Stage Ingénieur

Se você lembra da maneira como eu consegui meu estágio do primeiro ano e acha que foi inusitada (se não lembra, relembre aqui), sente-se na sua cadeira, pegue algo para comer e prepare-se para ler o que vem por aí.

Uma história cheia de reviravoltas, despedidas, encontros casuais, futebol, álcool, tatuagens, romance e mais álcool.


Um verão em Paris

Como não podia deixar de ser, minhas histórias começam com um (longo) preâmbulo e esta aqui não é diferente. Em julho do ano passado eu me mudei para Paris para fazer o meu estágio operário. Seriam dois meses na capital francesa, explorando a boa vontade e hospitalidade do Rômulo, que topou dividir o quarto de 9 m² dele comigo por esse tempo todo. Acho que a nossa sina é dividir espaços exíguos, pois uma vez tivemos que dividir por quatro dias uma barraca de supostos dois lugares durante o Encontro Nacional do Programa de Educação Tutorial (ENAPET).

Cheguei em Paris numa sexta feira, já perto da meia-noite. Numa recepção super efusiva, o Rômulo, o Nathan e o Luíque, meus colegas da UFC, conseguiram rasgar minha bermuda no fundo ao me lançarem repetidas vezes para cima. Estava lá também o Carlos Breno, mais conhecido como CB, um camarada de Colégio Militar que eu não via há séculos. Eu disse que a vida é feita de encontros, mas às vezes alguns desencontros valem a pena de serem contados. Eu e o CB viemos para a França na mesma época, mas ignorávamos os rumos um do outro. Por acaso ele era colega do Rômulo e do Nathan em Paris. Quase seis meses depois de instalado em Nantes eu descubro com o Rômulo que o CB estava lá. Tivemos vários desencontros, pois ele estava sempre viajando nas épocas em que eu podia ir pra Paris, mas finalmente nos encontramos naquela sexta feira. Detalhe: ele partiria em definitivo para o Brasil no dia seguinte.

No gramado da Cité Universitaire, a galera reunida em torno do violão e da garrafa de vinho resgatando reminiscências, contando causos, aproveitando os últimos momentos em que aquele grupo de bom humor abençoado estaria completo pela última vez. O resultado foi bastante previsível: enquanto conversávamos bebíamos e bebemos muito. No dia seguinte, acordamos todos com uma bela ressaca.


E viva a copa do mundo!

Sol a pino no sábado, o CB no avião e a gente com gosto de cabo de guarda-chuva na boca. Um amigo nosso que estudava em Marselha e estava de Paris de passagem, o Rodrigo, nos propôs irmos a um bar que ele conhecia para assistirmos um jogo da Copa do Mundo, que estava rolando na época. A velha história de curar ressaca com mais álcool.

O bar era bacana, ficava no térreo de um albergue enorme e era frequentado majoritariamente pelos hóspedes do albergue: estudantes estrangeiros. Isso dava ao lugar um clima descontraído e agradável. Chegamos cedo para conseguir um lugar estratégico perto do bar e da TV e começamos a terapia de cura de ressaca através de cerveja branca de trigo. O jogo começou (Argentina X Inglaterra) e o bar lotou.

Lá pela terceira cerveja (que tinha 500 ml) eu notei uma menina encostada no bar junto com um grupo de umas cinco pessoas. Cruzamos olhares. Isso aconteceu mais algumas vezes durante o jogo. Eu simplesmente estava adorando aquele joguinho de gato e rato e a situação estava ficando interessante. A garota me chamava a atenção: vestida de preto, com um decote generoso e uma pata de urso tatuada em casa seio.

Eu, na minha timidez e desconcerto habituais com mulheres, não sabia o que fazer e à medida que o jogo se aproximava do fim ia ficando mais nervoso. Aos 35 do segundo tempo, sem metáforas futebolísticas, eu resolvi agir. Pisquei um olho pra ela. Caro leitor, eu sei que isso é cliché. Cara leitora, eu sei que você nunca cairia no papo de um sujeito que pisca um olho para você. Mas funcionou. Ponto. Ela sorriu, eu me levantei, passei do lado dela e com um gesto de cabeça pedi pra ela me acompanhar pra um canto mais reservado. Ela me pediu pra esperar alguns minutos com um gesto de mão.

Nos encontramos pouco depois e começamos a conversar. Conversávamos em francês, mas ela tinha um sotaque bizarríssimo que ficou claro assim que ela disse que era canadense. Eu disse que estava com alguns amigos e que depois do jogo iríamos ao centro da cidade para aproveitar as liquidações de verão e perguntei se ela não queria vir conosco. Quer conquistar uma mulher? Chame-e para fazer compras com você. Ela topou, mas disse que precisava da autorização da mãe, que estava no grupo de pessoas que a acompanhavam. Eu disse que me encarregaria disso e juntei o máximo de cara-de-pau e coragem para falar no tom mais galeanteador possível:

- Bom dia, eu sou o Angelo. Acabei de conhecer a sua filha na fila do banheiro e gostaria de saber se você pode cedê-la uma tarde para fazermos um passeio em Paris.
- Oi, Angelo. Pra mim tudo bem, mas com uma condição: ela tem que dormir em casa hoje, ok?
- Sim, senhora.
- Veja bem: ela TEM QUE DORMIR HOJE LÁ EM CASA. Entendido?
- Perfeitamente. =D

Tabarnak! Uma imersão na cultura canadense (ou algo assim)

Nota: Os trechos terminados com "***" foram censurados por terem conteúdo explícito de sexo, drogas e escargots e para preservar a faixa etária do blog (próprio para menores de 81 anos). Algumas passagens foram adaptadas graças a metáforas bem colocadas, enquanto outras foram sumariamente suprimidas. Se você deseja conhecer a história completa terá que esperar a versão completa sem cortes que eu lancerei quando for famoso e podre de rico ou quando todas as pessoas envolvidas nesta história forem incapazes de me processar por uso indevido de imagem.

Para preservar a identidade da menina e evitar que curiosos fuxiquem no meu facebook, chamarei-a pelo apelido dela: Do (pronuncia-se Dô). A mãe dela é instrutora de massagem terapêutica e autora de alguns livros sobre o assunto. Ela estava na França junto com o marido, padrasto da Do, dando um curso e divulgando o último livro dela. A Do participa dos workshops, pois ela domina as técnicas, embora não seja instrutora, e assim ela ajuda a mãe. Eles estavam hospedados na casa de uns amigos franceses não muito longe do albergue. Os donos do apartamento estavam viajando e deixaram as chaves com eles.

Partimos então eu, ela e meus amigos para o centro da cidade comprar roupas. Leia-se: meus amigos foram comprar as roupas deles e me deixaram lá acompanhando-a enquanto ela rodava as lojas atrás de algo para comprar. Nos reencontramos em seguida e eles disseram que gostariam de voltar para a casa e tomar um banho, mas que voltariam para o bar para assistir a partida da noite, que eu não lembro mais como era. Acompanhei a Do pra casa dela, de onde deveríamos partir para o bar.

Fomos para o bar, assistimos o jogo inteiro e nada dos meus amigos chegarem. Eles ligaram dizendo que chegariam mais tarde, por volta das 22h00. Deu 23h00 e nada. Brasileiros... Fiquei lá com ela, fazer o quê? Deu meia noite e um pensamento súbito me passou pela cabeça: a que horas passavam o último metrô e o último trem para eu voltar pra casa? Fiz uma conta rápida e percebi que eu até consegueria pegar o último metrô para o centro da cidade, mas que eu jamais conseguiria pegar o RER (trem da região metropolitana de Paris) que me levaria para a Cité Universitaire. Planejava então ir ao centro e voltar a pé, uma caminhada de 7 km ou mais. Juro como tudo isso não foi premeditado. Eu realmente perdi a hora dos trens. Lembrem-se que eu era um novato em Paris e aquele era meu primeiro dia na cidade.

A Do então falou que eu não fizesse isso, pois era perigoso. Ela disse que a mãe e o padrastro dela não se importariam se eu dormisse lá no apartamento onde eles estavam, pois tinha acontecido um imprevisto. Eu hesitei, mas aceitei. Ela então falou "mas não vai acontecer nada hoje de noite, ok?". Por mim tudo bem, admito que a minha maior preocupação naquela noite era ter onde dormir e não se ia rolar gol nessa copa do mundo.

Chegamos lá e explicamos a situação pros pais dela. Conheci o padrasto, cujo humor irônico e disfarçado lembrou o do meu pai. Aquele humor que não revela se o autor está nos insultando ou brincando conosco. Eles disseram que estava tudo bem, abriram uma garra de vinho e um pacote de pistaches e ficaram conversando comigo na cozinha enquanto a Do ia tomar um banho. Sabatina básica: o que eu fazia da vida, o que estava fazendo na França, o que eu estava fazendo em Paris. Respondi tudo e ainda saquei algumas das minhas histórias engraçadas e sinto que conquistei a simpatia dos coroas.

A primeira promessa eu tinha cumprido, trouxe a garota em segurança para casa. A mãe dela não tinha do que reclamar. A segunda promessa eu cumpri (quase) integralmente.***


Amigo da família

Nada mal para o meu primeiro dia em Paris. Rendeu boas gargalhadas com meus amigos. O domingo veio sem maiores novidades e segunda feira eu parti para o meu primeiro dia de estágio em Paris, embora já tivesse trabalhado dois dias em Nantes. Depois do trabalho fui ver a Do. Ela disse que os pais dela não estariam lá na segunda-feira e então eu não teria que me comprometer a ficar quieto e não fazer algo.

Cheguei lá no apartamento e decidimos sair para comprar uma garrafa de vinho e passear pelo bairro. Saindo do prédio cruzamos com um sujeito que era amigo dos pais dela, um grego que segundo ela já tinha vivido na região amazônica e já tinha experimentado quase todas as drogas do lugar. Sujeito exótico, falava uns vinte idomas. Mal, mas falava. Ele tentava se comunicar comigo num português macarrônico e pelo pouco que eu pude compreender ele estava hospedado com uns "amigos meus do circo", mas naquele dia dormiria lá no apartamento porque "lá no circo o pessoal faz muito barulho". Ele subiu e nós fomos comprar o vinho. A Do ficou chateada, pois o cara frustrou nossos planos.

Ficamos então vagabundeando, nós e o vinho, às margens do canal Saint Martin. Trocamos figurinhas, falamos da vida, nos conhecemos. Mais tarde voltamos ao apartamento. Encontramos os três por lá, os pais e o grego. Fizemos uma sala e fomos pro quarto, mas quando estávamos começando nossa conversa *** o grego bateu na porta nos chamando para participar de um ritual de purificação da casa que ele faria na sala.

Lá fomos nós comportadíssimos para o ritual de purificação. O grego, de cueca, camiseta e um cordão indígina espalhava fragâncias aromáticas pela sala. Em seguida, ele nos fez esfregar um óleo com uma fragância forte como o gengibre na testa e nas mãos. A isso se seguiu a aspiração de uma fumaça oriunda de uma casca de árvore que ele dizia ser o Santo Daime. *** Finalmente ele sentou-se e começou a entoar cânticos em um embolado de português e idioma indígena ininteligível.

Findo o ritual, voltamos pro quarto. Finalmente teríamos um pouco de paz. Não sei se foi por causa do álcool ou por causa dos produtos naturais do grego, mas pela primeira vez na minha vida e na tenra idade de 23 anos me faltou assunto pra conversa. *** Confesso que dormi frustrado.

A semana foi se desenrolando assim. Acordava e ia pro trabalho e de lá saía para ver a Do e dormir por lá. Os dias que se seguiram foram menos traumáticos que os acontecimentos da segunda-feira e a conversa fluiu melhor. *** A verdade é que dos meus nove primeiros dias em Paris, apenas três eu dormi na casa do Rômulo. Conveniente para ambos, diga-se de passagem, pois ele não precisou dividir o cubículo dele com ninguém e eu dormia em cama de casal. Eu fui ficando amigo dos pais da Do e às vezes acontecia de eu ficar lá bebendo e cozinhando com eles enquanto ela fazia alguma coisa no quarto dela.

Um dia, talvez na quinta se eu me lembro bem, ela me aborda de supetão e me diz que a mãe dela me convidou para um jantar com eles e os alunos do curso de massagem. Fiquei bastante surpreso e quando encontrei a mãe dela mais tarde eu agradeci, disse que era muito gentil da parte deles e que eu não esperava aquilo. Ela me disse: "nós gostamos muito de você e você já é amigo da família".

No sábado então fomos para o jantar num restaurante próximo do mítico bairro de Montmartre. Os convivas eram na maioria franceses na faixa dos 45 anos. Havia também uma carioca e uma portuguesa. O cardápio era bom e pela primeira vez na vida e depois de quase 10 meses na França eu comi escargot. Como toda boa refeição realizada nas terras de Victor Hugo, o jantar foi regado a (muito) vinho.

Findo o jantar, eu tentei em vão pagar a parte que me cabia. A mãe da Do não permitiu e pagou por mim. Alguns dos convivas decidiram ir para um bar nas proximidades e nos convidaram a lhes acompanhar. A maior parte recusou e fomos apenas eu, a Do e mais quatro outros para um pub irlandês.


Quer emprego? Vá pro bar!

Começamos então uma curta soirée regada a cerveja Guiness. O papo se desenrolava preguiçoso e descontraído: os fatos ocorridos no curso de massagem, os jogos da copa do mundo, as exclamações de como a Do tinha crescido e agora era uma mulher.

Em um determinado momento um dos caras virou-se pra mim e perguntou sobre minha trajetória, como eu tinha parado ali e o que fazia. Falei do meu intercâmbio, do meu estágio, da escola onde estudava. Ele parecia interessado. Quando eu disse que estudava mecânica no Brasil ele me perguntou se eu tinha interesse em trabalhar na PSA, holding que controla as montadoras Peugeot e Citroën. Meus olhos devem ter brilhado quando eu disse que sim. Ele disse que tinha um amigo que trabalhava na PSA e que meu perfil talvez pudesse interessá-lo e pediu que eu lhe enviasse meu currículo por email para transmitir ao amigo. Anotei o email animado, mas incrédulo. Não sei se enviei o currículo no dia seguinte ou na semana seguinte, não importa. O importante é que eu mandei.

Estávamos então em meados de julho e o fim daquela semana idílica com a Do, que foi a primeira das minhas aventuras em Paris que fizeram daqueles dois meses os melhores do meu intercâmbio, chegava ao fim. Não tardou para que ela retornasse ao Québec. Mais de dois meses depois, em setembro, e ironicamente enquanto eu estava numa cama me recuperando de uma bebedeira do dia anterior eu recebo uma ligação. Uma voz feminina se identifica como funcionária do departamento de recursos humanos da PSA e me pergunta se eu ainda estou procurando estágio. Atordoado eu respondo que sim enquanto pesquiso na memória a ocasião em que eu havia me candidatado para a PSA. Eu não havia me candidatado e me lembrava bem disso, foi então que eu me lembrei subitamente da soirée no bar e do email.

Poucos minutos depois recebo uma ligação, mas dessa vez da parte de um responsável do departamento técnico de uma das fábricas da PSA. Ele disse que trabalhava na concepção de métodos de montagem de motores e caixas de marcha. Ele disse também que tinha interesse em me contratar, mas que ainda não conhecia os temas de estágio disponíveis para o ano seguinte e que eu teria que esperar até a validação dos estágios para que pudéssemos agendar uma entrevista.


O currículo voador

Muita coisa aconteceu. Os temas de estágio não forma validados na unidade onde o cara trabalhava e a entrevista, que deveria ter acontecido em outubro, ainda não tinha acontecido em dezembro. Ele acabou me enviando para uma colega de outra unidade, com quem eu comecei a tratar sobre o estágio. Finalmente conseguimos marcar uma entrevista no dia 31 de janeiro e me apresentei como manda o figurino, de paletó e gravata.

A entrevista logo se revelou pouco ortodoxa, não seguia o padrão que se espera de uma entrevista normal. A responsável me levou a uma sala de reunião e começou explicando detalhadamente onde o setor dela se encaixava na unidade e onde a unidade se encaixava na empresa. Ela fazia isso desenhando diagramas numa folha de papel, que ela virava para que eu, que estava sentado de frente a ela, pudesser ver o que ela estava escrevendo. Ela me disse que isso era pouco prático e que o melhor seria que eu sentasse ao lado dela para poder ver o que ela estava desenhando.

Ela me questionou sobre minhas experiências profissionais anteriores e pareceu particularmente interessada no meu período no Laboratório de Aerodinâmica e Mecânica dos Fluidos na UFC. Ela me pediu para explicar detalhadamente o meu trabalho lá. Cada minúncia parecia interessá-la, o que eu fazia, para que eu fazia, quem utilizava os resultados do meu trabalho e como eram utilizados. Quando eu terminei ela se limitou a dizer "eu queria ver se você era capaz de explicar algo complicado em francês" e escreveu algo num papel.

Quando a entrevista parecia chegar no fim ela olhou pro meu terno, deu um sorriso enviesado e disse:

- Imagino que você sabia que isso não é uma entrevista. Você não precisava ter vindo assim.
- Como assim?
- Você já foi selecionado antes de chegar aqui. Esse nosso encontro é mais para explicar como vai ser o seu trabalho. Você não sabia?
- Não, não sabia - eu respondi num tom de surpresa genuína.
- Você pode me explicar como o seu currículo chegou até mim?

Perguntinha capciosa. Eu contei uma história meio torta, mas que não era falsa. Tive que omitir os detalhes de como eu consegui o contato. Pareceu-me pouco profissional dizer que eu tinha conseguido o estágio bebendo num bar com um sujeito que eu mal conhecia e simplesmente disse que o cara foi "alguém que eu conheci durante meu estágio". Contei o percurso que eu conhecia do meu currículo, ou seja, que tinha ido parar nas mãos do chefe dela e que ele o repassou. Ela não parecia esperar por isso e disse:

-O seu currículo foi recomendado para mim pelo meu chefe. Por sua vez, ele recebeu a sua candidatura de outra pessoa, que também recomendou você. Até onde sabemos a primeira pessoa a recomendar-lo foi o diretor de operações da PSA com o Mercosul e ele se interessou pelo seu perfil. Ele nos pediu para que lhe contratássemos como estagiário para lhe treinar e eventualmente, caso você se mostre capaz, lhe contratar para trabalhar para a PSA no Brasil utilizando o que você vai aprender durante o seu estágio. Nós não tínhamos estágios disponíveis aqui para estudantes no seu nível (segundo ano de escola de engenharia) e tivemos que abrir uma vaga excepcional.

Pedido aos leitores

Sei que tudo isso parece fantástico (e é), improvável (e é) e mentira (não é!). Mas tudo o que aconteceu foi verdade (acredite se quiser!). Peço encarecidamente aos leitores que não abandonem o meu blog após essa história por acreditarem que eu larguei o estilo auto-biográfico/crônica/auto-ajuda e abracei a ficção ou a fantasia.

Essa história foi diretamente para o Top 3 de histórias mais insanas da minha vida, junto com o Pouce d'Or e a ocasião em que eu conheci uma prima minha durante um assalto a ônibus no Rio de Janeiro. Não preciso nem explicar a tag "sem-noção", pois ela é mais do que merecida.

Duas semanas depois da entrevista eu recebi um email da PSA dizendo que eu tinha sido recusado em um estágio. Foi um susto, mas eu olhei atentamente e reparei que era um estágio para o qual eu tinha me candidatado pela internet quase dois meses antes. O currículo que eu enviei era mais recente, completo e atraente que o currículo voador que rodou o mundo pelos corredores da PSA e o estágio proposto era menos desafiador. Aparantemente, competência não é tudo neste mundo... Sorte conta um bocado!

Abra as portas da sua vida para o acaso. Quem sabe acontece uma loucura dessas com você também.

Família adotiva

Isso aconteceu em algum dia em meados de novembro, mas minha memória falha e eu não posso dizer ao certo. A escola enviou um email a todos os seus alunos estrangeiros retransmitindo o convite da prefeitura para uma soirée de recepção dos estudantes estrangeiros de Nantes. Nenhum detalhe sobre o programa, a não ser uma indicação de que o prefeito de Nantes estaria presente. Por uma feliz coincidência, o evento aconteceria a 200 metros da minha casa, o que me privou da desculpa da preguiça e da distância e resolvi ir.

Na entrada recebíamos um adesivo com a nossa nacionalidade. O ambiente era organizado como em uma feira, com vários stands representando várias instituições. Algumas delas eram de associações de estudantes, outras eram de escolas de idiomas. Acabei encontrando um stand de uma associação chamada AFA, Association des Familles d'Accueil (algo como Associação de Famílias Adotivas). A proposta deles era interessante: o estudante devia preencher uma ficha com a idade e a nacionalidade, vem como tirar uma foto. Em seguida a ficha seria transmitida para as famílias interessadas. Algumas têm interesse em uma naconalidade específica, outros em estudantes de algum curso específico. A adoção é simbólica, não se traduz em alojamento nem nada do tipo, é a oportunidade de fazer amizade e compartilhar experiências.


Os Carfantan

Em torno de um mês depois eu recebi uma ligação, pois a associação tinha achado uma família interessada em me adotar. Pouco tempo depois eu recebi um email deles. Um casal, Christine e Christian. O email era assinado por ela e falava brevemente da composição família: quatro filhos e seis netos, dos quais um em gestação. Eles moram na zona rural de Carquefou, cidade na região metropolitana de Nantes. Eles me chamaram para um almoço na casa deles e eu topei. Primeiro problema: só é possível chegar em Carquefou de ônibus e para chegar na casa deles não há transporte público. Decidimos entãos que eu iria de ônibus até o centro de Carquefou e a Christine me buscaria de carro.

Ela me encontrou em uma parada de ônibus e seguimos para o serviço do Christian, que é dono de uma pequena empresa de aluguel de boxes para mudanças ou reformas. Ele nos encontraria na casa quando começasse a pausa para o almoço. Seguimos para a casa deles, atravessando um bocado de campos e pastos. Algo captou minha atenção logo que eu entrei: a casa era decorada em estilo náutico com várias fotos de faróis e de paisagens bretãs. Destaque para a foto do farol de La Jument feita por Jean Guichard e que desde pequeno me assombra e me impressiona. Não contive a curiosidade e perguntei se eles eram bretões. São sim. Eu não falei nada da minha paixão pela Bretanha na ficha de inscrição, então isso foi um imenso golpe de sorte.

Nesse dia eu conheci o filho caçula deles, o Yann (João em bretão). Ele tem 18 anos está fazendo classes preparatoires, ou prepa, os estudos que antecedem a escola de engenharia. Para completar a família aidna faltam as três irmãs mais velhas: Annabelle, Solène e Gwénaëlle. A Annabelle, de 20 anos, estava então nos Estados Unidos fazendo um intercâmbio, mas normalmente ela estuda em Angers e volta nos fins de semana. As duas mais velhas já são casadas e têm filhos. Detalhe importante: a Solène é casada com um português e fala um pouquinho do idioma. Eu soube pela Christine que eu era o primeiro estrangeiro que eles adotavam e os dois principais motivos para me adotar foram a minha nacionalidade e a minha formação. Eles acreditavam que, caso eu falasse mal o francês, a Solène e o marido dela poderiam me ajudar com o português. Além disso, sendo estudante de uma escola de engenharia, eu poderia dar dicas e explicações pro Yann.

A visita foi muito simpática, mas durou apenas uma tarde. Almocei e fui embora depois de algum tempo. Eles me convidaram para aparecer por lá outra vez e mesmo dormir uma noite se quisesse.

A segunda visita

A primeira visita deve ter acontecido no início de dezembro. No dia 15 eu voltei para o Brasil, para passar o Natal com a minha família verdadeira. Aproveitei a ocasião para comprar um presente para a minha família adotiva.

Fui visitá-los uma ou duas semanas depois de voltar, no começo de janeiro. Desta vez fui preparado para passar uma noite lá. Fizemos o mesmo acordo da visita anterior: fui de ônibus até Carquefou e esperei que eles fossem me buscar. Numa grande coincidência eu encontrei o Yann na parada, onde ele chegou poucos minutos depois de mim. Não tardou para que a Christine e a Annabelle, recém-chegada dos Estados Unidos, aparecessem de carro para nos buscar.

Ligação surpresa: a Solène diz que vem almoçar também e traz com ela duas filhas e uma sobrinha. Uma das filhas dela, de 8 anos de idade, falava português e era muito engraçadinho conversar com ela. Foi um almoço bem bacana, num clima legal, regado a bom vinho e comendo frutos do mar.

Depois do almoço a Annabelle me convidou para ir a Carquefou, onde estava acontecendo um encontro de cartunistas. Fomos de bicicleta através de um caminho feito onde um dia passara uma estrada de ferro. A entrada era gratuita e havia cartunistas do mundo inteiro. O bacana é que era possível pegar uma folha de papel e pedir para um dos cartunistas fazer um desenho para você. Alguns deles topavam fazer caricaturas, outros não, mas todos desenhavam para o público. Pedi uma caricatura para um cartunista australiano e discutindo com o sujeito descobri que havia um cartunista brasileiro no evento.

Num canto do salão achei o cartunista. Ninguém menos do que Paulo Caruso. Me apresentei em português e pedi uma caricatura. Passei um bom tempo falando com ele. Sujeito tranquilo, cheio de histórias para contar, ele sacou um caderno de viagens que ele havia escrito/desenhado quando veio pela primeira vez na França e onde ele tinha registrado as memórias de viagem dele. Ele fez uma caricatura bem legal e pôs uma dedicatória bem interessante: "Para Angelo, perdido em Carquefou, encontrado por um cartunista".


Voltamos para a casa dos Carfantan e jantamos. De noite cada um se recolheu para o seu quarto. No corredor do primeiro andar havia uma estante cheia de livros, sendo uma parte considerável deles relatos de viagem de velejadores célebres franceses. Não resisti e pedi um emprestado. Victoire en Solitaire de Éric Tabarly, oficial da Marinha de Guerra Francesa. O livro contava a vitória dele em uma regata de travessia do Atlântico em solitário. Eu, fã incondicional de Amyr Klynk, não resisti a um livro assim. Comecei a ler pela noite e entrei pela madrugada lendo. Minha família adotiva fez a gentileza de me emprestar o livro para que eu terminasse em casa.


A terceira visita

Há uma semana eu recebi um email da Christine perguntando o que tinha acontecido comigo, pois fazia muito tempo que não dava notícias. Apesar de me sentir super à vontade com eles e de eles terem dito que eu posso aparecer quando quiser, eu nunca tive coragem de mandar um email dizendo "tô chegando aí tal dia". Mas, aparentemente, é o que eles esperam. Colocamos a conversa em dia e marcamos uma nova visita para o próximo fim de semana. Daqui a cinco dias, no fim do mês, será o aniversário da Annabelle e é bem possível que eles façam alguma comemoração no fim de semana em que eu estarei por lá.


Por que uma famille d'accueil?

Para mim as razões de se inscrever num esquema de adoção desses são bem evidentes, mas às vezes pode ser difícil vencer a barreira da timidez e aceitar ser adotado. Entretanto, a adoção não é apenas uma oportunidade de comer bem e de graça, obviamente. É uma chance única de sair do ambiente da escola, conhecer pessoas diferentes daquelas com quem convivemos todos os dias. É a chance de imergir na cultura francesa de um modo diferente. É, igualmente, a chance de fazer uma amizade legítima e que, quem sabe, pode durar muito além do período de intercâmbio. Por que não?

O termo "família" é algo bem forte também. A dezenas de milhares de quilômetros de casa é reconfortante dizer que temos uma família, ainda que nessas circunstâncias. Não é a frequência das visitas que nos faz sentir em família, mas o calor da acolhida. Eu tenho muito a agradecer aos Carfantan, por terem me recebido tão bem e terem demonstrado um carinho tão genuíno.




Parrainage: o outro lado da moeda

Na integração do ano passado eu falei sobre a parranaige em um dos meus posts. Neste ano eu participei de novo dessa tradição, mas conheci o outro lado, o lado de ser padrinho (parrain). Vou fazer um pouco de suspense barato e falar dos afilhados(fillots) dos meus colocs antes de falar do meu (ou minha) afilhado(a).


Charles, o fillot do Vladimir

O Vladimir é uma figura, um cara cheio de particularidades. Uma delas é o fato de ele ser meio homofóbico. Não pense no cara que sai de noite num carro jogando pedras em travestis, não é nada disso. Ele simplesmente não consegue aceitar que isso pode ser uma escolha racional de alguém e vê mais como uma doença ou algo do tipo. Numa ironia do destino, o Vladimir virou parrain do Charles, um cara que segundo os indícios mais superficiais e visíveis nos leva a crer que não é hétero.

Isso chateou o Vladimir no início. Não sei que tipo de gente ele esperava como fillot, quais informações ele colocou na ficha de parrainage dele, mas certamente não era alguém como ele. Eu e o Thiago andamos conversando com ele, tentando convencê-lo de que não era justo que ele se chateasse por causa disso. Em nenhum momento ele tratou-o mal, mas era visível que ele mantinha uma certa distância.

Falemos do Charles. Ele é uma exceção em relação à média dos centraliens, pois ele vem de Nantes e ainda mora na casa da família dele. A maior parte dos alunos vem de outras partes da França e mora na residência do lado da Escola ou em algum apartamento na cidade. Ele é um sujeito tranquilo, de fala mansa e sorridente, apesar de tímido. No primeiro jantar que fizemos com nossos fillots aqui em casa descobrimos que ele tocava piano desde os 6 anos. Ele infelizmente não pôde mostrar o talento dele, pois não temos sequer um teclado aqui.

A segunda refeição, desta vez organizada por eles, foi feita na casa dele, um sobrado simpático no Noroeste de Nantes. Fatos dignos de nota: uma quantidade imensa de LPs e CDs cobria a parede da sala. Eu e o Thiago garimpamos até alguns discos de intérpretes e compositores brasileiros como Chico Buarque e quarteto em Cy. Debaixo da escada um piano. Depois de muita insistência ele aceitou tocar pra gente, apesar dizer que estava enferrujado e coisas do tipo.

Eu não posso dizer que ele tocou bem, não é suficiente. Ele tocava com uma naturalidade e uma leveza embasbacantes. Quando aplaudíamos e elogiávamos ele dizia que era uma música simples, que não era nada demais, mas esse gesto não era de forma alguma revestido de falsa modéstia. Quando ele tocava o semblante do Vladimir se iluminava. Quando voltamos pra casa um dos assuntos mais falados foi o concerto particular que o Charles nos deu e os comentários do Vladimir eram de orgulho genuíno de ter um fillot tão talentoso.


Shengnan e Jing, os fillots da Katinka

A Katinka, como membro do BDE (grêmio de estudantes), se encarregou de uma parte da organização e criação das duplas de parrain-fillot. Ela terminou adotando ela mesma dois chineses que estavam órfãos até dez minutos antes da soirée de parrainage, contrariando a recomendação de que estrangeiros não devem apadrinhar estrangeiros. Era isso ou deixar os dois órfãos, então eu acho que não há problema.

A Shengnan é uma chinesinha bochechuda e sorridente, com uma franjinha caindo sobre a testa e quase chegando nos olhos. Não lembro de ter cruzado com ela em algum momento em que ela não estivesse sorrindo. Diferente da maioria dos chineses, ela tinha um bom nível de francês já na integração, o suficiente para conversar durante bastante tempo sem nenhum bloqueio.

Pelo que eu ouço, ela é super integrada e se dá muito bem com os brasileiros. Ela é autora de alguns comentários célebres feitos durante a reunião dos novatos estrangeiros e administração da escola. A reunião, marcada para 12:30, coincidiu com o horário de almoço. No fim da reunião, uma das professoras perguntou se alguém havia alguma dúvida ou sugestão. Aparentemente, num acesso de ironia, a Shengnan sugeriu que eles "trouxessem biscoitos e suco na próxima reunião feita em tal horário". Haduken!

O Jing é o chinês pop da turma dele. Conheci-o quando eu estava em Paris fazendo meu estágio e ele estava fazendo curso de francês. Ele morava a duas portas do apartamento de uma amiga minha. Naquela época eu me comunicava com extrema dificuldade com ele, visto que o nível de francês dele não era bom. Isso melhorou bastante após algumas semanas de integração. O Jing usa uns óculos de armação redonda bem grandes e eu sempre tive a impressão de que o cabelo dele tem uma cor ligeiramente acaju, mas se é pintado ou natural eu não sei. Ele também está sempre sorrindo, o que faz os olhos dele desaparecerem.

Ele me parece ser o sucessor do Bin, o chinês da minha turma que dança brake. O Jing participou das campanhas para o BDS (grêmio de esportes) e no vídeo da chapa dele havia uma cena em que ele dançava hip hop no hall da Escola e muito bem, por sinal. A chapa dele foi eleita e ele e um brasileiro, o Lucas namorado da Katinka, farão parte do BDS no ano que vem.


Diane, a fillote do Thiago

Desconfio do que o Thiago possa ter colocado na ficha de parrainage dele. Ele é apaixonado por música e sem dúvida ele deixou isso claro. E a fillote que acharam pra ele foi a Diane. Comecemos por uma descrição física. A Diane é atraente e isso ficou claro na integração: nas festas havia um sem fim de caras que chegavam nela e no WEI foi a mesma coisa. Eu a via andando quase sempre sozinha nas primeiras semanas, até algum cara vir falar com ela. E sempre acontecia a mesma coisa: eles conversavam, ela sorria, o cara sorria e acabava por aí. Ela nunca me pareceu interessada nas investidas dos centraliens.

O Thiago descobriu conversando com ela na soirée de parrainage que ela toca violino e os vínculos que ligaram os dois no apadrinhamento foram ficando claros, embora ele seja metaleiro e ela seja violinista clássica. Houve uma empatia muito bacana entre os dois logo de cara, foi muito legal. Ela tocou violino aqui em casa no primeiro jantar que fizemos, e tirou de ouvido a música do mamute ("Um mamute pequenino queria voar...") enquanto cantávamos. Deixo imaginar a cara de surpresa dela quando chegamos no refrão ("Merda! O mamute virou merda!"). Ela toca extremamente bem e isso estimulouo Thiago a retomar os estudos de violino dele e trazer o instrumento que ele tinha no Brasil para cá. Durante a Central'Ac, espécie de concurso de calouros da escola, ela tocou violino enquanto um colega dela tocava violão e cantava. Eles não ganharam, mas estavam no páreo, pode apostar.

Para terminar, a Diane participou das campanhas integrando uma chapa pro BDA (grêmio de artes). A chapa dela foi eleita e ela estará no BDA ano que vem.


Ariane, a minha fillote

O meu parrain Jean-Baptiste (JB, pronuncia-se "Ji Bê") foi extremamente simpático comigo. Ele me ajudou com a mudança, transportando minha cama e a cama da Katinka no carro dele. Ele sempre procurou saber se eu estava gostando da escola, se eu estava integrado. Eu não tenho nenhuma crítica a fazer dele e, pelo contrário, sou todo elogios. Confesso que ele foi um modelo pra mim e que eu quis ser tão elgla quanto ele pro meu fillot, não importasse quem fosse.

Lembro rapidamente que a soirée de parrainage consiste em deixar o fillot descobrir quem é o seu parrain através de um objeto que este último deixou para ele, perguntando aos veteranos quem poderia ser o dono objeto. O JB deixou um rato de pelúcia, referência ao mascote da chapa dele do BDA e que foi eleita. Diferente da maioria dos outros veteranos, ele me deu o objeto. Eu decidi que faria o mesmo, que compraria um objeto e daria de presete para o meu fillot. Eu comprei com a ajuda dos meus pais no Brasil uma garrafinha de areia, uma peça de artesanato típica do Ceará. Para permitir que meu fillot me encontrasse eu passei a soirée usando um chapéu de couro. Minha idéia era que ele acharia alguém que identificasse aquilo como sendo brasileiro e o primeiro brasileiro que ele achasse diria que era cearense. Sendo eu o único cearense da turma meu fillot não tardaria a me encontrar.

Mas tardou. Eu comecei a zanzar pelo hall até que eu vi uma menina com a bendita garrafa. Magrinha, olhos escuros, rabo de cavalo em um cabelo preto, liso e longo. Ela estava vestida de um jeito bem simples, quase sem graça. A primeira impressão que ela passava era justamente essa: sem graça. Ela olhava perdida pra multidão tentando achar o parrain dela. Soube mais tarde que alguém tinha me identificado como parrain dela e havia me descrito como um brasileiro de óculos. O diabo é que eu tava usando lente naquele dia. No fim das contas ela me achou e creio que o chapéu não ajudou em nada.

Ela se apresentou como Ariane e eu fiz um dos comentários mais nerds da minha vida: "Ariane que nem o foguete?". Isso pareceu surpreender ela de tão inusitado que foi o comentário. Mas sim, Ariane que nem o foguete. Tentei descobrir os vínculos que me legavam a ela. Eu coloquei na minha ficha que eu gostava de música, admitindo que o barulho que eu faço com meu saxofone e os acordes que eu arranho no violão sejam música. Mas coloquei também que era malabarista e procurava alguém interessado nisso. Perguntei se ela fazia malabarismo e ela disse que não. Depois ela me disse que estudava violão clássico e o vínculo ficou claro. Em pouco tempo estávamos junto com meus colocs e os fillots deles marcando uma data para o primeiro jantar.

Lembram a impressão de ser sem graça? Esqueçam isso. A Ariane é tudo, menos sem graça, e eu não demorei para descobri isso. Embora ela tenha uma aparência ordinária em uma primeira olhada, ela tem uma postura, uma leveza no andar, uma maneira de se portar que faz ela parece maior do que realmente é. Dona de um humor refinado, irônico, ela é autora de vários comentários e trocadilhos que me deixaram desconcertados de tão perspicazes. Ela tocou violão aqui em casa e me botou no chinelo. No repertório, várias canções populares francesas que eu ignorava até então.

Tantos atributos não passaram incógnitos e agradaram muita gente por aí. Cito sobretudo um russo que eu conheço, que dorme no quarto do outro lado do corredor e que ficou doidinho por ela. Apesar da minha torcida, os dois não deram certo. Ele inventou de fazer o Pouce d'Or com ela, a despeito de eu e o Thiago aconselharmos a não fazer isso. O Pouce d'Or é fantástico, mas é também fonte de tensão e não raramente provoca atritos entre a dupla. Logo, não é a ocasião ideal para um encontro romântico.

Me dou super bem com a minha fillote e sou muito satisfeito de ser o parrain dela. Já fizemos no mínimo uns quatro jantares parrain-fillot juntos e todos eles sempre foram muito bacanas. Para terminar, ela foi a selecionada para representar a Escola no programa Questions pour un champion, uma espécie de versão local do Show do Milhão para universitários. Neste momento ela está em Paris respondendo às mais variadas perguntas de cultura geral e eu estou aqui torcendo por ela. Minha fillote me mata de orgulho!


Fapinho, meu afilhado brasileiro

Como já é tradição, os brasileiros fazem sua própria cerimônia de apadrinhamento. Diferente dos franceses, os pares de afilhado e padrinho não são feitos através de um objeto, mas através de descrições. Nós lemos as descrições dos veteranos sem identificar os nomes e os novatos elegem o bixo que mais corresponde àquela descrição.

Eu tenho a fama de ser o cara mais sem noção dos brasileiros da minha turma. Os motivos são variados, embora eu seja um cara tranquilo:
  • Minha participação na Fanfrale
  • Minha aventura no Pouce d'Or
  • O fato de eu fazer malabarismo com fogo
  • O mergulho que eu dei no rio no outono a 15ºC quando fizemos nosso churrasco com os bixos
  • Minhas histórias de bebedeira
  • Os mergulhos que eu dei dos precipícios da Côte d'Azur
Tudo isso contribuiu para criar a imagem de um cara sem noção, inconsequente. Não digo que é verdade, mas também não digo que não é.

Nessa história escolheram o Fábio, conhecido como Fapinho (o diminutivo é uma ironia), para ser meu fillot brasileiro. Da mesma maneira que o meu parrain brasileiro, o Gabriel, o Fapinho é carioca. Ele faz controle e automação na UFRJ e foi escolhido para ser o meu fillot adivinhem por quê? Porque ele é considerado o cara mais se noção dos brasileiros deste ano. Dono de um humor ácido, de comentários curtos e hilários na lista de email, o Fapinho é querido por todo mundo. Rei de Amsterdam e chegado numa bebidinha, a companhia do cara é impagável. Sempre disposto a receber a galera na casa dele pra tomar uma cervejinha antes das festas da École.

Ressureição do blog

Alerta aos desavisados: este post possivelmente será longo, mas muito longo mesmo. E não espere encontrar historinhas engraçadas (vá para os posts seguintes quando eles forem publicados). Embora chato, este post se faz necessário para aqueles que queiram entender meu sumiço. Se você quiser lê-lo e, eventualmente, comentá-lo sinta-se à vontade.

Faz mais de sete meses desde a última vez em que eu escrevi algo neste blog. Durante mais de um quarto da minha estada na França este blog esteve abandonado. E durante todo esse período eu deixei de publicar muita coisa que valia a pena ser publicada.

Os eventos da integração:
  • O fim de semana da integração
  • Minha afilhada
  • Os afilhados dos meus colocs
  • As festas
  • Os bixos

A Fanfrale:
  • Meus avanços no saxofone
  • O meu saxofone negro
  • As soirées tortuosas regadas a álcool
  • Os novatos
  • Os problemas

As coisas da vida:
  • O clima
  • As viagens... Londres, Toulouse, Salamanca, Côte d'Azur...
  • A relação com meus colocs
  • A sensação de ser veterano
  • Minhas dicas para os bixos
  • Minha família adotiva, que além de legal é bretã.
  • Minha tatuagem (você leu certo)
  • O estágio da minha vida, acompanhado de um emprego no brasil, que eu encontrei indo para um bar.
Esta lista não é exaustiva e não tenho dúvidas de que estou esquecendo algo. E mesmo as coisas das quais eu lembro não terão o memso frescor e vividez que teriam se eu houvesse escrito logo em seguida, como era meu hábito.

Eu posso alegar um sem fim de motivos para ter abandonado o blog... A falta de tempo é a desculpa padrão, e quase sempre a mais falsa. A falta de saco é uma desculpa menos esdrúxula, mas não era o caso, pois vontade de escrever nunca me faltou. Serei franco então. É mais fácil.

Eu passei um bom tempo longe de estar equilibrado emocionalmente. Esse estado se agravou com o desânimo outonal e a depressão invernal, já conhecidas de mim no ano anterior. Não que a falta de luz e as baixas temperaturas sejam suficientes para me derrubar. A questão é que a isso somaram-se outras coisas. A segunda biopsia em um ano à qual o meu pai, que tem mais de 80 anos, se submeteu por suspeita de câncer e os problemas que lhe privaram da voz. A minha vida amorosa, que depois de tanto tropeçar finalmente naufragou. O meu desligamento temporário da UFC e as minhas frustrações com as decisões arbitrárias e irracionais dos professores responsáveis pelo programa.

O que aconteceu ao blog foi o reflexo de um comportamento que eu tenho naturalmente no cotidiano: quando eu não estou bem eu me calo. Simples assim. Eu prefiro o silêncio a reclamar da vida, me lamentar. Eu preferi não escrever a publicar textos com raias de melancolia mais ou menos visíveis. Também julguei que o blog ao narrar o primeiro ano do meu intercâmbio tinha atingido o seu objetivo principal: auxiliar os aspirantes e novatos dos programas Duplo Diploma e Braftec.


E por que ressucitá-lo?

Pois bem, excelente questão. Espero que você tenha paciência para mais um pouco de blá blá...

A minha vocação é contar histórias. Sempre foi, mas só agora vejo isso. Por muito tempo fui frustrado com minha inaptidão absoluta para esportes, sobretudo se houver uma bola. Ou infeliz por não tocar guitarra como um deus do blues ou não desenhar como um Paulo Caruso. Todos que eu conheço têm algum talento especial e me chateava o fato de eu não ter nenhum, ou achar que não tinha. Meu talento é contar histórias. Parece inusitado falar assim, mas é a melhor maneira de dizer.

Quando olho pro meu lado vejo meus colegas que viajaram muito mais que eu. Que foram a mais festas que eu. Que, em um termo talvez mal colocado, viveram mais do que eu as experiências que este intercâmbio oferece. O mais engraçado é que nenhum deles tem tanta história para contar do que eu. Parece um paradoxo, mas eu cheguei à conclusão de que isso é fruto da maneira que eu tenho de encarar as coisas.

Este blog talvez passe a impressão de que coisas inacreditáveis e super legais acontecem comigo o tempo todo. Não é bem assim. A questão é que no momento em que eu saio de casa eu estou de espírito aberto para que coisas inacreditáveis e super legais aconteçam comigo. É sutil, talvez seja necessário reler a frase. Você pode pensar nisso como aquela filosofia barata de livro de auto-ajuda "não há caminho para a felicidade, pois a felicidade é o caminho". Para mim o mais importante não é a quantidade de pontos que eu marco em um mapa, o número de vezes que eu fui a uma festa ou a quantidade de bocas que eu beijei.

Estou certo de que se eu tivesse viajado mais, festejado mais ou namorado mais eu terminaria esse intercâmbio com a impressão de que não aproveitei o suficiente. Como todo mundo... Nada surpreendente. Mas quando eu penso na quantidade de histórias que eu tenho para contar sobre esses últimos meses, me convenço de que eu aproveitei o intercâmbio como poucos. Essa é a diferença que eu tenho na forma de encarar as coisas: eu extraio muito do pouco que eu vivo, eu não sou espectador da minha vida.


Três coisas a lembrar

Um efeito colateral de quando estou triste é pensar. Penso sobretudo nas razões que me deixam triste, mas frequentemente meu pensamento divaga e eu me encontro filosofando sobre coisas e mais coisas. Podemos admitir então que eu tive um bom tempo para filosofar e neste tempo eu desenvolvi um modelo. Um modelo de vida? Talvez. Um manual de instruções? Nem tanto. É um tripé. Três conceitos que me ajudam a refletir, agir e avaliar minhas ações.


1) Alegria e felicidade não são a mesma coisa

Não é discussão boba de semântica. Alegria é um estado, é passageiro. Você está alegre quando está fazendo um dia bonito, quando você recebeu um presente ou quando você se sente apaixonado pela sua namoradinha nova. É consequência direta de um fato que você encara como positivo. Ponto. Da mesma forma como a chateação é fruto de um fato negativo.

A felicidade é mais do que isso. É possível ser feliz com uma lágrima escorrendo pelo rosto ou sentindo dor. Felicidade é saber encarar os fatos da vida, bons ou maus, e ter a certeza de que estamos vivendo da melhor maneira possível. Isto é, de acordo com a nossa essência. Felicidade é harmonia entre o que somos e o que fazemos, é tranquilidade e confiança a despeito do que possa nos acontecer.

O nosso grande erro é confundir isso. É tentar nos manter em estado permanente de alegria. Quando nos sentimos mal procuramos imediatamente nos alegrar, tal como tomamos uma aspirina para aliviar uma dor de cabeça. Aliviar a dor é importante, mas é preciso saber de onde ela vem e agir sobre a causa. Também é importante refletir sobre o que nos deixa alegres e entender porque nos sentimos assim. Devemos buscar a auto-compreensão.


2) A vida é feita de encontros

Tente se lembrar de algum momento que foi marcante para você. Marcante: bom ou ruim. Eu posso te perguntar como foi esse momento perguntando "quando foi" ou "onde foi". Mas vou mudar e vou perguntar "com quem foi". É um desafio achar algo que não aceite resposta para essa pergunta. Existem bilhões de pessoas neste planeta e você cruza com um sem número delas todos os dias. De algumas você consegue apenas um olhar enviesado no ônibus. Dos seus colegas você tem um sorriso e um aperto de mão. De alguns você recebeu, ou atirou, um insulto por causa de alguma barberagem no trânsito.

Assim como existe uma infinidade de pessoas, existe também uma infinidade de maneiras de interagir com elas e uma infinidade de graus de interação. A nossa vida é uma sucessão de interações diversas, das mais superficiais às mais profundas, e com pessoas diferentes. Negar ou ignorar esse fato é não viver. É preciso estar de espírito aberto para fazer encontros e tentar extrair o máximo de cada um deles. Todos têm algo a oferecer: boa companhia, uma conversa interessante, contato físico. E da mesma forma todos precisam de algo. Você faz parte disso, você é um elemento desta rede de interações. O que você tem a oferecer e o que você está disposto a receber?


3) Uma vida bem vivida é uma vida plena de histórias

Desdobramento natural dessa conversa toda. Na vida uma palavra vale mais do que mil fotos. É preciso que vivamos de maneira que a imagem impressa na nossa alma, na nossa memória seja muito mais colorida que luz que impressionou o filme fotográfico, que atravessou o vidro sem vida da câmera. A câmera registra, mas não vivencia.

Essa sensação de plenitude é poder chegar no fim da vida e poder contar mil histórias para os nossos filhos ou nossos netos enquanto vemos o sol se pôr e as estrelas aparecerem no céu. E são as histórias que temos para contar as testemunhas da nossa vida, são elas que estarão sempre lá para dizer "eu não fui um mero expectador, eu não fui vivo, fui eu que vivi".

Histórias de riso, histórias de dor, histórias de superação, histórias de amor. São os únicos fragmentos de nós que restarão quando a carne se decompor e os ossos secarem. É através delas que as pessoas se lembrarão de nós.

Pelo que as pessoas lembrarão de você?


Muito bonito, mas dá para explicar a ressureição do blog?

Este blog contém uma parte muito significativa da minha existência. Um amontoado de histórias testemunhando eventos que definirão o que eu serei no futuro. Ele transcendeu a missão utilistarista que tinha no início e virou algo complexo. Um meio de comunicação. Uma válvula de escape. Um auto-retrato. Uma confissão. Não consigo mais classificá-lo.

Ultimamente muitas das pessoas que eu conheci se identificaram como antigos leitores do meu blog. Habituais, embora anônimos. Não deixavam registro de sua passagem por aqui e por isso não sabia que existiam. Fui descobrindo que este blog representou algo legal para eles. Para uns, a resposta para alguma dúvida prática sobre a vida de intercambista. Para outros, um momento de prazer, uma risada, um causo engraçado para ler enquanto vagabundeia pela internet. Para uns poucos, uma trajetória digna de nota e um modelo a ser seguido. Eu me senti tocado (isso tá meio aviadado) de saber que eu estive presente na vida de tanta gente de alguma maneira. Mais ainda de saber que para alguns eu fui considerado um exemplo. Isso traz ao mesmo tempo um quê de orgulho, de felicidade, mas também uma sensação de responsabilidade. E este blog foi o veículo de tudo isso. Ressuscitei-o hoje com a esperança de preencher um vazio interno. Agradeço a todos que mesmo sem saber me influenciaram a tomar esta decisão.

O blog talvez sofra uma repaginada. Ele provavelmente não vai ser a mesma coisa que era antes. A ordem cronológica, por exemplo, virou mingau. Posts filosóficos aparecerão aqui e acolá e espero que eles não sejam lá muito tediosos. Fico feliz em voltar a compartilhar com todos vocês este "pequeno trecho da minha jornada sobre este mundo". Mais histórias virão, paciência.

Paris

Eu andei olhando uns posts antigos e me deparei com o primeiro que eu publiquei aqui no blog. Nele eu dizia que ao chegar em Paris para fazer correspondência de trem achei tudo muito bonito, mas nao senti que aquela seria minha casa.

Praticamente um ano depois, vejo que Nantes nunca foi minha casa, como eu disse num dos posts sobre o novo apartamento. E so agora sinto ter um lar em Nantes. Depois de quase 11 meses por la eu decidi fazer meu estagio em alguma outra cidade, pois sabia que se eu ficasse eu sufocaria e nao aguentaria começar um segundo ano na mesma cidade sem mudar de ares. E ca estou eu em Paris. A capital evidentemente é muito maior e tem muito mais coisa para fazer, mas o principal motivo para eu ter vindo foi rever meus amigos e isso eu ja havia dito antes.

E amanha eu deixo a cidade luz para voltar pra Nantes. As ultimas seis semanas foram especiais, embora eu tenha escrito muito pouco aqui no blog e nao tenha tirado uma unica fotografia sequer, a despeito de trer trazido a câmera.

Durante um mês e meio eu me submeti a um enduro fisico. Descobri que meu corpo é capaz de carburar alcool e fast-food em proporçoes pantagruelicas. Dividi um quarto de 9m2, onde eu dormia numa cama de armar, com metade do corpo enfiado debaixo de uma mesa, pois nao havia outro lugar para colocar a cama. Raras foram as vezes que eu dormi num colchao. Passei por noites deliberadamente insones. Senti na pele os prazeres e dores de uma vida boêmia e desregrada.

Durante um mês e meio eu senti os espinhos de ser um iniciante face às dificuldades do meu estagio. Foi bastante duro trabalhar com programaçao de iPhones, algo completamente novo para mim, ainda que eu gozasse de bastante flexibilidade de horarios e prazos. Algumas vezes cheguei até a ter pesadelos onde um iPhone e um monitor cheio de linhas de codigo incompreensivel apareciam. Saboreei o sucesso de fazer um aplicativo que funcionasse apos um mês de trabalho, para logo em seguida embarcar no desafio do aplicativo seguinte.

Durante um mês e meio dei um mergulho no Brasil. Comi churrasco e feijoada, com direito até a farofa. Conheci muita gente. Cantei pagode. Tomei caipirinha (com cachaça 51). Digo mais, isso foi uma imersao ans minhas raizes nordestinas. Integrei um grupo de menos de meia duzia de nordestinos que sozinhos eram responsaveis por mais da metade de todas as palhaçadas e brincadeiras da roda. Saudade desse nosso jeito moleque de cearense sintetizavel numa unica interjeiçao ("yeiiiiiiiiiiiii"). Saudade também de poder falar as girias da minha terra com o meu sotaque e no meu ritmo sem passar pela estranheza de ser o unico a fazer isso.

Durante um mês e meio procurei viver minhas aventuras. Em uma aposta numa mesa de bar, fiz um camarada correr nu ao redor do gramado da Cité Universitaire apos ter virado (quase!) um litro de cerveja branca. Ele aceitou pagar a aposta ainda que eu nao tenha virado toda a caneca e eu resolvi acompanha-lo no pagamento por solidariedade. Duas criaturas branquelas numa corrida louca e esbaforida, cuecas nas maos e sebo nas canelas, arrancando aplausos de conhecidos e estranhos entre uma passagem e outra dos seguranças.

Durante um mês e meio as aventuras me procuraram, mesmo quando eu nao as procurei. Andei de carro de policia pela primeira vez e também fui pela primeira vez a um tribunal. Isso depois de ter sido agredido por dois desses tipos marginais oriundos do processo desastroso de descolonizaçao e da politica de imigraçao mal conduzida da França. No final eu sai ganhando: tenho historia pra contar e talvez tenha 1000 euros no bolso no fim do mês que vem como indenizaçao por danos morais e fisicos. Antes que alguém pergunte, eu estou bem e nao aconteceu nada.... =)

Durante um mês e meio acompanhei o drama dos meus amigos, que tiveram seus estagios abruptamente interrompidos por uma decisao autoritaria e pouco clara da UFC, ainda que toda a legislaçao estivesse em favor deles. Momentos nos quais muitos partilharam prantos e reminiscências, enquanto aqueles que ficam sentiam precocemente a ausencia dos que partirao. E Paris parece ficar mais cinza sem um nordestino para alegrar a Maison des Arts et Métiers.

Durante um mês e meio historias pequenas e grandes. Um desfile militar sob a chuva. Uma multa injusta da concessionaria de transporte publico. As caminhadas voltando pela madrugada. As cançoes (afinadas ou nao) acompanhadas pelo violao, que passou praticamente esse tempo todo com uma corda faltando. As "cagadas de pau". Os jogos da copa. Os vinhos de 2 euros. Os vinhos de 4 euros acompanhados pelos queijos de 2 euros. Os desolés nas portas dos bares. As caminhadas pelas ruas mais estreitas e desconhecidas que podiamos encontrar.

Obrigado a todos que tornaram esse periodo tao especial. Esta lista certamente exclui alguns, pois minha memoria ainda nao é digital, e com alguns eu tive muito mais contato do que com outros. Alguns dos citados sequer falam português e nunca verao o blog (dois deles porque eu acho que nao tem internet na prisao), mas agradeço ainda assim. A lista nao obedece a nenhuma ordem especifica.


Residentes da Maison des Arts et Métiers e agregados:
Alexis
Alice
Ana Luisa
Arielly
Bruno
Carlos Breno "CB"
Edson
Ewerton
Fernando
Francisco "Cet Homme" Jonas
Guillaume
Isabella
Jean Patrick
Johann
Ju
Luique
Luiz "Doro"
Marcel
Nathan
Pedro "Master"
Rafael
Regina
Romulo
Sofia
Tamires
Thaisa

Pessoal de Nantes e agregados:
Adrian
Flavio
Ielena
Igor
Natalya
Ricardo
Vladimir

Maison des Industries Adro-Alimentaires (MIAA) e agregados:
Ana
Barbara
Erika
Iuri
Lais
Larissa
Pedro

Outras escolas:
Carlos
Dani
Estevao
Eugénie
Luiz Fernando
Monise
Odile
Raul
Rodrigo

Penitenciaria de Paris:
Wilfried BRANDENBERGER, pela cabeçada no nariz
William GEHRINGER, pela canetada no cou
E pela indenizaçao que vocês vao pagar
=)