Temporada das despedidas

Nesta semana eu completarei dois anos vivendo aqui. E esta data anuncia também meus dez últimos dias deste lado do Atlântico. É muito complicado não viver com o contador regressivo ligado e uma infinidade de frases no condicional passado como "se eu tivesse..." ou "se houvesse..." se formam e desfilam na minha cabeça.

No último mês estive em várias despedidas de outros estudantes, a maior parte deles colegas de amigos meus e com quem eu jamais cheguei a ter muita proximidade. Confesso que achava a reação, o pranto e a efusividade exagerados e achava que quando chegasse minha vez seria diferente. Foi então que ja mais de uma semana atrás eu passei meus últimos dias com a Ju. O baque foi significantemente maior. Difícil me separar de alguém com quem eu forjei uma amizade tão grande, que floresceu no calor infernal do verão parisiense e que se fortificou com as dores do inverno. Vi-me acompanhando-a ao trem que a levaria ao aeroporto e no último instante eu ajudei-a a pôr as malas no trem, mas fiquei na plataforma. Eu sabia que se eu fosse até o terminal de embarque com ela eu choraria. Fugi covardemente do pranto, queria nos proteger de ver um ao outro chorando e gravar isso como última lembrança nossa em Paris, justo nós que explodíamos em riso tão facilmente.

Mas há três dias atrás não teve mais como fugir. Fui a um bar encontrar a Luana, uma amiga da Ju que ao longo deste verão tornou-se ela também uma amiga incrível. Com um sorrisão aberto e um bom humor a toda prova, ela entrou meteoricamente no grupo de pessoas que fizeram este intercâmbio valer a pena. Ela viajaria no dia seguinte a turismo e chegará em Paris no dia em que chego em Fortaleza. Era, portanto, nossa última oportunidade de nos vermos. A soirée começou e se desnrolou como habitualmente, mas a razão de estarmos ali falou mais alto no fim. Passamos uns trinta minutos nos avraçando e chorando um no ombro do outro. Nos despedíamos e voltávamos a nos abraçar logo em seguida para mais pranto e juras de amizade eterna.

Se existe algo que este intercâmbio me ensinou é que eu não sou feiro de pedra. Acreditem, eu pensava antes que eu era... Pensaca que era um cara resistente, vivido, fleumático. Não, não sou. Se levarmos em conta apenas esta temporada de despedidas eu devo ser mais um boneco do papel do que o soldadinho de chumbo que eu pensava ser. Como sempre, eu tento racionalizar, tentar entender a origem das minhas angústias. Ao longo destes dois anos eu fiz muitos amigos, sobretudo vindos da USP e da Unicamp. Eu cheguei "sozinho", o único cearense e estudante da UFC na minha turma de Duplo Diploma. Acho que minha dor é saver que voltarei igualmente "sozinho" e serei separado por no mínimo 2700 km de Brasil dos meus bons amigos daqui. Eu não terei o consolo de poder atravessar um corredor ou simplesmente trocar de sala de aula para encontrar alguém e reviver numa conversa as memórias compartilhadas do intercâmbio. Meus coelgas da UFC que fizeram parte da minha trajetória aui já se formaram e neste momento correm atrás de começar suas carreiras.

Escrevo estas linhas sobre um banco da estação de trem do aeroporto Charles de Gaulle, onde espero para ver meus pais adotivos uma última vez. Eles partem a turismo para a China em poucas horas e esta é minha última oportunidade de vê-los. Espero poder dizer que eles foram para mim uma família de fato e o quanto isso representou. Estqs linhas são escritas com os olhos ainda inchados das lágrimas de ontem à noite, quando encontrei talvez pela última vez alguns colegas de Nantes que me acompanharam durante esses dois anos: Adrian, Igor, Luisa, Rodrigo, Vladimir. Estavam lá também colegas de outras cidades que também deixarão saudades: o Fredão e o Jóia. Sinto-me encabulado por ter chorado tanto ontem no bar e publicamente, transformando a comemoração do aniversário do Adrian em dramalhão mexicano. Tal qual a despedida da Luana, fui expulso do bar pelo segurança. Afinal, é mais fácil acreditar que eu não passo de um bêbado chorão do que aceitar que eu choro por uma tristeza genuína...

Encontrei muita gnete especial aqui. Digo agora àqueles que me viram chorar, algo tão raro, que se eu me permiti chorar diante deles é porque eles fazem parte desse elenco de pessoas especiais.

O trem dos meus "pais" chega em 10 minutos. Dobro a folha de papel ao maço que acabo de preencher completamente com este texto e guardo na mochila. Preparo-me pra outra despedida. Agradeço intimamente por ser feito de papel, e não de pedra. A pedra é perene, mas difícil de gravar, enquanto que o papel é a matéria mais adequada para a escrita e o registro da memória. No final das contas já não consigo dizer se sou eu que traço as linhas em uma folha ou se sou eu o papel onde a vida traça suas próprias linhas.


Os post-its de La Défense

Antes de começar a ler o texto, eu lhe convido a assistir esses vídeos.

http://www.youtube.com/watch?v=qybUFnY7Y8w
http://www.youtube.com/watch?v=vjqIJW_Qr3c&feature=related

O que eles têm em comum? É fácil descobrir ao primeiro olhar: são reações em cadeia. Esse tipo de fenômeno nos fascina e isso é inegável. Quantas vezes nós não ficamos boquiabertos ao ver a queda de uma única peça de dominó desencadear um espetáculo de proporções gigantescas? Ou mesmo a beleza e a espontaneidade de uma ahola num estádio de futebol. Não esqueçamos também que a fissão nuclear é uma reaçao em cadeia também. Todas elas começam de uma maneira simples: uma peça de domino que cai, um torcedor que se levanta, um neutron que se ejeta de um núcleo.


A França passa por um verão modorrento. O mês de julho foi marcado por temperaturas e chuvas outonais e o céu esteve permanentemente ocultado por um manto cinza. Os dois primeiros dias de agosto forma promissores, quentes e claros, mas o clima logo degringolou e cá estamos mais uma vez amargando um outono prematuro. Apesar de tudo, ainda é o verão e as pessoas saem de férias. As escolas estao fechadas e os escritórios estão com ar de cidade fantasma.

De certa forma esse clima triste combina com La Défense: segundo maior distrito empresarial da Europa, um bloco de concreto em formato de pêra, atravessado por um sem-fim de túneis e vias expressas e onde espigões de vidro e aço sobem vertiginosamente a alturas impossíveis. Poucos lugares no mundo representam com tamanha perfeição as contradições da vida moderna. Um local onde o destino de bilhões e bilhões de euros oriundos da iniciativa pública e privada são decididos... Um local onde todos os dias meio milhão de pessoas se cruzam como em um formigueiro ... A maior parte delas chega confinadas como sardinhas em trens subterrâneos, isoladas do mundo graças aos fones de ouvido ou com a cara enfiada em um livro. Tantas pessoas, tantos encontros possíveis, tantos dáalogos em potencial e no entanto a quantidade de sorrisos e bons-dias trocados em tal ambiente beira o desprezivel. O exemplo típico de um local inóspito, inumano e frio.

E há pouco mais de duas semanas, em uma das inúmeras torres do bairro, alguém fez algo diferente. Provavelmente um funcionario entediado, num escritório meio abandonado, liberado da pressão cotidiana graças às férias do seu patrão. Ele foi até sua janela e usando post-its, os bilhetes adesivos tão comuns no meio corporativo, ele criou um desenho no vidro. Do outro lado da rua, alguém na mesma situação e que provavelmente nunca viu o autor do desenho (ou cruzou com ele anonimamente num metrô) respondeu com outro desenho. Nas outras baias de escrióorio dos dois prédios outras pessoas viram essas manifestações e se lançaram elas mesmas no que agora esta sendo chamada de "A batalha dos Post-its de La Défense". E em tão pouco tempo os desenhos se multiplicaram, se complexificaram e ja ocupam toda a fachada dos dois prédios iniciais. A maior parte deles representa personagens de video-game ou desenhos animados, uma consequência nada surpreendente de um universo predominantemente masculino. Outros são mensagens amistosas para os vizinhos. Um outro expôs sua surpresa diante o absurdo da situação através de um imenso ponto de interrogação.


Não gosto do termo "batalha", pois lembra algo bélico. Existe beleza e poesia nisso. No meio de um ambiente taoáarido e frio, as pessoas começam a se comunicar assim, de uma forma tao singela, com pedaços de papel, averbalmente. Ignoram o rosto dos seus correspondentes, mas sao cúmplices ao compartilharem algo que provavelmente representa as boas lembranças de suas infâncias. Não, definitivamente isso não é uma batalha. É um diálogo. Uma conversa que a cada dia que passa vai ganhando cada vez mais interlocutores. Um burburinho que ja deixou os dois pequenos prédios nos limites do bairro e onde tudo começou para subir uma centena de metros, tal um passarinho, e contaminar as janelas de um arranha-céu de um gigante do setor energético francês. Um murmurio que percorreu os corredores da mesma torre e que atingiu as janelas do outro lado, janelas que estão voltadas diretamentes para a Esplanada de La Défense, o coração do bairro. Quem sabe em duas semanas esse vírus benéfico atravessará a esplanada e contaminará o resto do bairro. E um pedestre que perambula com o passo ligeiro se deterá para olhar esses lampejos de humor decalcados em vidro. E ficará um tempo nessa posição, estático e com um sorriso apontado pro céu, um verdadeiro obstáculo à circulaãao apressada e distraída dos demais. E estes se perguntarao o que pode existir de tao interessante la em cima e seguirao o seu olhar. Um encontro, um comentário, um sorriso, uma pequena descarga elétrica no sistema nervoso desta cidade. Um momento efêmero que desperta o olhar e nos faz ver que ainda existe vida e sentimento que podem brotar na urbe.

Chove em La Defense, os casacos denunciam temperaturas outonais e o céu continua cinza como outrora, mas uma infinidade de fragmentos quentes e radiantes do verão se espalham por todas as partes de Paris nos sorrisos e nos corações daqueles que se deixaram contaminar. E eles entrarão nos trens apertados inconscientemente procurarao nos rostos dos demais passageiros alguém que compartilhe um desses fragmentos estivais.

Chove em Paris.




P.S.:Se você está curioso para ver as fotos, acesse a notícia no Blog de Courbevoie, a cidade onde tudo começou.

Pentecostes en Vic-Fezensac

Acredito que podemos dizer que no ano passado eu não era um verdadeiro fanfarrão. Ainda pouco habituado aos (maus) costumes da Fanfrale eu sentia prazer em tocar, mas não em ficar com os outros fanfarrões. Fosse pelos hábitos nojentos deles ou pela grosseria e violência gratuitas, eu evitava passar muito tempo com eles e inclusive deixei de viajar para tocar com a Fanfarra em alguns contratos e eventos. O principal evento que eu perdi ano passado foi o feriado de Pentecostes no vilarejo de Vic-Fezensac.

O tempo foi passando e eu fui deixando de lado um pouco dessa seriedade exagerada que eu tenho. As coisas nojentas eram ao mesmo tempo uma maneira de afugentar os menos motivados e selecionar apenas os membros dedicados. Também era uma forma de manter uma aura de insanidade ao grupo, algo que mesmo tempo assusta e diverte. Os insultos nada mais são do que um ritual de passagem, àqueles que abstraem e levam a coisa na brincadeira é garantida a simpatia. Demorei um ano pra compreender que eu não precisava fazer tudo como eles faziam, que eu podia ser eu mesmo e que eu poderia aceitar as tradições do grupo e ser aceito ao mesmo tempo. Foi então que eu me decidi a aproveitar ao máximo as oportunidades de tocar e viajar com a Fanfrale no segundo ano.


A Fanfrale depois do fim das aulas

Como vocês sabem eu estou em Paris. Na École ficaram apenas os alunos do primeiro ano enquanto os do segundo e terceiro ano estão em estágio ou intercâmbio. Uma semana antes do feriado de Pentecostes os fanfarrões EI1 alugaram uma caminhonete e vieram a Paris, foi a oportunidade de reunir os fanfarrões estagiando na cidade e tocar na cidade. Tocamos na frente da Ópera e nos divertimos bastante, apesar da avareza dos parisienses nos dar uma gratificação minguada.

Todos estavam muito agitados com a proximidade da Feria (festividade típica do norte da Espanha e sul da França) de Vic. Ou, como nós chamávamos simplesmente, Vic. Vic é um dos eventos-mor pra Fanfrale, rivalizando com o fim de semana do antigos, que chega a reunir mais de 50 fanfarrões de 10 gerações diferentes. No Pentecostes os fanfarrões de todas as gerações e de todas as partes da França, e até da Europa, se reúnem nesse vilarejo de quase 4000 habitantes, na região do Gers, de onde veio o célebre mosqueteiro D'Artagnan.


Fanfarrões, uni-vos!

O que há de tão especial em Vic para que 120000 pessoas, quantidade 30 vezes superior à população normal, ocupem suas ruas durante quatro dias? A Feria de Vic é um das mais célebres ferias da França, com suas tradicionais touradas e festividades. Mas Vic é também o palco da competição nacional de fanfarras, que se se digladiam nas ruas da cidade diante de um público extasiado.

A cada ano dezenas de fanfarras, estudantis ou não, vêm de toda a França para competir. Neste ano contamos inclusive com a participação de uma fanfarra belga. A competição sempre tem um tema e os grupos devem adaptar as fantasias e, se possível, as músicas ao tema. Neste ano o tema foi Gers, o nome da região. O tema pode ser usado livremente. Alguns exemplos:
  • A Bande à Joe, fanfarra da École Centrale de Paris, se fantasiou de mosqueteiros. Era uma fantasia previsível, mas felizmente eles foram os únicos a usarem.
  • A fanfarra ganhadora, da qual não me lembro nem nome nem e origem, se fantasiou com perucas black power e roupas dos anos 70. A razão? Eles incarnaram os GERSons Five, uma alusão aos Jackson Five. O repertório deles seguiu os hits dance e funk da década de 70.
  • Nós aproveitamos a proximidade sonora de Gers com GRS (Ginástica Rítmica Desportiva) em francês e nos fantasiamos de ginastas. Blusinhas de alça, curtas e apertas, e collants de cores berrantes deram o ar da graça juntamente com fitas coloridas.
O concurso leva em conta a qualidade musical do grupo, a criatividade da fantasia e a empatia com o público. Embora toquemos durante todos os dias, da hora em que acordamos à hora em que dormimos (ou entramos em coma alcóolico, o que vier primeiro), a avaliação é feita durante uma tarde, em que as fanfarra se revezam para se apresentar nos bares da cidade. Desta etapa são selecionados alguns grupos finalistas que tocarão durante a noite nos palcos montados na praça e receberão os prêmios no dia seguinte.

Todas a fanfarras são alojadas no ginásio da cidade, a poucos passos do centro da cidade. A prefeitura fornece colchões e se ocupa igualmente de alimentar esse batalhão todo durante dois dias.

Parti de Paris com mais três colegas de Nantes na tarde da sexta 10 de junho. Oito horas de estrada até Vic.


A magia do sul


Se existe uma festa no Brasil que se compare à febrilidade de Vic eu não tenho nenhuma dúvida de afirmar que é o Carnaval. Tudo está lá: o mesmo clima, a mesma bagunça, a mesma quantidade de álcool... O que muda é que não há axé nem samba animando a massa, mas as fanfarras. Quase todos os participantes da festa se vestem à moda do sul, do País Basco: roupa branca e lenço vermelho amarrado no pescoço.

Acredito que seja muito mais divertido participar de uma feria assim como fanfarrão. Por onde você passa sempre tem alguém que vem brincar com você e dizer "fais pam-pam-pam dans ta trompette", que significa "faz pam-pam-pam no teu trompete". Por sinal isso é algo muito divertido: qualquer instrumento de sopro pro povo é trompete e qualquer instrumento de percussão é bumbo. Invariavelmente nós tocamos um pequeno tema de tourada e somos recompensados com bebida, às vezes um litro inteiro de cerveja. E se você recusa a bebida não é raro que os foliões a versem diretamente e à força pela sua garganta abaixo. Vestido como eu estava, com um collant super apertado e com uma tatuagem extremamente chamativa no braço e visível a quem quisesse, eu terminei sendo interpelado dessa maneira diversas vezes. Isso me obrigou a medir a quantidade diária de álcool consumida não mais em litros, mas em galões.

Impossível narrar todo o fim de semana. Minhas histórias e sobretudo as histórias dos outros fanfarrões da escola tornariam este texto ainda mais fastidioso. Me limitarei então às mais engraçadas ou mais marcantes.


A noite de sexta

Chegamos por volta de 00:30 e éramos os últimos da nossa fanfarra a chegar. Nossos colegas tocavam no centro da cidade há algumas horas. Nos fantasiamos e partimos pra lá. Tocávamos numa espécie de marquise de uma casa antiga. Tinha muita gente por lá. Como chegamos muito tarde não aconteceu muita coisa. Digno de nota foi o fato de uma menina chegar em mim, falar "tatuagem bonita" e escrever o nome e o telefone dela no meu braço com pincel permanente.

Quando voltávamos pro ginásio, por volta das 3h da manhã, eu passei através de uma nuvem de spray de pimenta lançado não muito tempo antes para controlar uma briga. Posso garantir que não é uma sensação agradável.


O sábado

Pela manhã acordei muito bem, visto que para mim a noite anterior fora bem curta. Dormir num ginásio de fanfarrões não é fácil, contudo. Cada um que chegava de madrugada inventava de tocar dentro do ginásio e das 3:00 às 10:00 da manhã eu posso garantir que sempre havia um grupo tocando no centro do prédio, embora os integrantes mudassem constantemente.

Primeira constatação da manhã: o número de telefone e o nome marcados na pele não eram exclusividade minha. Eles estavam mais ou menos espalhados pela pele e roupas de uns cinco fanfarrões.

Durante a tarde participamos do desfile e das apresentações nos bares. O percurso terminou na frente de uma banquinha que estava oferecendo cerveja grátis para todo mundo. Parada obrigatória para a Fanfrale, evidentemente.

As lembranças da noite são mais fluidas e difusas, pois à cerveja ingerida ao longo de todo o dia somou-se o vinho servido no refeitório. Algumas das coisas eu só soube através de colegas no dia seguinte e vou adiantando agora. Lembro-me que tocamos num bar, o Maison Bleue. Tocávamos sobre um palco e havia uma multidão por lá. Eu estava no centro do palco e na primeira fila e até onde eu me lembro tudo correu bem por lá, mas no dia seguitne eu ouvi os comentários dos meus colegas sobre uma confusão no bar. Como eu lembrava apenas do Maison Bleue eu perguntei em qual bar tinha sido a confusão e fiquei surpreso de saber que fora lá que aconteceu. Um cara tentou subir no palco e um dos fanfarrões; um sujeito tímido, franzino e nem um pouco afeito à violência; o impediu. Na segunda tentativa o nosso colega deu um chute no peito do sujeito. Os amigos do cara tentaram subir no palco e aí a confusão começou. Boa parte dos integrantes da nossa fanfarra são ex-jogadores de rugby da equipe da escola e eu lembro-vos que o rugby não é nem um pouco delicado. Ninguém saiu ferido.

Eu fiquei realmente surpreso de não me lembrar disso, mas súbito me lembrei que durante uma parte significativa da apresentação eu estava ocupado***. Dever ter sido engraçado pros expectadores verem um terço da fanfarra caída de bêbada fora do palco, um terço tocando, um terço caindo na porrada e eu no centro feliz da vida e aproveitando a apresentação.


O domingo

"P*** que pariu! Cadê meu saxofone? Tá aqui... Ufa!"

"P*** que pariu! Cadê meu celular? Merda. Perdi."

Assim começou meu domingo. Com dor na cabeça e um buraco negro mnemônico. Não conseguia achar meu celular, mas estava admirado de ter trazido o saxofone são e salvo. Tirei ele do estojo pra montar e partir pro café da manhã e mais impropérios me saltaram da boca:

"Droga! Tem um cigarro preso nas teclas"

"P*** que pariu!!!! Por que é que tem uma camisinha cobrindo o bico do meu saxofone???"

Parti depois de tomar as medidas higiênicas cabíveis, não sem antes procurar uma nota de cem euros no interior do instrumento, sabe-se lá...

Não fôramos selecionados pra fase final da competição, o que nos dispensava de qualquer obrigação no domingo. Dessa forma, nosso grupo custou um pouco a se concentrar e se organizar em algo digno de ser chamado de fanfarra. Tocamos pela tarde. Assistimos um pouco da apresentação das demais fanfarras e levamos o dia preguiçosamente.

O tempo não ajudou muito e uma chuva se abateu sobre a cidade. Corremos para o ginásio para guardar os instrumentos e na correria me perdi do pessoal. Fui para o centro sozinho e sem sax. Não bebia, pois seria eu quem dirigiria na primeira parte da manhã no dia seguinte. Saindo do ginásio encontrei um cara e três mulheres e fiz amizade com eles. Eles vinham basicamente todos de Toulouse e arredores e uma das mulheres se casaria dentro de um mês. Eles me levaram com eles até o bar onde estava o noivo e eu terminei ficando um bom tempo por lá, conversando e passando uma noite tranquila. Assim terminou meu domingo e meu batismo de fogo em Vic.



Ferias e mais ferias

Arrumei minhas coisas para ir embora e, surpresa, encontrei meu celular num bolso aleatório da mochila. Como eu disse antes, eu tinha que levar o carro de volta durante metade do caminho na segunda feira. Eu conduzi o carro e três cadáveres sob a chuva durante três horas e meia, algo em torno de 350 km, não sem antes passar por um controle de alcoolemia numa blitz na saída da cidade: zero. O cadáver dono do carro assumiu o resto do caminho quando ele estava devidamente ressuscitado.

Cheguei em casa e larguei as coisas. Estava pronto pra dormir. O telefone deu os dois bips característicos de mensagem. A maluca que escrevera o telefone em mim me respondeu a mensagem que eu enviara no sábado de manhã. Batemos papo por um tempo e através dela eu descobri que existem inúmeras ferias do tipo durante todo o verão, uma mais promissora que a outra e quase todo fim de semana.

Cheguei no trabalho e súbito me lembrei que um dos meus colegas mais jovens vinha de Toulouse. Perguntei a ele se ele conhecia Vic e pelo sorriso que ele deu eu antecipei a resposta: não só ele conhecia como acabara de voltar de lá. Nós discutimos e espontaneamente ele me convidou pra Feria de Bayonne no fim de julho.

Que venha a próxima feria.
Que venha o próximo fim de semana febril.
E salve Vic.


Nosso parceiro Bob

Ele era sem dúvida um cara ordinário. Outros como ele podiam ser encontrados aos montes e em vários países do mundo. Para piorar ainda mais esa cultura de manada, todos tinham o mesmo nome: Duderö. Mais uma luminária da Ikea, rede sueca artigos de mobiliário e decoração nos mesmos moldes que a Tok&Stok no Brasil.

Foi então que ele cruzou com dois brasileiros e um russo e o seu destino mudou. Seu dono estava de mudança para a Bulgária, onde ele poderia continuar ganhando a vida apostando em competições esportivas sem a alta tributação que há na França, e estava se desfazendo de todos os móveis. Dois móveis para a cozinha, uma escrivaninha pro Vladimir, cortinas... estávamos levando boa parte do que restava quando ele apontou pra luminária e perguntou se gostaríamos de levar. Olhei para aquele treco e me perguntei "por que não". Gostei do design e naquela época eu tinha ambições de fazer do meu quarto um lugar com uma iluminação bem aconchegante, quase uma toca.

Tenho que confessar que a luminária fazia boa figura no meu quarto e de fato criou o clima aconchegante que eu queria. Mas isso não era mais do que ela já havia feito até então. Era verão e ainda estávamos na euforia do apartamento novo. Não me lembro bem como a coisa toda aconteceu, mas em uma ocasião eu entrei no meu quarto, olhei pra luminária, peguei meus óculos espelhados-estilo-Ray-Ban-China e pus nela. Completei o figurino com uma camisa, um cordão de contas e um chapéu e chamei o Thiago. Era no mínimo inusitado, rimos, colocamo-la na varanda e tiramos algumas fotos.

O início de tudo

Tão logo tiramos as fotografias eu a despi e ela voltou a ser a luminária que era antes. O estranho é que a partir de então eu não conseguia mais olhar pra ela no meu quarto sem lembrar o sujeito que fotografamos na varanda. Foi então que eu tive a revelação. Ali dentro jazia muito mais do que papel e metal, ali havia uma alma sedenta de novas sensações e de uma saída para a vida ordinária que levara até então. Dali em diante aquilo deixou de ser uma luminária e virou o quinto morador da casa. Agora só faltava batizar. A procura de um nome digno de uma fisionomia tão expressiva não tardou: Bob, o mascote da nossa república.

O Bob foi ganhando o seu espaço aos poucos. No início ele ficava sempre no meu quarto. Em seguida, com o início das atividades de integração do começo do ano letivo, ele foi incubido de um papel mais nobre. Nosso apartamento era um pouco complicado de achar para quem não conhecia o lugar devido a uma confusão nos números da rua. Para guiar nosso convidados ao lugar certo durante as soirées eu colocava o Bob aceso na varanda para chamar a atenção deles (e inevitavelmente dos vizinhos também).


Bob estudando com a gente para a prova de Motores

Não tardou para que ele virasse o mascote da nossa república (coloc em francês). Esta, inicialmente batizada de BHS Coloc em referência a Brasil, Hungria e União Soviética, foi rapidamente rebatizada como Worldwide coloc pelo fato de sermos a única coloc da escola integralmente composta de estrangeiros e com quatro nacionalidades diferentes (húngara, russa, cearense e carioca - é geopoliticamente equivocado, mas culturalmente justificável, então não me corrijam!). Não foi preciso muito para que ela fosse rebatizada definitivamente como Coloc à Bob, a República do Bob.

Bob em versão KGB

Foi assim que o Bob nos acompanhou ao longo de um ano. Ele e sua silhueta bojuda, indício inegável de que compartilhamos o gosto pelos prazeres do lúpulo e da cevada. Ele foi o toque de irreverência da nossa casa. Talvez isso explique o surpreendente apego que eu senti a ele e do qual eu só me dei conta quando chegou o momento de me mudar para Paris. Sei que soa ridículo, algo como uma criança apegada ao seu ursinho de pelúcia ou ao amiguinho imaginário, mas esse boneco capenga, sem rosto nem membros, acompanhou tantos momentos bacanas da nossa república que eu me senti mal em abandoná-lo. Isso vai completamente contra o desapego budista que eu tento aprender, mas eu não pude resistir.

Bob in Paris

O resultado: o Bob está aqui dividindo o apartamento comigo em Paris.
O plano: levar o Bob pra passear e tirar fotos, algo como o anão de jardim de "O fabuloso destino de Amélie Poulain". Por que não?

Se você quer conhecer melhor o Bob, adicione ele no Facebook! Clique aqui.




Chegando em Paris... e saindo de Nantes.

Vou transcrever aqui um texto que saiu no Le Monde nesta semana e que trata do local onde eu fiquei durante meu primeiro estágio em Paris e onde ficarei a partir de quarta feira até o fim do meu segundo estágio.

A Cité Internationale cultiva sua diversidade

(...) Fruto do sonhoe e da espereança, é nada mais do que a Cité U, como Utopia. Ela nasceu no contexto pacifista do entre-guerras, respondendo ao ideal de André Honnorat, Ministro da Educação que desejava criar uma pequena cidade estudantil que agrupasse as futuras elites intelectuais do mundo a fim de facilitar o intercâmbio e o diálogo. Já que a Primeira Guerra Mundial ceifara a vida de um terço dos estudantes franceses, ele queria restitui a Paris o seu papel de capital intelectual.

De 1925 a 1969, 37 pavilhões de uma capacidade de 47 a 390 alojamentos foram construídos por iniciativa de um país, uma escola ou de um filantropo nos 34 hectares do campus. O primeiro foi construído graças à iniciativa de um rico industrial, Émile Deutsch de La Meurthe, que ofereceu dez milhões de francos. A Casa do Canadá foi a primeira residência estrangeira (1926) e a Casa da Argentina (1928) a primeira não francófona. A Casa da Alemanha (1956) foi o primeiro prédio oficial desse país construído na França depois da Segunda Guerra Mundial e o primeiro sinal da reconciliação entre os dois países a ser gravado numa pedra.

Todas essas casas constituem um panorama genuíno da arquitetura do século XX, algumas são até tombadas. Arquitetos renomados, como Le Corbusier com o Pavilhão da Suíça, contribuíram para fazer da Cité U um grande lugar de criação contemporânea, enquanto outro evocam a arquitetura de seus respectivos países como o Pavilhão do Japão ou o Colégio dos Ingleses. Grandes artistas como Sonia Delaurnay participaram da decoração de alguns deles. Várias instalações coletivas completam o conjunto, tal qual o teatro, e algumas são acessíveis ao público exterior.

Com uma capacidade de 5300 alojamentos, a Cité dispões de um dos maiores parques imobiliários da região parisiense destinado aos estudantes. Ela acolhe todos os anos 10000 estudantes, pesquisadores e artistas de mais de 140 nacionalidades. Oitenta e seis anos após a construção de seu primeiro pavilhão, a Cité U(topia) continua fiel aos grandes princípios humanistas de André Honnorat, o que a faz um lugar único no mundo do aprendizado do respeito às diferenças e à vida em comunidade. Aqui a diversidade se expressa e se vive no cotidiano sob o signo da tolerância.