Eurão!

Vamos tirar um pouco a poeira deste blog com um post bem útil pro pessoal que vem aqui pra Nantes.

Nestes últimos dias eu tive a sorte de poder conhecer outros brasileiros estudando aqui em Nantes em outras escolas. A maior parte deles mora em uma residência universitária próxima daqui, a Flesche Blanc.

Conversa vai, conversa vem, falando com o Pedro da ENITIAA (escola de engenharia agro-alimentar) descobri o "Eurão". É esse o apelido que a brasileirada dá a um programa de auxílio aos estudantes que acontece todas as quintas feiras numa outra residência universitária próxima, a Violette.

A idéia do "Eurão" é simples: os organizadores recebem doações de supermercados, geralmente produtos com data de validade quase chegando, e repassam aos estudantes. Cada estudante paga um euro para ir ao local da distribuição e pegar uma quantidade racionada de cada artigo. É isso.

Eu fui e devo dizer que as coisas lá não são ruins. São artigos com data de validade pro dia seguinte ou até mesmo pro dia da distribuição, mas em perfeitas condições de consumo. Vagem, cenoura, brócolis, bananas, leite, margarina, manteiga, salsichas, iogurte, arroz, macarrão, pão... Tudo por apenas um euro.

Sinceramente, taí um negócio que vale a pena ser experimentado.

A partida do EI2s

É passado o feriado de páscoa, a primavera chega a seu auge... E os veteranos vão embora. O quarto semestre é curto, pois é necessário fazer o "stage ingénieur", de duração de 4 meses. Do começo de maio até o começo de setembro, que é quando vocês, meus caros bixos, chegarão a escola ficará entregue a nós, os EI1.

É um tempo de despedidas, talvez até de tristeza para alguns... mas também é um tempo para fazer negócio, por que não? E foi o que aconteceu comigo... O Marco, um veterano nosso, pôs um anúncio na lista de emails vendendo uma bicicleta mais uma série de equipamentos por 100 euros e roupas de ski por 50 euros. Havia também uma raquete de tênis e algumas bolas. Três mais oito, noves fora... Fiz umas contas e estava valendo a pena. Eu já queria uma bicicleta há algum tempo e uma seria extremamente últil para vir para a escola no segundo ano. E quanto às roupas de ski, elas não estavam caras e eu já garantiria o equipamento para ir no ski da Fanfrale e no ski da escola no ano que vem. Fechei negócio. E o Igor pegaria o equipamento de tênis.

Chegando lá na casa dele encontrei o apartamento virado de cabeça para baixo. Quando a hora da mudança chega as coisas são assim mesmo... Estávamos eu, o Igor e o Adrian, cada qual procurando algumas coisas para si. Depois de dar aquela averiguada básica nas coisas ele me pergunta "você quer roupa?". Hum, por que não? Catei algumas peças de roupa que me interessavam.

Mas as coisas não pararam por aí....

"Você quer um quadro branco?"
"Você quer uma bandeira do Brasil?"
"Você quer livros?"
"Você quer...?"
"Você quer...?"

O Marco disparava as perguntas a queima roupa. Ele buscava desesperadamente achar um novo dono para cada item que não estava à venda na casa dele, mas que ele não poderia levar com ele. Caso contrário o destino seria o lixo. E isso acontecia inclusive com algumas maravilhosas canecas de vidro de um litro que ele trouxe da Oktoberfest. O espírito "lixeiro" começou a tomar conta de mim. Para completar a confusão, o Carlitos, que morava no mesmo apartamento, me pergunta "você tem saco de dormir"? Pois bem, agora tenho. Uma máquina de remar jazia no chão, tinha sido jogada no lixo pela vizinha deles e supostamente ela voltaria para lá... Não mais.

Eu, o Adrian e o Igor saímos carregados do apartamento deles. Dentro do bonde atraíamos olhares. Não é sempre que se vê três malucos levando tanta tralha.

Ao chegar na residência eu contei brevemente sobre o "Bazar do Tio Marco" para o Thiago. Eu não consegui trazer tudo de uma vez só e voltaria lá nos dias seguintes e o Thiago resolveu ir também para catar algumas coisas para ele também. Aqui vai a pequena lista do que eu sozinho peguei. Atenção, apenas eu:


Pacote de equipamento de ski (50 pilas):
- 2 óculos de ski (um doado para o Thiago)
- 2 pares de meias de frio
- 1 par de luvas de ski
- 1 calça de ski


Pacote de equipamento de ciclismo (100 paus):
- 1 bicileta de 21 marchas
- 5 câmaras de pneu
- 1 bomba de encher pneu
- 2 correias elásticas
- 2 correntes anti-furto
- 2 lanternas embarcáveis
- 1 kit de ferramentas portátil
- 1 capacete
- 1 par de luvas de ciclista
- 2 toucas de ciclismo
- 1 short de ciclista
- 1 calça de ciclista
- 1 jaqueta impermeável
- 1 mochila de ciclista
- 2 garrafas esportivas
- 1 segunda pele para o torso


Contribuir para o reaproveitamento de itens usados e diminuir a quantidade de lixo no planeta (não tem preço):
- 1 bolsa de esporte (usada para trazer as tralhas e que terminou virando doação também)
- 1 bolsa estilo pasta de livros
- 2 camisas sociais
- 1 camisa gola polo com as cores da Mangueira (para finalidades fanfarrísticas)
- 1 bermuda
- 1 saco de dormir
- 1 bandeira do brasil
- 1 kit de pedras semipreciosas brasileiras (doado para o Thiago)
- 1 protetor labial usado pela metade
- 1 cacto
- 1 caneca de 1L "emprestada" da Oktoberfest
- 1 ficha de secagem da lavanderia da residência
- 1 ficha de lavagem da lavanderia da residência
- 1 guia turístico de Praga
- Le père Gorjot, livro de Balzac
- Vários clips de papel
- Várias tachinhas para quadro de cortiça
- Moedas de países diversos
- 1 caixa com sachês de chá de vários sabores
- 1 caixa de caldo de carne
- 1 caixa de caldo de frango
- 1 caixa de caldo de legumes
- 1 colchão para fazer abdominais
- 1 máquina de remar...

É... Acho que foi só isso mesmo. Posso estar esquecendo uma coisinha ou outra, mas o principal é isso. Os meninos levaram outras coisas também, mas não lembro quem exatamente ficou com o que, então não vou separar os pertences:

- Várias canecas da Oktoberfest
- 1 livro de Kafka em alemão
- 1 mapa mundi da Airfrane mostrando as suas principasi rotas (2,50 m de comprimento)
- 1 paletó
- 1 calça de ski feminina
- Vários sacos de dormir
- 1 ficha de lavagem da lavanderia da residência
- 1 ficha de secagem da lavanderia da residência
- 1 raquete de tênis
- 3 bolas de tênis
- 1 luminária esférica
- 1 boné de frio (parecido com o do Chaves)

E isso não é tudo! O Roberto, o nosso eminente músico riograndense, deixou-me o violão dele. Gratuitamente. Com uma condição: que eu passe também gratuitamente para um outro novato no ano que vem. Excelente negócio. E eu confesso que já fazia tempo que eu estava louco para tocar violão de novo.

Mas isso tudo, é claro, tem um custo. Vocês conseguem imaginar o efeito que a chegada dessas coisas todas teve sobre o meu minúsculo quarto de 9 m²? Aqui vão algumas fotos do meu quarto.

A primeira foi tirada numa longínqua tarde de setembro, quando não havia absolutamente nada no apartamento e eu dormi num colchão sem colcha, usando um moleton como travesseiro e um casaco como cobertor:


A segunda foi tirada depois do bazar dos veteranos. Para dormir eu tirava as tralhas de cima da cama e jogava no chão. Ao acordar, eu jogava as tralhas de volta na cama para poder ter onde pisar:


Finalmente, a última sequência foi tirada depois de eu ter organizado todo o caos que estava por aqui:



Pouce d'Or parte 5

Um pequeno preâmbulo

Sim, você leu corretamente. Desta vez, no entanto, não há nada de caronas, de cartazes toscos feitos em papelão nem travessias alucinantes a 150 km/h na periferia de Paris. Mas nem por isso a história que vou contar aqui é menos sem noção.

Durante a competição, uma mulher, que havia experimentado pegar carona pela primeira vez havia pouco tempo, resolveu quebrar também o tabu de dar carona ao ver uma dupla vestida de coletes fluorescentes na beira da rua. Curiosa, ela perguntou do que se tratava e, voilà, ela descobriu o que era o Pouce d'Or.

Não tenho idéia de quem era a dupla, mas a mulher participa de uma ONG da cidade de La Chapelle sur Erdre, região metropolitana de Nantes, chamada de Solidarités Écologie. O objetivo da organização é desenvolver projetos concretos de sustentabilidade na comunidade.

Um dos projetos em curso chama-se Autostop Participatif (Carona Participativa). Os motoristas participantes do projeto colam um pequeno adesivo laranja no retrovisor direito do carro, o que permite a sua identificação pelos pedestres. Estes acenam e pedem uma carona. Pela quantia de 50 cêntimos por 10 km o pedestre embarca e segue viagem. Muitas vezes os motoristas dispensam os passageiros da taxa. Foi em uma ocasião assim que a protagonista dessas histórias, chamada Marianne, pegou sua primeira carona beirando os quarenta anos de idade.


Debatedor? Eu!?

Ok, concordo que até então isso é uma história ordinária, mas vamos aos fatos. A Solidarité Écologie realizaria um debate sobre sustentabilidade no trânisto no dia 5 de maio. O evento contaria com a presença de representantes do poder público e coordenadores de projetos de sustentabilidade. Foi então que a Marianne lembrou da dupla que ela havia conhecido e resolveu entrar em contato com a escola, mandando um email para o presidente do clube que organiza a competição. Dentro de um debate tão sério o papel dos competidores do Pouce d'Or provavelmente seria contar anedotas e quebrar o gelo.

O presidente então nos reenviou há pouco mais de um mês o email recrutando três voluntários e eu me prontifiquei. Da noite pro dia eu virei debatedor em uma mesa-redonda sobre transporte e sustentabilidade. Interessante, não? Junto comigo iria o Raphaël, a minha torcida de um homem só no WEI. O cara é super empolgado com o assunto e já tem um histórico respeitável de viagens de carona.

Uma média de idade... peculiar.

Chegamos ao local marcado, uma sala pública administrada pela prefeitura, com alguns minutos de antecedência. Lá já estavam alguns dos organizadores, um grupo de senhoras. Fato imediatamente constatado por mim e pelo Raphaël: excetuando-se a Marianne todas as outras senhoras haviam passado dos sessenta anos. Em seguida chegam mais dois senhores e a soma das idades dos presentes passou fácil dos 300 anos. Seguiu-se uma breve discussão sobre quem havia pego a chave da sala na prefeitura. Ninguém. Aquilo não estava parecendo a ocasião mais própria para contarmos a história de uma centena de jovens inconsequentes atravessando a Europa de carona.

Ficamos ali no frio do lado de fora da sala enquanto outras pessoas, quase todas organizadores ou debatedores convidados do evento chegavam. Assim chegou o conselheiro geral da cidade, algo como o presidente da Câmara de Vereadores no Brasil. Chegou montado em uma bicicleta com auxílio elétrico o diretor de uma empresa que oferecia soluções inovadoras em transporte sustentável, a Transway. Naquele grupo que já beirava vinte pessoas apenas duas não eram nem organizadores nem debatedores convidados. Se aquilo deveria ser um evento aberto ao público então estava sendo um fracasso. Mais parecia uma reunião rotineira da associação.

O frio piorava e ninguém chegou com a chave. Foi então que o diretor da Transway sugeriu fazer a reunião numa sala na sede da empresa dele. E lá fomos nós.

O debate

A reunião começou com uma explicação sobre o projeto Autostop Participatif e em seguida falou o Conselheiro Geral sobre o site de covoiturage (palavra para definir a ação de dar carona a pessoas que façam o mesmo percurso que você) mantido pelo Conselho da região.

E chegou a nossa vez de falar. Explicamos a competição, contamos anedotas e prendemos a atenção do pessoal por muito mais do que os dez minutos que haviam previsto para nós. Mostramos para alguns deles, ex-caroneiros, que ainda era possível pegar carona e fazer disso uma experiência enriquecedora. De modo geral, a receptividade à nossa participação no debate foi imensa.

Próximo da fila: o nosso anfitrião, Nicolas, o diretor da Transway. Apesar de ter visto o link para o site da empresa dele nos emails que a ONG nos enviara eu nem corri atrás de saber o que era. Foi só no debate que eu descobri do que se tratava. A Transway criou uma rede social, como o Orkut e o Facebook, para facilitar covoiturages. Ao invés de ligar pessoas por comunidades ou vínculos de amizade, como é o caso do Orkut, o critério é o caminho feito para o trabalho todos os dias. Isso permite aos usuários encontrar pessoas que façam o mesmo trajeto diariamente e compartilhar um carro com elas, evitando assim o número de veículos em circulação.

Para estimular o uso da rede foi criado uma espécie de programa de milhagens. Os usuários ganham pontos quando dão uma mãozinha ao meio ambiente. Esses pontos podem ser trocados por prêmios, sendo o melhor uma bicicleta com auxílio elétrico. E você deve estar se perguntando de onde vem o dinheiro para fazer tudo isso. A grande sacada é que a Transway conhece os hábitos diários das centenas de pessoas cadastradas no site: para onde vão e como vão. Essas informações são transformadas em estatísticas ("N pessoas do bairro A vão de carro até a empresa B no bairro C", por exemplo). A prefeitura de Nantes financia o projeto para ter acesso a essas informações, que permitem-na fazer um diagnóstico preciso do seu sistema de transporte público e então corrigir algumas das falhas. Genial, não?

É, eu e o Raphaël também achamos genial e num breve cutucão de cotovelo veio a pergunta "será que eles contratam estagiários?". Descobriríamos em breve, pois naquele momento assistíamos a uma apresentação do projeto que inspirou o Autostop Participatif e que havia sido posto em prática em outra cidade.

Por que não?

Por que não tentar? Por que não se a cada email que eu mandava para uma empresa eu era respondido com uma negativa, isso se me respondessem. Confesso que eu não me sentia tão cara de pau pra chegar no sujeito e pedir um estágio. Isso evidentemente não parecia ser o caso do Raphaël. Terminada a palestra ele começou a conversar com o Nicolas e após uma breve puxada de saco ele disparou a pergunta a queima-roupa. Resposta:
"Sim, me interessa contratar estagiários. Tomem meu cartão. Me enviem seus CVs"

Não precisava mandar duas vezes. No dia seguinte enviei meu CV. Na réplica ele me perguntou as datas em que eu poderia fazer o estágio. Na tréplica ele me deu o sim. Remuneração de 417 euros por mês, a mínima para um estagiário, para trabalhar durante dois meses no desenvolvimento de um aplicativo Iphone da rede social criada por eles. Alguns deslocamentos para Paris estavam previstos. Nada mal, visto que muitos dos meus colegas franceses conseguiram estágios não-remunerados.

Coloquei algumas coisas na balança. A escola solicita um estágio de duração mínima de um mês. Um estágio de dois meses tomaria todas as minhas férias. Eu sairia das provas, passaria dois meses trabalhando e voltaria para a dureza da escola sem ter um tempinho de descanso. E para completar, mal sairia da cidade. Resolvi arriscar e perguntei se eles tinham uma filial em Paris e se eu poderia ficar por lá. Por quê? Porque dois meses em Paris definitivamente não é a mesma coisa que dois meses em Nantes. Paris é muito maior e há muito mais coisa para fazer. Além disso, tenho um grande amigo estudando lá. Por que não tentar? Eu já ouvira tantos "nãos" nas últimas semanas mesmo... Mas dessa vez eu ouvi um sim, o meu segundo em menos de dois dias.

Da próxima vez que alguém me perguntar o que é que eu ganhei por rodar 2400 quilômetros pela Europa só pegando carona num período de 40 horas eu posso estufar o peito e dizer:

"Um estágio!"

Aos bixos... E aos bixos dos meus bixos... E assim por diante

Venho por meio deste texto falar de algo muito sério. Ignoro a quantidade de futuros centraliens que lêem o meu blog. A questão é que apesar de todos os meus textos que não tem nenhuma utilidade prática direta, eu escrevo uma boa quantidade de textos úteis e que podem lhes ajudar.

Pois é, vocês acham que eu faço isso por caridade? Por peninha? Eu não trabalho de graça, não! E agora, que alguns de vocês já devem estar arrumando suas malinhas para vir para cá, eu quero o pagamento. É isso aí mesmo que vocês leram. Eu quero o pagamento por meus serviços tão diligentemente prestados neste blog.

O pagamento, entretanto, é simples. Não é financeiro. Não é doloroso. Não é vergonhoso, a não ser que exista alguém do seu lado neste momento. Levantem-se, ponham a mão direita no peito e leiam em voz alta:


Eu, (Seu nome completo), como intercambista juro solenemente (pausa solene para acentuar a solenidade do juramento):

Que abrirei meu espírito para as experiências que o intercâmbio me proporcionará, para novas culturas e pensamentos. Livrarei meu coração de todo preconceito e tudo o que atente contra a tolerância e o conhecimento do próximo. Procurarei aprender o máximo possível e aceitarei que nem sempre esse aprendizado é acadêmico.

Juro igualmente que, apesar da distância do lar e as saudades dos entes queridos, manterei meus olhos abertos para apreciar o valor dos amigos que farei no além-mar e que estarei lá para ampará-los assim como eles estarão lá para me amparar.

E acima de tudo, na minha condição de selecionado para o Programa Duplo Diploma, juro (a pausa aqui é maior porque a solenidade é maior):

Fazer o que estiver ao meu alcance para ajudar meus futuros bixos, jamais lhes negando informação que eu venha a possuir ou conhecimento que eu possa transmitir. E que o farei de bom grado e independente de cor, credo ou universidade de origem. Ajudá-los-ei da mesma forma em que gostaria de ter sido ajudado.

Juro que se meus veteranos em sua totalidade ou parcialmente não houverem me ajudado a contento ou assim eu o julgue eu manterei meus votos de solidariedade e camaradagem em relação aos meus bixos.

Juro que instruirei meus bixos a fazerem o mesmo com seus bixos e estes com os bixos dos meus bixos, perpetuando este ciclo de boa fé por gerações e gerações de duplo-diplomandos. Zelarei para que os valores contidos neste juramento sejam seguidos e, se necessário for, submeterei meus bixos ao mesmo juramento tal como estou sendo submetido agora por um dos meus veteranos.
É isso aí, galera. Doeu? Não? Que bom. Espero que vocês cumpram isso. Se não cumprirem a Providência lhes punirá com um castigo equivalente a:
  • 78 espelhos quebrados
  • 256 passadas debaixo de uma escada
  • 365 cruzadas com gatos pretos
  • 1036 cervejas tomadas antes de brindar (e a ressaca proveniente de quantidade proporcional de cervejas)
  • Se você gosta de cerveja, substituir por um terço do volume em destilado ou o mesmo volume de champanha ou vinho
  • Se você gosta de todas as bebidas supracitadas, substituir por gasolina ou acetona
Juízo, hein!

Inverno de 2010: Luxembourg

Tamanho não é documento

Não é de admirar que o nome do país que possui a maior renda per capita do mundo comece por Lux. Luxemburgo, ou em francês, Luxembourg, é uma miniatura de país espremida entre a Alemanha, a Bélgica e a França e divide raízes culturais latinas e germânicas. Sua economia, contemporaneamente falando, se desenvolveu em torno da indústria siderúrgica. A empresa Acelor, líder mundial do setor, é luxemborguense (ou era, antes de ser vendida pro indiano Mittal). O país é um Grão Ducado trilíngue (francês, alemão e luxembourgois) e laico, apesar de ser predominantemente católico.

As origens da formação do país remontam ao século X, quando Sigfried, o Conde de Ardennes erigiu um forte no rochedo de Boch. O tal rochedo, uma ponta de pedra que despenca vertiginosamente em direção ao rio Alzette, que corre lá embaixo no fundo de uma garganta. Por causa de sua localização privilegiada, naturalmente defendida por um penhasco em três lados, o castelo tornou-se uma fortaleza inexpugnável. A cidade expandiu-se na direção do único lado do castelo que requeria a construção de muralhas para ser protegido. Luxembourg tornou-se uma espécie de oásis da engenharia militar durante a Idade Média, algo como o que hoje representa Barcelona ou Berlim para a arquitetura moderna.


Começando a visita

Como de habitude, fizemos um reconhecimento a pé. A cidade era agradável, mas logo descobrimos que também era cheia de altos e baixos e andar a pé era bem cansativo. O mapa que pegamos no Ofício de Turismo sugeria uma rota de passeio a pé, mas logo descobrimos que caminhos curtos não necessariamente significam caminhos fáceis. Muitas vezes dois pontos separados por uma pequena distância no mapa estavam a metros e metros de altura de diferença.

O nosso passeio começou pelo centro da cidade. Logo no início passamos pela frente do palácio grã-ducal, onde um sentinela fazia uma monótona rotina de trinta passos para um lado, meia-volta e trinta passos para o outro. O nosso passeio nos conduziu por ruas sinuosas no centro da cidade e em seguida ao fundo da garganta onde corre o rio Alzette. Passei a me pergunta se as escarpas de Berne eram realmente tão altas assim, pois olhando a cidade ali de baixo eu me sentia um anão. As pontes de Luxembourg, bem menos numerosas que as da capital suíça, também eram estonteantemente altas e longas.

Paramos para almoçar em um restaurante português. Luxembourg é a maior colônia de imigrantes portugueses na Europa. Aproveitei para falar um pouco a língua pátria, embora eu não entendesse um décimo do que os caras no bar falavam... Aliás, Luxembourg tem essas particularidade: 37% da população é estrangeira. O mais interessante é que apesar disso ela mantém sua identidade nacional e um dos indícios disso é a persistência na utilização da língua deles, mesmo pelos jovens (um jovem nos abordara mais cedo em luxembourgois).


Nem tudo são flores

A relação com a minha companheira de viagem já vinha se deteriorando, como vocês viram no último post. Devo dizer que a coisa piorou substancialmente em Luxembourg. Não foi gradualmente, foi de uma vez. Ela passava uma boa parte do tempo procurando McDonald's para usar a rede wifi de lá para enviar um trabalho que ela deveria entregar na volta às aulas. Eu não me importava, pois até me permitia descansar um pouco do ritmo frenético que ela queria impor ao passeio. Mas essas idas ao McDonalds ficaram cada vez mais frequentes e eu começava a me irritar.

No domingo, último dia da nossa viagem, resolvemos ir pela manhã a um bairro mais afastado onde se localizam alguns prédios que pertencem à União Européia. Havíamos visitado o lugar na noite anterior, mas desejávamos vê-lo à luz do dia. O clima estava feio, mas relativamente estável quando saímos. Chegando lá, porém, a situação piorou, o chuvisco virou chuva e o vento nos arrastava. Eu me colei a uma parede para me proteger, mas a Tonia seguiu. Tentei convencê-la a ficar, mas não teve jeito. Seguimos. Uns 500 m adiante ela reclamou do tempo e eu me surpreendi.

- Se isso te incomoda assim, por que você não ficou no abrigo em que eu achei?
- Que abrigo?
- Aquele em que eu fiquei quando a chuva piorou.
- Você não disse nada.
- Disse, mas você quis continuar.
- Pode até ter sido, mas é que eu não escuto bem quando estou com capuz.

Como se precisasse escutar algo para entender porque eu não queria avançar... Agora estávamos ali, molhados até os ossos e morrendo de frio. A estanqueidade do meu sapato tinha ido pro espaço e tudo o que eu sentia nos pés era uma espécie de mingau feito do que um dia foi o entressola.

Voltamos ao centro da cidade pela tarde e nos abrigamos em museu. Francamente, não aproveitamos nada do acervo e não estávamos nem um pouco no humor de visitar museus. Estávamos lá muito mais para nos abrigar da tempestade do que para ver obras de arte. Encontramos por acaso o Alberto (espanhol) e o Felipe (chileno), dois veteranos nossos que estavam de passagem por Luxembourg aguardando o trem para voltar para casa. Eles vinham da Bélgica e fariam uma correspondência ali. Descobrimos que eles pegariam o mesmo trem que nós.

Nos separamos, pois a Tonia queria ir no McDonald's para ver se os colegas de grupo dela tinham gostado do trabalho que ela enviara. A tempestade havia piorado. O vento havia derrubado galhos, quebrado janelas, disparado alarmes de carros, estava um inferno. Ela inventou de pegar uma rua estreita que nos levaria até a lanchonete, mas eu rapidamente observei três pesados mastros de aço que sustentavam bandeiras de propaganda e no mesmo instante percebi o que ia acontecer. Parei. Enquanto ela avançava um dos mastros caiu com o vento. Eu mandei ela voltar, pois acreditava que os outros dois cairiam também. Ela virou-se pra mim e fez um gesto de "não estou escutando, pois estou de capuz". E, tal qual a cotia que cuida do rabo do macaco, eu fui atingido por um fragmento grande de uma placa do McDonald's que havia se quebrado há pouco. O vento projetou a placa no meu tornzelo, fazendo uma incisão de 1 cm na minha perna. Confesso que naquela hora eu me arependi de não ter deixado aquele mastro esmagar aquela cabeça loira.

Depois de ver os emails dela, voltamos para o albergue e ficamos prontos para partir. Era pouco menos que 15:00 e o nosso trem sairia às 17:30. Eu insisti para sairmos mais mais cedo, pois não sabia se aquela tempestade poderia piorar. Ela arredou pé e quis ficar no albergue fazendo as correções que os colegas dela sugeriram para o trabalho... Não adiantou argumentar. Saímos às 16:50, e apenas depois de eu insisttir muito para sairmos 10 minutos mais cedo do que ela queria. Chegamos na estação às 17:07 e no telão estava marcado que o nosso trem tinha sido cancelado por causa do mau tempo.

Corremos pro balcão, onde fomos atendidos por uma funcionária pantipática e pouquíssimo prestativa. Ela nos sugeriu insanamente de tentar pegar o trem que ia para Paris às 17:10 (já eram 17:08). Óbvio que não conseguimos. Remarcamos para o trem seguinte. O grande problema é que o tempo era bem apertado e mal dava para chegar em Paris, trocar de estação e pegar o nosso trem para Nantes, o último da noite. Se ele atrasasse, já era. Nantes só no dia seguinte. Os nossos veteranos, mais precavidos do que ela, chegaram mais cedo e pegaram o trem das 17:10.

O que não sabíamos é que essa chuva na verdade era a tempestade Xynthia, que arrasara a costa oeste da França horas mais cedos e que agora se deslocava para o leste, onde estávamos. Ela deixou um rastro de caos por onde passou, inclusive no sistema ferroviário. Eu me queixei, disse que era uma pena tudo isso, pois eu precisava estar em Nantes no domingo à noite. Sabe-se lá porque, a louca se sentiu ofendida e perguntou o que eu queria que ela fizesse num tom muito hostil. Quando eu fui tentar explicar que eu não estava reclamando dela, ela repetiu o comportamento infantil que ela já tinha mostrado em Berne: virou a cara e ficou repetindo a mesma coisa em voz alta para não me ouvir.


Nunca é tão ruim que não possa piorar

Breve: o nosso trem atrasou. Vinte minutos e nós não poderíamos atrasar um minuto sequer. Nossa correspondência em Paris parecia perdidas. Embarcamos e explicamos a situação para o fiscal do trem. Aproveitamos também para perguntar se havia algum atraso previsto na saída do trem que iria para Nantes, pois isso nos daria uma margem. Nada, trem na hora. Ele disse que sentia muito, mas que poderia conseguir gratuitamente um hotel para nós em Paris caso tivéssemos que pegar o trem no dia seguinte.

A Tonia disse que tinha uma amiga em Paris que poderia talvez nos hospedar, mas que ela não gostaria de incomodar. Eu falei então que se chegássemos num horário em que ainda houvesse esperanças de pegar o trem, nós partiríamos para a estação e tentaríamos. Caso contrário, pegaríamos o hotel que a empresa nos ofereceu. Cristalino, não é? Pois ela disse que estava "me entendendo com dificuldade", como se o que eu falasse não tivesse sentido nenhum.

Chegamos tarde. Ainda perguntei uma última vez se o trem que partiria para Nantes estava atrasado. Os funcionários responderam que ele sairia na hora, ou seja, dali a 10 minutos. Como precisávamos de 35 minutos para chegar à estação, consideramos o trem perdido e fomos para o hotel, que era em frente a estação onde chegamos.

Ela tomou o banho dela primeiro e em seguida eu tomei o meu. Enquanto eu estava no banheiro ela se comunicou com o Alberto e o Felipe, que ainda estavam esperando o trem para Nantes. Ele já estava 50 minutos atrasado e a cada dez minutos o atraso era atualizado. Se nós tivéssemos ido para a estação, nós o pegaríamos. Entretanto, como me disseram que ele estava no horário, eu não quis jogar fora o hotel. Foi uma decisão conservadora, sem grandes riscos. Quando ela soube disso, empacotou as coisas e saiu correndo feito uma louca. Eu disse que não conseguiríamos chegar a tempo.

E de fato não conseguimos. Após andar uma única estação de metrô, recebemos uma mensagem dos meninos dizendo que o trem tinha partido. Ela falou que estava mega decepcionada e que, se tivéssemos ido para a estação como ela queria teríamos conseguido pegar o trem. Eu pedi desculpas, disse que a culpa de a gente ter perdido esse trem era minha, afinal quem tinha insistido em tomar aquela decisão e não tomar riscos tinha sido eu. E ela falou:

- Sim. É SUA culpa. Se tivéssemos feito o que EU disse. teríamos conseguido.


Meu sangue ferveu. Desde o começo da viagem ela pedia desculpas por coisas bestas, insignificantes, tais como esquecer de pôr duas maçãs na bolsa dela para comermos mais tarde, ou escolher um caminho errado numa rua. Coisas realmente sem importância. Hoje eu acredito, e só agora vejo isso, que ela fazia isso só pelo prazer de ouvir um "O que é isso, Tonia? É claro que isso não é sua culpa". E agora, quando eu peço desculpas ela solta uma resposta desssas. E digo mais, optei por essa decisão porque ela me havia dito que não queria perturbar a amiga dela, o que fazia do hotel uma saída óbvia. Subitamente, todo o peso do nosso fracasso fora transferido para mim. E a briga começou, pois a minha paciência já tinha superado em muito qualquer expectativa.

Para piorar, o quarto do hotel tinha uma cama de casal. Situação desagrabilíssima. Durante a noite eu acordei e ela estava ocupando dois terços da cama. Eu estava de costas para ela e havia acordado com uma pancada nas costas. Achei que pudesse ter sido ocasional, enquanto ela se revirava dormindo. Ela estava então com os dois braços contra as minhas costas. Veio um segundo empurrão que me deixou ainda mais próximo da beira da cama. Aguardei. Veio o terceiro empurrão e eu tive certeza de que ela estava fazendo aquilo de propósito. Plantei os pés no armário na minha frente e estendi as pernas com força, empurrando ela pro outro lado da cama.


Acordamos bem cedo. Fomos para a estação emburrados e logo descobrimos que o nosso trem não estava aparecendo no painel eletrônico. Poucos segundos depois, foi informado pelo sistema de alto-falantes que o trem de 6:10 para Toulouse não estava aparecendo no painel por causa de um problema do painel, mas estava confirmado e aguardava na plataforma. Eu pensei "oras, o nosso trem é às 6:30 e pode estar sofrendo o mesmo problema". Resolvi discutir isso com ela:

- Você ouviu isso?
- Claro que eu ouvi! Eu entendo perfeitamente o francês.


Discussão encerrada. Eu não precisava seguir adiante para saber que aquilo não levaria a lugar nenhum. Virei as costas e fiz o que eu planejava propor a ela: perguntar a alguém da companhia de trem se o nosso trem estava com o mesmo problema do trem de Toulouse. Após 200 m de caminhada cheguei ao balcão e não encontrei ninguém, virei as costas e lá estava a Tonia cospindo fogo. Eu estava com os nossos bilhetes de trem no bolso e ela soltou os cachorros em cima de mim porque eu estava "prestes a deixá-la na estação depois de ter fugido com o bilhete dela". Parece que foi assim que ela interpretou as coisas. Chamou-me de estúpido e de mais um sem número de outros adjetivos nada lisonjeiros.

Finalmente, pegamos o trem. Ele realmente teve o mesmo problema do outro: o trajeto estava confirmado embora não aparecesse no painel. Esse foi o fim da nossa viagem. Nem preciso dizer que voltei atrás nos planos de morar com ela. Eu e o Thiago havíamos combinado de morar com ela e a Noémie, mas depois dessa creio que a convivência seria impossível...