Fim de ano dia 02: Saint Michel e Saint Malo

Dia 2: Carro, estrada, ação! Destino do dia: manhã no Monte Saint-Michel e tarde em Saint Malo. Esta última eu já conhecia e uma das minhas publicações já tem algo a respeito. Então aqui vou me concentrar no Monte Saint-Michel, mas não sem fazer um breve comentário sobre Saint Malo.


O segundo destino mais visitado da França


Sim, senhores, embora vocês pensem em Torre Eiffel, Louvre, gastronomia refinada, vanguarda da moda e homens de masculinidade questionável quando escutam a palavra "França", saibam que existe algo mais. Depois de Paris, Saint-Michel é o destino mais visitado do país. Por lá passam mais de 3 milhões de turistas por ano. Pudera, localizado no norte da França, o monte é um cartão postal dos mais pitorescos. Vejamos por quê.

Panorâmica do monte e da baía

O nosso grupo de viajantes: Flávio, Juliane, Bruna, Vera, Roger e eu

Monte ou ilha?
Ambos. O Mont Saint-Michel está situado na foz do Rio Couesnon, numa região onde a maré alcança inacreditáveis treze metros de amplitude. Originalmente era ligado ao continente por um pequeno istmo, que era alagado todos os dias por causa do fenômeno. A deposição natural de sedimentos aliada a obras de construção de diques e drenagens realizadas nas redondezas mudaram a paisagem local e "aproximaram" o monte à terra.

O monte era isolado da terra todos os dias e a sua dualidade ilha-montanha era bem marcada. Hoje existe um dique que o liga permanentemente à terra e sobre o qual foi construída uma estrada. Contudo, o monte é rodeado completamente por água 53 dias por ano, durante as marés de sizígia (alinhamento do Sol e da Lua), um espetáculo bastante popular.


Bretanha ou Normandia?
Questão interessante. O rio Couesnon, originalmente a leste do monte, marcava a fronteira entre Bretanha e Normandia. Com as várias obras realizadas no local o curso do rio foi desviado para o oeste. Os bretões afirmam que o monte continua bretão, apesar da mudança. E os normandos afirmam que a fronteira já os favorecia antes, pois, segundo eles, o rio nunca marcou exatamente a fronteira correta.

Hoje o monte é possessão normanda, mas é muito fácil encontrar inúmeros cartões postais com sua foto pelas ruas de Saint Malo ou outras cidades bretãs.



A viagem

Hora de acabar com a enrolação e comentar a viagem de fato. Acordamos cedo e pegamos a a estrada. Nosso GPS tinha um alerta sonoro para quando ultrapassássemos o limite de velocidade e escutamo-lo umas poucas vezes no dia anterior. Estávamos seguindo viagem, tranquilamente metade dos passageiros dormindo, Flávio ao volante e eu no banco do lado quando, surpresa, uma vaca muge dentro do carro e acorda todo mundo. O Roger tomara a liberdade de mudar o alerta de velocidade e gravou um mugido que ele mesmo fez. E toda vez que ultrapassávamos o limite a maldita da vaca (ou do Roger) mugia.

Avançamos em auto-estradas por bastante tempo até que começamos a pegar estradas cada vez mais estreitas e sinuosas cortando paisagens campestres. O tempo estava muito bom: com sol e céu limpo. Estávamos então numa dessas paragens bucólicas da campanha francesa quando eu vi o monte rapidamente e ao longe na fresta formada por duas casas. Ainda que tenha sido uma visão rápida, foi bastante marcante, pois o monte afigura-se no horizonte soberbamente e não se parece com nada facilmente descritível. O resto do pessoal achou que eu estivesse mentindo, pois ninguém mais o vira. Entretanto, nós chegamos uma região onde as casas eram mais esparsas e tivemos uma vista direta.

Imaginem um miragem, uma ilusão de ótica ou algo do gênero. Foi mais ou menos essa a sensação que eu tive. Um campo, algumas colinas e lá adiante uma depressão arenosa na qual se eleva um bloco gigante de granito. Talvez só isso já fosse uma visão suficiente para causar impressão, mas ver o tal bloco apinhado de construções, dentre as quais uma abadia cujo pináculo se eleva a uma altura equivalente a do próprio bloco é algo perturbador. Talvez como uma paisagem saída "O Senhor dos Anéis".

Atravessamos o dique que liga o morro ao continente e estacionamos nas encostas. Na entrada da cidadela uma placa alertava àqueles que quisessem se aventurar a fazer um passeio pelas redondezas que a maré subiria às 13:00 e que todos deveriam retornar antes disso.


Subindo, subindo e subindo, descendo e subindo mais um pouco

Entramos na cidadela ao lado de um grupo de três dúzias de japoneses com suas inseparáveis câmeras. Às vezes eu me pergunto se ele enxergam os lugares que visitam com seus próprios olhos ou se sempre através de uma tela de cristal líquido de uma máquna digital ou do visor de uma reflex.

Logo de cara, um grande e íngrime subida por uma viela apinhada de lojinhas de lembrancinhas, restaurantes e outros estabelecimentos comerciais de apelo marcadamente turístico e que muito pouca relação têm com o passado religioso do local. Em muitas delas, cartões postais brincando com o clima da Normandia, popularmente reputado como chuvoso e desagradável. Há vários museus no local, mas não nos detivemos visto que ainda iríamos para Saint-Malo pela tarde e também porque a prioridade era visitar a abadia.

E após vielas sinuosas e íngremes, escadas, mais escadas e ainda mais escadas chegamos à bilheteria da abadia. Aprendi a lição do dia anterior e entrei de graça com meu passaporte. Explico-me: na maior parte das atrações culturais os estudantes europeus entram de graça mediante apresentação de documento de identidade. O Flávio tem cidadania espanhola e entrou de graças nas torres de La Rochelle, mas ele disse que talvez o nosso passaporte brasileiro com o timbre do título de permanência nos desse os mesmos direitos. Indagamos os funcionários de uma das torres sobre isso e eles confirmaram a história. Então no segundo dia eu não cometi o mesmo erro: levei meu passaporte e gozei dos meus privilégios de estudante residente na Europa. Quando saímos da bilheteria nos deparamos com... escadas!

Subimos já um pouco exaustos e chegamos num pequeno terraço contíguo à nave da abadia, virado para a "frente" do morro, ou seja, o local de onde chegamos, o dique, algo em torno de sul-sudeste. Olhar para baixo por cima da amurada era simplesmente vertiginoso. Pausa para fotos. Entramos na abadia por um acesso lateral e saímos logo em seguida por uma saída pelo fundo da nave, no lugar onde comumente ficam as portas das igrejas. Chegamos em um segundo terraço. Este, porém era muito maior que o outro, virado para o poente, para o leito do rio Couesnon. Vista muito bonita e um vento fustigante que chegou até mesmo a "aprisionar" algumas aves em um vôo estático sobre as nossas cabeças. Pausa para fotos de novo.

Retornamos à abadia, onde tiramos algumas fotos e apreciamos a beleza do lugar. O interior é austero, feito sobretudo em pedras, sem muitos ornamentos ou vitrais chamativos. O sol de inverno, sempre ao sul, entrava pelas janelas do lado direito formando tênues colunas de luz que terminavam na parede do lado oposto.

O interior da abadia

Seguimos o passeio, saindo por uma porta lateral, defronte à porta pela qual entramos. A partir de então passamos por um labirinto de escadas, corredores, escadas descendentes e ascendentes, átrios repletos de colunatas, calabouços e uma miríade de outros aposentos típicos de uma construção medieval. Me detenho especialmente para descrever um deles: o claustro. Localizado imediatamente ao lado norte da abadia, foi o primeiro local que vimos após sair do templo. Trata-se de um grande átrio retangular com um gramado no centro, rodeado por uma marquise abobadada sustentada por inúmeras finas colunas, formando arcos ogivais. A parte mais perturbadora é um conjunto de três arcos virados para o oeste que se abrem para o vazio, uma grande queda. Os arcos foram abertos para servir de passagem para um novo aposento que seria construído em uma expansão da abadia. O tal aposento nunca foi feito, mas a "porta" continua lá, tampada por uma grossa placa de vidro.

O claustro


O vazio através dos arcos

Terminando a visita

Após o claustro percorremos o labirinto encravado no morro. Mesmo eu, que sou um cara razoavelmente bem orientado, perdi completamente o referencial com tantas subidas e descidas que fizemos dentro das construções.

Menino bonitinho que eu vi quando descia da abadia (foto bônus)

Descemos a pequena ruela e paramos num restaurante para comemorar o aniversário da Bruna e degustar a especialidade gastronômica do local: os omelettes "de Mère Poulard". Paguei 18 euros morrendo de pena, mas vá lá... É uma especialidade do local. Por que não? E qual não foi a minha decepção ao meter o garfo no omelete e ver ele colapsando em uma espuma amarela... Sim, só o exterior dele era sólido e foi a parte que eu, de fato, comi. O resto eu tomei feito uma sopa. Foi extrememante frustrante.

Da janela nós víamos a água avançando perto das encostas do monte, o que suscitou algumas preocupações sobre a segurança do carro. Saímos do restaurante e descemos a viela comprando nossas lembrancinhas. Eu continuei a tradição e comprei um distintivo de Saint-Michel.

Embarcamos e rumamos para Saint Malo. Um pequeno problema se fez notar assim que saímos: o GPS não funcionava mais, por mais que insistíssemos ou nos movêssemos. Navegamos com a ajuda dos iPhones do Roger e do Flávio.

Em Saint Malo praticamente repetimos a visita que fizeramos antes: a volta sobre as muralhas e um passeio pelo pitoresco intra-muros. Uma diferença, no entanto: a maré estava alta e foi bem interessante comparar as diferenças na paisagem em relação à outra vez em que estive lá. Não me detenho muito na segunda parte da viagem, pois fizemos basicamente (e até um pouco menos) o que está descrito no post sobre Saint Malo. Algo que vale a pena ser mencionado foi a ida a uma sorveteria bastante reputada que existe na cidade. O Roger recebeu uma recomendação de um dos colocs dele, mas não consiguimos ir na primeira vez. Nesta vez, porém, nos detivemos e valeu a pena. Tomei um sorvete de cassis excelente.


Terceiro dia: Angers




P.S.: Lendo um pouco sobre o Monte Saint-Michel para poder fazer um relato mais rico da viagem eu acabei descobrindo que ele foi usado como inspiração para a cidade de Minas Tirith na versão cinematográfica de "O Senhor dos Anéis".

Fim de ano dia 01: La Rochelle

Primeira semana de férias melancólica. Minha comida apodrecendo no apartamento de um amigo, que o trancou distraidamente antes de voltar ao Brasil. Uma residência praticamente vazia. Os colegas brasileiros seja no Brasil, seja viajando pela Europa, seja sendo visitados pela mãe ou namorada (ou ambas) aqui em Nantes. Difícil abrir um sorriso. Ainda assim, uma ceia de Natal muito boa e entre pessoas muito boas também.

Depois desse pequeno resumo sobre como começaram minhas férias, segue a descrição dos eventos que marcaram as férias da forma como eu quero que elas terminem. Passado o Natal, iniciamos uma sequência de pequenos passeios de um dia. Os participantes: eu, Roger, Bruna (namorada do Roger), Vera (mãe do Roger), Flávio e Juliane (namorada do Flávio). Alugamos um carro (Opel Zafira) para conhecer algumas cidades da região. O itinerário foi escolhido em função da distância e da previsão metereológica. Primeira parada: La Rochelle.


La Rochelle: um pouco de história

Informação número um: La Rochelle é uma cidade portuária. Dito isso e visto que tal informação não surpreende mais ninguém no tocante às minhas preferências turísticas, sigamos com o histórico da cidade.

Fundada no século X, a cidade desenvolveu uma vocação portuária bastante cedo e a partir do século XII já era um porto importante. O apogeu comercial veio no século XIII, por causa das transações de vinho e sal (um produto importante e caro na Idade Média, vale ressaltar), o que levou a cidade a alcançar o status de porto mais importante da costa atlântica francesa no século XV. Durante o período colonial, a atividade portuária se desenvolveu em função do comércio triangular.

Como entreposto comercial importante, La Rochelle era uma cidade cobiçada e sua possessão oscilou várias vezes entre a França e a Inglaterra. Tavez por conta dessa influência cultural inglesa, os rochelenses aderiram à Reforma Protestante. Infelizmente, isso ia de encontro à política de unificação do rei Louis XIII e do cardeal Richelieu. As tropas reais sitiaram a cidade em 1627. O cerco só terminaria treze meses depois, após a morte por inanição de um quinto da população.

Uma última curiosidade: La Rochelle foi a última cidade francesa a ser desocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. E, contrariando o histórico trágico, sem grandes danos.


O passeio

Comecei acordando cedo, o que quebrou o meu ciclo agradável, mas pouco saudável, de dormir de madrugada e acordar às duas da tarde. Fomos buscar o carro na locadora e todo o processo de averiguar o carro e retirar o gelo do parabrisa nos tomou um tempo razoável. Saímos finalmente por volta de 9:00 da manhã.

A primeira parada na cidade foi no Escritório de Turismo, que por razões obscuras eu insisto em chamar de "Office d'Imigration". Banheiro, informações e um mapa, era do que precisávamos (nessa ordem). O escritório é bem próximo do centro turístico da cidade e não foi preciso andar muito para conhecer as principais atrações.

O lugar é uma pequena enseada, ladeada por um cais em toda a sua extensão. No fundo da enseada, um esbelto farol de aterragem. Ainda no fundo, mas uns setecentos metros mais distante fica La Grosse Horloge (O Grande Relógio), uma porta encimada pelo relógio que lhe batiza e que separa o porto do centro da cidade. Aproximadamente entre os dois, a catedral.

Na entrada da baía vê-se as construções que são a marca registrada da cidade: as torres. Elas são três: Tour Saint Nicolas, Tour de la Chaîne e Tour de la Lanterne. As duas primeiras guarnecem a estreita entrada da baía e tinham função majoritariamente de defesa e vigilância. A terceira, afastada do canal de uns quinhentos metros, era usada anteriormente como um farol, fato responsável pelo seu nome.

Panorâmica do porto


Nosso passeio começou pela Tour Saint Nicolas. Nela vivia o capitão do porto e sua família, de onde era possível ter uma vista privilegiada e estratégica da região. Nela era fixa uma grossa corrente que protegia a entrada do porto durante a noite, evitando a invasão de navios de calados mais consideráveis. Escadarias longas, íngremes e perigosamente desgastadas pelo tempo foram nossa companhia constante. Já no topo, aproveitei para tirar N fotos panorâmicas com a minha máquina, recurso que passei a usar recentemente e pelo qual estou viciado. Tivemos que sair da torre em virtude da pausa para o almoço.

Tour Saint Nicolas


Uma baguete acompanhada de uma boa garrafa de vinho bom e barato, mas não vagabundo do tipo "sangue de boi" e partimos para a segunda torre. Eu e o Flávio partimos um bocadinho altos para a segunda visita: Tour de la Chaîne.

Chaîne em francês significa corrente. Isso se deve ao fato de que todas as noites a ponta livre da corrente que guarnercia o porto era presa nesta torre. Desde 2008 uma exposição permanente sobre a colonização francesa na América do Norte é mantida na torre. Mais escadarias intermináveis com degraus gastos e chegamos ao topo, onde eu e o Flávio corremos circulando o núcleo da torre e cantando "un tour, chocho". Muitas fotos e muitos degraus depois fomos visitar a terceira torre.
Tour de la Chaîne


Tour de la Lanterne, a mais alta das três. Nada de realmente memorável no seu interior, apenas os rabiscos que os prisioneiros fizeram na época em que ela era usada como cárcere. As escadarias não pareciam ter fim, mas a subida compensou. Chegamos no topo, numa pequena plataforma que circunda o telhado pontiagudo da torre e que é capaz de deixar qualquer um acrofóbico por causa de sua largura diminuta.

Tour de la Lanterne



A volta (é, já...)

Essa maratona em degraus nos custou bastante tempo e ao fim da visita da terceira torre, nós praticamente só fizemos parar para comprar postais, comer e voltar para o carro. Dei continuidade a uma hábito que já virou tradição: comprar um distintivo de cada cidade por onde passo para costurar na minha mochila, que já estou começando a chamar de "minha testemunha".

Na caminhada até o estacionamento, uma pausa para um pôr-do-sol estonteante. Nem sei se era tão estonteante assim. Então analisemos friamente a situação. Primeiramente, a paisagem era muito bonita e o sol se punha entre as duas torres formando um alinhamento para lá de interessante. Por fim, e mais importante, faz meses que eu não vejo o sol direito, então o simples fato de ele dar as caras e eu sair do clima deterministicamente nublado da Bretanha já é bastante coisa. Conclusão: estonteante sim e fim de papo.

Voltei dirigindo, pena que as luzes dos faróis vindo na direção oposta me deixaram com dor de cabeça depois de um tempo.

Dia seguinte: Mont Saint-Michel e Saint-Malo.


P.S.: Um dia desses, depois de publicar este texto eu descobri que a competição Red Bull Cliff Diving (salto ornamental de grandes alturas) de 2009 teve como etapa inicial La Rochelle. Os atletas saltaram da Tour Saint Nicolas, de uma altura de 26 m. Vale a pena ver o vídeo.



Neve. Neve? Neve!

Sim. Neve. Esta é uma postagem diferente: não dá para fazer aquela minha sinopsezinha sedutora no início do texto porque já se espera o que vem por aí. "Ah, ele vai falar que nevou em Nantes". Bingo, parceiro! Mas nem por isso eu vou deixar de reservar uma ou duas surpresinhas para você. Melhorou, hein?

Como deu pra ver na série de textos "Picolé de Rapadura" a chapa aqui estava esfriando. No fim de semana de 12 e 13 de dezembro os termômetros em Nantes marcaram abaixo de zero pela primeira vez. O balde com água sanitária que eu e o Thiago usamos para limpar a bagunça que a Fanfrale fez na casa dele semana retrasada (longa e traumática história que eu ainda não tive coragem de compartilhar convosco neste humilde blog) foi esquecido na varanda e congelou, fazendo do cabo da vassoura o palito de picolé mais comprido que eu já vi. Achei que a queda seria razoável, saímos dos 3 ou 4ºC e chegaríamos a 0 e -1ºC. Bom, ledo engano. Os termômetros não pararam de descer e chegamos a enregelantes -8ºC de mínima durante a semana.

Já fazia bastante tempo que a meterologia previa neve para dali a uma semana. E todos os dias ela era atualizada, a neve adiada por mais um dia e a ''semana" nunca terminava. Confesso que estava incrédulo, pois várias vezes ouvi falar que em Nantes é muito raro nevar em virtude da proximidade do oceano. Mas uma hora a metereologia marcou a neve em um dia e não mudou mais: sexta-feira 18 de dezembro, último dia de aula. Então era pagar para ver.

Fui dormir tarde na quinta-feira não me lembro por qual razão e a doce expectativa de uma manhã de sexta-feira sem aulas embalou meu sono. Até as 8:00. Foi quando um colega brasileiro me ligou com o maior entusiasmo do mundo:

- Angelo, tá nevando, cara!
- Poxa, legal. Mas tô com sono. Vou voltar a dormir, a neve vai estar lá quando eu acordar.
-Tá nevando, cara!
- Valeu, Rodrigo. Vejo depois.


Constatação 1: minha capacidade de se surpreender e se deslumbrar fica altamente comprometida quando estou com sono. Mais uma para entrar para a lista, junto com a capacidade de julgamento, a capacidade de dirigir e o bom senso. Olhei pela janela, vi calçadas brancas da neve, constatei que estava nevando. E voltei a dormir...

Até as 9:00, quando a Juliana manda uma mensagem singela, mas bastante expressiva, para todos os brasileiros. Meu celular apitou com a mensagem "Neve!". Quatro letras, uma exclamação, mil emoções contidas em cinco caracteres. Muito lindo. Mas não lindo o suficiente para me tirar a turvação que o sono provocava. Me levantei resmungando algo do tipo "essa m... dessa neve que não me deixa dormir", peguei a câmera tirei uma foto da rua para provar para a galera no Brasil que tinha visto neve e voltei a deitar... Eis a foto:


E dormi até as 10:00. Foi então que a campanhia tocou. Cara amassada, despenteado, me levantei para atender a porta, pois o meu colocatário não estava em casa, com a certeza de que era um brasileiro me chamando para ver neve. E não estava errado, era o Rodrigo (o mesmo do telefonema duas horas antes). E ele foi super eficiente, trouxe até uma bola de neve para mim, que ele jogou na minha cara antes de me perguntar se eu estava dormindo quando ele tocou a companhia. Evidentemente fui muito compreensivo com a brincadeira. Foi por isso que eu o expulsei da minha casa e voltei para a cama. Constatação 2: meu bom humor também é comprometido pelo sono.

Mas a qualidade do sono já não era a mesma e decidi que era hora de dar cabo na rabugem, me levantar e fazer como todo bom brasileiro que jamais vira a neve. Me vesti, liguei pro Rodrigo pedindo desculpas pela minha recepção rabugenta e dizendo que se ele quisesse se desculpar da bolada de neve na minha cara, que descesse para tirar umas fotos comigo. Desci antes dele, recrutei um pequeno pelotão de colegas que estavam conversando no exterior para lançar bolas de neve nele e me senti vingado. Agora sim eu podia apreciar a neve. Depois de levar inúmeros petardos gelados, ele tirou essa foto minha:


Decidi ir ao centro da cidade com o Roger e o Thiago para tirar algumas fotos. Como é habitual, o Thiago se atrasou e segui na frente com o Roger fotografando as imediações da Île de Versailles. Aqui vão algumas delas:

O Rio Erdre nas imediações da Île de Versailles. Pouca neve na foto.


E uma parte do rio congelou.

E uns pássaros aproveitaram para dar uma de Jesus Cristo.

Não sem antes deixar as marcas na neve.



Deu até para tirar umas fotos no estilo "Frio? Mas que frio? Não tinha nem percebido".


Quando já estávamos longe chegou o Thiago com os dois mexicanos e uma bola de neve pouco menor do que uma bola de basquete. Uma pequena pausa para fazer um vídeo hilário (que espero postar aqui em breve com os outros vídeos que estou devendo) e mais algumas fotos:






Voltamos para a escola e após almoçarmos fizemos uma breve guerra de neve nas quadras de tênis, que por conta da distância ainda estavam imaculadamente cobertas com um tapete branco. Então fui para as minhas últimas quatro horas de aula do semestre: trabalhos práticos de termodinâmica com um coletor solar e um trocador de calor (sol e calor, que ironia, estão em falta por aqui). O acúmulo de neve aqui é um acontecimento fortuito, pois é preciso que o chão esteja seco para a neve se acumular. Do contrário, ela derrete assim que chega ao solo. O acontecimento de sexta-feira foi um golpe de sorte, pois ele sucedeu uma semana de muito sol e nada de chuva, coisa rara por aqui. Desde então nevou mais duas ou três vezes, algumas delas acompanhadas de chuva, e em nenhuma dessas ocasiões a neve voltou a se acumular como no dia 18. Uma pena.

Pela noite, um último trabalho. A Fanfrale tinha um contrato e lá fui eu com eles. Descobri que tocaríamos ao ar livre (temperatura : -1ºC). Resolvi que seria melhor tocar sem luvas para manter a sensibilidade e conseguir tocar as teclas certas. Em dois minutos meus dedos estavam congelados e eu não tocava mais nada. Não que eu tocasse muita coisa antes também... Todos os instrumentos soavam desafinados por causa do frio. Em cinco minutos gotículas da minha saliva congelaram nas articulações, espumas e cortiças das chaves do saxofone e algumas notas simplesmente pararam de funcionar porque as válvulas ficaram bloqueadas.

Tocamos para o que eu acredito ser a associação do bairro. Era um bairro de periferia, com prédios altos e notadamente mulçumano. Nosso trabalho era tocar no meio da rua, se detendo pouco tempo na frente de cada prédio para chamar a atenção dos moradores. O objetivo era que eles descessem (naquele frio) para participar de uma festinha que estava acontecendo na praça. A praça tinha uma pequena fogueira, ao redor da qual as crianças brincavam. Mais ao longe uma segunda fogueira, enorme. Ao nos aproximarmos comecei a achar a fogueira esquisita. Foi então que eu vi que se tratava de um carro...

E agora (merecidas) férias! A expectativa de uma viagem rápida de dois ou três dias pela Bretanha e o Reveillon em Paris.



Picolé de rapadura 3

Quem foi o fi duma égua que disse que não faz sol em Nantes????


P.S.: As temperaturas são um mero detalhe, ok? Beeeeeeeeeem insignificante.

O visa de longa duração e o titre de sejour

Resultado do Duplo Diploma 2010 divulgado, gente correndo para resolver mil problemas... Uma boa hora para eu deixar de escrever miolo de pote (abobrinha) no blog e falar de coisas mais sérias. É por isso que esta publicação trata da burocracia com o serviço de imigração francês. Para que isso vai ser útil para os novos bixos agora? Para nada, mas consultem isso depois caso ainda se lembrem que eu escrevi. Outra razão para eu escrever isso é o fato de eu ter quitado todas as minhas pendengas com a imigração anteontem.

1) Era uma vez uma carta de aceite...
Tudo começa ainda no Brasil. Aqueles que não têm passaporte ainda vão tratando de dar R$250,00 reais chorados para a Polícia Federal e os que já têm gozam de um pouco mais de tranquilidade. Depois vem a carta de aceite e tudo começa de fato, ou não.

O "ou não" é porque minha carta nunca chegou e eu não tenho nem idéia de por quê. Recebi apenas uma versão em pdf por email. Ainda assim, isso não é problema. Assim que a documentação básica começar a ser reunida é necessário cadastrar-se no Campus France, um site do governo francês que agora serve, infelizmente, de intermediário para tirar o visto. Um guia prático pode ser encontrado no site e a maior parte das informações essenciais é fácil de achar. O processo é relativamente longo e um pouco caro, pois é necessário pagar uma taxa de R$290,00 para se cadastrar no site ainda que o pstulante seja um candidato já aprovado para uma escola francesa. O conselho que eu dou é: quanto mais cedo começarem a fazer isso, menos dores de cabeça vão ter.

Quando todas as etapas do Campus France estiverem ok o pedido do visto pode ser feito. Sim, é isso mesmo, o Campus France não serve para nada além disso. Na verdade o objetivo dele é possibilitar que alunos estrangeiros procurem universidades francesas para estudar, enviem seus dossiês e, quem sabe, sejam convocados. Para os que já foram aprovados, ele não passa de um entrave longo e custoso. A partir de então todos os procedimentos serão feitos junto à embaixada.

2) ... e uma telefonista eternamente de TPM
É necessário enviar uma série de documentos para a embaixada e pagar algumas taxas para que a candidatura seja aprovada. O grande problema é que o site da embaixada francesa não é lá muito claro e muitos pontos ficam obscuros. A grande tentação é olhar o telefone que está embaixo e ligar para pedir mais informações. Após uns dez minutos ouvindo uma música irritante é bem provável que uma telefonista lhe atenda sem dizer bom dia. Ao explicar o motivo da sua ligação, ela vai dizer que atende em breve e vai colocar em modo de espera sem maiores cerimônias. Ao fim de meia-hora é possível que ela lhe atenda para dizer que todas as informações necessárias estão no site e que você deveria ser mais atento e parar de encher o saco dela.

Desestimulante, não é? A grande dica é tentar pegar mais informações com quem já foi e limitar os contatos com essa senhora simpaticíssima. Isso poupa tempo, conta telefônica e muita, muita paciência. Mas continuemos. Se tudo correr bem o candidato é convocado para uma entrevista na Embaixada da França em Brasília. O protocolo não dura mais do que uma hora e consiste na apresenação de alguns documentos e na tomada de impressões digitais para o visto biométrico. Fim. Visto no passaporte e avião para casa. No meu caso, passei menos de dez horas em Brasília apenas para fazer isso.

3) Um visto que não é visto
Na Embaixada fomos informados de que o nosso visto não era de fato o visto necessário para passar os dois anos aqui. Ele só é de fato válido por um ano. Junto com o visto recebemos um formulário a ser preenchido quando tivermos residência fixa na França. Esse formulário deve ser enviado para o Ofício de Imigração junto com uma cópia do passaporte, uma do visto e outra que mostre o carimbo que comprove a entrada na União Européia.

Esse procedimento é feito para obter o Titre de Sejour (título de permanência) que é de fato o documento que finaliza as pendências com a imigração. É somente com ele que pode-se pedir a ajuda de residência à CAF (órgão que subsidia os custos de aluguel segundo critérios sociais). É só com ele também que você pode sair da França com toda a legalidade. Por isso, crianças, tratem de não ir a Itália de favor nem de embarcar em uma corrida maluca de caronas até a Alemanha sem antes conseguirem o seu Titre de Sejour, ok?

É muito importante não esquecer de enviar as cópias junto com o formulário. Eu esqueci e isso atrasou consideravelmente o meu processo, mas não foi nada grave. Quando toda a documentação necessária chega ao Ofício de Imigração, uma convocação é enviada. É necessário comparecer a uma visita médica e pagar uma taxa de 55€ para finalmente obter o Titre de Sejour.

4) E no Ofício de Imigração...
Minha convocação foi na quarta feira desta semana. Para a visita médica, além do passaporte, é necessário a carteira de vacinação. Sejam sábios e não façam como eu, que tirava uma carteira de vacinação a cada vacina que tomava, pois havia perdido a anterior. Isso vai facilitar as suas vidas. Ou então façam como eu: demonstrem uma mega segurança ao dizer "sim" a cada vez que a enfermeira perguntar se você já tomou tal vacina. No meu caso ela nem pediu minha carteira de vacinação (cuja única vacina que consta é a de febre amarela, a última que eu tomei, pois a anterior eu perdi). Uma série de exames simples são feitos e uma radiografia do peito também.

Terminada a consulta médica, paga-se a taxa e entrega-se o passaporte para que ele receba um adesivo amarelo super feio. Voilà le Titre de Sejour e bem-vindos à França em toda a legalidade.