Residência no segundo ano: post prático

Estou feliz. Massa, mas isso não te ajuda muito, não é, caro novato? Então discutamos um pouco essa aventura que é achar residência pro segundo ano.


Locação ou colocação?

Uma das primeiras perguntas a ser respondida é se você quer morar sozinho ou com colegas (colocação). Há três anos todos os alunos brasileiros de Duplo Diploma moravam em apartamentos individuais. Há dois anos todos moravam sozinhos, exceto três que moravam em colocação. No ano passado apenas dois moravam em apartamentos individuais. Na minha turma todos vão morar em colocação.

Para habitar em colocação é necessário achar um imóvel cujos proprietários estejam dispostos a assumir esse tipo de locação. As opções mais populares geralmente são os apartamentos no centro, pois permitem vivenciar o clima da cidade. O trajeto diário até a escola pode ser um ponto contra, mas nada que seja realmente incoveniente. A colocação é bem interessante, pois você tem que aprender a compartilhar e a conviver com pessoas que você não conhece há mais do que um ano. Isso, evidentemente, tem prós e contras e depende da sua afinidade com as demais pessoas e a sua predisposição para morar com "desconhecidos".

A colocação parece ser uma tendência, mesmo entre os franceses, mas não é uma unanimidade. Aqueles que prezam a individualidade podem ser seduzidos pela idéia de morar sozinho. As possibilidades são inúmeras: alugar um estúdio em praticamente qualquer lugar da cidade, morar em um foyer (banheiro e cozinha compartilhados) ou em uma residência universitária cheia de gente na mesma situação. Morar sozinho não significa necessariamente morar isolado e pode sim ser uma boa oportunidade de fazer amigos, sobretudo nas residências universitárias. Para procurar um estúdio o procedimento é basicamente o mesmo que procurar um apartamento para colocação. Já as residências universitárias são normalmente reservadas através de órgãos de apoio aos estudantes, como o CROUS.


Onde achar o apartamento?

A opção mais popular para conseguir um apartamento é tentar substituir uma colocação de veteranos. Isso é feito através de um acordo com o proprietário e assim que os veteranos deixarem o imóvel o contrato dos novos locatários começa. A grande vantagem disso é pegar um apartamento conhecido e com referências dos veteranos. No entanto, é preciso prestar atenção ao tal do acordo, que muitas vezes é simplesmente verbal. Meu grupo pegaria uma casa para cinco pessoas num bairro extremamente bem localizado, a meio caminho entre a escola e o centro. Tínhamos um acrodo com os proprietários, mas eles decidiram colocar outro grupo no nosso lugar sem ao menos ter a decência de nos avisar. O motivo nós descobrimos pouco depois: xenofobia.

Se pegar uma colocação de veteranos não for possível é necessário procurar um apartamento. O ideal é procurar anúncios de particulares, pois é mais barato e menos burocrático. Recorrer a agências imobiliárias dá acesso a um leque maior de opções mas é mais caro, pois além da caução ao proprietário é necessário pagar uma taxa extra (e bem salgada) para a imobiliária.

Nós utilizamos outra opção, que desconhecíamos até então. Existe aqui uma agência imobiliária chamada Logéka. Ela tem muitos anúncios, pois diferentemente das demais agências ela não cobra taxa para os proprietários anunciarem sus imóveis. Isso evidentemente tem um porém: os locatários têm que pagar 160 euros para ter acesso a lista de imóveis disponíveis com o contato direto dos proprietários, mas sem ter sequer certeza de que vão achar algo que lhes interesse. É perigoso, mas oferece a vantagem de tratar diretamente com os proprietários sem ter que pagar taxas pra uma agência imobiliária. Demos sorte e encontramos um apartamento muito bom e que nos agradou muito.


Como mobiliar?

Se você conseguir um apartamento mobilhado, ótimo. Se não, é um pouquinho mais trabalhoso, mas não é impossível. De qualquer forma, mobilhado ou não, todo mundo termina comprando móveis. O que se faz habitualmente é comprar móveis dos veteranos. Costuma ser num preço justo e eles têm necessidade de vender antes de ir embora, então é conveniente para todo mundo.

As outras opções são comprar móveis novos em lojas especializadas (IKEA, Conforama, etc...). O chato de comprar móveis novos é que eles são caros, mas o investimento pode ser em parte recuperado na revenda no fim do segundo ano.

Optamos por procurar primeiro móveis usados. A primeira alternativa que pensamos foram as feiras "vide grenier" (esvazia sótão, algo como as feiras de garagem que vemos tipicamente nos filmes americanos). Para comprar móveis os "vide grenier" revelaram-se um fiasco, mas mostraram-se muito úteis para comprar outras coisas para a casa como louças, cortinas, luminárias, roupa de cama, etc...

A melhor opção para nós, no entanto, foi o site leboncoin.fr. Lá você pode encontrar mil tipos de coisas de segunda mão, inclusive móveis. Como nesta época tem muita gente se mudando a oferta de móveis é bem grande e não é raro encontrar móveis de qualidade vendidos a preços baixos por que os donos precisam vender logo. Até agora não copramos um único móvel novo e basicamente todos foram conseguidos através desse site. O incoveniente é que geralmente o transporte dos móveis é por conta dos c transportados à moda "lombo de jumento" pelas ruas desta pacata cidade e diante dos olhares supresos e por vezes incrédulos dos habitantes. Os últimos três dias foram bem movimentados e rodamos uma boa quilometragem com móveis nas nossas cabeças ou fazendo malabarismo para enfiar tudo dentro do bonde.

E quando as minhas forças e as do Thiago estavam se exaurindo, o Vladimir, um monstro incansável e de força descomunal, continuava carregando o peso nas costas. Inacreditável.


Como conseguir um fiador?

A maior parte dos proprietários exigem um fiador para a assinatura do contrato. Esse papel normalmente cabe aos pais, algo que não pode ser feito no nosso caso. A opção que resta aos estrangeiros então é procurar um fiador em uma instituição de apoio aos estudantes. Na associação de alunos da nossa escola conseguimos o contato para encontrar um fiador com o governo da região. O inconveniente é que a burocracia é muito grande e por isso algumas imobiliárias não aceitam esse procedimento.

Se você der uma choradinha, disser que o fiador do governo é muito difícil de conseguir e que a agência está enchendo o seu saco é provável que você consiga um fiador com a própria associação de alunos. Nós resolvemos insistir com o fiador do governo, mas alguns colegas cosneguiram o fiador na escola.


Basicamente essas são as principais questões a serem consideradas. Se lembrar de algo mais eu colocarei por aqui.

Espero que isso seja útil para vocês durante a mudança!

Residência no segundo ano: post emocional

Foi difícil, mas conseguimos um apartamento. Foi um processo longo e cheio de percalços, incluindo a dissolução do grupo inicial de locatários, um acordo verbal descumprido por proprietários de um apartamento que nos interessava (desconfiamos seriamente de xenofobia) e uns bons momentos de desespero. Finalmente, no início deste mês conseguimos o apartamento.


Verdade seja dita, ele não corresponde à nossa idéia inicial para a moradia do segundo ano. Esperávamos morar em algum lugar entre o centro e a escola e de preferência com um jardim. Terminamos encontrando um apartamento a três paradas do centro, mas na direção oposta à escola. Somos entre os estrangeiros aqueles que morarão mais longe. Falando em estrangeiros, esqueci de falar logo de cara que a nossa colocação é formada exclusivamente de estrangeiros. Um cearense, um carioca (Thiago), um russo (Vladimir) e uma húngara (Katinka).

Achar o apartamento, pagar um seguro, dar um cheque caução, mobilhar, conseguir um fiador, instalar internet, religar a energia elétrica... É tanta coisa que em pouco tempo nos estressamos e temos a impressão de que vamos enlouquecer. E logo em seguida somos arrebatados por outro sentimento, uma alegria imensa: fomos nós que encontramos o apartamento, somos nós que o estamos mobilhando, nós que resolvemos os problemas. Uma sensação de responsabilidade, mas de independência também.

Isto é outro indício, entre tantos outros que essa jornada vem mostrando, da chegada da idade adulta. E ao mesmo tempo a valorização de tudo isso, não é o apartamento que nós queríamos, inicialmente mas é o NOSSO apartamento e cada parede, cada canto passa a ser valorizado. Aos poucos o cheiro do carpete se torna familiar, a fachada virada para o sul, a vizinhança. Vamos nos acostumando a chamar o lugar de "chez nous" (nossa casa), algo que causava estranheza no início mas que agora vai se tornando cada vez mais palpável à medida que os móveis vão sendo comprados e montados. O lugar começa a realmente ficar com a nossa cara e pensar nele passa a ser algo alentador.



Não sei por que, mas meu quarto na residência nunca me fez sentir como se estivesse em casa. Ele sempre me pareceu um quarto alheio. Meu quarto no apartamento novo é diferente. Eu sou capaz de passar uma boa meia hora sentado no carpete de um quarto vazio imaginando onde vou pôr a cama, a escrivaninha, as luminárias e é impossível reprimir um sorriso.

Começo a ficar chato com meu lenga-lenga e meu caso de amor com esse apartamento. Terminemos este texto com fatos. O apartamento se localiza na Ile de Nantes, ilha onde fica boa parte do centro empresarial de Nantes, ao lado do centro da cidade e bem próximo da fronteira sul com as cidades da região metropolitana (ver mapa). Temos 85 m² de área habitável no nível superior, distribuídos em três quartos, uma sala de estar (transformada em quarto), uma pequena sala de jantar, uma cozinha, um WC e uma sala de banho. No térreo uma garagem para dois carros que será aproveitada para os mais diversos fins: garagem de bicicletas, depósito, área de serviço e o lugar onde eu vou colocar minha máquina de remar para que eu e o Vladimir nos exercitemos.

Desculpem-me por este texto meloso e obrigado por me deixarem (ou não) compartilhar isso com vocês.

Aos novatos de Nantes e de outras cidades também, saibam que vocês são muito bem-vindos e que poderão nos visitar quando quiserem.

É isso aí!






Eurão!

Vamos tirar um pouco a poeira deste blog com um post bem útil pro pessoal que vem aqui pra Nantes.

Nestes últimos dias eu tive a sorte de poder conhecer outros brasileiros estudando aqui em Nantes em outras escolas. A maior parte deles mora em uma residência universitária próxima daqui, a Flesche Blanc.

Conversa vai, conversa vem, falando com o Pedro da ENITIAA (escola de engenharia agro-alimentar) descobri o "Eurão". É esse o apelido que a brasileirada dá a um programa de auxílio aos estudantes que acontece todas as quintas feiras numa outra residência universitária próxima, a Violette.

A idéia do "Eurão" é simples: os organizadores recebem doações de supermercados, geralmente produtos com data de validade quase chegando, e repassam aos estudantes. Cada estudante paga um euro para ir ao local da distribuição e pegar uma quantidade racionada de cada artigo. É isso.

Eu fui e devo dizer que as coisas lá não são ruins. São artigos com data de validade pro dia seguinte ou até mesmo pro dia da distribuição, mas em perfeitas condições de consumo. Vagem, cenoura, brócolis, bananas, leite, margarina, manteiga, salsichas, iogurte, arroz, macarrão, pão... Tudo por apenas um euro.

Sinceramente, taí um negócio que vale a pena ser experimentado.

A partida do EI2s

É passado o feriado de páscoa, a primavera chega a seu auge... E os veteranos vão embora. O quarto semestre é curto, pois é necessário fazer o "stage ingénieur", de duração de 4 meses. Do começo de maio até o começo de setembro, que é quando vocês, meus caros bixos, chegarão a escola ficará entregue a nós, os EI1.

É um tempo de despedidas, talvez até de tristeza para alguns... mas também é um tempo para fazer negócio, por que não? E foi o que aconteceu comigo... O Marco, um veterano nosso, pôs um anúncio na lista de emails vendendo uma bicicleta mais uma série de equipamentos por 100 euros e roupas de ski por 50 euros. Havia também uma raquete de tênis e algumas bolas. Três mais oito, noves fora... Fiz umas contas e estava valendo a pena. Eu já queria uma bicicleta há algum tempo e uma seria extremamente últil para vir para a escola no segundo ano. E quanto às roupas de ski, elas não estavam caras e eu já garantiria o equipamento para ir no ski da Fanfrale e no ski da escola no ano que vem. Fechei negócio. E o Igor pegaria o equipamento de tênis.

Chegando lá na casa dele encontrei o apartamento virado de cabeça para baixo. Quando a hora da mudança chega as coisas são assim mesmo... Estávamos eu, o Igor e o Adrian, cada qual procurando algumas coisas para si. Depois de dar aquela averiguada básica nas coisas ele me pergunta "você quer roupa?". Hum, por que não? Catei algumas peças de roupa que me interessavam.

Mas as coisas não pararam por aí....

"Você quer um quadro branco?"
"Você quer uma bandeira do Brasil?"
"Você quer livros?"
"Você quer...?"
"Você quer...?"

O Marco disparava as perguntas a queima roupa. Ele buscava desesperadamente achar um novo dono para cada item que não estava à venda na casa dele, mas que ele não poderia levar com ele. Caso contrário o destino seria o lixo. E isso acontecia inclusive com algumas maravilhosas canecas de vidro de um litro que ele trouxe da Oktoberfest. O espírito "lixeiro" começou a tomar conta de mim. Para completar a confusão, o Carlitos, que morava no mesmo apartamento, me pergunta "você tem saco de dormir"? Pois bem, agora tenho. Uma máquina de remar jazia no chão, tinha sido jogada no lixo pela vizinha deles e supostamente ela voltaria para lá... Não mais.

Eu, o Adrian e o Igor saímos carregados do apartamento deles. Dentro do bonde atraíamos olhares. Não é sempre que se vê três malucos levando tanta tralha.

Ao chegar na residência eu contei brevemente sobre o "Bazar do Tio Marco" para o Thiago. Eu não consegui trazer tudo de uma vez só e voltaria lá nos dias seguintes e o Thiago resolveu ir também para catar algumas coisas para ele também. Aqui vai a pequena lista do que eu sozinho peguei. Atenção, apenas eu:


Pacote de equipamento de ski (50 pilas):
- 2 óculos de ski (um doado para o Thiago)
- 2 pares de meias de frio
- 1 par de luvas de ski
- 1 calça de ski


Pacote de equipamento de ciclismo (100 paus):
- 1 bicileta de 21 marchas
- 5 câmaras de pneu
- 1 bomba de encher pneu
- 2 correias elásticas
- 2 correntes anti-furto
- 2 lanternas embarcáveis
- 1 kit de ferramentas portátil
- 1 capacete
- 1 par de luvas de ciclista
- 2 toucas de ciclismo
- 1 short de ciclista
- 1 calça de ciclista
- 1 jaqueta impermeável
- 1 mochila de ciclista
- 2 garrafas esportivas
- 1 segunda pele para o torso


Contribuir para o reaproveitamento de itens usados e diminuir a quantidade de lixo no planeta (não tem preço):
- 1 bolsa de esporte (usada para trazer as tralhas e que terminou virando doação também)
- 1 bolsa estilo pasta de livros
- 2 camisas sociais
- 1 camisa gola polo com as cores da Mangueira (para finalidades fanfarrísticas)
- 1 bermuda
- 1 saco de dormir
- 1 bandeira do brasil
- 1 kit de pedras semipreciosas brasileiras (doado para o Thiago)
- 1 protetor labial usado pela metade
- 1 cacto
- 1 caneca de 1L "emprestada" da Oktoberfest
- 1 ficha de secagem da lavanderia da residência
- 1 ficha de lavagem da lavanderia da residência
- 1 guia turístico de Praga
- Le père Gorjot, livro de Balzac
- Vários clips de papel
- Várias tachinhas para quadro de cortiça
- Moedas de países diversos
- 1 caixa com sachês de chá de vários sabores
- 1 caixa de caldo de carne
- 1 caixa de caldo de frango
- 1 caixa de caldo de legumes
- 1 colchão para fazer abdominais
- 1 máquina de remar...

É... Acho que foi só isso mesmo. Posso estar esquecendo uma coisinha ou outra, mas o principal é isso. Os meninos levaram outras coisas também, mas não lembro quem exatamente ficou com o que, então não vou separar os pertences:

- Várias canecas da Oktoberfest
- 1 livro de Kafka em alemão
- 1 mapa mundi da Airfrane mostrando as suas principasi rotas (2,50 m de comprimento)
- 1 paletó
- 1 calça de ski feminina
- Vários sacos de dormir
- 1 ficha de lavagem da lavanderia da residência
- 1 ficha de secagem da lavanderia da residência
- 1 raquete de tênis
- 3 bolas de tênis
- 1 luminária esférica
- 1 boné de frio (parecido com o do Chaves)

E isso não é tudo! O Roberto, o nosso eminente músico riograndense, deixou-me o violão dele. Gratuitamente. Com uma condição: que eu passe também gratuitamente para um outro novato no ano que vem. Excelente negócio. E eu confesso que já fazia tempo que eu estava louco para tocar violão de novo.

Mas isso tudo, é claro, tem um custo. Vocês conseguem imaginar o efeito que a chegada dessas coisas todas teve sobre o meu minúsculo quarto de 9 m²? Aqui vão algumas fotos do meu quarto.

A primeira foi tirada numa longínqua tarde de setembro, quando não havia absolutamente nada no apartamento e eu dormi num colchão sem colcha, usando um moleton como travesseiro e um casaco como cobertor:


A segunda foi tirada depois do bazar dos veteranos. Para dormir eu tirava as tralhas de cima da cama e jogava no chão. Ao acordar, eu jogava as tralhas de volta na cama para poder ter onde pisar:


Finalmente, a última sequência foi tirada depois de eu ter organizado todo o caos que estava por aqui:



Pouce d'Or parte 5

Um pequeno preâmbulo

Sim, você leu corretamente. Desta vez, no entanto, não há nada de caronas, de cartazes toscos feitos em papelão nem travessias alucinantes a 150 km/h na periferia de Paris. Mas nem por isso a história que vou contar aqui é menos sem noção.

Durante a competição, uma mulher, que havia experimentado pegar carona pela primeira vez havia pouco tempo, resolveu quebrar também o tabu de dar carona ao ver uma dupla vestida de coletes fluorescentes na beira da rua. Curiosa, ela perguntou do que se tratava e, voilà, ela descobriu o que era o Pouce d'Or.

Não tenho idéia de quem era a dupla, mas a mulher participa de uma ONG da cidade de La Chapelle sur Erdre, região metropolitana de Nantes, chamada de Solidarités Écologie. O objetivo da organização é desenvolver projetos concretos de sustentabilidade na comunidade.

Um dos projetos em curso chama-se Autostop Participatif (Carona Participativa). Os motoristas participantes do projeto colam um pequeno adesivo laranja no retrovisor direito do carro, o que permite a sua identificação pelos pedestres. Estes acenam e pedem uma carona. Pela quantia de 50 cêntimos por 10 km o pedestre embarca e segue viagem. Muitas vezes os motoristas dispensam os passageiros da taxa. Foi em uma ocasião assim que a protagonista dessas histórias, chamada Marianne, pegou sua primeira carona beirando os quarenta anos de idade.


Debatedor? Eu!?

Ok, concordo que até então isso é uma história ordinária, mas vamos aos fatos. A Solidarité Écologie realizaria um debate sobre sustentabilidade no trânisto no dia 5 de maio. O evento contaria com a presença de representantes do poder público e coordenadores de projetos de sustentabilidade. Foi então que a Marianne lembrou da dupla que ela havia conhecido e resolveu entrar em contato com a escola, mandando um email para o presidente do clube que organiza a competição. Dentro de um debate tão sério o papel dos competidores do Pouce d'Or provavelmente seria contar anedotas e quebrar o gelo.

O presidente então nos reenviou há pouco mais de um mês o email recrutando três voluntários e eu me prontifiquei. Da noite pro dia eu virei debatedor em uma mesa-redonda sobre transporte e sustentabilidade. Interessante, não? Junto comigo iria o Raphaël, a minha torcida de um homem só no WEI. O cara é super empolgado com o assunto e já tem um histórico respeitável de viagens de carona.

Uma média de idade... peculiar.

Chegamos ao local marcado, uma sala pública administrada pela prefeitura, com alguns minutos de antecedência. Lá já estavam alguns dos organizadores, um grupo de senhoras. Fato imediatamente constatado por mim e pelo Raphaël: excetuando-se a Marianne todas as outras senhoras haviam passado dos sessenta anos. Em seguida chegam mais dois senhores e a soma das idades dos presentes passou fácil dos 300 anos. Seguiu-se uma breve discussão sobre quem havia pego a chave da sala na prefeitura. Ninguém. Aquilo não estava parecendo a ocasião mais própria para contarmos a história de uma centena de jovens inconsequentes atravessando a Europa de carona.

Ficamos ali no frio do lado de fora da sala enquanto outras pessoas, quase todas organizadores ou debatedores convidados do evento chegavam. Assim chegou o conselheiro geral da cidade, algo como o presidente da Câmara de Vereadores no Brasil. Chegou montado em uma bicicleta com auxílio elétrico o diretor de uma empresa que oferecia soluções inovadoras em transporte sustentável, a Transway. Naquele grupo que já beirava vinte pessoas apenas duas não eram nem organizadores nem debatedores convidados. Se aquilo deveria ser um evento aberto ao público então estava sendo um fracasso. Mais parecia uma reunião rotineira da associação.

O frio piorava e ninguém chegou com a chave. Foi então que o diretor da Transway sugeriu fazer a reunião numa sala na sede da empresa dele. E lá fomos nós.

O debate

A reunião começou com uma explicação sobre o projeto Autostop Participatif e em seguida falou o Conselheiro Geral sobre o site de covoiturage (palavra para definir a ação de dar carona a pessoas que façam o mesmo percurso que você) mantido pelo Conselho da região.

E chegou a nossa vez de falar. Explicamos a competição, contamos anedotas e prendemos a atenção do pessoal por muito mais do que os dez minutos que haviam previsto para nós. Mostramos para alguns deles, ex-caroneiros, que ainda era possível pegar carona e fazer disso uma experiência enriquecedora. De modo geral, a receptividade à nossa participação no debate foi imensa.

Próximo da fila: o nosso anfitrião, Nicolas, o diretor da Transway. Apesar de ter visto o link para o site da empresa dele nos emails que a ONG nos enviara eu nem corri atrás de saber o que era. Foi só no debate que eu descobri do que se tratava. A Transway criou uma rede social, como o Orkut e o Facebook, para facilitar covoiturages. Ao invés de ligar pessoas por comunidades ou vínculos de amizade, como é o caso do Orkut, o critério é o caminho feito para o trabalho todos os dias. Isso permite aos usuários encontrar pessoas que façam o mesmo trajeto diariamente e compartilhar um carro com elas, evitando assim o número de veículos em circulação.

Para estimular o uso da rede foi criado uma espécie de programa de milhagens. Os usuários ganham pontos quando dão uma mãozinha ao meio ambiente. Esses pontos podem ser trocados por prêmios, sendo o melhor uma bicicleta com auxílio elétrico. E você deve estar se perguntando de onde vem o dinheiro para fazer tudo isso. A grande sacada é que a Transway conhece os hábitos diários das centenas de pessoas cadastradas no site: para onde vão e como vão. Essas informações são transformadas em estatísticas ("N pessoas do bairro A vão de carro até a empresa B no bairro C", por exemplo). A prefeitura de Nantes financia o projeto para ter acesso a essas informações, que permitem-na fazer um diagnóstico preciso do seu sistema de transporte público e então corrigir algumas das falhas. Genial, não?

É, eu e o Raphaël também achamos genial e num breve cutucão de cotovelo veio a pergunta "será que eles contratam estagiários?". Descobriríamos em breve, pois naquele momento assistíamos a uma apresentação do projeto que inspirou o Autostop Participatif e que havia sido posto em prática em outra cidade.

Por que não?

Por que não tentar? Por que não se a cada email que eu mandava para uma empresa eu era respondido com uma negativa, isso se me respondessem. Confesso que eu não me sentia tão cara de pau pra chegar no sujeito e pedir um estágio. Isso evidentemente não parecia ser o caso do Raphaël. Terminada a palestra ele começou a conversar com o Nicolas e após uma breve puxada de saco ele disparou a pergunta a queima-roupa. Resposta:
"Sim, me interessa contratar estagiários. Tomem meu cartão. Me enviem seus CVs"

Não precisava mandar duas vezes. No dia seguinte enviei meu CV. Na réplica ele me perguntou as datas em que eu poderia fazer o estágio. Na tréplica ele me deu o sim. Remuneração de 417 euros por mês, a mínima para um estagiário, para trabalhar durante dois meses no desenvolvimento de um aplicativo Iphone da rede social criada por eles. Alguns deslocamentos para Paris estavam previstos. Nada mal, visto que muitos dos meus colegas franceses conseguiram estágios não-remunerados.

Coloquei algumas coisas na balança. A escola solicita um estágio de duração mínima de um mês. Um estágio de dois meses tomaria todas as minhas férias. Eu sairia das provas, passaria dois meses trabalhando e voltaria para a dureza da escola sem ter um tempinho de descanso. E para completar, mal sairia da cidade. Resolvi arriscar e perguntei se eles tinham uma filial em Paris e se eu poderia ficar por lá. Por quê? Porque dois meses em Paris definitivamente não é a mesma coisa que dois meses em Nantes. Paris é muito maior e há muito mais coisa para fazer. Além disso, tenho um grande amigo estudando lá. Por que não tentar? Eu já ouvira tantos "nãos" nas últimas semanas mesmo... Mas dessa vez eu ouvi um sim, o meu segundo em menos de dois dias.

Da próxima vez que alguém me perguntar o que é que eu ganhei por rodar 2400 quilômetros pela Europa só pegando carona num período de 40 horas eu posso estufar o peito e dizer:

"Um estágio!"