Pouce d'Or Parte 2

4) Um enorme coincidência
Última estação de serviço antes Metz. Frio. Chuva. Primeiros sinais de cansaço. Alguns fracassos retumbantes em conseguir carona. Quarenta minutos depois de chegarmos, a surpresa: de um carro recém-chegado descem dois centraliens que também faziam o Pouce d'Or. Eram o Tobias e a Anaëlle, ambos do primeiro ano. Um detalhe muito importante: o Tobias é alemão, estudava em Munique antes de vir para França e era para lá que ele ia na competição.


Fizemos um acordo de que a prioridade das caronas era minha e do Loïc, pois havíamos chegado primeiro. E vieram mais 80 minutos de fracassos retumbantes até que abordamos um cara num grande furgão da Ford com placa alemã. Ele era alemão e falava quase nada de francês, então desistimos e deixamos a vez para o Tobias negociar. E ele conseguiu a carona diretamente para Munique, passando por Strasbourg. O único problema é que só havia lugar para três.

Conversa vai, conversa vem, o alemão decidiu levar os quatro: o Tobias na frente, eu e a Anaëlle sentados atrás e o Loïc jogado no meio das bagagens do homem. Seguimos viagem com ele e não tenho muita coisa para falar a seu respeito, pois eu não entendia nada do que ele falava. E, a propósito, ele falava muito, fosse com o Tobias ou ao celular. A viagem foi cheia de momentos assustadores, pois ele tinha o hábito de gesticular enquanto falava com o Tobias e para isso ele usava as duas mãos. O cúmulo foi quando ele ligou o notebook, colocou-o sobre o painel do carro e acessou a internet. Em todos esses casos a velocidade média era de 115 km/h. Taí a figura:

Enquanto estávamos no carro recebemos uma mensagem da organização dizendo que uma das duplas participantes tinha pego carona com um açougueiro e que após contar a história da competição, o cara decidiu doar como prêmio ao vencedor um presunto de 7 kg.

5) Ponto de retorno: Munique
Chegamos a Munique por volta de 00:45. E então descobri que se Metz estava fria, Munique estava um gelo. A nossa primeira constatação foi que quase todos os bares e boates estavam fechados. Encontramos com os amigos do Tobias num ponto central da cidade e rumamos para a estação de metrô enquanto batíamos algumas fotos. A comunicação foi muito tranquila, pois um deles falava francês muito bem e o outro falava inglês.

Chegamos finalmente na casa deles por volta de 02:00. Além dos dois amigos do Tobias, no seu antigo apartamento agora mora também uma estudante polonesa do programa Erasmus Mundus. Ela não ficou nem um pouco feliz por ter sido surpreendida no meio da noite com a chegada de tanta gente. Sobretudo porque ela usava seus trajes de dormir com os dizeres "I love boys" na frente. Largamos nossas bagagens e fizemos uma pequena pausa para comer, escovar os dentes e tomar uma bela cerveja branca da Bavaria!


6) Quem não se comunica se trumpica.
Havíamos decidido parar em Munique e retornar pela manhã. Embora fosse cedo e pudéssemos avançar ainda mais, achamos prudente reservar mais tempo para a volta do que para a ida, uma vez que não existe lugar para a flexibilidade na volta. É preciso voltar para Nantes e aceitar carona para outro lugar que não esteja na rota não é nada bom. Acordamos às 6:00 moídos de cansaço. Como eu já havia constatado diversas vezes antes, eu fico mais burro quando estou com sono. Eu deixei minhas luvas sobre a cômoda e na hora da saída o Loïc me perguntou se aquelas luvas não eram minhas. Eu respondi categoricamente que não, pois na minha cabeça eu só pensava "eu não tenho luvas, pois o Ceará é quente pra caramba". Minha sanidade só voltou quando estávamos longe, na estação do metrô e quando minhas mão já começavam a apresentar alguns sinais de queimadura por frio.

Pela manhã recebemos uma mensagem da organização, contando que havia uma equipe que chegara à Polônia, a 1678 km de Nantes. Inacreditável. Se eles voltassem a tempo teriam a vitória e o recorde da competição, com mais de 200 km de vantagem em relação ao recorde anterior.

Atravessamos mais uma vez a cidade de metrô e nos posicionamos num semáforo perto de uma das saídas da cidade por volta das 07:15. Na mão, dois cartazes: Ulm, uma cidade próxima, e Frankreich, França em alemão. Fizemos um acordo de cada dupla deveria conseguir sua própria carona, uma vez que a carona a quatro é muito mais difícil. Mantivemos distância para que cada dupla tivesse espaço. Em torno de 08:00 um carro parou quando acenamos. Era um cara entrocado, de aspecto um pouco rude e com um palito de dente na boca. Havia um obstáculo imenso: ele só falava alemão. Através de gestos e uma boa dose de boa vontade eu perguntei se não era possível levar a outra dupla e ele disse que só podia levar dois. Isso me fez desconfiar ainda mais, pensei mil besteiras, pensei como era mais fácil roubar ou matar dois do que quatro. Mais tarde refleti e pensei no lado dele: "é mais fácil ser roubado ou morto por quatro do que por dois".

O problema é que essa reflexão foi bem tardia, já no fim da viagem, e enquanto fizemos o trajeto a cada vez que ele procurava algo na bolsa ou debaixo do banco eu tinha a impressão de que no momento seguinte eu teria uma pistola apontada para a minha cara. Ele havia nos mandado tirar os coletes fluorescentes e quando eu perguntei a razão ele respondeu que tinha algo a ver com a polícia. Saquei um grande pedaço de papelão e desenhei o símbolo de paz e amor para mostrar que éramos pacíficos. Eu só não sabia que aqui na Europa esse símbolo é quase sinônimo de maconheiro. Ele nos perguntou se trazíamos drogas e passamos por alguns momentos tensos até que tudo se apaziguasse.

O expediente do papelão mostrou-se uma forma eficiente de comunicação. "Conversamos" com ele desse modo durante todo o trajeto. Tentávamos explicar que queríamos descer na última estação de serviço antes de Ulm, que não queríamos entrar na cidade. Mas ele não entendia nem "estação de serviço" nem "última". Usei toda minha veia artística para me fazer entender. Os desenhos eram bastante toscos, mas eram o suficiente para mostrar o que queríamos, o que estávamos fazendo e até para conversar amenidades. Complicado foi explicar o que diabo estávamos fazendo na Alemanha e por que tínhamos pressa para chegar. O fluxo de palavras, desenhos e idéias que eu usei para explicar foi o seguinte: "Schummacher, Rosberg, Heidfeld", "Fórmula 1", "corrida", "carona" e "corrida de caronas".


Chegamos no último posto antes de Ulm, tiramos a tradicional foto e entramos na loja de conveniência. Descobri por fim que nosso motorista era um cara legal: ele pagou um café pra gente e continou conversando. Enquanto estávamos na mesa um carro chega e duas pessoas com imensas mochilas descem. Tobias e Anaëlle. De novo. Inacreditável como nos encontrávamos ao acaso pela segunda vez. O Tobias conversou com nosso motorista e esclareceu qualquer mal-entendido que possa ter acontecido.


7) Um pequeno momento de disgressão
Se você não parou de ler até agora, você deve estar cansado. Levante, ande um pouco. Suas pernas vão agradecer e você pode até mesmo evitar uma trombose. Se o seu problema é tédio, por que não jogar sudoku ou palavras cruzadas?

Agora que você está disposto de novo, voltemos à aventura!


8) Um motorista interessante
Percebemos de imediato que as estações de serviço na Alemanha são dispostas de maneira diferente. Na entrada fica o posto de combustível e a loja de conveniência. Na saída fica o restaurante/lanchonete. Essa configuração torna o lugar bastante longo, diferente das estações de serviço francesas, que aglutinam tudo numa coisa só. Renovamos o acordo de independência das duplas. Deixamos os nosso camaradas no posto de gasolina e rumamos para o bistrô. O lugar era muito simpático, ficava na beira de um lago e passava uma impressão bucólica. Nas margens do lago, próximo de algumas mesas e bancos rústicos, um senhor fumava e tomava vagarosamente seu café. Decidimos abordá-lo, mas apenas depois que ele terminasse seu momento de relaxamento.

Esperamos uma dezena de minutos e vez por outra o observávamos para saber se ele já tinha acabado. Quando ele finalmente sorveu o último gole, jogou a bituca fora e abriu a porta do carro eu o abordei em inglês:

- Bom dia, senhor. Com licença...
- Vocês podem vir comigo.

E ele falou essa última frase já afastando as coisas no banco de trás para liberar espaço para nós. Aproveitei-me da boa vontade do homem e perguntei se ele podia levar uma outra dupla. Ele consentiu desde que não nos importássemos com o aperto. Chamamos os nossos colegas e entramos no carro.

Algumas informações: ele era grego, mas morava havia vinte anos na Alemanha, onde trabalhava como fisioterapeuta e osteopata. Tinha um semblante tranquilo e um certo ar de quem já fora hippie na juventude. Acredito que ele se identificou conosco, pois ele contou algumas de suas anedotas de quando viajou através de caronas. A mais interessante foi uma ocasião em que ele ficou preso um dia e meio numa estação de serviço sem conseguir caronas, quando finalmente a polícia foi lá e, pasme, lhe ofereceu a carona.


O carro dele era cheio de cacarecos: estatuetas, amuletos, bandeiras e até uma vaquinha de pelúcia pendurada no teto. Simpatizei logo com o cara. Em um determinado momento eu vi uma placa na estrada com os dizeres "Legoland #### ### ###". O resto era alemão e eu não entendi. Perguntei para o Tobias se havia uma Legolândia na Alemanha e quem respondeu foi o nosso motorista, adicionando à sua resposta uma detalhada explicação do que era a Legolândia. Eu retruquei:

- Ah, eu sei o que é a Legolandia. Desde pequeno eu quero visitar. Se hoje eu estudo engenharia é porque eu brinquei muito com Lego na minha infância.
- Pois eu trabalhei numa fábrica da Lego quando tinha dezenove anos. Fabricava as pecinhas. Era um trabalho de verão. Em que ano você nasceu?
- Em 1987.
- Pode ser que algumas das suas peças de lego tenham sido fabricados por mim.

Chegamos finalmente na última estação de serviço antes da cidade onde ele ficaria, e de cujo nome agora não me lembro. Tiramos a foto ao lado do seu carro azul e de forma que o adesivo "Smile" aparecesse. No meu colete ele escreveu em grego:

Boa Sorte

Stathis


Gostou do que leu? Conseguiu ler as duas primeiras partes de uma vez só? Que tal ler a terceira também? Nela você verá:
  • Um gostinho de derrota
  • Acima de tudo e mais uma vez a comunicação
  • Algumas impressões sobre as auto-estradas alemãs
  • Um novo gosto de derrota e um grupo inusitado
  • "Nunca cante vitória antes do tempo"
  • Desmanche de carros e 150 km/h na periferia de Paris
Mas não vá cansar sua vista. Levante, beba água. Ficar sentado tanto tempo não faz bem para a sua saúde. Mas não deixe de ver a outra metade da aventura!


Pouce d'Or Parte 1

Essa postagem é tão grande, mas tão grande, que merece um índice. Ok, exagerei. Mas aqui vão algumas expressões chave para dar uma idéia do que vem por aí.

* Uma tradição aventureira anual em sua sétima edição.
* Quase cinquenta duplas de aventureiros/malucos/perdedores
* Um saco de jujubas e um radical alimentar
* Uma banda de eletrofunk e o porte de substâncias psicotrópicas


Esse é o post mais longo da história do meu blog. Eu o havia publicado em uma lapada só. Resultado: ninguém leu. Uma pena, pois ele é muito interessante. Foi por isso que eu o fracionei em quatro. Espero que isso ajude!


1) Introdução

Pouce d'Or
significa literalmente polegar de ouro e é uma referência ao clássico gesto que as pessoas fazem para pegar carona. Trata-se de uma tradição da escola, uma competição que acontece anualmente desde 2003. O objetivo é viajar em dupla o mais longe possível em um fim de semana apenas através de caronas. Duplas de garotas são proibidas, pois fica muito mais fácil conseguir caronas e, além disso, pode ser perigoso. A pontuação é o número de quilômetros rodados tomando como referência o caminho mais curto possível, mais bônus, menos penalidades. Os bônus podem ser obtidos através de várias formas e eu me furto a escrever apenas as que eu me lembro e que são as mais engraçadas: ficar com o(a) motorista, pegar carona com um cego, pegar carona em um carro de luxo/esporte, pegar carona com um travesti. A penalidade é a perda de 100 km de percurso a cada hora de atraso, a contar das 08:00 da segunda feira, horário de início das aulas. A dupla é desclassificada se utilizar-se de transportes pagos (trem, avião, ônibus) para se deslocar entre as cidades ou caso se separe. O uso de coletes fluorescentes é obrigatório para as duplas que estiverem na estrada à noite e a permanência nas proximidades da barreira de segurança é fortemente desestimulada. Um estudo comprovou que a expectativa de vida de alguém que tenta pegar carona atrás da barreira é de vinte minutos. Para aqueles que tentarem pegar carona do outro lado da barreirra, má notícia: sete minutos de expectativa de vida.

A competição de 2009 bateu alguns recordes: foram 47 duplas inscritas, contra 30 no ano passado. Não consigo imaginar um bom motivo para tanta gente. Talvez tenha sido a vontade de bater o recorde estabelecido no ano passado pela dupla da namorada do meu padrinho: Lenz na Áustria. Eles tiveram a sorte de encontrar um carro com romenos voltando para casa. Eles atravessaram quase toda a Europa Ocidental em apenas um carro e a uma velocidade média de 150 km/h em cada percurso. Conseguiram voltar na noite de domingo e gozaram de uma boa noite de sono.

Eu resolvi participar do evento assim que soube de sua existência e de suas particularidades, na primeira semana de aula. Escolhi minha dupla já naquela época. Ele se chama Loïc, é francês, mora com um brasileiro e um outro francês e certamente tem um parafuso a menos. Acho que foi por este motivo que eu o convidei para ser minha dupla. Compramos o material para a viagem: uma lanterna, um mapa, coletes fluorescentes, frutas secas, compota, biscoitos, isotônicos, energéticos e bombons para oferecer para os motoristas. Nosso objetivo inicial era cruzar a fronteira da Polônia e voltar.


2) A Largada

A largada foi dada às 09:00 do sábado. O nosso plano era tentar pegar uma carona na periferia de Nantes com destino a Paris. Infelizmente muitas outras duplas tiveram a idéia de pegar carona no mesmo lugar e formamos uma longa fila de malucos com coletes fluorescentes ao longo da rua. Nós mostrávamos um cartaz com os dizeres "Paris" de um lado e "Angers/Le Mans" no outro. Além disso, exibíamos um saco de uma espécie de jujuba para oferecer aos motoristas.

De maneira geral, as duplas mistas conseguiam carona primeiro. Nós começamos a ficar cansados e o saco de jujuba rapidamente ficou pela metade. Apesar disso, ainda conseguíamos interagir com os motoristas e a maioria deles, ainda que não nos dessem carona, se divertiam com a cena, sorriam e acenavam. Próximo das 10:30 um carro finalmente parou para nós. Era um senhor por volta dos cinquenta anos que ia para Paris. Assim que entramos oferecemos as jujubas e recebemos um gélido "Eu não como isso. Tem açúcar demais".

Conversamos, explicamos o motivo de estarmos ali e a louca jornada que fazíamos. Ele perguntava muitas coisas sobre o Brasil e a conversa desenrolava-se de uma maneira bastante previsível, eu diria. Ele nos contou que era técnico em eletrônica e que trabalhava em uma fábrica de equipamentos de radioterapia. Quando o assunto câncer foi citado a conversa saiu completamente das veredas da previsibilidade.

Ele nos perguntou "Vocês conhecem o cloreto de magnésio?". Bem, de certa forma nós conhecíamos, sabíamos que era um sal, conhecíamos os elementos químicos componentes, mas não tínhamos muitas noções do seu uso. Ele nos disse que o magnésio é fundamental para a manutenção celular e que uma dieta fraca em cloreto de magnésio pode ser uma das causas para o câncer.

Até aí tudo bem, mas o que veio em seguida já começou a ficar mais interessante. Ele nos disse também que alguém que tenha uma dieta rica em cloreto de magnésio é menos propenso a sofrer os efeitos de uma gripe e que a gripe A, a gripe suína e a gripe aviária são produtos da dieta deficiente da maioria da população. Segundo ele, o cloreto de magnésio cura a poliomielite, a meningite, previne cãimbras e, como não poderia deixar de ser, combate a impotência sexual.

Durante as quase quatro horas em que estivemos com ele ouvimos um discurso proselitista sobre o cloreto de magnésio. Ele diz que os seus benefícios são pouco conhecidos por causa do lobby da indústria farmacêutica, que faliria caso as pessoas os conhecessem. Ele também falou de algumas de suas práticas alimentares, como jejuns de uma semana e abstinência de leites e derivados, bem como outras práticas menos comuns como medir regularmente o ph da urina para saber o estado do organismo. Ele afirmava que era preciso encontrar um equilíbrio, que se alimentar bem não bastava, era preciso ser feliz. E se o fato de restringir a dieta fosse uma fonte de estresse, então era preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre a boa alimentação e o prazer de viver. No fim das contas ele nos deu um envelope do bendito sal para experimentar.

Já próximo da periferia de Paris ele nos mostrou uma outra faceta radical, desta vez política. Ele acreditava que a descolonização francesa havia sido um erro e que a Argélia deveria continuar como colônia francesa. Seus argumentos eram calcados unicamente numa visão utilitarista metropolitana e os interesses das colônias não pareciam ter nenhuma importância.

Nós havíamos pedido para que eles nos deixasse numa estação de serviço antes de entrarmos em Paris, se possível no anel viário intermediário. Isso se deve ao fato de ser muito mais difícil pegar caronas dentro das cidades. O homem fez a gentileza de nos deixar no lado oeste da cidade, quando seu destino era o leste, e tornou muito mais fácil pegarmos uma carona conveniente, pois achar alguém nas proximidades de Paris que siga direto é muito difícil, a maioria dos motoristas entram na cidade. Segue uma foto com o cara e o envelope de cloreto de magnésio. Eu me toquei na hora em que a câmera disparou que o meu cartaz estava de cabeça pra baixo. A propósito: está escrito "loin", que significa longe.



3) O trecho Paris-Metz
Como eu disse antes, nosso destino inicialmente era a Polônia. O melhor caminho era, portanto, seguir de Paris rumo a fronteira nordeste, com a Bélgica, e então Alemanha e Polônia. No entanto, dez minutos depois de chegarmos na estação de serviço encontramos uma van e um grupo de quatro jovens. Nós os abordamos e perguntamos para onde iam. Eles responderam que iam para Metz, uma cidade a leste de Paris e quase na fronteira com a Alemanha. Como quem é flexível não quebra, resolvemos mudar de planos e aceitar uma carona. Novo objetivo: Praga, capital da República Tcheca.

Antes mesmo de embarcar descobrimos que eles eram uma banda de eletrofunk e música experimental chamada Gable e que estava em tournée pela França. A banda era composta por três músicos e um engenheiro de som e ouvimos um pouco da música deles enquanto estavámos no carro. Era algo meio vanguardista, meio experimental e muito legal.

Um incoveniente é que um dos integrantes resolveu fumar dentro do carro e com as janelas fechadas, o que foi bastante desagradável. Nós conversamos razoavelmente com eles, mas também passamos um bom tempo conversando entre nós, enquanto eles discutiam entre eles. Na saída de um pedágio em Reims fomo parados pela polícia. Segue o diálogo:

- Bom dia. Para onde vocês vão?
- Bom dia. Para Metz.
- E o que vocês vão fazer lá.
- Somos uma banda, vamos fazer um show.
- E vocês têm algum material ilegal com vocês.
- Não, mas temos dois caroneiros ali atrás.
(Uma pausa para o guarda nos observar)
- Ok. Vocês podem seguir.

Achei na hora que o fato de nos "dedurar" foi meio que para dizer "nós não temos nada de ilegal, mas eu não sei quanto a eles". Ledo engano, quinze minutos mais tarde a única mulher do grupo acendeu o cachimbo da paz.

Chegamos em Metz às 17:00 sem maiores problemas. Pedi um autógrafo da banda no meu colete e brinquei dizendo que isso ia valer muito quando eles fossem famosos. Eles nos deram seus emais e pediram notícias da nossa aventura. "Boa viagem." "Bom show". "Boa estrada". Esperávamos que tudo corresse bem e acredito que estávamos certos. Aqui vai uma foto com deles:




E aí, começamos bem? O texto tá interessante? Pois ainda não acabou. Você acabou de ler a narrativa do primeiro quarto da viagem. Que tal dar uma espiada no que rola na sequência?
  • Uma enorme coincidência
  • Duas duplas, um furgão e um alemão que dirige sem as mãos na direção
  • Três horas no nosso destino final
  • Comunicação via desenhos rupestres
  • A mesma enorme coincidência. De novo
  • Um grego, a Legolândia e uma pequena pitada de nostalgia

Interessado? Por que não continuar lendo?

Apartamentos pequenos

Hoje vou fazer um pequeno jabá, mas muito merecido. O Augusto Campos, autor do blog www.efetividade.net, recentemente publicou um texto sobre algumas dicas de organização para apartamentos pequenos. O texto é muito bom, o que é o padrão geral do seu blog, e é útil sobretudo para o segundo ano em Nantes, no qual temos que alugar apartamentos muitas vezes não mobilhados.

Recomendo bastante esse site, não só para o assunto em questão. Ele foi uma das minhas fontes de referência para o processo de seleção para o Programa Duplo Diploma e continua sendo uma referência para organização pessoal.

Irmãos Landreau

Fatos:

1) Nantes é a capital não oficial da Bretanha.
2) A Bretanha é uma região francesa cujo povo tem origens celtas.
3) É a bilhonésima vez que eu falo isso.

Postas assertivas anteriores, não chega a ser surpreendente que Nantes tenha servido como palco para o festival Celtomania, que aconteceu durante as férias de Toussaints há longíquas duas semanas atrás quando o autor deste blog era mais assíduo. O festival consistia em diversas manifestações culturais da cultura bretã, o que incluía cluinária, dança e música.

Após voltar de Florença recebi um email com a feliz notícia de que o meu camarada e ex-companheiro de banda (Os Musgos) Décio viria me visitar nos três últimos dias das férias. Infelizmente estava lotado de trabalhos e não fui um bom cicerone, mas o convidei para assistir uma apresentação musical do festival que havia sido noticiada no jornal.

O que mais me chamou atenção na verdade foi o intrumento utilizado , posto que eu não conhecia os músicos: um Chapman Stick. Eu já o conhecia há algum tempo, mas nunca havia tido a oportunidade de ver uma apresentação ao vivo. O instrumento é, de maneira bastante simplificada, uma mescla de baixo e guitarra tocado de maneira semelhante a um teclado ou piano. As cordas são percurtidas pelos dedos sobre o braço do instrumento e uma mão é utilizada para fazer a melodia e a outra para fazer o acompanhamento. Não vou entrar em tecnicimos, pois eu posso passar muito, muito tempo falando disso e vou ser efadonho.

Ok, mas o instrumento não toca sozinho, correto? De fato, não toca. E o homem por trás da máquina era Youenn Landreau. Músico reputado como um dos mestres europeus do instrumento e respeitado no cenário do jazz.


Youenn estava acompanhado de seu irmão Fanch, que toca violino. Embora toque muito bem as músicas tradicionais próprias do seu instrumento, ele é conhecido pelas músicas de origem celta e por tocar o fiddle irlandês, que é um outro tipo de instrumento.


A apresentação ocorreu numa das mediatecas de Nantes, bem próximo aqui de casa. O lugar era um auditório pequeno e eu descobri no momento em que cheguei que o show serviria como abertura de uma exposição sobre o Chapman Stick, pois as paredes estavam cheias de cartazes e havia dois instrumentos expostos.

Não havia mais cadeiras, então terminamos sentando no chão. Um preço nada caro para assistir à apresentação que se seguiu. Os irmãos Landreu tocaram predominantemente um repertório calcado na música celta, mas houve espaço para o jazz e outros gêneros. Em um intervalo da apresentação, Youenn discorreu sobre o instrumento, sua história, sua construção, suas técnicas e os músicos que o dominam. Ele resolveu fazer variações sobre uma música para demonstrar as diferentes técnicas que podem ser utilizadas no instrumento. A música: Wave de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Fantástico.

Ao fim da apresentação, uma pequena refeição com doces bretões, sucos industrializados e Breizh Cola, a versão bretã da Coca-Cola. Uma pequena observação: Breizh é Bretanha em... bretão, claro! Durante esse tempo Youenn conversava com os presentes e foi muito antencioso com todos. Aproveitamos para falar sobre a bossa que ele tocou e nos identificamos como brasileiros . Depois disso ele disse que admira muito a música brasileira (convenhamos: é impossível não admirar a BOA música brasileira) e que ultimamente tem tocado muitas músicas do Djavan. Excelente saber que nossos músicos gozam de boa reputação no exterior.

Florença: agora sim a viagem.

A partida

Partimos na tarde da sexta-feira, após uma manhã de aula que se seguiu à soirée da semana cultural. A viagem foi feita de ônibus e durou vinte horas. Infelizmente, como eu tenho observado ser a regra nas viagens organizadas pela escola, os organizadores têm grande interesse em não nos deixar dormir. Sempre havia algum membro da organização com o microfone na mão desenvolvendo um tema de pourrissage (encheção de saco). Eu não costumo dormir em ônibus e aviões, simplesmente não consigo. Mas a fadiga era extrema e eu consegui dormir durante umas cinco horas da viagem.

O grupo era um pouco heterogêneo. Uma boa quantidade de EI1, sendo eu, um japonês e um marroquino os únicos estrangeiros. O grupo de EI2 era formado basicamente pelos membros do BDE que organizavam a viagem, dos quais um terço eram estrangeiros. Havia outros EI2 que não eram da organização e levaram suas namoradas, que não estudam na escola. Havia também um casal de tunisianos da École du Bois (Escola da Madeira) que souberam da viagem através de um contato na Centrale. O tunisiano tocava violino e em uma das paradas ele nos agraciou com uma sessão rápida composta basicamente de músicas árabes, que têm uma estrutura e uma sonoridade típicas e completamente diferentes da música ocidental. E mais: a maior parte dos instrumentos ocidentais são incapazes de alcançar as notas usadas na música árabe.

Chegamos em Florença (Firenze para os italianos) na manhã de sábado e nos instalamos em um albergue, que eu descobri depois funcionar num prédio que servia como convento. As paredes grossas desse tipo de construção ajudaram no conforto térmico, mas de certa forma nem foram tão úteis, pois o clima estava quente e parecia que o outono tinha esquecido de começar na cidade.

A tarde de sábado

A tarde foi consagrada basicamente a bater perna e conhecer a cidade. Começamos com um passeio na borda do Rio Arno e pela Ponte Vecchio. Passamos brevemente pela Galeria degli Uffizi antes de chegar na Piazza de la Signoria, onde se localiza o Palazzo Vecchio. Na praça entramos num café e tivemos oportunidade de saber o que é um verdadeiro café espresso italiano. Seguimos pelas ruas estreitas e movimentadas da cidade, sempre atulhadas de pedestres, pedintes e vez por outra um carro que forçava passagem entre o mar de gente que ali estava. Muito mais comuns do que os carros são as lambretas, inclusive algumas das clássicas Vespas, e que podem ser vistas em toda a cidade. Passamos por algumas igrejas e chegamos finalmente à Catedral Santa Maria del Fiore, muito mais conhecida como il Duomo. Por fim, voltamos ao albergue passando pelo Palazzo Pitti.


Passamos por esses pontos turísticos várias vezes e agora me furto a falar um pouco mais detalhadamente sobre cada um deles.

A Ponte Vecchio é uma das várias pontes que cruzam o rio, no entanto ela é facilmente distinguível das outras por causa quantidade de lojas que parecem se equilibrar debilmente sobre sua estrutura. Datada da época da Roma antiga, a ponte abriga sobre seu arco central uma estátua. Existe uma tradição que diz que ao colocar um cadeado nas grades ao redor da estátua eterniza-se o elo entre dois amantes. Embora a prática seja proibida e punida com uma multa de 50€ paras os que forem pegos em flagrante, cadeados não faltam no gradeamento.

A Galeria degli Uffizi é um grande prédio em formato de U incialmente projetado para abrigar a sede do poder judiciário da cidade. Ao longo do tempo e sob a égide da família Médici, o palácio passou a abrigar obras de arte, o que deu início à sua vocação atual: museu de obras clássicas renascentistas. Séculos após a sua construção foram adicionadas às colunatas do átrio estátuas de artistas italianos célebres. Visitamos o museu da galeria na tarde de domingo.

O Palazzo Vecchio foi construído incialmente para ser a sede do governo e residência dos governantes. Ao longo dos anos o palácio sofreu sucessivas reformas que descaracterizaram vagamente seu aspecto original, sobretudo a parte posterior. Embora hoje a maior parte do seu espaço abrigue um museu, algumas instâncias governamentais ainda funcionam lá dentro. Na sua frente foi colocada a célebre estátua de Davi esculpida por Michelangelo e que foi substituída por uma cópia dado o seu valor histórico. Visitamos o museu do palácio durante a tarde de sábado.

A Catedral é sem dúvida a atração que mais me aturdiu. É incrível a sensação de ver com os próprios olhos algo que até então só parecia existir nos livros de história. Além disso, as dimensões da catedral são assustadoras e o preciosismos das fachadas; esculpidas em mármore branco, vermelho e verde; são impressionantes. Tanto trabalho demorou seis séculos para ser completamente concluído. Entramos na nave principal apenas na segunda-feira e as naves laterais, juntamente com o altar, estavam interditadas para o público.

O Palazzo Pitti foi comprado pela família Médici para servir de residência aos Duques de Florência. Um dos motivos era que o Palazzo Vecchio não tem jardins e isso incomodava a duquesa. Hoje, além dos estonteantes jardins, o plácio abriga diversos museus. Tivemos a oportunidade de visitar no domingo o Museu da Prata e a Galeria do Traje.

Algumas coisas eu pude observar logo nesse começo da viagem e em geral não foram coisas boas. O Rio Arno é sujo e as margens são bem feias para um rio que tem um valor estético e histórico tão grande. O trânsito em Florença é louco. Os motoristas não respeitam faixa de pedestre e os pedestres invadem a rua. Me senti um pouco no Brasil. A cidade é suja. Não sei se isso se deve aos moradores ou aos turistas, mas não falta lixo no chão nem pichações pela cidade.

Por outro lado, observei uma coisa muito interessante. A cidade é uma Babel e é possível escutar quase todas as grandes línguas européias antes de se andar vinte metros. Eu entendia quase tudo que era dito em inglês, português, espanhol, francês e italiano. E apesar de tudo isso, eu descobri que, assim como aconteceu em relação ao inglês, eu sou agora incapaz de falar italiano. O francês sobrepujou as outras duas línguas na área do meu cérebro dedicada a línguas etrangeiras.



A noite de sábado

Terminamos nosso bate-perna mortos de fome e resolvemos comer uma verdadeira pizza italiana no jantar. Primeira constatação: não existe lugar onde se possa comer bem e barato por lá. Segunda constatação: os italianos são muito mais sacanas que os brasileiros. Dou um conselho para aqueles que espumam de raiva com os 10% de serviço que são cobrados no Brasil: não visitem Florença, ou levem suas marmitas. Além da taxa de serviço, que pode ser fixa ou variar entre 5 e 10%, todos os restaurantes cobram taxas pelo uso das cobertas, ou seja, loouças e talheres. Havia restaurantes que anunciavam taxa zero de cobertas, mas cobravam a taxa de serviço e vice-versa. Para os franceses a experiência foi ainda pior. Na França é possível pedir gratuitamente uma garrafa de água para acompanhar a refeição, enquanto na Itália é preciso comprar água mineral. O problema é que a água mineral deles tem um status quase de vinho. Compramos uma que vinha em garrafa de vidro e que custou quatro euros por 920 ml.

Depois disso fomos visitar os bares da região e tivemos novas decepções. Todos os bares impunham consumação obrigatória e eram super caros. Não foi uma noite particularmente divertida, pois ficamos andando de bar em bar e gastando desnecessariamente.



O dia de domingo

No domingo fomos ao Palácio Pitti. O ingresso para visitar todas as atrações era de 7 euros para estudantes euroupeus e 14 euros para estudantes de outras nacionalidades. Paguei os sete euros na boa e velha estratégia de comprar meia em cinema, que já não funciona mais no Brasil, mas para a qual os europeus não estão ainda preparados.

Visitamos a Galeria do Traje, um museu de roupas, e em seguida fizemos um pequeno passeio pelos jardins do palácio. Foi então que a tragédia aconteceu: após tirar uma foto eu desci um pequeno barranco e não observei que havia um arame estendido próximo ao chão para impedir a passagem. Quando percebi já estava muito perto e com muita velocidade, tropecei e caí com a câmera na mão, objetiva contra o solo. Adeus.

Isso estragou meu humor e, consequentemente, meu dia. Nós visitamos o Museu da Prata, mas confesso que eu tava tão chateado que dei pouca atenção a tudo o que vi por lá. Mais tarde, no entanto, enquanto visitava a Galeria dos Ofícios meu humor já havia melhorado consideravelmente, mas eram minhas pernas que não aguentavam mais tantas escadas e galerias.


A noite de domingo

Bares, bares e bares? Sim, mas não para mim. Meu bolso e minha paciência me imploraram para ficar no albergue. Terminei a noite jogando Tarot, um jogo de carta muito jogado pelos franceses, com dois franceses e suas namoradas. Foi divertido, aprendi algo novo e fiz novos amigos. Além disso, não paguei quatro euros por um copo de gelo com sprite só para garantir um lugar num bar barulhento onde eu não entenderia 20% da conversa.


A manhã e um pedaço da tarde de segunda

Programa light. Andamos um pouco, fomos até a praça Piazzale Michelangelo, um local mais afastado de onde é possível ter uma uma vista panorâmica da cidade de tirar o fôlego.

Em seguida visitamos o interior da Catedral. Gostaria muito de ter subido ao alto da cúpula, mas não subi. Fosse pelo preço ou pela quantidade de escadas a subir. Minhas pernas gritavam à simples menção de um degrau.

Pela tarde visitamos o mercado da cidade, onde encontrei uma lojinha especializada em queijo e embutidos com dois suvenires brasileiros (um chaveiro do Grêmio pendurado num pernil e uma plaquinha do Rio de Janeiro pendurada num grande queijo). Conversei brevemente com os dois vendedores, que eram bastante entusiastas do Brasil. Um deles já havia visistado Natal e Rio de Janeiro e o outro possui um sítio no Ceará. Verdade seja dita, eles não eram propriamente entusiastas da cultura brasileira, mas da bunda das brasileiras, evidentemente. Mantivemos um breve diálogo em "portutiano" e fico feliz que meus camaradas franceses não tenham entendido nada do que eles falaram, pois eles começaram a comparar as diferenças entre a matéria de interesse deles nas francesas e nas brasileiras.

Um deles fez até um teste para verificar minha brasilidade:

- É pau, é pedra...?
- É o fim do caminho!
- É um resto de toco...?
- É um pouco sozinho.
- Brasiliano!!!



O retorno

O retorno foi marcado por mais uma pequena sessão de pourrissage no início, mas depois se acalmou e eu consegui dormir um pouco. Cheguei em casa morto e ainda não dormi e mal comi. Mas a vontade de fazer esse post ainda hoje me fez vir até o computador e escrevê-lo. Saldo? Positivo, é claro!