alinhamento para lá de interessante. Por fim, e mais importante, faz meses que eu não vejo o sol direito, então o simples fato de ele dar as caras e eu sair do clima deterministicamente nublado da Bretanha já é bastante coisa. Conclusão: estonteante sim e fim de papo.

Voltei dirigindo, pena que as luzes dos faróis vindo na direção oposta me deixaram com dor de cabeça depois de um tempo.

Dia seguinte: Mont Saint-Michel e Saint-Malo.


P.S.: Um dia desses, depois de publicar este texto eu descobri que a competição Red Bull Cliff Diving (salto ornamental de grandes alturas) de 2009 teve como etapa inicial La Rochelle. Os atletas saltaram da Tour Saint Nicolas, de uma altura de 26 m. Vale a pena ver o vídeo.



Neve. Neve? Neve!

Sim. Neve. Esta é uma postagem diferente: não dá para fazer aquela minha sinopsezinha sedutora no início do texto porque já se espera o que vem por aí. "Ah, ele vai falar que nevou em Nantes". Bingo, parceiro! Mas nem por isso eu vou deixar de reservar uma ou duas surpresinhas para você. Melhorou, hein?

Como deu pra ver na série de textos "Picolé de Rapadura" a chapa aqui estava esfriando. No fim de semana de 12 e 13 de dezembro os termômetros em Nantes marcaram abaixo de zero pela primeira vez. O balde com água sanitária que eu e o Thiago usamos para limpar a bagunça que a Fanfrale fez na casa dele semana retrasada (longa e traumática história que eu ainda não tive coragem de compartilhar convosco neste humilde blog) foi esquecido na varanda e congelou, fazendo do cabo da vassoura o palito de picolé mais comprido que eu já vi. Achei que a queda seria razoável, saímos dos 3 ou 4ºC e chegaríamos a 0 e -1ºC. Bom, ledo engano. Os termômetros não pararam de descer e chegamos a enregelantes -8ºC de mínima durante a semana.

Já fazia bastante tempo que a meterologia previa neve para dali a uma semana. E todos os dias ela era atualizada, a neve adiada por mais um dia e a ''semana" nunca terminava. Confesso que estava incrédulo, pois várias vezes ouvi falar que em Nantes é muito raro nevar em virtude da proximidade do oceano. Mas uma hora a metereologia marcou a neve em um dia e não mudou mais: sexta-feira 18 de dezembro, último dia de aula. Então era pagar para ver.

Fui dormir tarde na quinta-feira não me lembro por qual razão e a doce expectativa de uma manhã de sexta-feira sem aulas embalou meu sono. Até as 8:00. Foi quando um colega brasileiro me ligou com o maior entusiasmo do mundo:

- Angelo, tá nevando, cara!
- Poxa, legal. Mas tô com sono. Vou voltar a dormir, a neve vai estar lá quando eu acordar.
-Tá nevando, cara!
- Valeu, Rodrigo. Vejo depois.


Constatação 1: minha capacidade de se surpreender e se deslumbrar fica altamente comprometida quando estou com sono. Mais uma para entrar para a lista, junto com a capacidade de julgamento, a capacidade de dirigir e o bom senso. Olhei pela janela, vi calçadas brancas da neve, constatei que estava nevando. E voltei a dormir...

Até as 9:00, quando a Juliana manda uma mensagem singela, mas bastante expressiva, para todos os brasileiros. Meu celular apitou com a mensagem "Neve!". Quatro letras, uma exclamação, mil emoções contidas em cinco caracteres. Muito lindo. Mas não lindo o suficiente para me tirar a turvação que o sono provocava. Me levantei resmungando algo do tipo "essa m... dessa neve que não me deixa dormir", peguei a câmera tirei uma foto da rua para provar para a galera no Brasil que tinha visto neve e voltei a deitar... Eis a foto:


E dormi até as 10:00. Foi então que a campanhia tocou. Cara amassada, despenteado, me levantei para atender a porta, pois o meu colocatário não estava em casa, com a certeza de que era um brasileiro me chamando para ver neve. E não estava errado, era o Rodrigo (o mesmo do telefonema duas horas antes). E ele foi super eficiente, trouxe até uma bola de neve para mim, que ele jogou na minha cara antes de me perguntar se eu estava dormindo quando ele tocou a companhia. Evidentemente fui muito compreensivo com a brincadeira. Foi por isso que eu o expulsei da minha casa e voltei para a cama. Constatação 2: meu bom humor também é comprometido pelo sono.

Mas a qualidade do sono já não era a mesma e decidi que era hora de dar cabo na rabugem, me levantar e fazer como todo bom brasileiro que jamais vira a neve. Me vesti, liguei pro Rodrigo pedindo desculpas pela minha recepção rabugenta e dizendo que se ele quisesse se desculpar da bolada de neve na minha cara, que descesse para tirar umas fotos comigo. Desci antes dele, recrutei um pequeno pelotão de colegas que estavam conversando no exterior para lançar bolas de neve nele e me senti vingado. Agora sim eu podia apreciar a neve. Depois de levar inúmeros petardos gelados, ele tirou essa foto minha:


Decidi ir ao centro da cidade com o Roger e o Thiago para tirar algumas fotos. Como é habitual, o Thiago se atrasou e segui na frente com o Roger fotografando as imediações da Île de Versailles. Aqui vão algumas delas:

O Rio Erdre nas imediações da Île de Versailles. Pouca neve na foto.


E uma parte do rio congelou.

E uns pássaros aproveitaram para dar uma de Jesus Cristo.

Não sem antes deixar as marcas na neve.



Deu até para tirar umas fotos no estilo "Frio? Mas que frio? Não tinha nem percebido".


Quando já estávamos longe chegou o Thiago com os dois mexicanos e uma bola de neve pouco menor do que uma bola de basquete. Uma pequena pausa para fazer um vídeo hilário (que espero postar aqui em breve com os outros vídeos que estou devendo) e mais algumas fotos:






Voltamos para a escola e após almoçarmos fizemos uma breve guerra de neve nas quadras de tênis, que por conta da distância ainda estavam imaculadamente cobertas com um tapete branco. Então fui para as minhas últimas quatro horas de aula do semestre: trabalhos práticos de termodinâmica com um coletor solar e um trocador de calor (sol e calor, que ironia, estão em falta por aqui). O acúmulo de neve aqui é um acontecimento fortuito, pois é preciso que o chão esteja seco para a neve se acumular. Do contrário, ela derrete assim que chega ao solo. O acontecimento de sexta-feira foi um golpe de sorte, pois ele sucedeu uma semana de muito sol e nada de chuva, coisa rara por aqui. Desde então nevou mais duas ou três vezes, algumas delas acompanhadas de chuva, e em nenhuma dessas ocasiões a neve voltou a se acumular como no dia 18. Uma pena.

Pela noite, um último trabalho. A Fanfrale tinha um contrato e lá fui eu com eles. Descobri que tocaríamos ao ar livre (temperatura : -1ºC). Resolvi que seria melhor tocar sem luvas para manter a sensibilidade e conseguir tocar as teclas certas. Em dois minutos meus dedos estavam congelados e eu não tocava mais nada. Não que eu tocasse muita coisa antes também... Todos os instrumentos soavam desafinados por causa do frio. Em cinco minutos gotículas da minha saliva congelaram nas articulações, espumas e cortiças das chaves do saxofone e algumas notas simplesmente pararam de funcionar porque as válvulas ficaram bloqueadas.

Tocamos para o que eu acredito ser a associação do bairro. Era um bairro de periferia, com prédios altos e notadamente mulçumano. Nosso trabalho era tocar no meio da rua, se detendo pouco tempo na frente de cada prédio para chamar a atenção dos moradores. O objetivo era que eles descessem (naquele frio) para participar de uma festinha que estava acontecendo na praça. A praça tinha uma pequena fogueira, ao redor da qual as crianças brincavam. Mais ao longe uma segunda fogueira, enorme. Ao nos aproximarmos comecei a achar a fogueira esquisita. Foi então que eu vi que se tratava de um carro...

E agora (merecidas) férias! A expectativa de uma viagem rápida de dois ou três dias pela Bretanha e o Reveillon em Paris.



Picolé de rapadura 3

Quem foi o fi duma égua que disse que não faz sol em Nantes????


P.S.: As temperaturas são um mero detalhe, ok? Beeeeeeeeeem insignificante.