Pouce d'Or parte 5

Um pequeno preâmbulo

Sim, você leu corretamente. Desta vez, no entanto, não há nada de caronas, de cartazes toscos feitos em papelão nem travessias alucinantes a 150 km/h na periferia de Paris. Mas nem por isso a história que vou contar aqui é menos sem noção.

Durante a competição, uma mulher, que havia experimentado pegar carona pela primeira vez havia pouco tempo, resolveu quebrar também o tabu de dar carona ao ver uma dupla vestida de coletes fluorescentes na beira da rua. Curiosa, ela perguntou do que se tratava e, voilà, ela descobriu o que era o Pouce d'Or.

Não tenho idéia de quem era a dupla, mas a mulher participa de uma ONG da cidade de La Chapelle sur Erdre, região metropolitana de Nantes, chamada de Solidarités Écologie. O objetivo da organização é desenvolver projetos concretos de sustentabilidade na comunidade.

Um dos projetos em curso chama-se Autostop Participatif (Carona Participativa). Os motoristas participantes do projeto colam um pequeno adesivo laranja no retrovisor direito do carro, o que permite a sua identificação pelos pedestres. Estes acenam e pedem uma carona. Pela quantia de 50 cêntimos por 10 km o pedestre embarca e segue viagem. Muitas vezes os motoristas dispensam os passageiros da taxa. Foi em uma ocasião assim que a protagonista dessas histórias, chamada Marianne, pegou sua primeira carona beirando os quarenta anos de idade.


Debatedor? Eu!?

Ok, concordo que até então isso é uma história ordinária, mas vamos aos fatos. A Solidarité Écologie realizaria um debate sobre sustentabilidade no trânisto no dia 5 de maio. O evento contaria com a presença de representantes do poder público e coordenadores de projetos de sustentabilidade. Foi então que a Marianne lembrou da dupla que ela havia conhecido e resolveu entrar em contato com a escola, mandando um email para o presidente do clube que organiza a competição. Dentro de um debate tão sério o papel dos competidores do Pouce d'Or provavelmente seria contar anedotas e quebrar o gelo.

O presidente então nos reenviou há pouco mais de um mês o email recrutando três voluntários e eu me prontifiquei. Da noite pro dia eu virei debatedor em uma mesa-redonda sobre transporte e sustentabilidade. Interessante, não? Junto comigo iria o Raphaël, a minha torcida de um homem só no WEI. O cara é super empolgado com o assunto e já tem um histórico respeitável de viagens de carona.

Uma média de idade... peculiar.

Chegamos ao local marcado, uma sala pública administrada pela prefeitura, com alguns minutos de antecedência. Lá já estavam alguns dos organizadores, um grupo de senhoras. Fato imediatamente constatado por mim e pelo Raphaël: excetuando-se a Marianne todas as outras senhoras haviam passado dos sessenta anos. Em seguida chegam mais dois senhores e a soma das idades dos presentes passou fácil dos 300 anos. Seguiu-se uma breve discussão sobre quem havia pego a chave da sala na prefeitura. Ninguém. Aquilo não estava parecendo a ocasião mais própria para contarmos a história de uma centena de jovens inconsequentes atravessando a Europa de carona.

Ficamos ali no frio do lado de fora da sala enquanto outras pessoas, quase todas organizadores ou debatedores convidados do evento chegavam. Assim chegou o conselheiro geral da cidade, algo como o presidente da Câmara de Vereadores no Brasil. Chegou montado em uma bicicleta com auxílio elétrico o diretor de uma empresa que oferecia soluções inovadoras em transporte sustentável, a Transway. Naquele grupo que já beirava vinte pessoas apenas duas não eram nem organizadores nem debatedores convidados. Se aquilo deveria ser um evento aberto ao público então estava sendo um fracasso. Mais parecia uma reunião rotineira da associação.

O frio piorava e ninguém chegou com a chave. Foi então que o diretor da Transway sugeriu fazer a reunião numa sala na sede da empresa dele. E lá fomos nós.

O debate

A reunião começou com uma explicação sobre o projeto Autostop Participatif e em seguida falou o Conselheiro Geral sobre o site de covoiturage (palavra para definir a ação de dar carona a pessoas que façam o mesmo percurso que você) mantido pelo Conselho da região.

E chegou a nossa vez de falar. Explicamos a competição, contamos anedotas e prendemos a atenção do pessoal por muito mais do que os dez minutos que haviam previsto para nós. Mostramos para alguns deles, ex-caroneiros, que ainda era possível pegar carona e fazer disso uma experiência enriquecedora. De modo geral, a receptividade à nossa participação no debate foi imensa.

Próximo da fila: o nosso anfitrião, Nicolas, o diretor da Transway. Apesar de ter visto o link para o site da empresa dele nos emails que a ONG nos enviara eu nem corri atrás de saber o que era. Foi só no debate que eu descobri do que se tratava. A Transway criou uma rede social, como o Orkut e o Facebook, para facilitar covoiturages. Ao invés de ligar pessoas por comunidades ou vínculos de amizade, como é o caso do Orkut, o critério é o caminho feito para o trabalho todos os dias. Isso permite aos usuários encontrar pessoas que façam o mesmo trajeto diariamente e compartilhar um carro com elas, evitando assim o número de veículos em circulação.

Para estimular o uso da rede foi criado uma espécie de programa de milhagens. Os usuários ganham pontos quando dão uma mãozinha ao meio ambiente. Esses pontos podem ser trocados por prêmios, sendo o melhor uma bicicleta com auxílio elétrico. E você deve estar se perguntando de onde vem o dinheiro para fazer tudo isso. A grande sacada é que a Transway conhece os hábitos diários das centenas de pessoas cadastradas no site: para onde vão e como vão. Essas informações são transformadas em estatísticas ("N pessoas do bairro A vão de carro até a empresa B no bairro C", por exemplo). A prefeitura de Nantes financia o projeto para ter acesso a essas informações, que permitem-na fazer um diagnóstico preciso do seu sistema de transporte público e então corrigir algumas das falhas. Genial, não?

É, eu e o Raphaël também achamos genial e num breve cutucão de cotovelo veio a pergunta "será que eles contratam estagiários?". Descobriríamos em breve, pois naquele momento assistíamos a uma apresentação do projeto que inspirou o Autostop Participatif e que havia sido posto em prática em outra cidade.

Por que não?

Por que não tentar? Por que não se a cada email que eu mandava para uma empresa eu era respondido com uma negativa, isso se me respondessem. Confesso que eu não me sentia tão cara de pau pra chegar no sujeito e pedir um estágio. Isso evidentemente não parecia ser o caso do Raphaël. Terminada a palestra ele começou a conversar com o Nicolas e após uma breve puxada de saco ele disparou a pergunta a queima-roupa. Resposta:
"Sim, me interessa contratar estagiários. Tomem meu cartão. Me enviem seus CVs"

Não precisava mandar duas vezes. No dia seguinte enviei meu CV. Na réplica ele me perguntou as datas em que eu poderia fazer o estágio. Na tréplica ele me deu o sim. Remuneração de 417 euros por mês, a mínima para um estagiário, para trabalhar durante dois meses no desenvolvimento de um aplicativo Iphone da rede social criada por eles. Alguns deslocamentos para Paris estavam previstos. Nada mal, visto que muitos dos meus colegas franceses conseguiram estágios não-remunerados.

Coloquei algumas coisas na balança. A escola solicita um estágio de duração mínima de um mês. Um estágio de dois meses tomaria todas as minhas férias. Eu sairia das provas, passaria dois meses trabalhando e voltaria para a dureza da escola sem ter um tempinho de descanso. E para completar, mal sairia da cidade. Resolvi arriscar e perguntei se eles tinham uma filial em Paris e se eu poderia ficar por lá. Por quê? Porque dois meses em Paris definitivamente não é a mesma coisa que dois meses em Nantes. Paris é muito maior e há muito mais coisa para fazer. Além disso, tenho um grande amigo estudando lá. Por que não tentar? Eu já ouvira tantos "nãos" nas últimas semanas mesmo... Mas dessa vez eu ouvi um sim, o meu segundo em menos de dois dias.

Da próxima vez que alguém me perguntar o que é que eu ganhei por rodar 2400 quilômetros pela Europa só pegando carona num período de 40 horas eu posso estufar o peito e dizer:

"Um estágio!"

Aos bixos... E aos bixos dos meus bixos... E assim por diante

Venho por meio deste texto falar de algo muito sério. Ignoro a quantidade de futuros centraliens que lêem o meu blog. A questão é que apesar de todos os meus textos que não tem nenhuma utilidade prática direta, eu escrevo uma boa quantidade de textos úteis e que podem lhes ajudar.

Pois é, vocês acham que eu faço isso por caridade? Por peninha? Eu não trabalho de graça, não! E agora, que alguns de vocês já devem estar arrumando suas malinhas para vir para cá, eu quero o pagamento. É isso aí mesmo que vocês leram. Eu quero o pagamento por meus serviços tão diligentemente prestados neste blog.

O pagamento, entretanto, é simples. Não é financeiro. Não é doloroso. Não é vergonhoso, a não ser que exista alguém do seu lado neste momento. Levantem-se, ponham a mão direita no peito e leiam em voz alta:


Eu, (Seu nome completo), como intercambista juro solenemente (pausa solene para acentuar a solenidade do juramento):

Que abrirei meu espírito para as experiências que o intercâmbio me proporcionará, para novas culturas e pensamentos. Livrarei meu coração de todo preconceito e tudo o que atente contra a tolerância e o conhecimento do próximo. Procurarei aprender o máximo possível e aceitarei que nem sempre esse aprendizado é acadêmico.

Juro igualmente que, apesar da distância do lar e as saudades dos entes queridos, manterei meus olhos abertos para apreciar o valor dos amigos que farei no além-mar e que estarei lá para ampará-los assim como eles estarão lá para me amparar.

E acima de tudo, na minha condição de selecionado para o Programa Duplo Diploma, juro (a pausa aqui é maior porque a solenidade é maior):

Fazer o que estiver ao meu alcance para ajudar meus futuros bixos, jamais lhes negando informação que eu venha a possuir ou conhecimento que eu possa transmitir. E que o farei de bom grado e independente de cor, credo ou universidade de origem. Ajudá-los-ei da mesma forma em que gostaria de ter sido ajudado.

Juro que se meus veteranos em sua totalidade ou parcialmente não houverem me ajudado a contento ou assim eu o julgue eu manterei meus votos de solidariedade e camaradagem em relação aos meus bixos.

Juro que instruirei meus bixos a fazerem o mesmo com seus bixos e estes com os bixos dos meus bixos, perpetuando este ciclo de boa fé por gerações e gerações de duplo-diplomandos. Zelarei para que os valores contidos neste juramento sejam seguidos e, se necessário for, submeterei meus bixos ao mesmo juramento tal como estou sendo submetido agora por um dos meus veteranos.
É isso aí, galera. Doeu? Não? Que bom. Espero que vocês cumpram isso. Se não cumprirem a Providência lhes punirá com um castigo equivalente a:
  • 78 espelhos quebrados
  • 256 passadas debaixo de uma escada
  • 365 cruzadas com gatos pretos
  • 1036 cervejas tomadas antes de brindar (e a ressaca proveniente de quantidade proporcional de cervejas)
  • Se você gosta de cerveja, substituir por um terço do volume em destilado ou o mesmo volume de champanha ou vinho
  • Se você gosta de todas as bebidas supracitadas, substituir por gasolina ou acetona
Juízo, hein!

Inverno de 2010: Luxembourg

Tamanho não é documento

Não é de admirar que o nome do país que possui a maior renda per capita do mundo comece por Lux. Luxemburgo, ou em francês, Luxembourg, é uma miniatura de país espremida entre a Alemanha, a Bélgica e a França e divide raízes culturais latinas e germânicas. Sua economia, contemporaneamente falando, se desenvolveu em torno da indústria siderúrgica. A empresa Acelor, líder mundial do setor, é luxemborguense (ou era, antes de ser vendida pro indiano Mittal). O país é um Grão Ducado trilíngue (francês, alemão e luxembourgois) e laico, apesar de ser predominantemente católico.

As origens da formação do país remontam ao século X, quando Sigfried, o Conde de Ardennes erigiu um forte no rochedo de Boch. O tal rochedo, uma ponta de pedra que despenca vertiginosamente em direção ao rio Alzette, que corre lá embaixo no fundo de uma garganta. Por causa de sua localização privilegiada, naturalmente defendida por um penhasco em três lados, o castelo tornou-se uma fortaleza inexpugnável. A cidade expandiu-se na direção do único lado do castelo que requeria a construção de muralhas para ser protegido. Luxembourg tornou-se uma espécie de oásis da engenharia militar durante a Idade Média, algo como o que hoje representa Barcelona ou Berlim para a arquitetura moderna.


Começando a visita

Como de habitude, fizemos um reconhecimento a pé. A cidade era agradável, mas logo descobrimos que também era cheia de altos e baixos e andar a pé era bem cansativo. O mapa que pegamos no Ofício de Turismo sugeria uma rota de passeio a pé, mas logo descobrimos que caminhos curtos não necessariamente significam caminhos fáceis. Muitas vezes dois pontos separados por uma pequena distância no mapa estavam a metros e metros de altura de diferença.

O nosso passeio começou pelo centro da cidade. Logo no início passamos pela frente do palácio grã-ducal, onde um sentinela fazia uma monótona rotina de trinta passos para um lado, meia-volta e trinta passos para o outro. O nosso passeio nos conduziu por ruas sinuosas no centro da cidade e em seguida ao fundo da garganta onde corre o rio Alzette. Passei a me pergunta se as escarpas de Berne eram realmente tão altas assim, pois olhando a cidade ali de baixo eu me sentia um anão. As pontes de Luxembourg, bem menos numerosas que as da capital suíça, também eram estonteantemente altas e longas.

Paramos para almoçar em um restaurante português. Luxembourg é a maior colônia de imigrantes portugueses na Europa. Aproveitei para falar um pouco a língua pátria, embora eu não entendesse um décimo do que os caras no bar falavam... Aliás, Luxembourg tem essas particularidade: 37% da população é estrangeira. O mais interessante é que apesar disso ela mantém sua identidade nacional e um dos indícios disso é a persistência na utilização da língua deles, mesmo pelos jovens (um jovem nos abordara mais cedo em luxembourgois).


Nem tudo são flores

A relação com a minha companheira de viagem já vinha se deteriorando, como vocês viram no último post. Devo dizer que a coisa piorou substancialmente em Luxembourg. Não foi gradualmente, foi de uma vez. Ela passava uma boa parte do tempo procurando McDonald's para usar a rede wifi de lá para enviar um trabalho que ela deveria entregar na volta às aulas. Eu não me importava, pois até me permitia descansar um pouco do ritmo frenético que ela queria impor ao passeio. Mas essas idas ao McDonalds ficaram cada vez mais frequentes e eu começava a me irritar.

No domingo, último dia da nossa viagem, resolvemos ir pela manhã a um bairro mais afastado onde se localizam alguns prédios que pertencem à União Européia. Havíamos visitado o lugar na noite anterior, mas desejávamos vê-lo à luz do dia. O clima estava feio, mas relativamente estável quando saímos. Chegando lá, porém, a situação piorou, o chuvisco virou chuva e o vento nos arrastava. Eu me colei a uma parede para me proteger, mas a Tonia seguiu. Tentei convencê-la a ficar, mas não teve jeito. Seguimos. Uns 500 m adiante ela reclamou do tempo e eu me surpreendi.

- Se isso te incomoda assim, por que você não ficou no abrigo em que eu achei?
- Que abrigo?
- Aquele em que eu fiquei quando a chuva piorou.
- Você não disse nada.
- Disse, mas você quis continuar.
- Pode até ter sido, mas é que eu não escuto bem quando estou com capuz.

Como se precisasse escutar algo para entender porque eu não queria avançar... Agora estávamos ali, molhados até os ossos e morrendo de frio. A estanqueidade do meu sapato tinha ido pro espaço e tudo o que eu sentia nos pés era uma espécie de mingau feito do que um dia foi o entressola.

Voltamos ao centro da cidade pela tarde e nos abrigamos em museu. Francamente, não aproveitamos nada do acervo e não estávamos nem um pouco no humor de visitar museus. Estávamos lá muito mais para nos abrigar da tempestade do que para ver obras de arte. Encontramos por acaso o Alberto (espanhol) e o Felipe (chileno), dois veteranos nossos que estavam de passagem por Luxembourg aguardando o trem para voltar para casa. Eles vinham da Bélgica e fariam uma correspondência ali. Descobrimos que eles pegariam o mesmo trem que nós.

Nos separamos, pois a Tonia queria ir no McDonald's para ver se os colegas de grupo dela tinham gostado do trabalho que ela enviara. A tempestade havia piorado. O vento havia derrubado galhos, quebrado janelas, disparado alarmes de carros, estava um inferno. Ela inventou de pegar uma rua estreita que nos levaria até a lanchonete, mas eu rapidamente observei três pesados mastros de aço que sustentavam bandeiras de propaganda e no mesmo instante percebi o que ia acontecer. Parei. Enquanto ela avançava um dos mastros caiu com o vento. Eu mandei ela voltar, pois acreditava que os outros dois cairiam também. Ela virou-se pra mim e fez um gesto de "não estou escutando, pois estou de capuz". E, tal qual a cotia que cuida do rabo do macaco, eu fui atingido por um fragmento grande de uma placa do McDonald's que havia se quebrado há pouco. O vento projetou a placa no meu tornzelo, fazendo uma incisão de 1 cm na minha perna. Confesso que naquela hora eu me arependi de não ter deixado aquele mastro esmagar aquela cabeça loira.

Depois de ver os emails dela, voltamos para o albergue e ficamos prontos para partir. Era pouco menos que 15:00 e o nosso trem sairia às 17:30. Eu insisti para sairmos mais mais cedo, pois não sabia se aquela tempestade poderia piorar. Ela arredou pé e quis ficar no albergue fazendo as correções que os colegas dela sugeriram para o trabalho... Não adiantou argumentar. Saímos às 16:50, e apenas depois de eu insisttir muito para sairmos 10 minutos mais cedo do que ela queria. Chegamos na estação às 17:07 e no telão estava marcado que o nosso trem tinha sido cancelado por causa do mau tempo.

Corremos pro balcão, onde fomos atendidos por uma funcionária pantipática e pouquíssimo prestativa. Ela nos sugeriu insanamente de tentar pegar o trem que ia para Paris às 17:10 (já eram 17:08). Óbvio que não conseguimos. Remarcamos para o trem seguinte. O grande problema é que o tempo era bem apertado e mal dava para chegar em Paris, trocar de estação e pegar o nosso trem para Nantes, o último da noite. Se ele atrasasse, já era. Nantes só no dia seguinte. Os nossos veteranos, mais precavidos do que ela, chegaram mais cedo e pegaram o trem das 17:10.

O que não sabíamos é que essa chuva na verdade era a tempestade Xynthia, que arrasara a costa oeste da França horas mais cedos e que agora se deslocava para o leste, onde estávamos. Ela deixou um rastro de caos por onde passou, inclusive no sistema ferroviário. Eu me queixei, disse que era uma pena tudo isso, pois eu precisava estar em Nantes no domingo à noite. Sabe-se lá porque, a louca se sentiu ofendida e perguntou o que eu queria que ela fizesse num tom muito hostil. Quando eu fui tentar explicar que eu não estava reclamando dela, ela repetiu o comportamento infantil que ela já tinha mostrado em Berne: virou a cara e ficou repetindo a mesma coisa em voz alta para não me ouvir.


Nunca é tão ruim que não possa piorar

Breve: o nosso trem atrasou. Vinte minutos e nós não poderíamos atrasar um minuto sequer. Nossa correspondência em Paris parecia perdidas. Embarcamos e explicamos a situação para o fiscal do trem. Aproveitamos também para perguntar se havia algum atraso previsto na saída do trem que iria para Nantes, pois isso nos daria uma margem. Nada, trem na hora. Ele disse que sentia muito, mas que poderia conseguir gratuitamente um hotel para nós em Paris caso tivéssemos que pegar o trem no dia seguinte.

A Tonia disse que tinha uma amiga em Paris que poderia talvez nos hospedar, mas que ela não gostaria de incomodar. Eu falei então que se chegássemos num horário em que ainda houvesse esperanças de pegar o trem, nós partiríamos para a estação e tentaríamos. Caso contrário, pegaríamos o hotel que a empresa nos ofereceu. Cristalino, não é? Pois ela disse que estava "me entendendo com dificuldade", como se o que eu falasse não tivesse sentido nenhum.

Chegamos tarde. Ainda perguntei uma última vez se o trem que partiria para Nantes estava atrasado. Os funcionários responderam que ele sairia na hora, ou seja, dali a 10 minutos. Como precisávamos de 35 minutos para chegar à estação, consideramos o trem perdido e fomos para o hotel, que era em frente a estação onde chegamos.

Ela tomou o banho dela primeiro e em seguida eu tomei o meu. Enquanto eu estava no banheiro ela se comunicou com o Alberto e o Felipe, que ainda estavam esperando o trem para Nantes. Ele já estava 50 minutos atrasado e a cada dez minutos o atraso era atualizado. Se nós tivéssemos ido para a estação, nós o pegaríamos. Entretanto, como me disseram que ele estava no horário, eu não quis jogar fora o hotel. Foi uma decisão conservadora, sem grandes riscos. Quando ela soube disso, empacotou as coisas e saiu correndo feito uma louca. Eu disse que não conseguiríamos chegar a tempo.

E de fato não conseguimos. Após andar uma única estação de metrô, recebemos uma mensagem dos meninos dizendo que o trem tinha partido. Ela falou que estava mega decepcionada e que, se tivéssemos ido para a estação como ela queria teríamos conseguido pegar o trem. Eu pedi desculpas, disse que a culpa de a gente ter perdido esse trem era minha, afinal quem tinha insistido em tomar aquela decisão e não tomar riscos tinha sido eu. E ela falou:

- Sim. É SUA culpa. Se tivéssemos feito o que EU disse. teríamos conseguido.


Meu sangue ferveu. Desde o começo da viagem ela pedia desculpas por coisas bestas, insignificantes, tais como esquecer de pôr duas maçãs na bolsa dela para comermos mais tarde, ou escolher um caminho errado numa rua. Coisas realmente sem importância. Hoje eu acredito, e só agora vejo isso, que ela fazia isso só pelo prazer de ouvir um "O que é isso, Tonia? É claro que isso não é sua culpa". E agora, quando eu peço desculpas ela solta uma resposta desssas. E digo mais, optei por essa decisão porque ela me havia dito que não queria perturbar a amiga dela, o que fazia do hotel uma saída óbvia. Subitamente, todo o peso do nosso fracasso fora transferido para mim. E a briga começou, pois a minha paciência já tinha superado em muito qualquer expectativa.

Para piorar, o quarto do hotel tinha uma cama de casal. Situação desagrabilíssima. Durante a noite eu acordei e ela estava ocupando dois terços da cama. Eu estava de costas para ela e havia acordado com uma pancada nas costas. Achei que pudesse ter sido ocasional, enquanto ela se revirava dormindo. Ela estava então com os dois braços contra as minhas costas. Veio um segundo empurrão que me deixou ainda mais próximo da beira da cama. Aguardei. Veio o terceiro empurrão e eu tive certeza de que ela estava fazendo aquilo de propósito. Plantei os pés no armário na minha frente e estendi as pernas com força, empurrando ela pro outro lado da cama.


Acordamos bem cedo. Fomos para a estação emburrados e logo descobrimos que o nosso trem não estava aparecendo no painel eletrônico. Poucos segundos depois, foi informado pelo sistema de alto-falantes que o trem de 6:10 para Toulouse não estava aparecendo no painel por causa de um problema do painel, mas estava confirmado e aguardava na plataforma. Eu pensei "oras, o nosso trem é às 6:30 e pode estar sofrendo o mesmo problema". Resolvi discutir isso com ela:

- Você ouviu isso?
- Claro que eu ouvi! Eu entendo perfeitamente o francês.


Discussão encerrada. Eu não precisava seguir adiante para saber que aquilo não levaria a lugar nenhum. Virei as costas e fiz o que eu planejava propor a ela: perguntar a alguém da companhia de trem se o nosso trem estava com o mesmo problema do trem de Toulouse. Após 200 m de caminhada cheguei ao balcão e não encontrei ninguém, virei as costas e lá estava a Tonia cospindo fogo. Eu estava com os nossos bilhetes de trem no bolso e ela soltou os cachorros em cima de mim porque eu estava "prestes a deixá-la na estação depois de ter fugido com o bilhete dela". Parece que foi assim que ela interpretou as coisas. Chamou-me de estúpido e de mais um sem número de outros adjetivos nada lisonjeiros.

Finalmente, pegamos o trem. Ele realmente teve o mesmo problema do outro: o trajeto estava confirmado embora não aparecesse no painel. Esse foi o fim da nossa viagem. Nem preciso dizer que voltei atrás nos planos de morar com ela. Eu e o Thiago havíamos combinado de morar com ela e a Noémie, mas depois dessa creio que a convivência seria impossível...


Inverno de 2010: Berne

E o gato apontava para a estação. Deixamo-lo lá em sua vitrine, na sua siesta preguiçosa. Retiramos nossos bilhetes na estação e tomamos café por lá mesmo. Eu observei logo que entrei a movimentação de três policiais que passavam no saguão frequentemente. Quando fomos para a plataforma, lá estavam eles também. Entramos no trem e a viagem começou. Liguei o notebook para adiantar alguns trabalhos da escola e então vi os três entrando no vagão. Eles pediram a todos para mostrar seus passaportes. O policial que verificou o meu, a despeito de validade, visa e título de permanência, parecia meio indeciso e o segurou por um tempo consideravalmente alto sem esboçar nenhum sinal de decisão. Uma policial, a única do grupo, chegou, verificou meu passaporte e me liberou.

Depois disso, nenhum incidente. O nosso trem seguiu pelas paragens bucólicas do leste da França, numa direção mais ou menos alinhada com o norte. Durante quase toda a viagem margeamos um rio, cujo nome ignoro completamante.


Os anjos de Berne

Chegamos então em Berne, capital da Suíça, localizada na parte germanófona do país diferentemente de Genebra. A primeira cena que meus olhos captaram da cidade foi quando atravessamos uma ponte sobre o rio Aar, que corta a cidade mais ou menos na direção norte-sul, salvo no centro, que é circunscrito por uma pequena alça que o curso faz em direção ao leste. Da ponte ferroviária que atravessamos era possível ver outra, uns 300 metros adiante, de pedras brancas e com um grande e longelíneo arco que se estendia de um lado ao outro do vale. Acredito que a flecha de ambas as pontes devam estar a mais de 30 m de altura do nível do rio.

Foto publicitária mostrando o centro da cidade


Uma das pontes. Essa é pequena comparada à primeira que eu vi.

E aqui devo fazer um aparte. Acredito que descobri que eu amo as pontes, assim como eu amo os faróis. Talvez não só pelo feito de engenharia que os dois constituem, mas também por suas funções. A ponte liga, une, integra. O farol guia em direção ao porto e a águas tranquilas. Ambos são sinais de bom agouro. E quando, além de tudo isso, são também bonitos, não vejo motivo para não admirá-los.

Ainda que o meu discurso sobre coisas inanimadas feitas de pedra, cimento e aço possa desagradá-lo, querido leitor, permita-me insistir mais um pouquinho no assunto. Quando fui a Florença passei uma noite no albergue porque estava indisposto para sair com meus colegas. Lembro que na sala comunal havia algumas revistas e quadrinhos e resolvi pegar uma delas para treinar um pouco meu italiano (que a essa altura do campeonato me confere apenas uma boa compreensão de leitura). Escolhi uma chamada Damphyr, que contava a história de um caçador de vampiros balcânico, ele mesmo meio vampiro, entremeando um pouco com a história conturbada e violenta dos Balcãs. O tema dessa edição, por acaso, era pontes e as lendas que existem sobre elas.

Começo aqui meu terceiro parágrafo sobre meus gigantes inanimados de pedra para contar uma das lendas. Em determinado momento, o pai moribundo do protagonista conta como conheceu a esposa: em uma de suas incurssões pelos vilarejos do interior ele fez uma aposta com os nativos, afirmando que saltaria da ponte que havia por lá. O que o motivou foi a presença de uma jovem que estava na platéia. Detalhes. Vamos ao que interessa. Ele diz que enquanto mergulhava viu um anjo que segurava a ponte. No imaginário popular, as pontes de um arco só são obras impossíveis e que se mantêm de pé apenas por intercessão divina. Segundo essa lenda, a tal forcinha viria de um anjo, que seria maior e mais poderoso quanto maior fosse a ponte. Não posso dizer que acredito nisso tudo, mas também não posso negar que é uma lenda muito bonita.

Tudo isso para dizer o seguinte: se a tal lenda é verdadeira, Berne repousa sobre os ombros de uns anjos muito parrudos. E põe parrudo nisso. O Aar cava fundo em relação ao nível da cidade e ao redor do centro não são poucas as pontes que o atravessam. A maior parte delas é feita em um arco só, ou um grande arco central apoiado por dois arcos laterais. Uma arquitetura digna de nota.


A chegada

Descemos na estação, fizemos o controle de passaporte e seguimos em direção ao albergue, não muito longe dali. O albergue era de tamanho razoável, com uma sala comunal aconchegante, uma boa cozinha (e limpa) onde havia inclusive alguns gêneros comuns que todos os hóspedes podiam usar, notadamente macarrão e molho de tomate. E o principal: acesso gratuito de wi-fi na sala comunal. Perfeito. Outra coisa interessante: havia uma pequena estante com livros dos mais variados. Qualquer um deles poderia ser comprado com 3,00 francos suíços ou trocados por outro livro. Terminei comprando um (O nome da rosa - em inglês) para lidar melhor com um problema de convivência com a Tonia que se acentuou em Berne. Durante toda a viagem ela sacava continuamente o notebook dela para fazer alguns trabalhos da escola. Esse ato se repetia sobretudo dentro dos trens. Em Berne, no entanto, graças ao acesso à internet e ao mau tempo, que frustrou nossas expectativas de sair ao menos duas vezes, ela começou a fazer isso mais constantemente. Excetuando uns passeios a pé que fizemos no primeiro dia e a visita a museus, nós não saímos muito. Aquilo me irritava um pouco, pois eu estava bastante motivado para passear e ainda que quisesse sair sozinho, o tempo me impedia. Foi então que eu comprei o livro.

Felizmente, eu não tive muito tempo de lê-lo em Berne. Explico-me: numa ocasião, saindo do meu quarto às 22:30, ouvi um diálogo (quase um "gritálogo") em português no quarto da frente. Bati na porta e a conversação cessou. Quando eles abriram, perguntei se eles eram brasileiros e eles responderam que sim e se disseram aliviados, pois achavam que era alguém batendo para pedir silêncio. Eles, um carioca e um paulista na faixa dos trinta anos, não se conheciam antes e coincidentemente ficaram no mesmo quarto. Nas noites de chuva em que minha colega workaholic ficava lá no seu computador, eu batia papo com os dois.


Uma cidade de fontes

Como talvez você tenha notado, eu estou ignorando um pouco a ordem cronológica neste texto. Achei mais importante dar o panorama geral de como foi a estada, visto que isso foi mais relevante do que os passeios em si. Não que a cidade não valha a pena. É só que o aparte dos parágrafos anteriores vai ser bem útil no fim texto.

Como eu disse antes, fizemos alguns passeios a pé pela cidade. O centro histórico de Berne não é enorme e pode ser tranquilamente atravessado numa caminhada. Alguns detalhes pitorescos saltam aos olhos. O primeiro e mais evidente é a quantidade de fontes que há no centro da cidade. São pequenas construções, raramente excedendo quatro metros de diâmetro, e que estão quase sempre localizadas no centro de uma avenida. Para ser sincero, poucas me agradaram. Cada um das fontes estava indicada no mapa que pegamos no ofício de turismo. O outro detalhe, não tão evidente assim, mas que me atraiu foi a quantidade de lojas e dependências subterrâneas que existe no lugar. Basicamente, na frente de cada prédio existe um alçapão, atrás do qual uma escada conduz ao subsolo. Nesses porões instalam-se lojas, bares, depósitos e não raro, enquanto andávamos pelas calçadas cobertas, alguém saía ou entrava por um daqueles buracos.

O nosso mapa indicava outras coisas bastante interessantes. A que mais me agradou foi a localização de pontos propícios para tirar fotos panorâmicas. O custo para chegar em tais lugares normalmente era uma subida íngreme nas colinas que cercam a cidade, mas as fotos tiradas lá valeram a pena.
Vista em um dos pontos indicados no mapa.

Panorâmica tirada em outro dos pontos sugeridos.

Descendo de uma desssas colinas nós passamos pelo Parque dos Ursos, um viveiro onde moram doze ursos. O animal, que está no brasão da cidade, é também a origem do seu nome. Berna foi fundada em 1191 pelo duque Berthold V de Zähringen que, de acordo com a lenda, teria dado o nome a cidade após ter matado um urso (Bär em alemão). Infelizmente, os ursos estavam hibernando e não era possível vê-los. Maldito inverno...


Einstein e Berne

Albert Einstein, embora alemão de nascença, decidiu renunciar a sua nacionalidade por não concordar com as atitudes belicosas de seu país. Em seu lugar, assumiu a nacionalidade suíça, que manteve até o fim da vida. Einstein graduou-se na Escola Politécnica de Zurich, mas seu primeiro emprego foi no escritório de patentes de Berne. Foi nessa cidade em que ele passou o seu Annus Mirabilis (1905, o Ano Maravilhoso), quando ele postulou a Teoria do Efeito Fotoelétrico. Isso lhe valeria o no prêmio Nobel anos mais tarde.

No centro, o apartamento onde ele morava continua preservado. O mais interessante, contudo, talvez seja o Museu Albert Einstein, que funciona no mesmo prédio que o Museu da cidade. Decidimos visitá-lo, mas ficamos frustrados ao descobrir que a compra do ingresso para a exposição sobre Einstein era casada com a visita de uma exposição permanente do museu. A tal exposição, que se tratava de algumas múmias e uns poucos artefatos egípicios e árabes ocupava três salas e tinha um aspecto abandonado. O irritante foi não ter a opção de comrpar o ingresso apenas para a parte que nos interessava.

Museu da cidade de Berne e de Albert Einstein


O Museu Albert Einstein é relativamente grande e tem uma apresentação visual muito boa. A exposição segue a ordem dos eventos de sua vida, ou deveria seguir... Para nós não ficou claro o caminho que deveríamos seguir dentro do museu, visto a falta de indicações, e muitas vezes lemos os paineis fora da ordem cronológica. Oura coisa desagradável: embora existissem painéis explicativos em inglês, todas as plaquetas explicativas dos objetos em exposição eram em alemão e, portanto, incompreensíveis para nós. No entanto, é necessário destacar o mérito dos vídeos que explicavam conceitos da física para leigos e que eram exibidos em várias partes do museu.


A partida

Deveríamos partir de Berne a Luxembourg em covoiturage, que significa por alto uma carona paga. Existe um site que permite que motoristas em viagem e gente querendo pegar carona se encontrem. O negócio é lucrativo para ambos: o motorista ganha uma companhia para uma viagem longa e alguém com quem dividir o preço da gasolina e o viajante ganha o que ele mais quer, uma viagem barata.

Nossa "carona" deveria sair na sexta pela manhã e ir até Luxembourg. Ao menos era isso o que estava indicado no site. No entanto, ao contatarmos a motorista para a confirmação, ela disse que sairia no domingo. O site mostrava apenas a volta da viagem dela, que era a parte que nos interessava, mas com a data da ida. O chato foi que ela só nos disse isso em cima da hora, mesmo depois de tantos contatos anteriores. E descobrimos mais tarde que as informações estavam erradas no site por responsabilidade dela, pois o site normalmente mostra as informaçoes com precisão e aquela confusão talvez se devesse à falta de familiaridade com o sistema.

Chegamos então num impasse. As passagens de Berne a Luxembourg já eram caras quando procuramos comprá-las com antecedência. Nesse momento, então, elas estavam muito mais caras. Começamos a discutir uma solução e algumas cenas desagradáveis do nosso impasse em Genebra se repetiram. Explico-me. A Tonia pedia minha opinião sobre as mais variadas coisas na viagem, tais quais sugestões de visitas ou percursos a serem seguidos. Normalmente após eu dizer o que pensava ela falava algo do gênero "mas eu acho melhor de tal e tal jeito" e a minha opinião se perdia no vácuo. Tentava não me importar com isso, pois sei que tem gente que age assim naturalmente. Entretanto, quando estávamos com um problema ela também me perguntava o que eu achava que deveríamos fazer. A grande diferença é que nessas vezes não era uma opinião que ela queria, e sim uma solução pronta, precisa e rápida. Eu, que gosto muito de refletir antes de tomar qualquer decisão, tendia a mostrar as opções para ela para discutirmos juntos, mostrando os prós e os contras. Porém, ela interpretava esse comportamento como hesitação e ficava irritada.

Pois bem, as coisas tinham acontecido assim em Genebra e estavam se repetindo agora. Depois de alguns conflitos resolvi tirar o corpo fora e deixar ela fazer o que bem entendesse para depois não ter o direito de reclamar de mim. Terminamos então conseguindo uma covoiturage até Mulhouse (pronuncia-se Muluse) na França, de onde pegaríamos o trem para Luxembourg. Marcamos com o motorista para nos encontrarmos na estação. Dada a extensão da estação, uma construção longa situada numa esquina de uma avenida movimentada, eu resolvi enviar uma mensagem para ele assim que chegássemos lá indicando uma referência mais precisa. Atravessando a rua havia uma igreja e eu mandei uma mensagem mais ou menos assim: "estamos na estação e esperamos você na frente da igreja".

Como ele tardava a chegar, a Tonia resolveu ligar para ele para saber onde ele estava. Após um diálogo rápido, ela resolveu desligar mais ou menos assim:
"Ok, então. Nós saímos da estação e estamos te esperando na frente da catedral"

Eu me apressei para fazer ela corrigir aquela frase antes que ela desligasse. Aquilo não era uma catedral, era uma igreja. A catedral situava-se 1,5 km ao leste. E ele jamais entenderia o "saímos da estação" como um "passamos pela porta de saída e estamos te esperando na calçada em frente". A interpretação mais lógica seria "nós abandonamos a estação e agora estamos na catedral, a quinze quadras de onde estávamos" e perderíamos nossa carona. Eu tentei afoitamente interromper ela antes que ela desligasse, mas ela se sentiu incomodada e fez um gesto como quem espanta um mosquito. Ainda assim ela corrigiu o erro antes de desligar. Mas depois veio a bomba:
"Olha aqui. Eu não tenho nenhuma obrigação de entender de arquitetura de templos católicos. Isso daqui para mim é uma catedral e pronto."
Ok, eu admito que não entendo de arquitetura de templos mulçumanos, budistas ou judeus, por exemplo. O problema não era o que nós entendíamos por uma catedral, e sim o que o motorista entendia. E se isso comprometiria o nosso encontro com o cara, então era importante sim! Porém, quando fui tentar lhe explicar isso, ela fez uma coisa que me deixou extremamente irritado. Tal qual uma criança birrenta que quer porque quer ter a última palavra, ela virou a cara, fixou os olhos num ponto distante e começou a repitir loucamente os últimos argumentos que ela tinha usado para me impedir de ser ouvido. Resumindo: ela não queria admitir que estava errada e ponto. A partir desse instante as pequenas irritações que eu havia tido até então avultaram-se e manter o sangue abaixo da temperatura de ebulição passou a ser um desafio. Desafio que, naquele momento, eu consegui vencer. Mas a viagem continuaria e era impossível prever o que iria acontecer...

Inverno de 2010: Strasbourg

A viagem continua

É 22/02/10. Acordamos num apartamento vazio, pois a Marine havia acordado cedo para ir ao trabalho. Arrumamos a pouca bagagem que estava ainda em desordem e caminhamos algumas centenas de metros até a estação, onde pegamos o trem.

O tal trem fazia uma linha regional, pinga-pinga, parando em praticamente toda cidade no caminho. Embora sua velocidade de cruzeiro fosse bem menor que a de um TGV (Trem de Grande Velocidade), ele se deslocava num ritmo até bom. O problema foi a quebra desse ritmo a cada estação que chegávamos. O resultado: uma viagem de cinco horas. Eu nunca consigo dormir direito em viagens, sejam de trem, avião ou carro. Nesse caso eu dormi uns dois ou três intervalos de 15 minutos, um sono instável e irrequieto, apertado contra a poltrona do trem. Finda a viagem, eu estava um bagaço, completamente enfadado. A Tonya me questionava por que eu estava cansado, já que eu havia dormido. A fadiga era mais psicológica do que física propriamente.

Saímos da estação e procuramos uma mapa na praça em frente para acharmos a localização do hotel. Quando viramos de costas vimos que a estação era uma grande bolha de vidro. Descobrimos mais tarde que o prédio onde a estação funciona tem um valor arquitetônico importante e foi tombado. Por esta razão, decidiu-se protegê-lo com uma canopla de vidro que acabou por esconder a beleza do prédio. No caminho para o hotel passamos em frente a um vitrine de uma loja de telas e molduras e qual não foi a minha surpresa ao ver um gato entre dois quadros. A Tonya disse que era um ornamento, mas eu insisti que ele era real. Ao nos aproximarmos, ele virou a cabeça e nos fitou com uma expressão do mais puro tédio.

O gato da vitrine

Fizemos o check-in num hotel simples. Ainda assim, ele tinha boas vantagens que um albergue não oferece: um quarto para dois e um banheiro privado. Além disso, havia um pequeno nicho com uma pia e um fogão para servir de cozinha e louça limpa num armário. Isso nos seria de grande utilidade durante o tempo em que lá ficaríamos. Devidamente instalados, seguimos para a Place de La Republique, onde encontraríamos a Anaëlle, uma amiga nossa que mora na cidade. Se o nome não lhe soa estranho, possivelmente é porque você já o viu por estas páginas. A Anaëlle participou do Pouce d’Or, sendo ela e o alemão Tobias a dupla com a qual empatamos. Ela nos fez a gentileza de mostrar um pouco a cidade durante a tarde. Infelizmente, ela não poderia nem nos hospedar nem nos ciceronear no dia seguinte, pois partiria para a Bélgica pela manhã. Começamos o passeio acompanhando-a ao centro da cidade.

Nós e nossa guia

Strasbourg é banhada pelo barrento rio Ill ("ih"-"ele"-"ele", caso a fonte não permite o bom entendimento do nome) , que se reparte em dois braços formando uma ilha. É nessa ilha que se encontra o centro histórico da cidade.Capital da Alsácia, região cuja possessão alternou-se várias vezes entre França e Alemanha até a anexação francesa definitiva após a Segunda Guerra Mundial, Strasbourg é um pequeno rincão de cultura germânica na França. Uma enorme parcela das placas da cidade estão escritas em francês e em alemão e a fronteira com a Alemanha não encontra-se mais distante que uma dezena de quilômetros. Suas principais especialidades culinárias são o choucrute, de origem alemã, e a tarte flambée, de origem francesa. Trata-se, portanto, de uma cidade dual, centro de uma região de transição entre dois países de cultura muito rica. E também de espíritos bem distintos: de um lado o calor latino, ainda que não mais que uma brasa apagada perto do calor brasileiro, da França e do outro a rigidez e severidade do povo alemão. Eis a Alsácia.

Como ponto de partida fomos ao ofício de turismo, que se localiza ao lado da catedral, coração da cidade. Se você me permite, caro leitor, gostaria de me deter um pouco descrevendo tal prédio. Ela é um colosso em arquitetura gótica, cuja única torre possui uma flecha de 142 metros de altura. Além dos ricos ornamentos, o seu exterior chama a atenção por sua tonalidade cor-de-tijolo. Comentei isso brevemente, pois aquele templo oscilando entre o vermelho, o rosa e o marrom destoava um pouco das demais catedrais francesas, que têm uma tonalidade mais próxima do branco e do creme. A Anaëlle me explicou então que isso se deve à composição do solo nas proximidades do rio, de onde foi extraído o material para construí-la. A partir de então passei a observar que ela não era o único prédio a apresentar aquela pigmentação. De fato, sendo esse um material de construção civil abundante na região, muitos outros prédios apresentavam a mesma coloração cor de barro.

A Catedral de Notre-Dame de Strasbourg

No interior da catedral, além de tudo o que se encontra normalmente em catedrais do gênero, duas atrações são bastante dignas de nota. Ambas se encontram no braço sul so transepto, que corresponde em quase todas as catedrais ao lado direito do altar, visto que os cânones desse tipo de construção prevêem uma orientação da nave no sentido Oeste-Leste.

A primeira atração é o pilar dos anjos, uma coluna esguia ornada com esculturas de anjos. A sua localização, no centro de uma abóbada, despertou dúvidas a respeito da acuidade dos cálculos feitos pelo arquiteto. Este afirmou, no entanto, que a coluna não tem nenhuma função estrutural, que a abóbada é capaz de sustentar seu próprio peso e que a razão do pilar estar ali era meramente ornamental. Pouco crente nessa declaração, um dos artistas responsáveis pelo interior da fachada esculpiu um pequeno busto numa parede próxima. O personagem, um homem de semblante algo preocupado, algo curioso, fita o pilar com uma mão no queixo como quem espera o momento de sua queda.

O Pilar dos Anjos

O vigia do Pilar


A segunda atração, localizada a poucos metros do pilar, é o relógio astronômico. Verdadeiro prodígio de relojoaria com mais de uma dúzia de metros de altura projetado e construído por Jean-Baptiste Schwilgué, a tal máquina mostra com precisão a posição em relação ao sol dos planetas conhecidos na época de sua construção, o dia do ano, o dia da semana, a estação do ano, a inclinação do eixo da Terra e os horários do nascer e do pôr do sol. Tal qual um grande relógio cuco, pequenos personagens indicam através de seus gestos a passagem de quartos de hora, meias-horas e horas completas. Diariamente, ao meio dia e meia, o relógio realiza um pequeno espetáculo, que eu explicarei mais tarde. Como prova do intelecto genial do seu criador, na passagem do ano 2000 um personagem nunca antes visto apareceu para marcar a passagem de tal data. Diz-se que a obra é tão genial que os soberanos da região decidiram perfurar os olhos de Schwilgué para que ele jamais criasse algo que pudesse realizar com aquilo, uma lenda que existe para outros relógios do gênero. Ainda assim, a estupidez e a crueldade humanas sempre encontram um jeito de dar provas de sua existência. Diz-se também que como vingança ele quebrou um mecanismo de sua obra de modo a impossibilitar algum modo de funcionamento de seus autômatos. Eu chuto que ele tenha quebrado algo que poria em marcha um automatismo ainda mais espetacular do que todos os outros vistos até então.

O relógio astronômico da catedral

Saímos então da catedral, onde vimos um tipo meio esquisito com jeitão de punk perambulava. Era um homem de grande estatura e aspecto truculento com cabeça raspada, piercing no lábio inferior, roupas pretas e botas de couro com um corte antiquado onde colares de guizos tintilavam a cada passo. Nós o víramos antes de entrar e o víamos agora uma vez caminhando ruidosamente na frente da catedral com os guizos em seus pés. Demos pouca atenção ao sujeito e ficamos conversando um pouco mais afastados. Foi então que um alaúde começou a soar melodicamente e uma voz feminina, uma voz poderosa de soprano, começou a cantar uma canção medieval. Nos viramos. O “punk” tocava o alaúde sentando em uma banqueta na frente da catedral. Isso era possível de ver da distância onde estávamos. No entanto, a origem daquela voz nos intrigava. Observando com mais atenção, reparamos que a boca do homem se mexia. Nos entreolhamos com um certo espanto e concordamos unanimemente que aquilo deveria ser uma gravação. Mas não era. Chegamos perto o suficiente para vermos que aquele cara grande e intimidador era a origem daquela voz inacreditável. A música se desenrolava, linda, e com os guizos nos pés ele marcava a cadência. Finda a primeira canção, ele agradeceu com voz masculina, grave e típica do que se pode esperar de um sujeito como ele e deu um sorriso como quem diz “peguei vocês”. Assistimos a mais duas canções e decidi contribuir com 50 cêntimos. O meu preconceito me pregou uma peça e tanto.


O "punk" em frente à catedral. Atenção pro cara no final do vídeo.


Continuamos nossa visita guiada. A Anaëlle nos conduziu ao bairro Petite France, antigo reduto dos artesãos curtidores de couro. Outrora o bairro mais pobre da cidade, marcado pelo ofício sujo e mal-remunerado dos tratadores de peles de animais, o Petite France é o hoje o bairro mais nobre de Strasbourg, onde localizam-se os restaurantes mais caros. Nessa região o rio passa por um desnível em torno de 1,80 m, o que demandou a construção de duas eclusas para permitir a navegação ao redor de toda a ilha. O curso d’água foi dividido em quatro canais paralelos. O primeiro canal, destinado à navegação, abriga uma das eclusas. Os três demais destinavam-se ao aproveitamento do desnível para mover moinhos. É ao redor desses quatro canais que se desenvolveu o bairro, formando uma pequenina Veneza. O lugar é cheio de casas de arquitetura alemã, aquelas com telhados agudos e estrutura de madeira exposta. O que eu não sabia, e que nossa guia explicou, foi a razão desse método de construção. Cada viga de madeira era numerada, assumindo uma posição bem definida na disposição da casa. Em seguida os vãos formados pela estrutura de madeira eram preenchidos com barro para formar as paredes. Isso permitia uma mudança relativamente fácil da casa, caso fosse necessário. Para tanto bastava destruir as paredes e transportar as vigas para a nova localização. Novas paredes seriam feitas com o barro abundante na região.

Petite France

A noite caía e a Anaëlle teve que nos deixar. Agradecemos e continuamos perambulando pela cidade. Jantamos num restaurante, onde pedimos uma tarte flambée. Ficamos surpresos com a quantidade que constituía uma porção individual e terminamos nossa refeição à força, pois não havia mais espaço para nada em nossos estômagos. Finalmente decidimos voltar para o hotel e continuar a visita no dia seguinte. Começamos então na manhã com um passeio de barco pelo rio. A maior parte dos tripulantes era um grupo de turistas italianos. Havia também uma boa quantidade de turistas alemães. A cada vez que passávamos por um prédio de interesse, uma reprodução automática descrevia-o em nossos fones de ouvido. Passamos pelos prédios vistos no dia anterior, ainda no centro histórico. Em seguida, seguimos à montante do rio, para uma parte mais recente da cidade. Lá, na extremidade do nosso percurso, passamos pela Parlamento Europeu, do qual Strasbourg é sede desde 1949. Um prédio moderno em aço e vidro, localizado na beira do rio.

Atracamos e logo em seguida fomos à catedral para a visita ao relógio. Todos os dias, ao meio-dia, um vídeo sobre a história e os detalhes do funcionamento do relógio é exibido e em seguida os visitantes assistem ao seu automatismo mais célebre. Na parte mais baixa do relógio, dois pequenos anjos rechonchudos testemunham a passagem dos minutos. A cada quinze minutos, um deles soa um sino e o outro vira uma ampulheta. São eles que iniciam o automatismo de meio-dia e meia. Mais ao alto a morte nos fita, uma caveira com uma foice numa mão e um fêmur na outra. Finda a participação dos anjinhos, a morte repercute um sino com um fêmur, enquanto uma criança, um jovem, um adulto e um ancião, representando o nascimento e morte de um novo dia, passam em sua frente. Esse automatismo serve para lembrar a efemeridade da vida e a necessidade de fazermos o bem a cada dia. Em um nível superior ao boneco da morte encontra-se uma imagem de Jesus Cristo. É ao redor dele que se desenrola a etapa seguinte do automatismo. Um a um os apóstolos passam na frente do messias. Em atitude reverente, eles se viram na direção do mestre quando estão em sua frente e ele os abençoa com um movimento de sua mão. Um galo, o autômato que se encontra na parte mais alta do relógio, bate as asas três vezes e canta ao fim da passagem do quarto, do oitavo e do décimo segundo apostólo, numa referência clara aos três cantos do galo que marcaram a negação de Pedro. Ao fim da procissão dos apóstolos, Cristo nos fita do alto e nos benze fazendo o sinal da cruz. Formidável.

Fomos jantar em um bar ali próximo e que produzia sua própria cerveja. Pedimos choucrute, mas ainda não recuperados do fasto jantar da noite seguinte optamos por pedir uma única porção. Não nos enganamos, aquilo nos saciou satisfatoriamente. Esses alsacianos comem que não é brincadeira...

Pela tarde fomos ao museu histórico da cidade. A tarifa era bastante baixa e nos dava direito a um áudio-guia para a visita. O interessante é que o aparelho funcionava automaticamente se orientando com a ajuda de sensores de posição a cada vez que passávamos na frente de uma atração específica. E era sempre uma gravação interessante, dinâmica e explicativa. O museu prezava pela interatividade também. Numa seção que falava sobre o reputação das fundições e dos ferreiros de Strasbourg, quatro elmos estavam à disposição dos visitantes para que eles experimentassem e conhecessem a sensação de usar aquela peça de armadura. Numa outra seção sobre as porcelanas da região, peças reais colocadas em caixas de acrílico com um buraco no centro convidavam os visitantes a tocá-las para sentir as texturas dos diferentes tipos de cerâmicas. Além disso, uma boa parte do museu se concentrava sobre a invenção da imprensa, que ocorreu em Strasbourg na época em que Guttenberg lá viveu.

Eu experimentando a réplica de um elmo antigo

Saímos do museu já com a noite caindo. Pausa rápida para voltar ao hotel, tomar banho e comer. Saímos então para uma seção de fotos noturnas, com abertura prolongada do obturador. A cidade estava muito pacata, assim como na noite anterior, denunciando uma vida noturna pouquíssimo movimentada. Retornamos então aohotel para nos preparar para a viagem do dia seguinte.

Acordamos, fizemos o check-out e seguimos para estação. Quando passamos pela loja de telas, lá estava o gato de novo entre os quadros. A única diferença é que agora ele estava virado para o outro lado, o lado para o qual seguíamos, como que indicando a boa direção. A cidade, tal como o gato, não mexeu muito enquanto estávamos lá. Ainda assim, a cidade, tal como o gato, me agradou bastante.